Recomenda-se:

Netscope

Saturday, April 30, 2016

A Ursa dixit: abaixo o artesanato infantil no Dia da Mãe


Vá lá, este guarda jóias feito de uma garrafa até ficou decente.


Num blog que aprecio muito mas que nem sempre acompanho como gostaria, vi hoje esta pérola sobre os presentes (quase sempre inúteis, medonhos e eco-friendly) que a pequenada é obrigada a fazer no colégio para oferecer à mãe no seu dia. E que educadoras e professoras são obrigadas por ordens superiores a obrigar os pequenos a fazer. E que as mães são obrigadas, por sua vez, a fingir que adoram. 


Tenho para mim que há qualquer poderosíssima seita pró-reciclagem, pró-trabalho infantil e pequeno-burguesa  por trás disto tudo, a obrigar toda a gente, à espera de reunir as mães em êxtase para as enfiar numa nave espacial que as largue em qualquer reunião de Bimby e Tupperware. Só assim se explica que um hábito que pelos vistos não faz ninguém feliz- nem mães, nem pequenada, nem educadoras- se perpetue ano após ano. Mas passo a citar:

"Estamos fartas (...) de eco-aproveitamentos que resultam em presentes feios como uma noite escura. Já estamos enjoadas de pulseiras feitas de massa fimo, bijuteria com desenhos feitos por eles e que nunca usaremos para sair à rua nem que o Diabo tussa. Não queremos mais telas pintadas com pincéis grossos e tintas com cores que não combinam entre si porque as nossas salas já estão demasiado desarrumadas todos os dias para ainda nos podermos dar ao luxo de pespegar monos desses nas paredes. Abaixo os trambolhos! Mesmo que sejam eco-trambolhos! Mesmo que sejam trambolhos feitos com amor e carinho". 


Isto foi catártico de ler, porque durante mais de duas décadas julguei que eu era a única que embirrava com tais prodígios artísticos  e que entre tantas mães babadas, só a minha via com olhos de ver a pinderiquice daquilo tudo (não seria de estranhar, já que como sabem sou por natureza embirrenta com estas patetices que toda a gente acha lindo ou finge que acha e isso não começou ontem). Afinal diz que não e que as próprias educadoras se sentem coagidas a fazer trambolhos. E coitadas, já se sabe que não é só no Dia da Mãe: é no Dia do Pai, na Páscoa e no Natal...sendo que raramente as peças de artesanato urbano ou artesanato reciclado deixam de se parecer com lixo. 


 Mas viajemos um pouco no tempo. A pequena Sissi nunca morreu de amores por trabalhos manuais. Nem a Sissi crescida, de resto. Juro que tive um emprego que incluiu algumas actividades dessas com criançada e eu odiava apaixonadamente essa parte das minhas funções. Conseguia ser pior que os miúdos, principalmente quando a brincadeira envolvia colar coisas ao ar livre (cola e vento NÃO combinam).


 Felizmente sou boa no facepainting e lá implorava que me deixassem estar sentada num banquinho a dar uso às cores berrantes que uma mulher tem sempre na arca da maquilhagem mas raramente gasta, fazendo peixinhos, homens-aranha, flores e borboletas naquelas carinhas. Eu ficava feliz e aliviada, as crianças deliravam, os pais elogiavam e problema resolvido, que ao menos o face painting sai com água e sabão e não deixa monos em casa. Divago, desculpem, voltemos à minha infância. Eu, repito, tinha zero jeito para artesanato, principalmente se envolvesse tudo o que cheirasse a origami, colagens, tricot ou picotado. Só a recordação me arrepia. 


Felizmente para mim, as freirinhas eram mulheres cheias de espírito prático que quase sempre nos ensinavam a fazer presentes comestíveis: nunca me esqueci de umas trufas de chocolate embrulhadas num simples cartucho que voaram num instante. Tenho uma pena imensa de não me lembrar da receita, porque eram de comer e chorar por mais. Trufas papadas, cartucho no lixo que nessa altura não havia cá eco-escolas nem eco-ponto, acabou-se a papa doce e quem comeu regalou-se, vitória vitória acabou-se o mono, ficou só o amor e o carinho.



Quando não fazíamos presentes-petisco, simplificava-se: num Dia do Pai ocorreu às queridas freiras-que-pareceriam-saídas-do-Música-no-Coração  ir apanhar calhaus para fazer pisa-papéis (agora, na era do politicamente correcto, as boas Irmãs arriscavam-se a ir presas por darem armas às crianças, mas felizmente ninguém se lembrou de andar à pedrada). Depois deram-nos daquelas latitas pequenininhas de tinta com cores fantásticas E METALIZADAS e vai de soltar a criatividade. Foi uma alegria e o Senhor Pai levou o pisa papéis dourado e prateado com pintas coloridas para mostrar na Messe de Oficiais (disse ele, vá). 

Depois o meu trambolho bonitinho, feito com amor e carinho, lá foi todo pimpão exercer as suas funções de pedregulho a segurar papeladas do Ministério da Defesa. Ali ficou uns anos, todo importante, e creio que ainda tem lugar algures em casa pater. Nada mau para um calhau.


Também me lembro de uns ovos da Páscoa giríssimos que a turma do 3º ano fez (nisso não participei, mas tive pena). Eram engraçadíssimos, com  trancinhas, chapeuzinhos e bigodes, um amor. Em grupo ficavam lindos, mas não tiveram oportunidade de se tornarem monos em casa dos seus autores: a L., a bully da minha turma, desinquietou outras cúmplices e tratou de dar cabo deles, o que valeu um julgamento sumário que levou a tarde toda para apurar os criminosos e terminou com uma sessão de reguada que mais parecia um auto-de-fé. Nesse tempo as prioridades eram outras; ninguém se metia com os ovos da Páscoa, nem que isso implicasse substituir as contas e os ditados por um tribunal improvisado com pelourinho e tudo.


Depois, vamos a isso do amor e do carinho: insisto que não os há em doses suficientes para dar a volta a más ideias. Quando quiseram fazer um guarda jóias de uma embalagem de margarina, forrado a veludo e debruado a dourado assim à barroca, admirei-me com a minha habilidade (outra brilhante sugestão das Irmãs, que além de bom gosto realmente deviam ter uma grande cunha junto dos anjos para me obrigarem a fazer alguma coisa com jeito).  

Mas quando a minha professora do 3º ano se lembrou de nos pôr a enrolar um suporte de panelas em corda - ideia que hoje seria taxada de sexista, era limpinho - valeu-me ter sempre um presente comprado de reserva (sempre fiz isso; era pequena mas sabia perfeitamente que as obras de arte feitas na escola tinham um valor simbólico, porque valor artístico está quieto; é no que dá ser filha de professora de Arte). 



Aquilo não se colava de jeito nenhum e no fim o meu suporte, que era suposto ficar igual àqueles que se compram em qualquer feira mas às cores, saiu incompleto e tão torto que não havia nada a fazer. E a mãe, que nunca foi senhora de fingimentos nem de palmadinhas nas costas, ralhou-me não pela grande falta que o trambolho lhe fazia, mas por eu ser despistada como sempre e não acabar o trabalho.

Ainda assim, acho que preferiu a caixa de maquilhagem com todas as cores de sombra, blush e tudo que lhe comprei. Era bem gira. Creio que acabou por ficar para mim, mas o que conta é a intenção, ou não se continuariam a impingir às mães colares de macarrão e molduras em celofane.


No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...