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Wednesday, March 30, 2016

Nós, mulheres, fluimos pela vida.




No fim de semana de Páscoa a SIC transmitiu um filme/mini série que andava a querer ver há que tempos: The Red Tent, que conta as histórias de Lia e Raquel, de Diná e (uma das minhas preferidas) a de José no Egipto. 

É uma perspectiva feminina - com algumas liberdades criativas - da história conforme a conhecemos, e nem sempre simpatizo com as reviravoltas algo feministas que se dão a tais versões (as mulheres raramente se zangam umas com as outras, é tudo muito amiguinho e o macharedo é que tem a culpa de tudo, etc) mas no geral, agradou-me mais do que esperava. Quanto mais não fosse, por ter a adorável Morena Baccarin como Raquel. Aquela mulher tem um rosto e uns olhos lindos!


Pondo de parte os tais "mistérios femininos "e rituais obscuros de fertilidade com a grande deusa que punham os patriarcas judeus a ralhar ao mulherio para se deixar de tais bruxarias (esse tema já foi tratado, abordado e fanado em tudo quanto é versão feminina de histórias conhecidas, a começar pelas Brumas de Avalon; já cansa) qualquer mulher com referências femininas fortes se identificará com o elo entre avós, netas, filhas, mães, tias e sobrinhas. Ou com os intrincados costumes relacionados com o parto, que as ligavam umas às outras numa cadeia infinita. 




O delicado ofício de parteira exigia um dom. E conferia um certo estatuto ou respeito especial. As avós contavam-me várias histórias de mulheres próximas que, tendo aprendido esses segredos com velhas criadas e governantas, se valiam deles mais tarde, quando fortunas se perdiam, as Casas decaíam e maridos se arruinavam, para assegurar a sobrevivência da família. Na terra dos meus avoengos, a parteira que amparava a crianças tinha o privilégio de as levar à pia baptismal. 


Penso muitas vezes naquela frase de Amy Tan que diz que  as mulheres de uma família são, geração após geração, como degraus que andam para cima e para baixo, sem sair realmente do mesmo lugar.  Quando olho para as alegrias, aventuras e dramas de algumas antepassadas minhas, reconheço muita coisa. Para o bem e para o mal. É como se a história se repetisse, ou um xadrez fosse jogado com as mesmas tácticas, no mesmo tabuleiro.

The Red Tent - e em particular, as subidas e descidas de Diná (ou desta interpretação de Diná) do deserto para o palácio, de pastora a princesa, de princesa a escrava, de escrava a parteira e mulher independente, para no fim voltar a ser esposa, mãe, ter o seu bom nome restabelecido e encontrar a paz - lembrou-me a frase de Amy Tan. Mas também me fez pensar noutra coisa: digo-vos muitas vezes que uma mulher deve ser forte mas de aço, como as cordas de um piano. Mas ser de aço não basta: se a água é um elemento feminino, se a mulher é Yin, água, mutável como a Lua, isso explica a capacidade de adaptação de que tantas dão mostras. Não é força, é jeito. Não é levar tudo à frente: é fluir por ali fora, procurando os cantos e os recantos para desaguar mais adiante quando o terreno permitir uma cascata. Só assim se escapa aos degraus que levam invariavelmente aos mesmos patamares.

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