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Saturday, January 23, 2016

Modismos parvos... já os havia no tempo do Rei Sol


Por aqui já se bateu muitíssimo nos modismos papalvos- sabem, aquelas novidades a que meio mundo adere sem saber muito bem porquê. De bolos a panelas, passando por expressões idiomáticas, modalidades desportivas, bebidas, até doenças (a hiperactividade, o pânico do glúten e da lactose são os exemplos mais recentes que me ocorrem) tudo quanto é moda, ponha-se na minha senhora, seja bom, mau ou uma pinderiquice de marca maior. Certas pessoas parolas devem ter medo de assumir "pode estar na berra, mas não é a minha chávena de chá" como o povo do conto tinha receio de gritar que o Rei ia nu...

E quando os modismos se referem a maleitas e macacoas, confirma-se a frase de Eça de Queiroz: certos médicos literários tratam de inventar doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer.

Mas não se pense que tal comportamento é fruto da nossa sociedade altamente consumista, de gostos adquiridos muito recentemente e com aspirações aburguesadas: a tacanhez, a mania de ser macaquinho de imitação, é mal antigo. E não há melhor exemplo do que este episódio assaz embaraçoso passado na corte de Luís XIV.



Ora, sem querer entrar em detalhes aborrecidos que eu detesto falar destas coisas, por volta de 1685 o Rei-Sol foi diagnosticado com um piqueno problema que o impedia de se sentar confortavelmente no Trono de França, de montar a cavalo, enfim, um incómodo doloroso e pouco condizente com a sua glória e dignidade.

Depois de tentar tudo, concluiu-se que a cirurgia seria a única solução. Foi então chamado o barbeiro-cirurgião Charles- François Felix. Podemos imaginar o pânico do homenzinho, numa época em que anestesias e esterilizações como as conhecemos ainda eram uma fantasia distante...honrado, mas apavorado, o "médico" tratou de treinar em quantas cobaias arranjou: primeiro prisioneiros, depois cortesãos que se voluntariaram entusiasticamente, ansiosos por agradar a Sua Majestade.



  Porém, a intervenção foi um sucesso: no prazo de um mês o *com todo o respeito* real traseiro estava como novo. El-Rei teve de usar umas ligaduras durante um tempinho mas a corte não tardou a imitá-lo, atando uns pensos da moda à volta das ancas: baptizaram este "look" de le royale, imagine-se...

Em três meses o Rei já montava a cavalo e o cirurgião foi amplamente compensado com dinheiro, terras e um título, além de reunir uma clientela mais vasta do que conseguia gerir. O episódio contribuiu mesmo para que a cirurgia, até então mais apanágio de barbeiros e curiosos que de médicos "verdadeiros", se tornasse uma especialidade respeitada.



O pior foi que a doença do Rei se tornou a doença da moda - contagiando França de Versailles por ali abaixo. Dali a nada, da corte ao bar da esquina, toda a gente queria fazer a mesma dolorosa (e ainda arriscada) operação, mesmo não sofrendo de incómodo algum. E os que não tinham coragem para seguir a moda à risca adoptavam-na como podiam, dizendo que sim senhora, que tinham dores no derrièrre, usando as tais ligaduras e fingindo que não se podiam sentar...

Imaginem o que seria se tal peripécia se passasse hoje, na era do Instagram e em que qualquer trapinho usado pela Duquesa de Cambridge, por mais banal que seja, esgota na hora, sem que as mulheres temam encontrar meio mundo na rua com roupa igual. Ninguém se levantava tão cedo à escala global! Não ter estilo próprio, nem espírito crítico, nem pensar pela própria cabeça, essa é uma doença que parece intemporal...


Detesto quando tiram a piada às coisas.


O senhor pai, que é dotado de um certo espírito aventureiro e muito bom a criar máximas, sempre defendeu que "as viagens que fazemos são das poucas coisas que ninguém nos pode tirar".

 O que é indiscutivelmente verdade. Nunca me tornei numa daquelas pessoas que vendem a alma para viajar  (em parte porque a ficou na moda e essas febres aburguesadas me irritam, em parte porque prefiro viagens curtas q.b. e se não forem bem organizadas e com o mínimo de conforto, antes quero passar sem esse prazer) mas não posso discordar desse lema. Embora a investir em alguma coisa goste mais de objectos que possa guardar do que de experiências,  é indiscutível que a viagem feita, o passeio dado, a festa a que se foi ninguém nos tira, por mais que os ventos da fortuna mudem.

