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Saturday, April 9, 2016

Bem vindos ao mundo do "não se pode dizer nada": sem bofetadas, nem discriminação, nem tiros de sal


Esta semana um ministro pediu a demissão em consequência de ter oferecido bofetadas - bofetadas salutares, ainda por cima-  no Facebook. E eu, a quem a pessoa em causa é completamente indiferente, que tenho um medo danado do socialismo, eu a quem a esquerdice faz mais alergia que os bichos dos pinheiros, acho isto o fim do mundo. Como diria o Carlos da Maia "nenhuma intenção de o ofender, toda de lhe arrancar as orelhas".  Toda contra vermelhices, toda a favor do direito de oferecer bofetadas quando bem o entendermos. Primeiro, porque - pondo de parte que um ministro deve ter uma certa elegância de discurso - as pessoas andam a levar as redes sociais demasiado a sério. Ora são todos Charlie, ora temos lei da rolha.


 Segundo, porque me arrelia a mariquice disto tudo: bons tempos em que homens ofereciam categóricos bofetões uns aos outros, quando não resolviam mesmo as suas contendas ao estaladão e à traulitada, apenas para logo a seguir irem para os copos como se nada fosse. Agora, à mera sugestão de uns abanões - ameaça, que de resto, pôs o país a rir - vai de se processarem uns aos outros, e ai que ofendido que eu estou, e "que vergonha, demito-me"...já não é a primeira vez

Se me oferecerem bofetões facebookianos eu tenho bom remédio: ou dou a outra face em modo desprezo nítido ou retribuo a gentileza, e caso arrumado.



Depois - acho que nunca se viu semana tão politicamente correcta -  o chefe do Estado-Maior do Exército demite-se à conta das declarações do subdirector do Colégio Militar sobre discriminação homossexual naquela instituição. O Tenente Coronel António Grilo limitou-se a ser sincero acerca de um certo tabu que se verifica entre os alunos, mas (e obviamente já se fala em lobby gay) entrou-se em modo oh filho, o que tu foste dizer e quem conta um conto, acrescenta um ponto. Reparem, as regras do colégio não discriminam  ninguém, como é de lei. Ninguém é expulso por ser homossexual. O que sucede é que num regime- chamemos-lhe assim - de caserna, os internos têm alguma dificuldade em lidar com esses afectos por parte de um "irmão de armas". E por muito que o Ministro da Defesa venha pedir explicações, dizer que a situação é inaceitável, por mais que o Bloco de Esquerda tenha entregue requerimentos a pedir outro tanto, são os jovens lá dentro que ditam a dinâmica. Uma coisa é o que a lei diz oficialmente, outra é toda a cultura de uma instituição antiga, que não se transforma com ofícios, papeladas e idealismos utópicos. E em última análise, uma coisa é um soldado adulto que, gay ou não, sabe colocar o profissionalismo e a confiança dos seus pares acima dos afectos ou desconfianças pessoais, outra são... miúdos.


O assunto da homossexualidade nas Forças Armadas tem sido muito discutido nos E.U.A., tal como a situação das mulheres, e tanto por lá ou no Reino Unido como cá, há muitas vozes a dizer o mesmo: está muito bem que todos sejam aceites. Se depois não souberem ser profissionais sérios e bons militares, estarão sujeitos às mesmas sanções de todos os outros. Porém, de modo a não comprometer a eficácia das Forças Armadas,são as pessoas que têm de se adaptar "à tropa" e não "a tropa" a adaptar-se às pessoas. Como diz este texto excelente de quem realmente sabe, "[nos E.U.A] quando se constatou que as mulheres não são capazes de lançar granadas comuns à distância desejável, para que não sejam atingidas pela explosão, a solução foi não deixar a tarefa só para homens, mas construir granadas mais leves (e menos letais). Quando se descobriu que mulheres a bordo de navios de guerra precisam de instalações não exigidas pelos homens, A Marinha dos Estados Unidos teve que “reconfigurar” as suas belonaves para proporcioná-las — apenas no USS Eisenhower, ao custo de US$ 1 milhão".


  
Basta olhar para a História para perceber que a vida privada de um soldado pode ser perfeitamente irrelevante para a sua performance: os próprios espartanos (embora não considerassem, como os atenienses, as relações entre homens uma forma mais elevada de amor e privilegiassem o casamento e as mulheres  - duas honras reservadas a "homens feitos") não viam nenhum problema relacionar-se entre si enquanto solteiros. Na guerra de Tróia, Aquiles armou confusão e recusou-se a lutar por causa do seu *suposto* amante Pátroclo...mas também fez outro tanto por causa da cativa Briseida. Guerreiro extraordinário, mas pouco capaz de separar as águas. Roxana, todos o sabemos, teve grandes quezílias de ciúmes com Alexandre, o Grande, por causa de Hefesto.


Voltando ao Colégio Militar, o que é preciso ver é que nenhum aluno é expulso. Poderá é não aguentar a pressão dos seus pares. Poderá ter de se esforçar o dobro ou o triplo para merecer a confiança e o respeito dos camaradas. Poderá ter de ser extra durão para compensar.  - c´est la vie. Mas se um futuro soldado não aguenta um pouco de pressão no colégio, talvez não seja mesmo talhado para soldado num cenário de combate. Nem toda a gente serve para o Exército: um diabético poderá não aguentar um treino de preparação para os Navy Seals (ou outro menos duro) em que é preciso catar bolotas e caçar para sobreviver durante uma semana. Uma alma melindrosa poderá não aguentar os "berros de incentivo" de um Sargento. And so on. You´re in the Army now. Quem não aguenta o calor, sai da cozinha.


 Mas nem só nas coisas sérias se vê esta febre do politicamente correcto a nível mundial. Lembram-se do Chico Bento, personagem campesina da Turma da Mônica? De todas as revistas de Maurício de Sousa, eram as minhas preferidas. Além das aventuras passadas no campo, com personagens do maravilhoso popular brasileiro como o Saci Pererê e a Mula Sem Cabeça, tinha algumas histórias que davam muito que pensar. E um dos momentos altos das estórias em quadradinhos era quando o Nhô Lau, vizinho muito cioso das suas goiabas, corria atrás do Chico, que roubava as ditas, para lhe dar tiros de sal. Ou como ele dizia, tiro di sar no bumbum. Mas vejam:




Pois pasmem, nas novas revistas os tiros de sal politicamente incorrectos foram abolidos. A arma desapareceu por decisão deliberada do estúdio - como podem ver pela imagem acima, retirada do site oficial. De resto, essa foi só uma das modificações assumidamente politicamente correctas nos "gibis" da "turminha" - modificações feitas para não dar "mau exemplo". E que obviamente, lhes tiram a graça toda.

 Bem vindos ao século do crime-pensar: não se pode oferecer bofetadas, nem dizer a verdade, nem defender a própria fruta com tiros de sal. Parece de doidos, não parece?






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