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Monday, May 16, 2016

Boys will be boys... e às vezes uma rapariga tem de ser um pouco "one of the boys"


A plataforma  Just Not Sports publicou um curioso vídeo que se tornou viral. Nele, foi pedido  a vários homens anónimos que lessem os tweets maldosos que duas jornalistas desportivas, Sarah Spain e Julie DiCaro, costumam receber dos internautas masculinos.




 E como podem calcular, porque as pessoas ADORAM ser parvas na internet e os ânimos se acendem quando se trata de desporto, havia chistes muito mauzinhos. Dos banais "incompetente, tu não pescas nada disto", a coisas realmente misóginas, do tipo "é por isto que só se deviam contratar mulheres para favores indecentes ou para limpar a casa" ou cruéis, como a alusão ao abuso sexual sofrido por uma das jornalistas no passado (por outro lado, não compreendo a necessidade de figuras públicas tornarem públicos os seus traumas privados, sabendo como o mundo está cheio de gente desalmada). Sem contar com ofensas de rameira, galdéria e por aí (tinha de ser; esta gente não tem criatividade nenhuma para insultos).

E o resultado, como era de prever, foi os cavalheiros convidados pedirem desculpa pelos trogloditas e ficarem todos emocionados.




Até aí, temos factos. Mas não deixa de haver aqui um certo exagero - ou se quisermos, vitimismo, ofendedismo, etc - ao classificar tais actos como meramente "sexistas". Eu já explico a minha ideia.


Vamos lá, nenhuma mulher - nenhum ser humano, de resto- devia ter de ler comentários tão estúpidos, sujos, maldosos e malcriados. Se os homens se lembrassem de ser cavalheiros em todas as circunstâncias (ou seja, tratando as mulheres como gostariam que tratassem as mães e irmãs deles) outro galo cantaria. Then again, a impunidade e anonimato da internet possibilitam igualmente que as mulheres escrevam coisas escabrosas e que magoam umas sobre as outras (lembram-se de falarmos nas megeras que comentavam a apoiar as supostas traições de Ronaldo a Irina?) ou sobre homens. A má educação e a falta de empatia não têm sexo.




No entanto, vejamos duas coisas: primeiro, alguns ditos são idiotas, certo; todavia,
 nota-se perfeitamente o tom jocoso da coisa. Dizer, como Eça de Queiroz dizia, "esta mulher merecia bordoada" não quer dizer que seja a sério. Tal como não é a sério quando se diz a/de um homem "a sua mulher devia pô-lo na ordem com o rolo da massa" ou coisa que o valha. 
Além da força de expressão (se toda a gente  pagasse multa por cada vez que diz "esta pessoa precisava era de uma boa tareia" só como quem diz, sem qualquer intenção de a ver sovada, estava meio mundo falido) muita gente fala "para o ar", sem pensar, quando se refere a figuras públicas na internet. É uma parvoíce, mas é o prato do dia. Acredito que a maioria seria incapaz de o dizer - ou pensar, sequer - se estivesse cara a cara com a visada. Ainda há dias tivemos um grande burburinho por causa de umas bofetadas virtuais e ainda me custa a crer como se fez caso de tal patetice. 

Segundo, parte de ser uma mulher num meio masculino exige algum arcabouço e costas largas. E o mundo do desporto é capaz de ser o mais agressivo de todos, pior trinta vezes que uma caserna. Eu tive uma amostra levíssima, como vos contei ontem, e juro que não me queria ver em tais assados. Uma mulher que adore escrever sobre desporto  terá de suar as estopinhas para provar que não é uma maria-chuteira (se for bonita) ou uma maria-rapaz sem nada melhor para fazer.  Porém, a César o que é de César: sou toda pela diferença de papéis, mas se há área onde uma mulher pode (e às vezes deve) ser mais dura e assertiva, é no aspecto profissional (ao contrário do campo amoroso, onde convém que paute pela feminilidade) .



Não só porque há gente abestalhada em toda a parte , mas porque se "eles" são por tradição brutos uns com os outros (bem diz o povo, embora rudemente "brincadeira de homem é coice de burro") não se pode esperar que quem vem trabalhar de igual para igual num clube onde até há pouco tempo "menina não entrava" seja tratada com paninhos quentes.Afinal, se assim fosse, a entrada de mulheres ia estragar-lhes a festa e as rapaziadas.

 Nisso há uma eterna imaturidade: boys will be boys e uma rapariga entre eles terá de ser um pouco one of the boys; não fazendo o mesmo, mas dando o desconto e respondendo com competência e profissionalismo às as suas barbaridades. 

 Entre si, eles tratam-se de gordos, feios, mariquinhas e chifrudos para baixo, sem esquecer mútuos insultos à mãe de cada um. Ora pela lógica, se calha terem uma mulher entre si, no mesmo barco, há que esperar que ataquem igualmente pelo óbvio: de versões ordinárias de "mal amada" e de especulações do tipo "o marido dela só pode ser um banana, para ela ser uma bruxa tão grande" (confesso que em certos casos concordo um bocadinho com esta)  a rodas de histérica, passando por piadinhas brejeiras envolvendo a silhueta ou conduta íntima da mulher em causa. 





Ou há moralidade, ou sobra para toda a gente. Isto nada tem de sexista, é do mais equalitário que pode haver: homem, mulher, é tudo corrido a bocas foleiras. É desagradável? É. Devia haver mais educação? Sem dúvida. Mas faz parte do jogo. Santa Joana D´Arc conseguia que as tropas a seguissem sem dizer palavrões nem cometer ordinarices, mas bom, ela era santa para começo de conversa; depois, em tudo o resto enturmava-se, já que fazia questão de lá estar; e por fim, não acredito que se tivesse Twitter na altura, se viesse queixar em público "ai que os rapazes são muito maus para mim, snif snif". Era mais dura que eles e sovava-os se fosse preciso, impondo respeito. Que remédio há, senão entrar em modo "palavras de burro não chegam ao céu" ou mudar de emprego? 

Se vamos desistir de tudo porque há gente rude no local de trabalho - sejam homens ou mulheres - nunca chegamos a lado nenhum. Next!

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