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Monday, March 7, 2016

Também sentem isto?





Cada indivíduo tem uma atmosfera própria, tão particular como um perfume de assinatura. 

Gostava de ter um nome para esta estranha sensação: por vezes, quando nos lembramos de alguém - seja essa alma mais ou menos relevante, querida ou persona non grata, do passado ou do presente, viva ou não - não é tanto o seu rosto ou a sua voz que ocorre, mas todo um ambiente que vem com ela. É mais forte e involuntário do que o que se sente quando nos imaginamos a comer um limão.

 É como um pequeno filme a passar na cabeça de forma imediata, involuntária e ultra rápida, com a sua própria fotografia, iluminação e banda sonora. Flashes de lugares onde se esteve com a pessoa, de imagens, de boa disposição ou desconforto, tingidos pelo estranho filtro da memória que dá outra cor às coisas, igualzinho aos do Instagram.

 Por exemplo, quando me lembro da bisavó L. não é tanto o seu sorriso pronto ou as piadas que contava sempre, mas o feeling de chegar à sua quinta com o chão de lajes coberto de musgo e o telhado baixo da cottage com o forno a lenha. Por algum motivo a imagem surge-me sempre ao por do sol e no Outono, sob aquele silêncio estranho que se faz sentir no campo quando os pássaros se vão deitar, embora tenha lá estado em todos os horários e estações. E isto apesar de ter recordações que me são mais gratas, como as nossas conversas ou os figos pingo de mel colhidos da árvore.

 Já se me recordo da casa do bisavô A., antes de o ver a ele sou transportada para as escadas de pedra, para o cheiro da lareira e para o sabor da célebre água da Vila, religiosamente trazida em cântaros de barro pela Sra. G (água milagrosa que eu achava detestável e mais tarde percebi que é parecidíssima com a de Evian) e bebida em púcaros de esmalte.



E quando penso na minha amiga I., que vejo tantas vezes, vem-me de imediato à cabeça o quarto todo desarrumado de tanta brincadeira de adolescentes, a tresandar (lindamente, vá) a incenso de lótus e Halloween de J. Del Pozo. 

Vá-se entender...

Bem gostava de explicar isto melhor. Mas sei que estas memórias podem ser complicadas quando são ruins, porque assaltam de surpresa. Emily Brontë dizia que os pensamentos são tiranos que voltam para nos atormentar. Pois deve ser assim que o conseguem! Ouvi dizer que estes "filmes" são muito comuns em quem sofre de stress pós traumático, mas pela lógica calculo que seja algo que sucede muito aos realizadores de cinema: é que dá para elaborar uma storyboard com estas imagens fugidias....se as conseguirmos agarrar e precisar! 

 Certa vez perguntei a uma amiga psicóloga se havia designação para isto, tentando descrever o "sintoma" conforme pude. Chamou-lhe memórias fragmentadas. Pareceu-me um belo nome, mas não me esclareceu o mistério...

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