Recomenda-se:

Netscope

Saturday, May 21, 2016

O ridículo da decadência.




Há uma altura da vida em que das duas, uma: ou uma pessoa cresce, ou torna-se ridícula. E isto não é uma opção.

Já por diversas vezes se falou aqui do complexo Peter Pan e de certos hábitos que convém largar por volta dos 30, bem como das formas de se adaptar aos tempos em termos de estilo sem perder a identidade.

O tempo passa e a vida transforma-se, por muito que uma pessoa tente bater o pé a isso. Por muito que se conserve um espírito e uma aparência jovem, por muito elixir da eterna juventude que se beba, por mais que se esteja melhor forma aos 30 ou 40 do que se estava aos 20 anos, por mais que se cultive uma saudável rebeldia e que se seja capaz de levantar 100kg ou correr maratonas. Não se é só "mais velho (a)". É-se um upgrade do (a) jovem que se foi. É-se crescido (a), adulto (a), uma versão mais sofisticada e sábia do antigo eu. E quem não é, devia - sob pena de se tornar uma caricatura de si mesmo (a), uma sombra fanada e decadente dos seus dias dourados.




Quem aos 30, ou perto disso, não se tornou mais compassivo, menos irreflectido, mais corajoso, mais responsável, mais confiante mas também mais humilde, com prioridades mais definidas e um melhor conhecimento e domínio de si próprio (a), está bem arranjado (a) na vida: é aquela pessoa que recebe todos os olhares de desconto, vulgo "que se há-de fazer? aquele (a) parou no tempo!".

Quem aos 30, ou perto disso, ainda se expressa e veste/penteia/maquilha exactamente, sem tirar nem pôr, como na adolescência ou nos early 20s, envelhece e pesa o visual e a linguagem, mesmo que não tenha engordado nem perdido cabelo. Um adulto vestido como um adolescente a falar como um adolescente não é bué da fixe e bué da jovem: mesmo que tenha boa cara, é sempre um adulto vestido como um adolescente a dizer "bué" e "miga" como um adolescente. Até porque há coisas que passam num teenager, mas soam ridículas, de mau gosto ou mesmo suspeitas num homem feito ou numa mulher feita. Nem os vampiros deixam de acompanhar o passar das eras. Não querem ser confundidos com mascarados (ou não quereriam se existissem, vá).


Quem aos 30, ou perto disso, ou depois disso, continua a ser o eterno rufia, a eterna namoradeira à espera do príncipe encantado, o eterno sonhador ou sonhadora à espera da fama, o idealista que só aceita empregos de sonho, a eterna rapariga fácil, o eterno playboy ou o eterno menino mimado que não se responsabiliza, vê a vida passar como quem vê navios no Alto de Santa Catarina: à sua volta os amigos de sempre constroem vidas, carreiras, famílias, experimentam a alegria das realizações e as lições das perdas, tornam-se pessoas mais fortes- se calhar melhores, se calhar piores, mas sempre actualizadas.



 Mas quem não cresce fica para trás, datado (a), patético como um sistema operativo obsoleto ou um logótipo que já não bate certo com as tendências do mercado, mas que ainda não tem idade nem estatuto para ser considerado um clássico. Não percebe que crescer não significa vulgarizar-se, tornar-se pequeno burguês, deprimente ou conformista. Há maneiras de evoluir em termos, sem se transformar num estranho ou num cliché da vida adulta.

 Quem não vê isso continua a levar com rolares de olhos e encolheres de ombros toda a vida. A ser o palhacito da festa, o primo tolo, a amiga desmiolada, o maluco que nenhuma mulher nem nenhuma empresa leva a sério, o ex-atleta, a rock star que ficou pelo caminho, o party boy que já não aguenta a bebida como antes, a doidivanas que não é para casar, o irresponsável que não vale a pena promover, o one-hit-wonder que só passa nas festas de nostalgia, o ex de fulana e beltrana que não tem emenda, o cubo de Rubik de todos os grupos, a relíquia cheia de mofo, a tralha do sótão.

E isso tem piada nas reuniões de faculdade ou de liceu...mas também é extremamente triste. E estranho.


1 comment:

Géraldine said...

Nem de propósito, ontem o meu marido esteve com um colega com quem tocou numa banda... o meu marido casou, teve um filho, realizou-se profissionalmente. Esse colega continua a tocar em bares, usa o mesmo estilo de roupas que há 15 anos, não tem "poiso fixo", um rebelde rockeiro..com alma jovem e aspeto de quarentão, que indignado diz ao ex-colega: A tua vida é uma seca, estás "estagnado"! Pena que não veja quem de facto parou no tempo... :-)

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...