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Sunday, April 17, 2016

Também eu, Ms Wintour, também eu.





Nem sempre estou de acordo com Anna Wintour. Ter cedido aos Kardashians - dando o dito por não dito e claramente contrariada, mas mesmo assim - retirou-lhe, a meu ver, não só uns pontos quanto à infalibilidade do seu gosto, mas sobretudo, amachucou-lhe a aura de arbiter elegantiarium irredutível e incorruptível. Mal comparado, seria um pouco como ver Oscar Wilde a dizer brejeirices ou a ser politicamente correcto.

Mas em entrevista ao Today Show, a todo-poderosa editora da Vogue americana disse algo que me voltou a soar como coisas suas: é que se pudesse banir uma tendência para sempre, faria desaparecer o nylon.

Não poderia estar mais de acordo - aplausos. Mas é pena ter parado no nylon. Devia ter ido por ali além, a começar no poliéster e a acabar na viscose. Já se sabe que às vezes é inevitável usar uma percentagem de material sintético até para que certos tecidos caiam melhor (os tais 2% de elastano nos jeans, por exemplo) mas há marcas - e até marcas supostamente de confiança - que exageram, como se os consumidores fossem tolos. E que têm a desfaçatez de incluir 50% de poliéster num casaco de lã ao preço de um anel de brilhantes, quando não substituem categoricamente algodão por viscose como se nada fosse, e outras diabruras...é preciso ter mil olhos para o que a etiqueta diz.

 E claro que - quase sempre - quanto mais se desce no preço, pior o cenário (digo "quase" porque a Massimo Dutti trabalha mais com materiais nobres que certas etiquetas mais exclusivas e na Primark, estando atento apanha-se muita coisa 100% algodão). Isto para não falar nas pessoas que não distinguem de todo, o que faz com que cada vez se veja gente com roupa que lhe cai mal, de aspecto reles e que complica muitíssimo qualquer jornada em transporte público. Calor e poliéster *não* combinam de todo.


Mas lá que as marcas o façam, com o propósito do lucro, vá que não vá. O que me arrelia é que quem usa não note! Como não dar por uma coisa que anda à volta do corpo o dia todo a não cair como devia, a fazer calor, a não deixar a pele respirar, a arrepanhar-se e a estragar-se num ápice?

Porém o pior disto tudo, o cerne da questão, é que em última análise, o abuso de tecidos fracos é como o depauperar da linguagem: quem substitui boa parte do seu vocabulário por palavrões e gíria grosseira, soa como um labrego mesmo que não tenha tido esse berço. E pior, convida os outros a descer ao mesmo palavreado. Há toda uma degradação em cadeia.

Se, enquanto sociedade, nos desabituarmos das coisas boas, bonitas e de qualidade - seja a nível da elegância, da cultura, do saber estar ou de aspectos tão tangíveis como a roupa - vamos por aí abaixo.

De cada vez que vou a um concerto de música clássica e as únicas pessoas vestidas adequadamente - já não digo "bem" - são os músicos e o maestro, penso se não se estará a perder toda uma tradição que tem mantido a nossa cultura de pé, mas as próprias bases da civilidade. O poliéster, ou o nylon sem ser nas meias e collants, é só uma manifestação do problema. 





 

1 comment:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Também me arrepio logo quando vejo muito poliester e nylon juntos. Ontem vi uma senhora possuídora de um corpo com muitaaaas formas, toda vestida de nylon branco da cabeça aos pés. Não se faz, não se faz...

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