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Tuesday, March 15, 2016

As mulheres e o mito de "tens de viver a vida"


Tive finalmente ocasião de ver An Education, filme que me despertava curiosidade há algum tempo e que - ou por ser um pouco too close to home ou por falta de tempo, me tinha escapado. O enredo é velho: rapariga com ambições académicas/de carreira apaixona-se por homem poderoso que põe o mundo aos seus pés. Ora, a certa altura vê-se confrontada com uma escolha: a professora que ela admira diz-lhe "és bonita, és inteligente, podes ser o que quiseres. Vai para Oxford". E a jovem responde "a professora é bonita, inteligente, podia ser o que quisesse, foi para Cambridge...e aqui está a corrigir redacções".

O enredo -apesar de a acção se desenrolar nos anos 50/60, época em que as mulheres começaram a ver-se de forma mais evidente perante este conflito-  resume aquele velho dilema ou falácia que ideias feministas e demasiado idealistas nos arranjaram: podes ser o que quiseres. Podes ter tudo. E às tantas até é possível, mas é necessário um sentido sobre-humano de timing e de oportunidade, muita elasticidade, muiiito sangue frio e um bocadinho de sorte. Sem isso, o tanas é que podes.



Em nome de uma independência (que é importante, sem dúvida) de estudar, viajar, alargar as vistas, construir uma carreira (um processo que é  arriscado tornar discutível, mas que se prolonga demasiado para o bem da maioria) é incutido às mulheres que adiem ad aeternum casamento e filhos. Mas - já vimos isto - eis que dali a um par de anos o "ainda é muito cedo" começa a transformar-se no desagradável "olha que se faz tarde". 


Uma rapariga é desencorajada de casar com o seu primeiro amor - ou mesmo de aceitar um compromisso sério com o apaixonado de liceu - porque ambos têm de viver as suas vidas. O problema é que muito provavelmente, não se sabe bem que vida vem a ser essa. E a rapariga acaba por se afastar do Afonso, que vai-se a ver não seria pior (pelo contrário) do que o Manuel ou o João ou o Miguel que conhece mais tarde e que se calhar, só se calhar, não seriam tão relevantes como o Afonso, que mal ou bem lhe queria com a maravilha e ingenuidade da primeira juventude, capaz de tornar tudo possível. Algumas das mulheres mais felizes que conheço não foram nessa pandeireta do "tens é de viver a vida" e mantiveram-se ao lado do seu high school sweetheart até hoje. Com muito "é melhor o diabo que se conhece do que aquele que não se conhece" e muita paciência, o namoro lá sobreviveu a faculdade, início de carreira, ventos e marés, até atarem o nó. Se calhar sem terem logo ao início as condições ideais, mas em modo "tudo se faz, tudo se cria, amanhã Deus dará". Raro na nossa geração - e se calhar, não fizeram senão bem.

Mas voltemos às que vão na tal pandeireta e largam o Afonso:  mais tarde, se conhecerem o tal homem poderoso e quiserem seguir o caminho dele, serem esposas no sentido tradicional, dedicar-se à família, o mais certo é ouvirem "estás a desperdiçar a tua vida". A vida, sempre a vida...

Para muita gente, uma vida só é vida se se assemelhar a uma conduta estilo Sexo e a Cidade ou Anatomia de Grey: carreira, amizades e imensos casos amorosos.

 Mas por outro lado, há o risco de um homem desse género - dominador, bem sucedido, com presença na sociedade-  não ser o que parece. Como no filme, nem tudo o que reluz é ouro. E a rapariga pode ver-se numa gaiola dourada, sem opção, sem alternativa, presa a uma relação disfuncional e com grande disparidade de poder. Encurralada.

Nisso o filme está certíssimo: aliás, é baseado num caso real e o testemunho da escritora que o inspirou dá que pensar. Dizia ela "antes de conhecer este homem estava sedenta de sofisticação. Depois de ele sair da minha vida, só queria estar com gente terra a terra e rapazes simples da minha idade".



A educação de uma mulher também é moldada pelos cavalheiros que conheceu. E há alguns que ensinam mais que mestrados, da melhor ou pior maneira.

É curioso como nos são dadas todas as escolhas, e no entanto elas continuam a não ser fáceis.Tem de se encontrar algures para as mulheres - e realçar para as gerações futuras - um ponto de equilíbrio entre o ainda é muito cedo e o olha que se faz tarde. Entre independência e amor. Entre espírito prático e felicidade. Entre o podes ser o que quiseres e o escolhe aquilo que é realmente importante.  Algures no meio disso tudo, há-de haver uma fórmula balanceada, do estilo "constrói alguma independência e não a percas mas quando o amor aparecer, agarra-o".

Suponho que tal pedra filosofal se encontre perdida entre o viver a vida e não desperdiçar a vida- que não é assim uma coisa distante, vaga, obrigatoriamente localizada num grande mundo onde todas têm de ser aventureiras, mas algo que acontece todos os dias. Na ânsia de viver, de viver não se sabe bem o quê, nunca se vive realmente.





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