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Monday, May 9, 2016

"Amor e uma cabana" não é "amor e uma baiuca"


Uma das máximas mais valiosas deixadas por Coco Chanel - e ela tinha muitas - foi "luxo não é o contrário de falta de meios; é o contrário de vulgaridade".

Esta semana, a propósito do post sobre voltar atrás no tempo, lembrei-me de um outro filme que fala do assunto: Family Man. Nele, Nicholas Cage, um executivo riquíssimo mas solitário, conclui que nunca devia ter deixado o amor da sua vida, depois de ter um vislumbre do que seria a sua existência se casasse com a namorada de faculdade. Adoro a história (há pessoas que nunca deviam mesmo separar-se, pois só funcionam juntas) mas sempre me fez confusão como a vida em família é representada no enredo.

Os dois deixaram alguns objectivos para trás para acudir a emergências familiares e não só estagnaram na carreira, como - apesar dos seus sonhos e instrução - se tornaram no estereótipo da classe média-baixa a viver "a vidinha": vistas curtas. Amigos bem intencionados, mas brejeiros. Roupas medonhas. A morte do romance. Em suma, uma existência real, mas nada divertida ou glamourosa. Faz-me confusão porque não concordo nada com isto. A vida "de casado", o prescindir de alguns luxos, viagens ou objectivos profissionais em nome de um projecto maior entre duas pessoas, não tem, porque não tem, de significar uma vida estreita e sem graça, ainda que a circunstâncias obriguem a certos sacrifícios.

Mesmo no caso do "amor e uma cabana" há que estabelecer a diferença entre uma cottage encantora e uma baiuca.

E quase sempre, depende do espírito de cada um levar uma vida simples, mas com estilo, ou uma vida simplória. O que tem muito pouco a ver com condições materiais. Dinheiro pode sempre fazer-se, mas com pouco ou muito, só se vulgariza quem quer.


Conheço pessoas que estão razoavelmente em termos financeiros, que se instruíram q.b., que gostam de gastar o que têm em coisas que apreciam - e de o ostentar junto dos amigos. No entanto...o seu gosto, hábitos e estilo de vida (para não mencionar o vocabulário) classificam-nas sempre de forma pouco....bem, sofisticada.
 Nada contra (cada um emprega os seus recursos da forma que acha melhor, nem que seja espatifando 1000 euros em Tupperware) mas por mais sucesso que alcancem, nunca perdem aquele ar, enfim, rústico ou suburbano. Frequentemente, discutem horrores ou trabalham demasiado porque ambos, ou um deles *nisto as mulheres parecem ter maior apetência* fazem questão de comprar isto e aquilo para competir com os amigos. Um ponto por serem genuínos, mas é a desgraça na mesma.



Também não falemos de outra forma de pinderiquice: os novos yuppies-hipsters, muito pseudo urbanos e cosmopolitas, que por sua vez se esforçam demasiado para parecer, sei lá, upper middle class, mas acabam por soar tão pequeno burgueses como na realidade são. É a versão pretensiosa e viajada do tipo descrito acima, mais coisa menos coisa. Um ponto por tentarem alargar as vistas, mas é a desgraça na mesma.

Como diz uma senhora muito sábia que eu conheço, o que interessa é que as pessoas sejam felizes. (Ando a tentar usar este mantra para não me arreliar com o que vejo por aí, embora não seja fácil).

E podia continuar ad nauseam aqui, com uma alargada análise social (eventualmente, incluindo quem gasta o que não tem para parecer o que nunca será ou pessoas de berço que se deixam degradar, que isso então é o cúmulo) mas passemos adiante.


O que importa mostrar é o oposto: há pessoas e casais com poucos recursos que (quase sempre por terem uma boa educação de raiz e o gosto cultivado desde cedo, mas isso não basta) parecem sempre elegantíssimos, no melhor estilo "noveau pauvre". Ou Bon Chic Bon Genre que conheceu melhores tempos. E repito, para isto não chega ter vivido rodeado de bons exemplos desde a infância. É preciso um certo desprezo ou descaso pelo dinheiro - pois há coisas que ele não compra mesmo - associado a uma super eficaz gestão do dito cujo, sem esquecer grandes doses de imaginação e bom humor. E se falarmos de casais, doses industriais de romance. Lá dizia Theodore Korner: o bom casamento é um eterno noivado.

Quem vive assim sabe de onde veio e como quer viver; mantém uma certa aparência em nome da dignidade, tem as suas ambições e metas mas, desdenhando do mais recente, trendy e mais caro (tão do agrado de novos ricos ou aspirantes) é capaz de fazer filhoses de água sem cair no disparate de se endividar. Quem vê pode julgá-los pessoas abastadas, o que às vezes não podia andar mais longe da verdade...


