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Sunday, May 15, 2016

Mark Twain dixit: o hábito faz *muito* o monge




A Harper's Bazaar recordou neste excelente artigo uma série de citações de grandes vultos da literatura acerca do impacto que a forma de vestir tem na vida de cada um. Afinal, a moda nunca anda isolada das correntes literárias, artísticas, políticas, económicas ou sociais: é antes um reflexo disso tudo. Se assim não fosse, ainda usaríamos anquinhas, espartilhos e pesados saiotes, o que seria encantador mas pouco prático para trabalhar todas as manhãs. A selecção de frases foi bastante feliz (não falta uma das melhores de Oscar Wilde: "se é para fazer disparates, mais vale estar apropriadamente vestido") mas destaca-se Mark Twain, que acreditava realmente que "as roupas fazem o homem; pessoas nuas têm pouca ou nenhuma influência na sociedade" (Kim Kardashian discordaria, mas vamos ignorar tais filosofias).  O criador de Tom Sawyer desenvolveu mais esta ideia num polémico texto de 1905, "The Czar's Soliloquy":

" Um polícia em roupas comuns é um homem; de uniforme, vale por dez. Roupas e título são a coisa mais potente, a influência mais formidável na terra. Movem a humanidade ao respeito voluntário e espontâneo pelo juiz, o general, o almirante, o bispo, o embaixador, o conde frívolo, o duque idiota, o sultão, o rei, o imperador. Nenhum cargo impressionante é eficiente sem trajes que o suportem".


E goste-se ou não disso, seja ou não justo, é verdade. É claro que há pessoas com meios e arcabouço psicológico para se estarem nas tintas para a imagem que passam sem se prejudicarem com isso, como o Duque de Norfolk, que adoptava a filosofia "não gostas da minha roupa? Paciência, olha que ninguém me dá outra"; isso é mesmo um snobismo elegante, um cúmulo do desprezo  chic, mas só para quem pode: a maioria não tem essa sorte. 

Por mais que se diga que "roupa não faz o carácter" (eu a essa respondo sempre que o carácter é que faz a roupa) é mais conveniente que uma pessoa se vista como quem é (ou como quem gostaria de ser) do que andar por aí a passar por algo que não lhe convenha. É um facto que as pessoas são tratadas de acordo com o "boneco" que anunciam ao mundo. Se um homem honesto se veste como um rufia, pode ser confundido com um. Se uma boa rapariga traja como uma stripper só para ir atrás das outras, pode ser tratada de acordo mesmo que tenha uma conduta de monja. 

Quem gosta de se apresentar com desleixo, não pode levar a mal se o (a) olharem com alguma desconfiança. Tudo isto é simbólico, mas poderoso; somos treinados de pequenos para fazer associações de ideias; é um reflexo ancestral de auto-preservação, afastar-se daquilo que não parece confiável; é assim que nos situamos, mesmo os menos fúteis dispostos a ver para além da primeira impressão. Bem dizem os teóricos do marketing que a imagem pessoal é das poucas coisas que dependem somente do domínio de cada um, logo não convém abrir mão de tal poder para o entregar a terceiros que tiram as suas próprias conclusões. Lá volto a Oscar Wilde: só as pessoas muito superficiais não julgam pelas aparências. Superficiais no sentido de não saberem o que é bom para elas, entenda-se...

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