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Thursday, May 12, 2016

O "desfado" que todas desejam (e todos, eu acho)




Não é cá por ser Moura nem nada, mas gosto de ouvir Ana Moura e gostei de Desfado desde que o apanhei na rádio pela primeira vez. Só que até hoje não tinha meditado na letra e olhem que esta diz mais do que atirar imagens sobre estar triste e alegre, ou acerca de ter ou não a disposição certa para cantar o fado. 



A mim diz, pelo menos. Hoje reparei que a canção fala daquele estado de espírito tão perfeito, tão completo, que dá vontade de chorar porque não resta nada para desejar, e que de tanta felicidade causa uma certa melancolia pois já não se encontra razão para sentir saudade ou gostar de canções tristes. E como lamuriava o outro, "o sofrimento também é voluptuosidade". Por isso existem as lágrimas de alegria, para dar vazão a essas emoções demasiado intensas e inexplicáveis. Há dias falámos disso a propósito da cantiguinha dos Coldplay, e aqui aparece também:

Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente


Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento


Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada.


Afinal, toda a gente quer que chegue aquele dia em que não é preciso esperar por isto ou aquilo, por fulano ou beltrano. A hora/situação/pessoa tão almejada veio finalmente e é tudo tão belo que quase se torna doloroso, ou parece demasiado bom para ser verdade. E aí pode começar um grande problema: o da auto-sabotagem. Às vezes tem-se medo de se habituar às coisas boas, não vão elas desaparecer de um momento para o outro. Ou é mais fácil continuar no velho costume de sentir ansiedade por isto ou aquilo e inventar razões escusadas para estar hiper vigilante ou para criar discórdias, só para não perder o jeito. Ou ainda, a adrenalina da saudade ou do conflito ser demasiado viciante para que se consiga aproveitar e seguir a corrente. 


Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem

E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste



Há que guardar o Fado para os discos, para as tertúlias, mas não ser fadista com a vida. Porque o destino às vezes até é benevolente, nós é que o afadistamos porque sendo triste e dramático nos soa mais bonito. Ou mais familiar. Old habits die hard, lá dizia o Mick Jagger que também é amigo da Ana Moura e há-de partilhar estas ideias...

1 comment:

Rita Machado said...

Sempre me identifiquei com a letra deste Desafado, à coisa mais certa que 'na incerteza que nada mais certo existe, além da grande certeza de não estar certa de nada'? Impecável :D
Ritissima Blog

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