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Monday, March 7, 2016

Dicas da Belle époque: "uma beleza que se degrada é um delito que se comete"

Hoje, num antiquário, veio-me parar às mãos um livro curiosíssimo que, a julgar pela referência às Gibson Girls e a Fluffy Ruffles (uma espécie de Carrie Bradshaw de 1907), pela ortografia e pelo que consegui apurar online, será do início do século passado.

O compêndio - uma espécie de manual de auto ajuda e aperfeiçoamento- dedica dois capítulos inteiros à beleza, que o autor, um tal Ellick Morn, considerava não só ser uma obrigação feminina, como estar (quase totalmente) ao alcance da vontade e ser influenciada pela bondade do coração. 

"As mulheres têm não só o direito, mas o dever de ser belas. O futuro do mundo está na sua expressão de beleza, porque (...) a conquista da felicidade está na redução à unidade do trinómio beleza - bondade - saúde. Se não fosse um brilhante paradoxo, diríamos que julgamos imoral a mulher feia, porque não responde ao apelo da espécie, opondo um obstáculo ao seu fim último, que é alcançar a felicidade; mas não seria equitativo julgá-lo porque a mulher não é sempre culpada da sua fealdade, embora o seja na maior parte dos casos por uma conduta irregular, anti higiénica e desordenada. Além disso, a mulher é muitas vezes feia porque não soube cultivar a flor preciosa da bondade".




A beleza física era também vista como ao serviço de uma espécie de eugenia, do apurar da "raça", ou seja, como um alto ideal que transcendia a satisfação do indivíduo:

"A mulher deve ser ambiciosa de beleza. Neste caso a ambição não é um vício mas a primeira das virtudes, porque demonstra nela a alta compreensão de um dever sagrado, o de dar a vida a homens belos e sãos.  Entre os primeiros deveres da mulher está a tentativa de obter um tipo ideal de beleza. Esse dever devia estar pelo menos ao mesmo nível de uma boa instrução. As tentativas feitas pela mulher para alcançar beleza nunca se perdem, porque mesmo que ela não consiga realizá-las imediatamente e para as suas satisfações pessoais, realizá-la-á nos seus descendentes.


Lina Cavalieri
Desde os seus primeiros anos a obrigação moral de aprender a arte de ser bela impõe-se à mulher não para desenvolver uma pueril presunção galante, mas para realizar um fim augusto, o de aperfeiçoar o corpo e a alma da raça a que pertence. Criar para si um tipo de beleza, conservá-lo o maior tempo possível, transmiti-lo aos seus filhos, eis o verdadeiro feminismo da mulher, eis o que pode fazer dela rainha do mundo e o ser a que devemos todas as dedicações e sacrifícios".


La belle Otero


Longe das ideias do nosso tempo, em que assistimos um certo ressentimento contra os padrões de beleza, o escritor acreditava (à semelhança de uma beldade contemporânea, a Bela Otero) que ser formosa era a principal missão da mulher e que a inspiração em ideais de beleza nada tinha de funesto: em teoria, o corpo seria uma criação do espírito. Por um esforço de vontade prolongado, seria possível modificar a figura e imprimir-lhe o tipo de beleza que melhor sintetizasse os gostos estéticos de cada um(a).




"O desejo ardente de realizar um ideal de beleza dá sempre resultados positivos. A nossa alma possui um poder plástico de transformar lentamente o nosso rosto, dando-lhe a fisionomia que os nossos olhos contemplam mais frequentemente e do ideal de beleza que fixamos...a primeira operação a executar é escolher um ideal de beleza e viver intensamente a ponto de nos imaginarmos no modelo. Mesmo praticando a ginástica física, não se deve perder de vista o modelo ideal. Todos os movimentos devem ser feitos pensando no modelo que se quer imitar". 



Mas desenganemo-nos se a ideia parece superficial: para que a beleza física fosse duradoura, tinha de partir da alma. "A mulher que quer conquistar a beleza deve evitar a vida desregrada, o vício, as fadigas que desfeiam, as causas de doença e as preocupações. Tudo o que ajuda a fazer-nos melhores e mais sãos, ajudará a tornar-nos belos". 

O autor acreditava mesmo que não havia pior crime que o de lesa-beleza: "são pois, culpadas de lesa - beleza as mulheres que não têm a ambição do seu corpo, que o deixam enrugar e envelhecer, que extinguem no rosto o esplendor divino da suavidade, que esquecem o dever sagrado da coquetterie sublime, que por uma conduta desregrada degradam a pureza das formas. Mais culpados ainda são os que impedem a mulher de satisfazer a sua aspiração soberana de beleza, que a sujeitam a trabalhos penosos e degradantes, que fazem dela a besta de carga, que abafam a flor divina e degradam a alma feminina nas fadigas diárias dos escravos. Uma beleza que se degrada é um crime que se comete"...

Em tempos de "igualdade" e "beleza real" muita gente discordará destas ideias "antiquadas" ; mas outras tantas pessoas - nomeadamente as adeptas do fitness- verão aqui umas quantas verdades...



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