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Monday, May 23, 2016

Santo Agostinho dixit: tarde te amei, ou carta a um amor quase perdido.



Tenho uma admiração enorme por Santo Agostinho- filósofo, Doutor da Igreja e uma das suas mentes mais brilhantes...mas antes de ganhar juízo, mais pecador do que a pior versão que a tradição, a arte ou a ficção possam pintar de Maria Madalena.

 Agostinho era de tal maneira dissoluto, um libertino de tal ordem, que ter-se tornado numa pessoa íntegra, normal e decente já seria milagre - quanto mais  fazer-se bispo e depois Santo!

  Mas a sua mãe, Santa Mónica, tanto se afligiu, tanto rezou, tantas lágrimas gastou e tantos vestidos terá coçado de joelhos diante do altar em modo turbo de pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e a porta se abrirá (já se sabe como são as mães: nunca desistem) que ele, por volta dos trinta, já cansado de má vida e de se desperdiçar em comportamentos auto-destrutivos, se redimiu e converteu. Santo Agostinho é a prova de que toda a gente pode eventualmente ter remédio, até o pior valdevinos. 


Ora, depois de ver os seus erros e de descobrir a fé, o futuro Santo escreveu uma obra autobiográfica extraordinária, Confissões. E nela, reflectiu sobre amor e arrependimento, falou sobre a sua cegueira, analisou como fora possível andar tão perdido quando tinha a verdade e o bom caminho diante dos olhos. 

O texto, que é lindíssimo, refere-se à descoberta espiritual de Santo Agostinho, mas poderia aplicar-se igualmente a outras situações da vida, nomeadamente ao amor romântico: ao amor perdido (ou quase) à conta de muitos erros, ou a um grande amor que sempre esteve à vista mas quase se deixou escapar. E quando surge ou ressurge, por bom que seja, por muito que nunca seja tarde, parece sempre pouco, parece sempre que se deitou fora tempo precioso, parece sempre "tarde demais" - não para viver a relação em pleno, mas no espírito "já podia ser feliz há tanto tempo!":


"Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe. Mas durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. 

Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos da minha juventude, pus o meu coração em coisas exteriores que só me faziam afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. 

Mas Tu chamaste-me, clamaste por mim e o Teu grito rompeu a minha surdez… 
“Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha-me escondido. Mas Tu arrancaste-me do meu esconderijo e puseste-me diante de mim mesmo, a fim de que eu visse o quão manchado estava”. 


Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. 

Exalaste o Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! 

Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo pela Tua Paz.

E agora, só a Ti amo! Só a Ti sigo! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

 Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, desejei-Te e agora, tenho fome e sede de Ti.

 Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei!"


 Adaptados, estes excertos de Confissões davam uma lindíssima carta de amor e podiam ser a base para muitos votos de casamento. Quantos homens e quantas mulheres, encontrando finalmente o que toda a vida procuraram,  não teriam a dizer isto, sem tirar nem pôr? 

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