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Sunday, April 10, 2016

O problema nem é o que se diz. É como se diz.





Vamos lá deixar de armar em "holier than thou". O que Joana Vasconcelos disse que levava na mochila caso tivesse a desgraça de ser refugiada não é assim tão disparatado: jóias são prioritárias não para uma pessoa se enfeitar, mas porque podem servir de moeda de troca em qualquer parte (qual era a primeira coisa que os Judeus escondiam na II Guerra?). Telemóveis e outros gadjets actualmente não servem só para pedir ajuda ou contactar entes queridos, como guardam a informação de uma vida inteira - essencial para recomeçar noutro lado- e têm os mapas, o GPS, permitem trocar avisos de perigo, etc. E no limite, a própria Anne Frank, numa época em que não havia nada em suporte digital, fez questão de salvar os retratos e livros preferidos quando passou à clandestinidade. "Fazem-me mais falta recordações do que vestidos" escreveu.


Joana VasconcelosO que levava?#esefosseeu
Posted by RTP on Thursday, 7 April 2016


Óculos de sol, tal como um chapéu, são uma questão de saúde. As agulhas e as lãs já me provocam mais confusão, se bem que uma agulha de tricot pode dar uma excelente arma de auto defesa. Digo-vos já que, Deus nos defenda disso, em tal situação jóias e o telefone eram das primeiras coisas a saltar para a minha mochila. Aliás, apareceram várias imagens de refugiados a usar telemóveis. 

De resto, não consigo pensar bem no que levaria - o que é que se leva para uma viagem que não se sabe onde nem quando acaba?-  mas partindo do princípio que a rota passaria por zonas povoadas, tudo o que pudesse trocar ou vender para garantir a sobrevivência. Mais mudas de roupa leves, um agasalho, botas de caminhada, itens de farmácia e higiene básicos, algo para me defender e um canivete suiço. Levar água e comida em quantidade - fora umas barritas de energia para atletas - seria um pouco utópico para quem vai a pé.
 
A questão não é tanto o que a artista disse - é a forma detalhada como o disse, como se transportar coisas para se entreter fosse a grande prioridade. Phones para ouvir música. Lápis para desenhar...( se bem que vender desenhos  talvez pudesse vir a ser útil uma  vez chegada ao destino). O público adora pegar em todo o discurso que soe "fútil" (acusação preferida dos portugueses) ou tonto para provar que é gente muito séria, que se rala muito com os necessitados. É um pouco como o sururu da "mala" Chanel que toda a gente esqueceu tão depressa como gritou mata e esfola.

Certa vez comentei aqui que achei muita graça quando Joana Vasconcelos disse que queria ser uma artista "do povo". E o "povo" é mesmo isto: adora crucificar quem soa minimamente superficial, privilegiado ou pouco "terra a terra". Get used to it.

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