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Wednesday, May 25, 2016

Sabem como soa uma alma penada?





Eu sempre tive curiosidade em descobrir ao certo. 

Na terra dos meus avós dizia-se a torto e a direito que uma voz ou cantiga estridente parecia "uma alma penada" mas poucas vezes ouvi algo que de facto me soasse a fantasma desgraçado a arrastar correntes pelos cantos. 

Isto com honrosas excepções feitas ao camião da Family Frost (uma amiga minha dizia que aquele som só lhe lembrava um psicopata vestido de palhaço com famílias congeladas lá dentro; tinha uma grande imaginação) e à mulher que vinha vender galinhas numa camioneta velha . Privilégios de quem passa boa parte da meninice no campo.

A Mulher das Galinhas, criatura encolhida, com um chapéu ou lenço na cabeça, mal se vislumbrava fora da caranguejola (também poucas vezes me aproximei para a ver bem; dava-me arrepios-  foi o mais próximo que conheci da "Mulher do Saco" ou da Cuca) e anunciava o seu pregão desconsolado e ensurdecedor com um altifalante fanhoso e cheio de ruídos. Levei muito tempo a decifrar (ou antes, para que alguém traduzisse a lenga-lenga) que apregoava "três galinhas mil escudoooooos" .



Mesmo assim a táctica de marketing devia resultar, porque andou anos e anos nisto, a vender os pobres bichos para pôr ovos ou destino pior e a traumatizar a infância da pequenada das redondezas. Creepy. Entretanto a Mulher das Galinhas lá se reformou ou bateu as botas já eu era adolescente e, fora os berros das raposas em acasalamento que às vezes andam por aqui a matar de susto os incautos, nunca mais ouvi nada capaz de rivalizar com o jingle  "três galinhas mil escudoooooos" .



Até agora. Nessas rádios que só passam os muitas vezes duvidosos sucessos do momento, andam a insistir dolorosamente nesta cantiguinha que parece cantada por um peru velho ou uma ave agoirenta qualquer:



A melopeia guinchada, gemida, zurrada por uma mocinha que nem tem má voz mas bem podia cantar de outra maneira, fala de comprar Ferraris e enxovais inteiros de Yves Saint Laurent (disso também gosto, mas o resto...) enquanto se vive nas tintas para os outros, recitando o mantra preferido de qualquer galdéria ressabiada no Facebook: me, myself and I.

Mulher das Galinhas, a senhora acaba de ser destronada por uma alma-penada mais assustadora ainda. Nenhum reinado dura para sempre.

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