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Wednesday, April 20, 2016

Para seu bem...arrelie-se a si mesma (o)!



Há dias conversava com uma amiga sobre a motivação para fazer exercício. E ela, sabendo a minha aversão a partilhar com estranhos o espaço, o esforço, as caretas e outras intimidades associadas ao fitness, dizia-me "não sei como te motivas sozinha!". To each their own: há quem prefira a música alta, o acto de sair de casa para isso, o estímulo alheio e a companhia...e quem escolha a paz, o sossego, o ginásio doméstico e ginasticar às horas/nos preparos que bem lhe apetece. Cada um encontrará a melhor forma de se disciplinar, desde que não arranje desculpas. Mas de uma ou de outra forma, não há personal trainer, por mais experimentado e capaz, que substitua duas nobres artes: a arte do "grão a grão" e a arte de se arreliar a si mesma (o). 

Duas artes, aliás, que se aplicam não só à forma física, mas a todas as áreas da vida. 

Edgar Allan Poe disse que há por aí imensos génios, mas poucos se dão ao trabalho de se estimularem ao seu máximo potencial. E parte desse ficar aquém vem da mania da perfeição, das condições perfeitas ou - no caso do exercício físico- de querer o treino perfeito. Sabem, as pessoas que adiam, adiam, porque se não treinarem duas horas por dia não é um treino bem feito. E nessa espera vai-se a preguiça instalando, os músculos amolecendo, as gordurinhas crescendo...

Mas vejamos isto noutro sector: santos como Santa Teresinha e S.José Maria Escrivá falaram tanto na "preguiça" de rezar - que acomete as almas mais perfeitas - como no pouco fervor que às vezes atinge os maiores devotos. Ambos defendiam que mais vale rezar na mesma, ainda que com pouca concentração ou vontade, mesmo que irradiando menos fé, menos louvor, menos confiança, mas não perder o hábito. Num dia não se está inspirado, mas amanhã será melhor. Na vida espiritual, como na ginástica, nos objectivos profissionais, ou em actividades artísticas como a escrita (que já se sabe, são 50% de inspiração e o resto de *blhec* transpiração) às vezes é preciso insistir, insistir, e fake it ´till you make it.

Voltando ao exercício, mais vale um treino um pouco atabalhoado num dia, com alguma batota, certo, mas que queime algumas calorias e mantenha os músculos acordados. Uma das minhas gurus de exercício preferidas da internet assume não treinar mais do que 20 minutos por dia! A um escritor, mais aproveitam umas linhas rascunhadas com uma prosa menos que sublime, mas duas boas ideias que noutro dia se possam explorar melhor, do que deixar a página totalmente em branco e entrar em "bloqueio de artista". 



E tão importante como o "grão a grão" é então isso de se arreliar/beliscar/desafiar. Ai de quem não se provoca, em modo "que vergonha! Tantas qualidades e para aí alapada no sofá!". Agora está muito na moda o "tu mereces, tu consegues" mas por vezes, dois auto-calduços simbólicos têm bem mais força do que um estímulo positivo e fofinho. Por isso respondi à minha amiga se o espelho não era motivação suficiente. Por muito que se goste de si própria, que se deva ser gentil consigo mesma, convém que o espelho diga das boas e das bonitas...do estilo "sim senhora, mas pode melhorar. Agora vá lá levantar uns pesos, sua valente mandriona, que o colchãozito não morde". E quem diz o espelho diz a roupa que é uma vergonha não cair na perfeição quando bastava um bocadinho de esforço, ou mesmo a inspiração de certa celebridade que tem o mesmo tipo de corpo, ou até não é nada do outro mundo mas treina e se lhe seguisse o exemplo podia estar igual ou bem melhor, ou até o não querer ser como fulana ou beltrana que é uma desarranjada (não acho que as mulheres devam atormentar-se com comparações , mas neste caso pode ser útil).

Em qualquer área da vida, menos palmadinhas nas costas e wishful thinking, e mais sujar as mãozinhas.

Não queiramos ser como uma pessoa que conheci, que se dizia a melhor do mundo mas nunca fazia nada de nada à espera do momento perfeito, das condições ideais. Lá continua gorducha e sem avançar na vida, sempre na mesma mas apregoando ao mundo as qualidades que só o espelho (um espelho muito complacente) lhe reconhece...

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