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Thursday, May 19, 2016

A "panelinha" não tem nada a ver com o testo.




Diz o povo (eu farto-me de citar o povo, porque temos um povo super sábio) "quando se faz uma panela, faz-se o testo para ela". Logo, cada um passa a vida à procura do seu "testo" ou seja, da sua outra metade que lhe cai na perfeição como a tampa de origem de uma panela ou tacho. Quem cozinha sabe que há testos que saem do lugar e são uma maçada quando a fervura levanta.


 Até encontrar o seu "testo" -  que por sua vez anda igualmente por aí algures, em busca de recipiente que lhe sirva -  toda a gente é uma panela sem cobertura. Ou mal tapada. Incompleta. Desemparelhada. O testo da sua panela é uma expressão menos lamechas do que dizer "a alma gémea" ou "a metade da laranja". Nunca ouvi namorados a  referirem-se uns aos outros como "minha panelinha mais linda" ou "meu testinho fofo que nunca salta" mas é capaz de resultar.

Porém, o povo faz outra alegoria com panelas: diz-se que duas pessoas muito cúmplices e muito unidas, cheias de cochichos (seja para bem ou para mal) estão "de panelinha". 


Ora, quando duas amigas, ou dois amigos, ou duas pessoas da mesma família têm grande união, partilham tudo, conspiram constantemente, são unha com carne ou seja, quando "estão de panelinha", pode acontecer que uma delas se ressinta se a outra encontrar "o testo para a sua panela". De repente, o melhor amigo ou amiga, a irmã, prima inseparável ou a prole apaixona-se, decide juntar os trapinhos e - pelo menos numa primeira fase - começa a estar menos disponível. Não é que tenha segredos ou deixe de lado as outras pessoas que fazem parte da sua vida, mas o amor - e o planear de uma vida em comum - é por natureza bastante absorvente.


 E se por acaso o "testo" escolhido não for do inteiro agrado de quem se ressente, pior um pouco - sendo que, a partir do momento em que ocupa plenamente o seu lugar e começa a tomar muitas atenções à "panela", há muito poucas hipóteses de vir a agradar por mais que se esforce.

  Zás, está o caldo entornado:  a "panelinha" desfaz-se, ou quase, por ciúmes do testo e da panela. Por sua vez, a "panela" deixa de se sentir à vontade para fazer "panelinha" ou partilhar confidências porque não está para ouvir constantes reparos, críticas, cobranças e recriminações. É um a dizer "tu  não ligas a ninguém desde que tens par " e o outro a responder, já a ferver pelo fogão fora "mas que bicho te mordeu? devias estar feliz por mim, pois sabes que não fácil encontrar testo que me servisse". É a panela feliz a contar "o meu testo é tão querido" e a ex-panelinha, de ressabiada, a ser mordaz "vê lá se o testo é de barro...".



Mas a verdade é que nada disto tem ponta por onde se lhe pegue: o facto de o testo e a panela estarem finalmente juntos não tira, porque nunca poderá tirar, o lugar das "panelinhas". Há coisas que cabem à cara-metade, há outras em que os amigos e a família são insubstituíveis. Em última análise, qual é a piada de uma pessoa se apaixonar se não pode partilhá-lo com cúmplices, dar detalhes, contar minúcias, pedir conselhos, em suma, "fazer panelinha"?

 De resto, quem se quer bem tem de pôr a felicidade do outro em primeiro lugar: a panela que encontrou o testo, não deixando de valorizar o resto do seu clã (ou neste caso, trem de cozinha); e a "panelinha" ajudando no que puder o casal sem "meter a colher", oferecendo o seu apoio para o que der e vier sem pragas do estilo "depois não venha cá chorar quando correr mal", dando o desconto a quem anda entusiasmado (pois é muito cruel ser desmancha prazeres) e pensando construtivamente que não está a perder uma pessoa, mas a ganhar mais uma. Afinal, para fazer um banquete (ou uma grande família) são precisas panelas e testos, panelinhas, faianças, talheres, pratarias....


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