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Saturday, March 26, 2016

As coisas que eu ouço: voz da peixeira, voz de Deus


É sempre um agrado ir à "praça" pela manhã comprar legumes frescos, carne, peixe e os bons acepipes da aldeia trazidos pelas vendedeiras em grandes cestas. Por cá temos uma feira ao Sábado que é um encanto - onde se vende de tudo, de alfaces a restos de colecção de boas lojas passando, infelizmente, pelas inevitáveis mercadorias contrafeitas. Estas últimas só um cego não lhes vê a falsidade, mas são a alegria de muita "senhora- que- quer- ser -bem", mas vai à feira maquilhada como um mimo, de casaco de pele falsa, leggings bordadas e de stiletto, a espatifar os saltos na brita...que as ciganas o façam, compreende-se: as feiras são um bom sítio para arranjar casamentos lá à moda do seu povo. Não sei como conseguem trabalhar assim desde madrugada, mas cada uma sabe de si. Agora quem vai às compras, é um disparate...bem se vê que lhes falta conhecer Senhoras verdadeiras, que têm Keds e Tod´s para estas situações!

E depois temos o Mercado D. Pedro V, que apesar de ter sofrido umas obras valentes mantém algum do seu charme, com as estruturas em ferro estilo Arte Nova de quando foi construído, em meados de 1860, e um altar a Santo António com o responso gravado em pedra, talvez para ninguém perder lá nada. 

Convenhamos que as ditas intervenções não foram lá muito boas: puseram-lhe um chão de tal ordem que não há vez nenhuma que eu não escorregue ali como gente grande, e olhem que nem uso saltos muito altos ou finos, muito menos para giros destes. Houve um dia que me estatelei umas poucas de vezes, parecia que tinha patins...e sempre que lá vou parece que piso ovos. Num sítio tão frequentado por gente de mais idade, não sei como não há velhotas a tombar ali dia sim, dia sim.


 Mas sempre que tenho horário dou um pulinho ao Mercado: adoro ver as flores lindas, as bancas com os brinquedos à moda antiga e comprar bolos tradicionais, como os "Cardeais" - uma monstruosidade de pastel que parece o filho ilegítimo de uma Bola de Berlim com um pão de Deus, mas enfeitado de chantilli e com um cone de morango no meio a lembrar um barrete eclesiástico. Já não são o que eram, mas ainda é o único sítio onde se encontram.

 Pois bem, por estes dias fui lá apetrechar-me de peixe, crustáceos e moluscos para a Semana Santa. E a peixeira que me atendeu, muito simpática e palradora como é tradição do seu ofício, começou a conversar comigo, perguntando se eu era estrangeira...é que o mercado está cheio de turistas!

Conversa vem, conversa vai, comentei com ela que a Quaresma devia ser boa para o seu negócio. Respondeu-me espantada: "ai menina, não! Isto agora a gente nova não respeita as tradições. Quer tudo carne e mais carne!".

Pensei cá com os meus botões que ela tinha razão, por um lado: as tradições, toda elas, andam pelas ruas da amargura como temos visto; mas quanto à carne, não sei. Cá para mim ainda há gente que aproveita a quadra para fazer uns batidos detox para inglês ver. Olhem que com tanta partilha de imagens de comida nas redes sociais, não vi uma alma que fosse a postar um "peixinho de Quaresma". Quando muito vejo papas de linhaça mas é pelo modismo, não pela data...





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