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Wednesday, April 20, 2016

A MTV nem os elfos respeita.


Tolkien daria voltas na tumba: o genial professor, responsável por popularizar a imagem dos elfos belos e magníficos inspirados na mitologia nórdica, chegava a embirrar solenemente com Shakespeare por o Bardo se ter atrevido a pintá-los como "o pequeno povo" em Sonho de uma Noite de Verão. Que não diria da série as Crónicas de Shannara, obra da MTV e com todos os maneirismos e desconchavos que se esperam da dita cuja!

Eu não sonhava o que vinham a ser as Crónicas de Shannara (só o nome parece reles e produzido a martelo, sabem como é? Pensa-se assim num nome que soe entre o élfico e o medievo, tipo feira medieval com disfarces comprados na lojinha do chinês e já está) mas para mal dos meus pecados tenho-a apanhado de longe em longe em casa de familiares que têm o canal AMC.

 Inicialmente chamou-me a atenção por ter Manu Bennett, o Crixus de Spartacus, num dos principais papéis. E vá, por ter elfos e por o actor principal, que faz de meio-elfo, ter ar disso. Mas juro-vos que a partir daí a desgraça é tão grande que uma pessoa não sabe se ri, se chora, se muda de canal e não pensa mais nisso.



Para J.R.R. Tolkien, Católico fervoroso e  intelectual de renome, não havia áreas cinzentas nas fronteiras entre o belo e o feio, o bem e o mal, o amor e o egoísmo. Mesmo os seus dramas de amor e argumentos mais sombrios - ou mais adultos - tanto no Silmarillion como nos Contos Inacabados, por exemplo, são cheios de nobreza, de elevação, de intensidade. Nada é deixado ao acaso, muito menos a linguagem: o criador de todo um universo que incluía idiomas plenamente desenvolvidos morreria a rir ao reparar em nomes pindéricos como Shannara ou Princesa Amberle. Pindérico porque seria o mesmo que eu, Sissi, querer vestir-me de elfa no Carnaval e zás: denominar-me a elfazinha Sissile ou Sissiwen. Não é assim que funciona, embora Sissiwen não me soe  mal de todo.



E que temos nós nesta série, além de designações que parecem inventadas para uma fanfic ou jogo infantil de RPG e um enredo fraquinho, fraquinho?

Para começar, um elenco que - fora o protagonista, o Manu no papel de druida e mais uma ou outra cara conhecida - parece recrutado do liceu da esquina, e cenários que nada têm de terra élfica, mas parecem inspirados - e rodados - num subúrbio qualquer, vulgo mato atrás dos prédios da Buraca. 

Deixemos os cenários para lá: eu não digo que toda a gente na televisão ou no cinema tenha de ser deslumbrante (há papéis para todos) mas perdoem-me ser tão pouco democrática, não acho piada a esta tendência de ter heróis e heroínas com caras banalíssimas. Mal por mal, antes uma novela mexicana onde quase toda a gente é linda de morrer. Para ver carantonhas iguais às que vejo na rua, não preciso de sonhar com elfos.




E palavra, a tal Princesa Amberle estaria excelente para fazer de criada de cozinha em Downton Abbey (se ao menos representasse um poucochinho melhor) mas para princesa élfica, jamais em tempo algum. Não depois de termos lido Tolkien e termos visto figuras e caras belíssimas como as de Cate Blanchett, Liv Tyler ou Evangeline Lilly a fazer de donzelas élficas.



Aqui, as "elfas" ou "beldades" humanas  parecem saídas de um colégio desses subsidiados pelo estado onde abunda a serigaitagem. Era tirar-lhes os carapuços e as túnicas, deixar as leggings - que na série elas são guerreiras (tinha de ser) e os figurinos deixam algo a desejar - e aí as tínhamos com as suas caras pouco patrícias, traços grosseiritos, ar pouco sofisticado, corpos rolicinhos ou magritos e ar atrevidote. Só lhes falta mascar chiclet, dizer palavrões e rebolar ao som de Justin Bieber.

 E por falar em donzelas e donzéis, desiludam-se. Esqueçam os amores épicos de Beren e Lúthien, a paixão fatal de Maeglin por Idril ou a tragédia de Turin Turambar e Niniel. Em as Crónicas de Shannara estamos a falar de elfos, meio-elfos e humanos da geração MTV: ou seja, adolescentes pouco educados e sem valores de qualquer época, quanto mais valores inspirados na Idade Média e nos romances de cavalaria. As raparigas andam atrás dos rapazes com uma lata de dar vergonha aos Orcs e eles não são melhores; pouco lhes falta para fazerem as suas danças de acasalamento nos tais arbustos suburbanos que pretendem passar por florestas encantadas.

Os elfos de Tolkien podiam mandar cidades abaixo por uma paixão funesta, mas nunca teriam uma one-night-stand manhosa com a primeira atrevida que aparecesse. Está bem que até no Romance de Amadis havia a serigaita Briolanja, mas isto é abuso. Até porque a Briolanja levou uma tampa do Amadis para aprender a não ser atiradiça, e aqui não; é tudo uma festa.




Em suma, as Crónicas de Shannara estão para o universo dos elfos como Crepúsculo esteve para Bram Stoker ou Anne Rice. São mais uma versão chinfrim, hipersexualizada e estouvada dos universos fantásticos que crescemos a apreciar. Se Game of Thrones é uma espécie de Tolkien com a malandrice que faltava a Tolkien, isto é a tentativa teenager de brincar a Game of Thrones, mas em mau. Não direi às minhas amigas que proíbam tal coisa em vossas casas com medo de influenciar negativamente os adolescentes da vossa família; o conteúdo é demasiado acéfalo para levar alguém a copiá-lo. Mas sugiro-vos que o façam a bem de não lhes morrerem uns neurónios e umas gramas de sentido estético: eu senti algumas células cinzentas a finarem-se, e olhem que desliguei a televisão a correr...

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