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Sunday, March 20, 2016

O terror do Domingo de Ramos





Bom, para ser franca não foi um terror em Domingo de Ramos, mas lá vai dar: reza a tradição que o alecrim benzido em Domingo de Ramos é muito bom para afastar trovoadas e outros males- hoje já fui buscar o meu raminho, by the way.

A senhora minha avó era muito crente nisso, muito piedosa e sabia imensas orações para tudo. E também tinha um medo terrível das trovoadas, vá-se lá saber porquê, logo guardava religiosamente os alecrins abençoados para a eventualidade de raios e coriscos. Sempre que trovejava, zás: ia buscar uma telha, punha-lhe brasas, o dito alecrim e mais algumas ervas benéficas (arruda e mais alguma coisa, creio) e começava a lenga lenga em cadência:

S. Gregório se levantou/seu caminhinho andou/Nossa Senhora lhe perguntou/ "onde vais, S. Gregório?"/Vou arredar as trovoadas/arredá-las bem arredadas/para onde não haja eira nem beira/nem pé de figueira/nem pedra de sal/nem nada que faça mal.



Nessas operações eu era sempre recrutada para "assistente" da avó, já que delirava com rezas, padres, freiras, romarias, "santinhos" e de resto, tudo o que me soasse a mágico, religioso ou maravilhoso. Encantava-me o mistério de tudo aquilo, apesar de não ter grande medo dos trovões e dos relâmpagos - mesmo tendo na família alguém que foi atingido por um raio e ficou para as curvas, ou talvez por isso.

Mas houve uma certa tarde que de facto, parecia que Nosso Senhor estava a ralhar (que era a explicação que se dava às crianças para as tempestades). Fez-se escuro como breu, os raios andavam mesmo à volta da casa, a luz foi-se e eram trovões de tal ordem que pareciam mandar tudo abaixo. E para cúmulo, eu, o meu irmão e os meus primos estávamos todos lá em casa- uns cinco ou seis miúdos com idades entre os sete e os dois anos.

Vendo aquele toró do fim do mundo, a avó lá foi buscar a telha e o resto da parafernália. Eu segui-a nas calmas como de costume, mas os outros abriram um berreiro, especialmente os mais pequenitos. E a avó, assarapantada, a ver se os calava, não foi de modas: em vez de lhes dizer que não se passava nada ou coisa do género, tratou de dar um "santinho" a cada um. A um coube um crucifixo (que eu ainda tenho), a outro uma Nossa Senhora, a outra um Santo António e assim por diante. E conforme o fez, BUM! Caiu um raio mesmo em cheio no jardim.



Os pobres pequenos, vendo aquele cenário, a ladainha de S. Gregório e a necessidade de  santinhos para o que desse e viesse, é claro que ainda se afligiram mais, em modo " se são precisos santinhos o caso está mesmo complicado; ai que vamos todos bater as botas". Só me lembro do meu irmão muito pequenino, muito lindo, com os seus longos caracóis louros, a berrar como um desalmado agarrado a uma Nossa Senhora de Fátima que nem um anjinho lavado em lágrimas - e os outros todos em iguais preparos, cada um guinchando para seu lado ai que lá se vai tudo, como se estivessem prestes a dar a alma ao criador.

Asterix e a sua aldeia não teriam mais medo se o céu ameaçasse cair-lhes na cabeça...

Ainda hoje me rio da cena, mas na altura foi um banzé daqueles. e curiosamente, foi a última vez que me afligi alguma coisa com trovões - talvez porque eles caem quando Deus quer e tanto faz ter medo como não. Tenho o maior respeito e até sou capaz de chamar por S. Gregório e Santa Bárbara pelo sim, pelo não - quanto mais não seja pelo encanto do ritual - mas medinho, miufa, nunca mais foi coisa que me assaltasse...



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