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Monday, April 18, 2016

Quando uma deusa bate o pé, os céus estremecem...mas há que saber bater o pé.





Oxum, a Vénus negra e senhora das águas doces, é uma das divindades mais interessantes das mitologias de origem africana, comum a religiões como a umbanda, a santeria ou o voodoo. Os seus atributos são muito semelhantes ao da Afrodite grega - ou seja, tem poder sobre o amor, a beleza, o luxo e a fertilidade- mas também lembra um pouco a Juno dos romanos, já que é capaz de influenciar  a riqueza e fazer casamentos.

Quando penso nela imagino sempre uma Beyoncé, mas com uma presença mais aristocrática e menos agressiva.

No entanto, embora Oxum não seja normalmente pintada como a espalha brasas entre os orixás (deuses)- ao contrário de Iansã, Deusa das tempestades - também tinha os seus dias não. E esta história mostra que, como todas as mulheres meigas e femininas, ela também tinha o seu ponto de ruptura, ou os seus momentos "sou muito doce e prefiro levar os assuntos com subtileza, mas não façam de mim tonta".


Ora, todos os dias Oxum, mulher trabalhadora e zelosa do seu trabalho, tinha uma canseira: era garantir a fertilidade da terra, das mortais  e dos animais; era alimentar com o seu poder as fontes, rios e nascentes, tornando a terra produtiva...enfim, ela não fazia o tipo da beldade ociosa, sentada todo o dia frente ao espelho. Por isso achou, já que dava um contributo tão importante, que seria mais que justo assistir às deliberações dos deuses. Não estava certo simplesmente destinarem-lhe tarefas sem que ela pudesse ajudar a delinear estratégias no seu próprio campo de actuação. Ciosa das suas razões, foi pedir-lhes  que a deixassem participar nessas reuniões...mas responderam-lhe "menina não entra".


Que fez Oxum? Não berrou contra a opressão dos homens, não convocou protestos, não arrancou as roupas nem fez figuras tristes. Sorriu e calou-se bem caladinha, voltando para os seus aposentos. E decidiu castigá-los, mostrar-lhes o seu poder e a sua importância para lhes provar que estavam enganados a seu respeito. Então agiu exactamente como Deméter na mitologia grega: retirou a sua protecção à Terra. As fontes secaram, os casais pararam de ter filhos, o gado não se reproduzia, os campos ficaram estéreis. Os outros orixás não tardaram a andar desesperados pois, por mais que usassem os seus próprios poderes para corrigir estas calamidades, nada funcionava.



Aflitos, foram ter com Olorun, o Ser Supremo, para que lhes acudisse. E ele perguntou de imediato se por acaso não se teriam "esquecido" de convocar Oxum para as reuniões pois, sem a sua influência sobre a fecundidade, nada podia resultar. Então os orixás masculinos viram como tinham sido insensatos, indo a correr convidar Oxum, que se fez de novas e só aceitou os seus pedidos após muita insistência. Depois de os fazer virar-se do avesso, lá tomou um assento entre os deuses e passou a ver a sua opinião respeitada. E assim a meiga Oxum bateu, com a sua astúcia feminina, a teimosia dos brutamontes que julgavam saber tudo...


Lá volto a Margaret Thatcher: ser poderosa é como ser uma senhora. Quem o é, demonstra-o sem ter necessidade de o afirmar. As mulheres têm muito mais a ganhar fazendo o que têm a fazer e mostrando o quanto são necessárias do que ralhando e lamentando-se. Até porque nunca houve um homem que percebesse ou respeitasse guinchos, tagarelices e muito palavreado...se queremos a admiração deles, há que lhes falar na linguagem que eles percebem: acção.

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