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Tuesday, March 22, 2016

Essa tristeza de "que o amor seja eterno enquanto dure"





E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


O poema é lindo, mas há muito quem o distorça sem remorso para caber na triste realidade das ligações casuais, das relações sem compromisso em modo "test drive" e dos "amorzecos à falta de melhor". Ou ainda, para justificar o fim dos entusiasmos fugazes que passam por "amor" - aqueles que até enganam, que arrancam uns "amo-tes" mas que passado o fogaréu da paixoneta, se vê que não era verdade. Até se podia ter alguma paixão, mera especiaria do amor, mas amor digno desse nome, viste-o

Tais proximidades, em maior ou menor grau, estão para o amor a sério como uma Birkin da Hermès falsa está para uma verdadeira: há imitações reles, umas melhorzinhas e outras que quase enganam os entendidos, mas nenhuma é o real deal.

E no entanto, vê-se bem que o pobre poeta estava apenas em modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer". É bom ser realista, porque mesmo o amor mais genuíno, se tem a quantidade de paixão necessária para saber a alguma coisa e a dose de sacrifício que é precisa para funcionar, vai fazer rir e chorar, levar ao céu e tornar os envolvidos pessoas melhores, mas passá-los pelas brasas do inferno de vez em quando. Faz parte. 

Mas para desfazer esta ideia desconsolada, deixem-me contrapor a Vinicius de Moraes as palavras do Ven. Fulton Sheen: "como dizia Eurípides, aquele que não ama para sempre não é um verdadeiro amante"


Um amor real, genuíno, puro, não é uma chama: tem labaredas que luzem e queimam, mas não se consome nelas; é como o arbusto ardente de Moisés, que ardia sem desaparecer. O amor verdadeiro é imortal, ou seja, não se fina naturalmente como qualquer ser vivo. É preciso matá-lo de propósito e mesmo assim, só com um grande trabalhão. Pensemos no amor verdadeiro como nos imortais do filme Highlander: eram belos, jovens, fortes para sempre;  em teoria, não podiam morrer. O tempo não os matava, não os debilitava; a doença não os atingia, espadas e pistolas feriam mas o estrago não era grande. Sentiam dor, mas sobreviviam. Para os matar, só cortando-lhes a cabeça à espadeirada e ainda assim, convinha que outro imortal tentasse a tarefa, porque para outra pessoa seria praticamente impossível.

Ou seja, para assassinar um amor desses raros e puros, um dos "imortais" envolvidos tem de o decapitar deliberadamente: ferindo para o debilitar muitas vezes, e com um golpe certeiro depois. Se é amor, não morre de morte morrida; tem de ser morte matada, e olhem lá... 

Do infinito enquanto dure está bem livre. Para correr tudo pelo melhor, é só evitar os homicídios em primeiro grau.



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