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Wednesday, March 2, 2016

Medeias, não Julietas




Esta manhã, com a descoberta do corpo de Rodrigo, o jovem desaparecido há uma semana, assistiu-se de imediato à especulação dos sensacionalistas do costume.


 Mas suponhamos que essas teorias estão correctas- e espero sinceramente que NÃO estejam, que para tragédia já basta...

 Partamos do princípio que a mãe do rapaz foi, pelo menos, conivente com o seu homicídio (involuntário, muito provavelmente; uma altercação com o padrasto que acabou da pior maneira) cúmplice da ocultação do cadáver do próprio filho e da fuga do companheiro para o Brasil no próprio dia do desaparecimento do adolescente.

Assumindo que isto é verdade - e não seria o primeiro nem o último caso do género - é monstruoso pensar o que leva uma mãe a colocar um parceiro (e quase sempre, nestas desgraçadas histórias é um parceiro recente) à frente do seu dever e instinto maternal. Ou à frente da voz do sangue, que devia provocar um impulso de revolta e repugnância imediato. Monstruoso ou material para estudo, conforme o quisermos encarar.

Em Romeu e Julieta, a heroína continua a amar Romeu depois de ele matar - acidentalmente, mas pronto- o seu primo Tibaldo. Mas um primo, por muito chegado que seja, não é um filho.




Mal comparado, já que na peça os protagonistas não são pais, tivesse Romeu assassinado Lord Capuleto e não creio que a reacção de Julieta fosse "esconda-se, meu amor! Parta antes que o apanhem!". 

Então, o que move estas mulheres? Amor não pode ser. Quem é capaz de amar não é indiferente à morte da sua prole. Não procura proteger quem mata um ser que ela pôs no mundo. Mas são tantos os casos de "mães" (indignas do nome, vá) coniventes com a tortura e abuso dos próprios filhos às mãos de estranhos por quem se "apaixonam" que algum complexo estranho há-de haver. Decerto move-as uma luxúria doentia e seródia que as emparvece, um extremo egoísmo, uma vontade de provar a si mesmas que ainda são desejáveis e jovens, um medo horroroso de ficarem sozinhas. Conduzem-se de acordo com as hormonas, ao sabor do ventre de mal empregada fertilidade...

 Mas nada têm de Julietas. Quando muito serão Medeias em versão desestruturada e sórdida. Que  Medeia, coitada, ainda tinha alguma desculpa...

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