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Thursday, May 26, 2016

Por uma vez sem exemplo, estou de acordo com a Esquerda.


Mas a medida podia muito bem ter vindo da Direita. Só não virá por teimosia e peca por tardia, desculpem lá a rima.

Eu sou do tempo em que havia bons colégios e boas escolas públicas. Passei por ambos e tive muitos colegas que, tendo estudado sempre no privado, depois optavam por terminar o secundário num dos dois excelentes e super exigentes liceus que cá temos. Também havia o vice-versa para quem precisava de notas altas para entrar em Medicina ou coisa assim (dizia-se à boca pequena).

Bem entendido, nada contra certos colégios serem subsidiados de modo a suprirem  necessidades que a escola pública não cubra: em zonas remotas ou junto de alunos com necessidades especiais, por exemplo. Ou contra certas instituições ditas de "elite" terem uma quota de bolsas para alunos merecedores que não podem pagar as propinas. Isso é razoável e justo.

 Mas não tem sido o que se verifica, antes pelo contrário. Vemos colégios a recusar alunos com deficiência e, por sua vez, escolas públicas a lidar, sem recursos humanos nem logística adequada, com as necessidades dessas crianças. Vemos escolas públicas que pagamos do nosso bolso sem as devidas instalações ou material, outras que igualmente pagámos do nosso bolso com instalações criadas para esse bruxedo do Parque Escolar...ambas às moscas e com professores por colocar,  enquanto no quarteirão seguinte colégios supostamente privados são frequentados supostamente de graça por tutti quanti. Ou seja, andamos a pagar duas vezes. Ou três, caso matriculemos os pequenos num colégio que, a bem da qualidade e da sua reputação, recuse beneficiar de tais medidas. 

E isso é o que me confunde- chamem-me elitista à vontadinha que eu posso bem com isso, mas um colégio não perde a sua razão de ser ao tornar-se absolutamente gratuito para toda a gente, sem qualquer critério a não ser a proximidade geográfica, quando até há escolas ao lado? Não abre mão dos seus valores ao não estabelecer normas de admissão baseadas no mérito ou na excepção?

Colocar os filhos num colégio é uma decisão, a meu ver, tomada por motivos específicos: o rigor, a oferta educativa, ou algum diferencial, como a instrução ministrada por religiosos, militares, etc. Se alguém decide investir o seu dinheiro em algo que poderia obter gratuitamente na rede pública, é porque, como pagante, quer estar em posição de exigir mais; porque deseja alguma coisa que o ensino público não ofereça: condições superiores e eventualmente, alguma selecção e exigência na frequência, companhias e rigor que se encontram no dito colégio. 



E bom, falo por mim mas não matricularia familiares meus em alguns que conheço, que não só acolhem qualquer valdevinos como não procuram - talvez porque os valdevinos se tornaram a maioria lá dentro - moldar os malandros à filosofia inicial da casa; em vez disso, relaxam as normas para se adaptarem à tipologia dos alunos. Nada contra quem, ao chegar ao secundário, escolhe antes ir construir casas ou frequentar uma escola de estética (é trabalho honesto como qualquer outro) mas que esse perfil se tenha tornado dominante (ou quase) em alguns colégios diz algo do seu status quo e da disciplina lá dentro. Por exemplo, toda a favor dos colégios religiosos,desde que se mantenham religiosos e tenham a obrigatoriedade da Missa, do uniforme e das normas de conduta. Senão, onde está o sentido?

Como isto não deita por terra a reputação e brio daquilo que é suposto ser um colégio, beats me.

Por fim, vamos ao non sense da "igualdade de oportunidades" (se há escola pública acessível a toda a gente, não sei onde anda a desigualdade) e do "direito a escolher a escola dos nossos filhos". Toda a gente tem o direito a escolher, em tudo. Agora o "direito a escolher" bens ou serviços de luxo *e* de graça já é outra história. Eu tenho o direito a escolher só andar de Mercedes, Jaguar, Ferrari, BMW, eu sei lá, e a só vestir Chanel, Dior, Prada e assim por diante. Se tiver meios para isso, se me esforçar nesse sentido. Sem exigir que o Estado me ofereça essas coisas.  O capitalismo assim o dita, graças aos Céus. É esquisito que tenha sido a Esquerda a lembrar isto, mas adiante.

Este "direito a escolher" é tão estranho como seria quem beneficia de habitação social entender que devia mudar-se para um condomínio de luxo na zona mais inflaccionada da cidade, à borla, no questions asked, porque o sol quando nasce é para todos, apesar de estar bem servido de habitação no sítio onde mora. 

O básico está assegurado: o extraordinário é escolhido e pago directamente por cada um; não arrancado aos contribuintes como se as escolhas individuais dissessem respeito a toda a gente. O que seria um bocadinho comunista e só vem tornar a questão mais confusa. Palmatória, volta que estás perdoada.




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