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Wednesday, May 18, 2016

Dos protestos contra os saltos altos (e do bom senso)



Há dias comentei no facebook que acho um disparate a birra contra o uso de saltos em Cannes. Pelos motivos que detalhei aqui no ano passado e sobretudo, porque as celebridades cabeças-ocas em causa perdem a razão quando atiram com o argumento "não me podem exigir algo que não exijam a um homem; eles não têm de usar saltos" (também era o que faltava, os cavalheiros aparecerem lá como este; then again, já andámos mais longe). Ora, por amor de Deus! Também não se vai lembrar às senhoras que venham barbeadas e usem gravata, pois não? Não faria sentido.



Uma passadeira encarnada é uma coisa: quem não quer cumprir o dress code entra pela porta dos fundos e caso arrumado, se bem que não faltam saltos razoáveis e confortáveis que cumprem o figurino sem matar os pés. E para o resto, há rasos festivos. Não fica tão bem, mas não é impossível caso se tenha um entorse ou assim. Sem mencionar o velho truque de levar umas bailarinas escondidas para calçar nas pausas sem ninguém ver (fiz isso dezenas de vezes e recomendo imenso o truque para casórios e outros eventos). Ou que os sapatos realmente bons ( a que desculpem lá, as celebridades têm franco acesso) não magoam quase nada. Qualquer pessoa que já tenha calçado uns Jimmy Choos ou equivalente sabe que não têm comparação em conforto com uns saltos baratinhos. Hipocrisia much?

Esta "caridadezinha para inglês ver" torna-se mais disparatada ainda quando se trata de comparar ir calçada com Casadei ou Gucci para um par de horas num evento glamouroso onde quem quer pode sentar-se,  com uma jornada de trabalho em saltos altos de qualidade duvidosa - situação a que as estrelas de cinema pretendem igualar-se andando de pés nus.

Algumas das actrizes que assim "protestaram" deram a entender que foram descalças em solidariedade com a empregada de mesa canadiana que feriu muito os pés por ser obrigada a usar scarpins um dia inteiro (a imagem é chocante e não sei se me arrepiam mais os pés magoados ou o sapato que parece mesmo sintético, rijo e desconfortável; pobre pequena). Oh, b*** please: já me doeram os pés em festas do croquete, mas todos sabemos que não tem paralelo possível com estar 8 horas em cima de tacões.


O que me leva ao essencial: quem me lê sabe que não defendo saltos disparatados no dia a dia. Stilettos e afins, só em ocasiões especiais -até porque é de mau gosto andar por aí em preparos demasiado festivos. No quotidiano, costumo  cingir-me a saltos largos de 5 cm, mais ou menos.

Mas algumas organizações (e muitas dirigidas por homens que não agem tanto por "machismo" mas por faltinha de noção, quanto mais não seja noção de estilo) precisavam de contratar stylists para não fazerem disparates com as suas funcionárias. Certa vez, estava a representar a empresa onde trabalhava numa convenção (ia de sheath dress e com uns scarpins de salto médio italianos fofinhos e muito macios, já a contar com umas valentes horas de um lado para o outro a falar com pessoas). E do nada, deparo-me com duas raparigas muito novas que vinham em nome de uma start up. Coitadas, nem queria creditar quando me disseram que não eram hospedeiras contratadas para promover um produto maluco qualquer, mas marketeers. Imaginem: vinham com uns vestidos curtos que pareciam saídos do Star Trek e de sandálias (nota bene: sapato aberto num evento de negócios) brancas, altíssimas, compensadas, com tiras nos tornozelos, enfim...calçado de stripper.



Fiquei abismada e cheia de pena por me confirmarem que estavam aflitas dos pés e que tinham vindo assim calçadas (já não falo do resto) por ideia do chefe. Say what??? Sem me querer contradizer - e sabem como sou avessa a ver sexismo em todo o lado - mas aquilo foi muito chauvinista, além de pindérico e de mau gosto. No melhor modo "mandamos para lá estas duas bonecas de feira que tanto faz terem um diploma na área como não; assim como assim só lhes vão olhar para as pernas". Duvido que tenham feito alguma apresentação de jeito, doridas como estavam. Ou que alguém lhes desse ouvidos.

Lá está, tudo tem o seu lugar. Ir descalça para Cannes ou qualquer festa formal é inapropriado, desnecessário e ridículo. Usar saltos assassinos no dia a dia  é inapropriado, desnecessário e ridículo, além de doloroso. Mas anunciar "o fim desse tipo de sapato" por ser uma agressão às mulheres é o fim do mundo. Não prescindo deles nem que chovam canivetes, mas como qualquer arma, é preciso sacar deles só em momentos-chave. Custa assim tanto distinguir esta nuances?




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