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Thursday, March 10, 2016

Pobres brinquedos: anos 80 x hoje

Não é a primeira vez que aqui se esmiuça indignadamente o estado de sítio que vai pelo maravilhoso mundo dos brinquedos. Particularmente nos brinquedos de meninas (sim, alguns destes ainda são "para menina" por mais que a McDonald´s se tenha curvado à doideira, como discutimos aqui e como João Miguel Tavares disse nesta crónica que é das coisas mais lúcidas que li nos últimos tempos). 

Porém, analisando-os todos juntos chega a ser assustador. De acordo com os fabricantes de brinquedos, as pequenas de hoje não podem aspirar a um corpo "perfeito", mas devem vestir como meretrizes; não podem ser femininas no sentido tradicional do termo, mas é desejável serem flausinas e aprenderem desde cedo o atrevimento. Ai não querem crer? Vejam pelos vossos olhos.


1 - My Little Pony

ANOS 80
Já aqui falámos em detalhe no desastre sinistro dos pequenos póneis humanizados e serigaitos, com direito a mini saias e pestanas postiças. Felizmente isso não passou de uma medonha edição especial, mas quer os desenhos quer os brinquedos têm agora um design muito mais infantilizado, diferente dos modelos elaborados que nos encantavam na infância

 
HOJE

Na linha da moda das ilustrações para livros infantis que supostamente as crianças de hoje apreciam, porque "são iguais aos desenhos que elas conseguem fazer". Olhem que divertido, que estimulante: rabiscos e garatujos...


2- Barbie...e o pobre Ken

ANOS 80
  Depois de anos a bater-se valentemente contra as vozes detractoras que a acusavam de estimular "padrões impossíveis" de beleza, a querida Barbie (que em meados do início do milénio já tinha aumentado a cintura e reduzido o peito, acabando por ficar mais Skipper do que Barbie) lá cedeu à ditadura da beleza real, à concorrência da trambolha invejosa da Lammily e à febre politicamente correcta da consumidoras.  Isto sem falar nas Barbies My Scene e outros lançamentos da pobre coitada a vestir como uma serigaita, para enfrentar a concorrência das Bratz com meias de rede e colagéneo nos lábios há uns anos atrás. 

HOJE

 Farta de remar contra a maré, de ser odiada pela sua perfeição, a nossa amiga ganhou agora vários tipos de corpo( não necessariamente muito realistas: veja-se que a versão "curvy" tem anca larga mas pouco peito... depois, arrisco dizer que em termos de marketing são um desastre; quem tiver várias bonecas vai ver-se aflita para comprar roupa para todas. Recordam-se de como era tentar enfiar na Barbie vestidos giros, mas feitos para outras marcas?). Além disso, a Mattel  publicitou amplamente os novos tipos de cabelo (o que não percebo como é novidade, já que a Barbie sempre teve amigas com todos os cabelos, etnias e cores...). Já o Ken, como vimos em triste pormenor, passou do seu charmoso tipo de college boy a ser bastante...lingrinhas e ameninado. Só não faz duck face para as selfies porque é um boneco, mas se calhar ainda arranjam forma de conseguir isso. E já há pressão para ele engordar também. God help us all


3- Pinypon
ANOS 80

Aqui entre nós, nunca tive muitos Pinypons: dava prioridade à Barbie, a livros, estojos de médico e lápis Caran D´Ache. Mas uma vez o menino Jesus trouxe-me um conjunto engraçadíssimo de Pinypons tendeiros, com uma carrocinha para vender frutas e flores, e lá fui comprando um por outro para alargar a colecção. Eram baixinhos, bojudinhos, infantis e super amorosos, com olhinhos pretos e inexpressivos, mas de uma maneira fofa. 

Pinypons e Pinyponas, todos vestiam umas jardineirazitas do mais inocente que há. E podíamos trocar-lhes as perucas de plástico, recordam-se? Se não estou em erro, fazendo isso dava para transformar um Pinypon em Pinypona: uma vez carecas, os pinypons não tinham sexo, como os anjos. Era tudo super progressivo e mente aberta mas não como hoje, que na altura ninguém punha maldade ou política em brinquedos nem se maçava com questões de "género".  
HOJE

Pois bem, olhem para os destravados dos Pinypons agora: para já, têm boca e alguns, cabelo à séria. Depois, fazem caretas, com o ar atrevido de criança chica-esperta a precisar de umas boas palmadas. E por fim, os penteados e as indumentárias: cristas, saltos altos, tops curtinhos de sair à noite e mini saias estilo kizomba. A sorte é que os Pinypons continuam rodinhas baixas (também, a marca perdia a  razão de ser...) e quase não têm pernas para mostrar, senão era a desgraça completa. Até há Pinypons namoradeiros. Bonito exemplo.


4- Barriguitas

ANOS 80
Confesso que não brincava com as Barriguitas, mas achava-lhes uma certa graça, principalmente às que cheiravam bem ou tinham cabelo colorido. Também elas eram inocentes, angelicais e bojudinhas. E escusado será dizer que também elas sofreram uma chocante transformação: de ingénuos bebés bochechudos, passaram a serigaitas e valdevinos magrinhos (só não têm um six-pack porque isso dava cabo da marca) maquilhados como travestis em palco e alguns, com um olhar alucinado que mete medo ao susto. 

HOJE


Aqui temos uma contradição: a Barbie engordou para não criar frustrações com um ideal de beleza "perfeita", as Barriguitas emagreceram para - digo eu - combater a obesidade infantil. Lá está, ninguém entende o politicamente correcto. 


5- Polly Pocket

ANOS 80
Foi brinquedo que nunca me encantou - uma espécie de circo de pulgas, mas com bonecas míiiiiinimas. O jingle era mesmo "tão pequena/num anel a poderás levar". Bem, os fabricantes adaptaram-se aos novos tempos fazendo o mesmo que todos os outros: enserigaitando as bonecas. Mas enquanto a Barbie engordou e reduziu o peito, o Pinypon ganhou carinhas e boquinhas e a Barriguita emagreceu, a Polly Pocket entrou naquela máquina do filme "Querida, aumentei o miúdo" e ficou enorme comparada com o que era.

                                      Comparação de tamanho entre a Polly Pocket original e a actual                             
Em altura e em silicone. Será uma Polly-Purse ou uma Polly- Bag e de certeza que é uma Polly Stripper, agora Polly Pocket, faz favor. Para terem uma ideia, até há quem se entretenha a fazer miniaturas da Miley Cyrus com Polly Pockets. Enough said.




No meio deste cenário dantesco, só o Nenuco continua igual a si próprio (se bem que vi umas edições todas anime e maquilhadíssimas há uns tempos, mas devem ter desistido da ideia). 

O mais estranho é que curiosamente - e sabem que "sexismos" não são comigo - os GI Joe, Action Man, Playmobil e outros brinquedos "para meninos" não foram ainda, graças aos céus, contagiados por esta febre. Com a loucura que para aí vai de efeminar os homens para evitar os "estereótipos de género" confesso que tive medo. Mas (por enquanto) os rapazes estão a salvo, por isso concentrem-se nas vossas filhas, que a coisa está preta. Muito preta (creio que ainda posso dizer "a coisa está preta", ou isso ofende alguém? Uma pessoa começa a pisar ovos nem que não queira...).

1 comment:

Géraldine said...

O que me ri com esta publicação! As mudanças são notórias sem dúvida. Até os "remake" de desenhos animados como a Heidi sofreram um... downgrade.
(Que saudades do Dartacão, Tom Sawyer e as misteriosas cidades de ouro).

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