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Tuesday, March 1, 2016

O complexo Lia e Raquel


O amor de Jacob e Raquel (ou o triângulo amoroso entre Jacob, Raquel e Lia) encerra uma lição importante, que provavelmente passa despercebida. Ou porque muita gente fazia gazeta à Catequese, ou porque não prestava atenção aos sonetos de Camões...

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava  Lia.

...ou ainda (é o mais certo) talvez a moral da história pareça não fazer sentido hoje porque à primeira vista, não é fácil identificar-se com tal imbróglio. Afinal - graças a Deus - não é possível, na nossa cultura, um homem casar com duas mulheres. Primas dele e irmãs uma da outra, ainda por cima!


Mas pensemos bem e veremos que não é assim: o que há mais por aí é Lias e Raquéis (quase nunca irmãs, senão havia de ser bonito). E Jacobs também não faltam. Se deixarmos os parentescos e as bigamias de parte, é um conto que se repete constantemente e que causa muitas arrelias escusadas a quem se deixa envolver nele.

O livro do Génesis conta como o pastor Jacob se apaixonou à primeira vista pela sua bela prima Raquel. Tão enamorado ficou que prometeu ao tio trabalhar para ele sete anos, em troca da mão da linda pastora. Por ela, estava disposto a todos os esforços, a ficar longe de casa, a estafar-se ao sol... tudo lhe parecia pouco. Tudo parece fácil a um homem realmente enamorado. E o tio Labão concordou. Mas volvidos os sete anos o velho espertalhão ainda não tinha arranjado marido para a irmã mais velha de Raquel, Lia. Lia era boa rapariga, tinha bonitos olhos doces, mas não possuía os encantos da irmã. E como o sogro não conseguia impingir a mais velha a ninguém, vai de enganar o noivo da mais nova!


Já se sabe o resto da história - Labão endrominou Jacob, trocando as noivas. Lia, que estava mortinha por casar, não fez caso do que a irmã ia sentir e aceitou logo, em 
modo mulher da luta, achando que acabaria por conquistar o coração do marido (erro crasso!). Nem ao menos via que ele não estava interessado. E Jacob, quando percebeu o engodo, ficou desesperado. Só se calou quando o tio aceitou dar-lhe também Raquel por mulher - em troca de mais sete anos de trabalhinho, claro. Para Labão foi um bom negócio: arrumou as duas filhas de uma assentada.

Para Jacob, nem tanto: havia sempre picardias entre as duas manas. Lia, que era muito fértil, vingava-se de não ser amada troçando da sua bela irmã, que não havia meio de ter filhos...mas é claro que Raquel levava sempre a melhor. Lia bem se podia esfalfar por ser boa dona de casa, por agradar, dar-lhe quantos filhos houvesse: não importava o quanto suasse as estopinhas, Raquel era a rapariga dos sonhos de Jacob. Aquela que ele se tinha esmifrado para conquistar. Aquela para quem ele corria quando chegava a casa. A mulher que ele tinha escolhido. A donzela distante e prometida.


Lia, coitada, era apenas a rapariga fácil que estava à mão. Aquela que se tinha oferecido de bandeja, que lhe tinham impingido. A que ele fora obrigado a aceitar, à falta de melhor. A forma como uma relação começa determina quase sempre o seu percurso e o seu fim: Jacob nunca amou Lia- fazia o que podia. Era amoroso com ela na medida do possível. Tirava partido. Ia aturando. Já Raquel, bastava-lhe bater as pestanas...

Infelizmente haverá por aí muito mais Lias do que Raquéis: a facilitar as coisas, a ver se conquistam um Jacó qualquer, atravessando-se no caminho das Raquéis e dos Jacobs se for preciso, em vez de deixarem que alguém que goste realmente delas as encontre, que as trate como a única mulher à face da terra. E claro que nunca resulta como deve: a maioria dos homens tem um pouco de Jacob. Ainda que se fique por uma Lia à falta de melhor, vai sempre suspirar pela Raquel. Por aquela mulher que não só lhes cativa o coração como um raio, mas o faz agir como conquistador e sentir-se vitorioso quando finalmente a reclama para si.

Era assim em tempos bíblicos e não muda, por mais moderno que seja fazer como a Lia descaradona...

1 comment:

Carla Santos Alves said...

Gosto das suas analogias/comparações... e é verdade, bem que uma mulher pode suar as estopinhas, mas quando não se é a "tal"...não há nada a fazer - e eles não mente, dão sinais - He's not that into you - diz tudo!

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