Recomenda-se:

Netscope

Friday, March 4, 2016

Um tipo esquisito de inveja





A inveja é capaz de ser o sentimento mais overrated, mais inflado e exagerado por aí. Quem não é invejado, tem a mania que sim. Quem é criticado, mesmo que a crítica seja justa, atira quase sempre "tens é inveja". 

Basta ver que qualquer bruxa de jornal se anuncia especialista em retirar "inveja e mau olhado" e a quantidade de frases ridículas passadas nas redes sociais em homenagem às "invejosas" (que são assim um papão como o patriarcado; ninguém sabe muito bem a identidade exacta do bicho). É que apesar de haver poucas coisas tão desagradáveis como lidar com um verdadeiro invejoso - especialmente se esse invejoso é um suposto amigo- bem diziam os antigos, "antes inveja do que pena!". 

Ser alvo de inveja -mesmo inveja imaginária - faz com que o maior falhado se sinta importante. Não esqueçamos que o melhor antídoto para a maioria dos casos de mal de inveja é ser discreto...

De todo o modo,podemos definir vários tipos de inveja: a tal inveja imaginária, delírio de quem é vaidoso e gosta de lançar aos outros a culpa dos seus problemas; a inveja verdadeira (como a do Iago de Shakespeare) que pode ser declarada ou encapotada, mas visa destruir o que se ambiciona em outrem ou mesmo essa pessoa, em modo "se eu não tenho,tu também não hás-de ter"; a inveja branca, ou inveja da boa, que quase sempre é bem intencionada, vulgo "que bom, és tão sortuda, também quero" e que é uma fonte de inspiração ou motivação para conseguir igual ou melhor. 



Mas ainda - e este é o tipo de inveja mais estranho -a inveja-despeitadinha. Que é um híbrido entre a inveja verdadeira encapotada e a inveja branca. 

Ou seja, um invejoso despeitadinho não deseja mal. Não quer tirar nada a ninguém. Até é capaz de ficar contente pela sorte de um amigo. Só que fica triste por não ter tido a mesma sorte. MESMO triste. MUITO triste. PROFUNDAMENTE triste.

A pontos de preferir desaparecer para não ver de perto aquilo que lhe causa incómodo. Não é um ressabiamento furibundo e reverdido: é um despeito de extrema melancolia.

 Não é que quem sofre disso deseje que o vizinho se estampe no novo Ferrari - mas vai recusar todos os convites para dar uma volta nele. O sentido de suposta injustiça, de pensar "porque é que ele é tão afortunado e eu não?", de comparação com os outros, é igual ao da inveja comum. Só que menos virulento, menos abespinhado, cheio de auto-comiseração e de "sai-me da frente que eu não quero ver isto nem ser desagradável contigo; Deus te faça muito feliz, mas onde eu não assista".

Penas que não se vêem, coração que não sente. 

É compreensível, é humano, mas não deixa de ser um pecado de orgulho...nem de entristecer quem, muito ingenuamente, tenta partilhar o bocado de felicidade que lhe coube...

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...