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Friday, March 25, 2016

Um filme e uma reflexão para a Sexta-Feira Santa




Semana Santa sem filmes de Páscoa não é a mesma coisa, e a RTP1 teve o bom senso de não quebrar a tradição, passando não só um dos meus preferidos - Quo Vadis - como esta produção italiana, Mary of Nazareth. Já tenho usado algumas imagens do filme em posts passados, mas recomendo que tirem um bocadinho desta Sexta-Feira Santa para o verem, se tiverem "máquina do tempo". 

Não é um filme perfeito (algum é?) demais a mais tendo sido feito para televisão, mas a perspectiva feminina é muito interessante, tem Paz Vega como uma Maria Madalena que vale a pena ver, um Menino Jesus de cabelos de ouro (deixem Jesus ser como sempre o representaram em paz e sossego! Se Deus quis um filho pôde muito bem dar-lhe caracóis dourados!)  e o mais belo S. José, vivido pelo actor italiano Luca Marinelli. 



A produção, que teve vários eruditos da Santa Madre Igreja a servir de consultores para que, embora servindo-se da Tradição e das "lendas pias" muito populares durante a idade Média, para preencher as lacunas que não vêm na Bíblia sem ir contra o que está escrito, mostra alguns pormenores menos discutidos, como a apresentação de Nossa Senhora no Templo, a morte de José ou uma versão algo criativa da vida "airada" de Maria Madalena no palácio de Herodes.

Mas voltemos a S. José: quando o filme estreou, na presença de alguns dos actores e de representantes da Igreja, um seminarista exclamou, ao ver a interpretação de Luca Marinelli como o marido varonil, trabalhador, justo e gentil da Virgem Maria: ora aí está o que é masculinidade!



Sobre isso, já falámos aqui: muitas raparigas de bem sonham com um príncipe, quando deviam procurar um S. José ou seja, um homem protector, masculino, corajoso, trabalhador e honrado. Ele é o modelo de marido e pai perfeito, cheio de meiguice, constância, fidelidade e bravura nas pequenas coisas. Antes de morrer, José desabafa com Maria: "será que procedi como devia? A única coisa que fiz toda a vida foi trabalhar!".



 Mas é nessa missão aparentemente simples, humilde e anónima que está a grandeza e a mensagem...nem Maria nem José realizaram (directamente, pelo menos...) milagres, daí serem tão bom exemplo .O filme mostra a Virgem Maria a cortar o pão, a preparar alfaces e cenouras, a costurar como qualquer dona de casa, e achei isso lindo.



Para um bom Católico, a santidade pode estar nas tarefas insignificantes do dia a dia; para quem seja simplesmente muito boa pessoa, a bondade está nos ínfimos gestos e na empatia do quotidiano, mais do que em meia dúzia de boas acções espectaculares que dão nas vistas. 

Nem todos podemos realizar grandes feitos - movidos pela fé ou não. Almas religiosas e completamente altruístas como a Beata Teresa de Calcutá, fervorosas e valentes como S. Nuno Álvares Pereira ou, pelo contrário descrentes (o Dr. Sousa Martins, por exemplo) ou mesmo de moral questionável (como Oskar Schindler) mas com um coração generoso e meios para aliviar o sofrimento de muitos na hora certa, têm uma missão muito especial. 




Mas fazer a vontade de Deus, para quem acredita em Deus, ou deixar simplesmente o mundo melhor do que se encontrou, não depende necessariamente da dimensão e impacto das boas acções: para quem as recebe, a diferença é sempre grande.
Santa Zita era uma simples criada que pouco fez em vida além de mourejar o dia todo e sofrer as afrontas com paciência. Qualquer voluntário anónimo que ajuda os necessitados terá, para cada um deles, a aparência de um anjo, pelas pequenas atenções que lhes dispensa. 

 Mas é claro que um realizador, quando quer contar uma história, escolhe um ponto de vista, uma perspectiva, e tem de seleccionar o que vai mostrar ou realçar. O filme não esquece o sublime exemplo de bravura feminina da Virgem Maria ao pé da Cruz, mas deixa de fora alguns dos episódios mais tocantes da Paixão - a conversão instantânea de S. Longinus e o diálogo de Jesus com o Bom Ladrão, mais tarde conhecido por S. Dimas. Estou sempre atenta a esta parte, seja num filme, numa Missa ou numa Via Sacra. 



Porque o Bom Ladrão, como o Filho Pródigo, é sempre um pouco de cada um de nós. Ou de alguém que conhecemos. Ao Bom Ladrão, para passar de pecador empedernido, um malfeitor dos piores condenado à morte mais infamante (Jesus foi a excepção, como sabemos; para ser condenado por Lei à Cruz, só sendo escravo, agitador ou mesmo MUITO má pessoa) bastou-lhe um momento de consciência para se redimir perante toda a Humanidade, para passar da escória aos altares. Aceitou a sua Cruz e viu-se como o último dos malfeitores, mas não deixou de se achar digno da piedade de Jesus - da bondade de quem era bom.

Não quero entrar em discussões de Doutrina que fogem muito à minha especialidade, mas entre os Católicos sempre houve os que se desleixavam, caindo no pecado da presunção de se salvarem sem merecimento, achando que Deus lhes perdoaria as patifarias mais extravagantes se se arrependessem quando lhes desse jeito;  e por outro lado, os que caíam em excesso de zelo, achando-se menos do que nada, vivendo no terror do Inferno e duvidando da Misericórdia Divina. 



O Bom Ladrão arrependeu-se sinceramente no momento em que era suposto estar mais amargo e revoltado; foi capaz de ver a injustiça onde ela estava, de pensar mais nos sofrimentos do Inocente ao seu lado do que nas próprias dores; e envergonhou-se dos seus deboches e maldades. Por isso, mesmo à última da hora, foi-lhe garantido o Paraíso.

Desta feita a história do Bom Ladrão é-me especialmente querida por estarmos no ano da Misericórdia. Toda a gente tem direito a uma nova oportunidade, a um recomeço, a uma página limpa. Isto é verdade a cada Páscoa, está acessível a toda a gente, mesmo a quem seja tão mau como tinha sido o Bom Ladrão ou pior ainda...ou precise, simplesmente, de começar tudo de novo, corrigir o que correu mal, reinventar-se. Essa é a beleza da Sexta-feira Santa: as mudanças custam muito, fazem sofrer. Mas esse sofrimento purifica, como lapidar um diamante para que ele possa brilhar.

 A todos, desejos de uma linda Primavera e de uma Santa Páscoa.

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