E a receita, observando com olhos de ver, é bem simples: viver um pouco como se vivia antigamente, fazendo valer o que se tem. Para morar, evitam as zonas "da moda", superpovoadas e inflacionadas; preferem recuperar ou construir uma pequena propriedade no campo, muitas vezes herdada entre o pouco que sobrou, com gosto, sombra e privacidade; se vivem na cidade, por necessidade ou preferência, farão o mesmo, privilegiando o espaço e o conforto em detrimento do bairro que ficou em voga só porque lá pipocaram uns bares e umas lojas malucas de design, ou do novo condomínio com piscina e ginásio a dividir com vizinhos maçadores.

Uma casa acolhedora, com uma decoração sóbria mas alegre, enfeitada com gosto e bem arrumada, dispensa extravagâncias. Se podem pagar a quem limpe, óptimo; se não, dividem tarefas e não lhes caem os parentes na lama. As estantes estão cheias de bons livros, de clássicos que realmente foram lidos, jamais comprados porque era suposto; pode haver instrumentos musicais para quando se recebem os íntimos em simpáticas reuniões;  haverá alguns serviços de mesa de qualidade, se calhar antigos (em vez de peças muito modernas e muito caras) mas que servem efectivamente, porque não lhes passaria pela cabeça ter a despensa vazia para aparecer nos restaurantes do momento onde tantas vezes a comida não presta. Não farão sacrifícios para ter o último bólide: um carro sóbrio e distinto, que seja fiável, e está bom. São criteriosos na sua vida social, nas companhias, nas saídas: o tempo e recursos "roubados" à família devem ser bem empregues.


Em casa, procura-se um ambiente descontraído, mas de conversas elevadas, carinhoso sem a familiaridade excessiva que conduz ao desrespeito; cultivam-se as boas maneiras e o bom vocabulário não por afectação ou sem à vontade, mas porque o hábito e o exemplo são tudo.

 Como sabem vestir, desprezam as marcas emergentes e sobrevalorizadas; conhecem a diferença entre verdadeiro luxo (a qualidade, o eterno) e o acessório. Só há uma elegância: a discreta.  Logo, apresentam-se sempre bem, mas não caem em tafularias e dominam a arte do do it yourself: muito dificilmente veremos a esposa a torrar o que tem e não tem no cabeleireiro. Afinal, o seu penteado  é atemporal, mantém-se facilmente...salão a toda a hora para quê? São smart shoppers e estão cientes de que uma visita à costureira ou ao alfaiate salva tudo, menos um mau tecido; também os faz rir a ideia de crianças fraldiqueiras a competir no jardim-escola pelas últimas calças da moda.

Procuram a qualidade e a beleza no que vestem aos pequenos, mas muita coisa é passada entre irmãos e primos, pois as crianças crescem rápido e precisam de brincar à vontade; não cultivam o materialismo exacerbado nem nas roupas, nem nas engenhocas, nem nos brinquedos. E por falar em crianças, o mais certo é os pais canalizarem meios para um colégio específico (militar, religioso); senão, optam por uma boa escola pública.


 Nada de híbridos onde o acesso não depende do mérito. E embora não caiam no exagero pretensioso daqueles pais que proíbem o açúcar e a televisão em casa (pobres pequenos!!!!) ensinam-nos a comer para se manterem esbeltos e saudáveis e nunca, por nunca ser, os deixam ver aberrações tipo Casa dos Segredos, por muito que eles protestem que os coleguinhas também vêem: como diz o senhor meu pai, com o mal dos outros posso eu bem!

Não serão perfeitos, mas aplicam a parcimónia, o gosto e as prioridades todos os dias. E desse modo, a vulgaridade nunca passa pelo buraco da fechadura.

E tanto mais haveria para dizer...pessoas e casais assim não só não se banalizam haja mais ou menos para gastar, como dificilmente entrarão em atrito por causa de algo tão deprimente como questões de dinheiro. O mundo de cada um é feito por si. Cada um torna o seu universo elegante ou vulgar, dependendo das coisas a que dá prioridade e atenção...







5 comments:

Géraldine said...

Que belíssimo texto! Obrigada :-)

Carla Santos Alves said...

Muito bem. Gostei. Como diria a minha avó " Podia estar vestida de ouro que nada lhe fica bem" em oposição a " os bons modos são tudo."

Imperatriz Sissi said...

Grazie, meninas :)

Ana Duarte said...

Sissi, acho que acertou na mouche...A proposito vou aproveitar a ideia do outro comentario, pois conheco pessoas, a quem a frase "podia estar vestida de ouro que nada lhe fica bem" assentaria que nem uma luva. A pessoa demonstra um orgulho enorme por poder desfilar vestuario e acessorios de marcas conhecidas ( e quanto mais recentes e mais em voga melhor) oferecidos pelos pais e conjuge que nao reflectem de todo o seu sucesso profissional e a sua personalidade, vestuario considerando a idade e estrutura fisionomica da pessoa resulta completamente desadequado e infantil. Mas o acesorio predilecto e mesmo o nariz empinado.

Imperatriz Sissi said...

eheheh Ana, parvenus há imensos. Podemos sempre fazer troça discretamente ou ignorá-los ;)

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