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Friday, May 6, 2016

John Cleese e Nuno Markl dixit: o planeta dos melindres


O  lendário elemento dos Monty Python  afirmou há tempos, no vídeo que podem ver abaixo: "Não subscrevo a ideia de que temos de ser protegidos contra todo e qualquer tipo de desconforto".

É por isso que Cleese (como outros comediantes famosos de que já aqui falámos, aliás) se recusa a actuar em campus universitários, pois "a ideia do politicamente correcto (que era inicialmente evitar o mau gosto e a maldade) passou a condenar como cruel qualquer tipo de crítica a qualquer grupo específico. Mas toda a comédia é crítica, por muito inclusiva que uma piada seja".

E depois comparou este estado de coisas a uma paranóia orweliana generalizada , a um verdadeiro "1984" em que não se pode dizer nada nem brincar com nada. Fico mesmo vaidosa de um dos meus comediantes favoritos reflectir no mesmo que eu, que já várias vezes comentei convosco como vivemos a época maluca do "crime pensar". Then again, acho que não posso orgulhar-me de tal raciocínio que nada tem , ou deveria ter, de raro; não se trata de great minds think alike; trata-se de esta ser a única perspectiva que ocorreria a uma pessoa normal, não anestesiada pelo status quo dos media e dotada de senso comum.



É curioso: os mesmos intelectuais e artistas da esquerda caviar, ou de uma certa facção "liberal" (for whatever that means) que defendem a "arte" feia ou chocante, as performances obscenas, ofensivas e  de mau gosto e as imagens de uma suposta "beleza real"  demasiado crua, são os mesmos que levantam, indignadíssimos, a bandeira do melindre e do "ofendedismo" à mínima coisa.

Também por cá, Nuno Markl expôs o assunto de forma bastante lúcida neste texto, em que aponta o ridículo de um champô para a queda de cabelo, que já existe há anos, chamado "contra cabelo suicida" ter sido retirado assim que algum vidrinho ofendido se lembrou de levantar a lebre nas redes sociais.

Diz Markl: "(...)de há uns anos para cá, a sede de muita gente de colocar muros à volta do que provoca desconforto – na vã esperança que esconder acabe por significar o mesmo que não existir – torna o mundo um lugar mais triste. É uma polémica típica desta era de fusão explosiva (e perigosa) entre o politicamente correcto exacerbado e a propensão das redes sociais para o linchamento aleatório em massa. As ondas de linchamento tornaram-se tão comuns que acabam por retirar força às causas que genuinamente merecem que se grite contra elas.

De repente, tudo é passível de ser entendido como um atentado, como uma ofensa. Cada dia há um novo linchamento em massa levado a cabo por pessoas que tanto ficam transtornadas com o que é importante como com o que é acessório. Ou com o que é absolutamente inofensivo".


Chega a ser curioso que as pessoas que se dedicam a fazer humor sejam das poucas dotadas de sensatez para estas coisas. Mundinho disparatado em que estamos... e toda a gente acha normal. Às vezes sinto-me como a Alice no País das Maravilhas, a tentar encontrar sentido numa terra de doidos.

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