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Monday, March 14, 2016

Susan Sontag dixit: os "antes" e os "depois"




Num documentário da National Geographic que conta a história de Anne Frank sob uma série de ângulos que eu ainda não tinha visto explorados, citou-se a impressão da escritora Susan Sontag quando, aos 12 anos, viu imagens dos horrores de Bergen-Belsen:

"Nada do que eu vira até ali me ferira tão profundamente. Parece plausível dividir a minha vida em duas partes: o antes e o depois, embora levasse vários anos a compreender o que tinha visto. Quando olhei para aquilo, algo se quebrou; algum limite tinha sido atingido. Senti-me irrevogavelmente magoada, ferida, mas uma parte dos meus sentimentos começou a contrair-se; algo morreu; e algo dentro de mim continua a chorar desde então".

Qualquer ser humano tem uma série de momentos "antes e depois" ao longo da vida. São perdas de inocência, lições, quebras de ingenuidade, mágoas profundas, cicatrizes que nunca saram e que sabe-se lá que efeito borboleta desencadeiam na alma e no destino de cada um; outras servem de "wake up calls" ou, como diz o povo, de "abre olhos".

 Nem todos esses momentos, revelações. acontecimentos, imagens, palavras ou instantes que mudam uma pessoa e que assombram para sempre são necessariamente trágicos (também os há felizes, cómicos, nostálgicos ou no mínimo, agridoces).


 Nem todos acontecerão na infância ou primeira juventude, embora seja certo que quanto mais cedo, maior a possibilidade de o impacto ser grande ou a cura - se caso disso - mais difícil de descobrir. E em última análise, a maioria destes momentos impactantes é relevante para a história pessoal de cada um, mas não é tão comum andar de mão dada com um instante crucial da História da Humanidade. Quando acontece - caso de famílias separadas durante o Holocausto ou de um casal que se perdeu no Titanic ou no  Terremoto de 1755 - deixam de pertencer apenas à esfera íntima para se entrelaçarem num drama mais alargado, de interesse científico, com cunho testemunhal, mas não obrigatoriamente mais pungente para quem o viveu.

De todo o modo,  são fronteiras que nunca se ultrapassam por completo, linhas que separam áreas do coração e da mente que jamais se desvanecem de todo. A  memória tem infinitos truques, nuances e avenidas. Dos "antes e depois" aos "se ao menos...", passando pelos "what if?", pelos "sorry ever after" e pela angústia de comparar possibilidades (afinal, "tragédia é sempre a medida entre o que foi e o que poderia ter sido"). E tem o poder de continuar a fazer chorar - ou a rir - toda vida por algo que já lá vai noutro tempo, quase noutro plano da existência. 

Por muito que se goste de Museus, memórias e retratos às vezes não são mais que armazéns de material emocional altamente inflamável. 


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