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Friday, March 4, 2016

Um sentimento pouco Cristão:"não vou com a tua cara"



Esta semana, antes de  jantar, alguém disse de um actor qualquer que muito inocentemente, a fazer pela vida, anunciava não sei quê na televisão (batatas fritas, creio): não suporto este tipo! Não o conheço,não vejo os programas dele, mas acho-lhe cara de filho da mãe e se o encontrasse ia ter vontade de lhe dar um soco.

A veemente afirmação não tinha nada a ver com o homem ser bonito ou feio (cara mais normal, não pode haver) nem com o seu talento/profissionalismo ou falta dele, dados que não era possível avaliar já que não se assistiu ao trabalho da criatura salvo nos tais anúncios.

Trata-se de uma embirração humana e legítima,mas sem explicação: o sentimento de "não vou com a tua cara". 

Em defesa dessa teoria, os chineses acreditam no feng shui do rosto e por cá, os antigos tinham ideias semelhantes. A avó, por exemplo, era grande crente em dados de profiling que me transmitiu por osmose, como "cuidado com os rapazes que tenham sobrancelhas de ciumento" (espessas e unidas). E no tempo dos Tudors e mais além, acreditava-se que pele e cabelo claro traduziam um temperamento mais dócil, por oposição ao cabelo negro ou pele morena, sinal de mau feitio. Isto sem esquecer certas teorias forenses do estudo das feições, hoje oficialmente descartadas como preconceituosas.




E lamento dizer isto, mas há alguma verdade no assunto - principalmente se a implicância for de facto inexplicável e imparcial, ou seja, não motivada por aquela pessoa ser parecida com alguém que nos tenha causado dissabores. Quando sem motivo aparente não simpatizo com a fronha de alguém, raramente me engano. É que até sou dada à paz,não vejo o mal em todo o lado; logo se me dispara o ordinarómetro ou o sacanómetro (detector de sacanas) geralmente há motivo...

 Dou-vos dois exemplos: a senhora mãe sempre teve pó a Sean Penn. Por mais que lhe digam que é um grande actor e que se ele arriava na Madonna a culpa não há-de ter morrido solteira, acha-lhe cara de rufia de bairro ou de vândalo do liceu a quem apetece dar um estalo, e nada feito.

Depois, eu própria: além de dada à paz, sou toda pela diversidade na beleza e perfeitamente capaz de elogiar a formosura feminina (tenho outros defeitos, mas competição gratuita não é comigo). E no entanto, tendo mesmo assim a embirrar com certas almas, famosas ou não- no sentido de não as achar nada de especial, vulgo "se fosse homem,não olhava para esta serigaita duas vezes".



Ora, sem ver novelas nem dar atenção às idas e vindas de protagonistas, há tempos reparei numa destas "namoradinhas" que de repente ficam na moda, vendida ao público como uma beldade. E eu cá comigo, sem conhecer a pequena que não se pode dizer que seja feia, que não me lembra rigorosamente ninguém conhecido nem me fez mal nenhum, sempre lhe achei um ar de colega de escola irritantezinha, ou de sopeirita, ou do tipo nacional que Eça de Queiroz descrevia, com certo desprezo, como "trigueirota, miudinha e morena que nem um velho pataco". Daquele moreno que é mais lama do que bronze...

Depois vesguita, um certo quê de sonsa atrevida, de quem não parte um prato mas escangalha a cristaleira toda. E dali a uns meses, a imprensa cor de rosa tratava de confirmar a minha impressão...a rapariguinha portou-se meeeesmo mal.

Neste caso tinha razão,mas às vezes quem vê caras não vê corações. E não esqueçamos que sendo uma liberdade inalienável embirrar com caras, há sempre quem possa não ir com a nossa por mais injusto que isso seja. É um direito parvo, mas temos de o respeitar.

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