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Friday, May 20, 2016

De nobre e de louco, todo o amor verdadeiro tem um pouco


Este meme apareceu-me nos feeds e fez-me lembrar um artigo que li há tempos: quatro comportamentos doentios que os media nos pintam como românticos. Goste-se ou não, é um facto que as grandes canções, poemas, livros e filmes raramente se debruçam sobre histórias de amor que correm bem

Pensemos na lírica trovadoresca, embora não faltem exemplos mais antigos: nas cantigas de amor a mulher adorada é sempre distante e inacessível; nas cantigas de amigo, a donzela apaixonada debate-se invariavelmente com saudades, ânsias e cuidados, desabafando para os pinheiros, a mãe ou as amigas. E se saltarmos rapidamente para o sec. XX, até o clássico Fools rush in, (uma canção que descreve o processo de enamoramento) avisa que só os tolos se arriscam, no melhor modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer".


A arte celebra quase sempre o amor que ainda não foi consumado (o processo de conquista, quando tudo é ilusão e ansiedade) o amor atormentado, excessivo e conflituoso do tipo  byroniano e por fim, o amor perdido ou atraiçoado (Taylor Swift, mestra nesses folhetins, é um exemplo pop e bastante actual).

O lado bom, feliz e sereno do amor raramente é pintado, escrito ou cantado. 




 Seja porque nessas alturas de bonança as pessoas andam demasiado entretidas para se lembrarem de produzir alguma coisa, seja porque as emoções mais brandas não são tão fáceis de descrever ou porque - hipótese mais provável- há quem confunda um amor saudável com outra coisa. Com aquela coisa deprimente que é um arrumar-se com quem está à mão à falta de melhor, com um arranjinho para não estar sozinho, com um "amor" de ocasião e de papelão. Resumindo, com os "amores" vulgares, para inglês ver, daqueles que têm um ou outro  "amo-te" dito da boca para fora como um herege a dizer o Credo; relações ligeiras, destituídas de paixão, que só diferem das amizade coloridas por terem a decência do compromisso e da monogamia. 



A ideia "paixão é boa mas acaba mal, amor verdadeiro é morno mas acaba bem" ou "a paixão é egoísta e violenta, o amor verdadeiro é mansinho e altruísta" é uma grande falácia responsável por dois males: por manter as pessoas presas a paixões disfuncionais, achando que num relacionamento saudável nunca sentirão emoções fortes, e por empurrar outras para relações tíbias e sem profundidade, pensando que só assim estarão livres de sofrimento e de surpresas.

paixão é um ingrediente quotidiano do amor que aumenta a tensão e intensidade das emoções, apenas para encontrar alívio temporário e recomeçar o ciclo. É uma montanha russa sem a qual qualquer ligação se torna uma maçada insuportável.

É verdade que um casal que viva só da paixão anda tão mal como alguém que não consuma fruta, legumes, nem proteínas e se alimente exclusivamente de condimentos, molhos e gulodices; ou seja, falta-lhe substância. É um amor de faca e alguidar que nunca estabiliza. 



Mas um casal que viva só do oposto - do companheirismo, da conversa estimulante, da compatibilidade, do facto de serem muito amiguinhos e de terem bastante em comum...esse é como um asceta que só se alimenta de raízes e legumes, sem sal nem açúcar. Falta-lhe vigor, força, ímpeto; falta-lhe a beleza, a intensidade e o romance, tudo estímulos que por si não fazem uma relação firme mas que são imprescindíveis para lançar raízes profundas e para fomentar o necessário espírito de sacrifício que é inerente ao amor verdadeiro. 

Para amar bem, para  relativizar os defeitos, para se entregar sem reservas e ter aquela devoção que torna as pessoas capazes de dar a vida pelo outro, é preciso estar cego (a) de amor. E sem paixão isso é impossível.

 Não se pode cometer o egoísmo de gostar de alguém pela metade, por simples desejo de segurança, até porque isso falha quase sempre para ambos. Afinal até a pessoa mais pacata, mais inofensiva, de quem se gosta só assim assim (ou seja, pouco o suficiente para nunca perder o controlo das emoções) tem defeitos e comete erros. Suportar os senãos de quem se adora já tem as suas complicações...que fará o resto. Como dizia o outro, "não se dá nada enquanto não se dá tudo".




Um grande amor, um amor verdadeiro e duradouro, tem portanto todas as coisas boas, nobres e elevadas: o respeito, o carinho, a admiração, o deslumbramento, o companheirismo, a paciência, a diversão, a entreajuda, a delicadeza, o estimular das melhores qualidades um do outro, a estabilidade, a fidelidade, o simplificar do que costuma ser complicado, a amizade, a certeza, a honestidade, a adoração, o pacto para toda a vida, o arrimo na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza. 

Mas também é  por natureza, e convém que seja  -  na intensidade, na tensão e na intimidade- avassalador, obscuro e despótico; terá a paixão, terá o seu bocado de ciúme, que leva ao desejo de posse e de exclusividade; conta com os seus momentos de exagero, de doidice, de desabafo, de conflito, de pieguice. É o extremo do  "se não ficarmos juntos, morro" que determina quem é "a tal" ou "o tal" de cada um. É o acertar de agulhas, o mostrar do lado negro, o medo de perder o outro, que mostra quem é ou não importante e o que é ou não suportável.

Nem só trevas, montanhas russas e loucuras, nem só racionalidade, florzinhas e unicórnios: um grande amor vive tanto da aventura como da paz. Senão, não é a sério...







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