Ora, um passeio incrível que demos em família foi às Grutas de Postoijna, na Eslovénia. Para ser franca não achei o país nada de tirar a respiração, mas sempre me ficou que vale a pena lá ir só para conhecer esse lugar mágico. 


São grutas com estalactites e salas atrás salas como outras tantas, mas achei-as enormes - até lá criaram uma área lindíssima para concertos com espaço para 10 mil pessoas. E depois...tinha um comboio. Um comboio com carrinhos de mineiro verdadeiros e de ar ferrugento como os do filme do Indiana Jones


Um trenzinho eléctrico mas que apanhava uma velocidade espectacular, tipo montanha russa, a rolar como um foguete por aquele ambiente espantoso que parecia o reino dos anões de Tolkien. Às vezes dava mesmo a impressão de que íamos esbarrar contra um "tecto" mais baixo, mas não. E ficava-se com aquele friozinho na barriga. Qual Disneyland, qual carapuça. What a ride. Não estou a exagerar. Era mesmo rápido e emocionante, e o facto de estarmos num cenário natural daqueles, em plenas profundezas da Terra, tornava a experiência única. 
Em suma, fiquei de tal modo impressionada, eu que nunca fui fácil de impressionar, que passei a dizer que lá voltaríamos um dia que Deus me desse filhos e/ou o diabo sobrinhos

Mas mais recentemente, ao recomendar o passeio a uma pessoa amiga que ia para essas bandas, tive a infeliz ideia de visitar o site das Grutas e...oh, amarga desilusão! O comboiozinho já lá não estava. Ou antes, estar até estava...mas tinha sido substituído por uma versão colorida, bem comportada, artificial, segura, para turista ver. Alguns iluminados politicamente correctos tinham trocado os meus carrinhos de mineiro, os meus lindos carrinhos de mineiro à Indiana Jones...por uma bimbolândia!


Bimbolândia foi o nome depreciativo que um primo meu deu àqueles comboios turísticos chatos. E foi uma bimbolândia com cores de circo que tirou o lugar a uma das minhas melhores recordações!

 Ora, não sei porque o fizeram e nunca perguntarei, não vá alguém jurar que a versão à Indiana Jones nunca lá esteve, que foi imaginação minha (não foi; gravámos a viagem e hei-de ter para aí o VHS disso). Ignoro se trocaram os carrinhos por mania das modernices, se para ganharem dinheiro com alguma concessão feita a um monopólio ganancioso de bimbolândias, se foi por causa de alguns turistas estúpidos que decidiam pendurar-se fora dos carros armados em Indiana a comprometer a segurança, se houve alguma avaria perigosa ou acidente com um dos ditos turistas. O certo é que ficou como podem ver e embora a viagem continue a ter a alguma graça, já não é de perto nem de longe a mesma coisa, vide:


Bem diz a cantiga de que gosto tanto e cito tantas vezes, nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. É que raramente se muda para melhor...nada do que tu lá vires será como no passado. Rui Veloso, esse grande filósofo.

Friday, January 22, 2016

8 Mr. Wrongs que quase todas as mulheres encontram, parte II



Como prometido, continuemos a nossa série de desgraças.


4- O Mr. Big



Como o nome indica um Mr. Big é bem sucedido, sofisticado, elegante e tem tudo em comum consigo. Completam as frases um do outro, apreciam os mesmos assuntos, os mesmos hobbies, as mesmas roupas, a mesma música, defendem valores e ideais iguais e até o sentido de humor de ambos se assemelha. Com ele sente-se em casa e não importa as vezes que se zanguem, parecem fadados a não passar um sem o outro. Cenário tirado de um catálogo da Ralph Lauren, certo? O problema é que regra geral, o Mr. Big acha-se mesmo isso, um grande figurão. 


Está tão convencido de que é amado incondicionalmente - ou de que ninguém lhe chega aos calcanhares - que não cresce, entrando na síndrome de Homem Tofu. Simplesmente sente que tudo lhe é devido, que um dia tudo se resolverá quando bem lhe apetecer e que não importa o quão mal se porte, terá a mulher que considera sua no momento em que estalar os dedos. Pior ainda, como é muito exigente e mimado, tende a comportamentos possessivos e a idealizar a mulher que escolheu: coloca-a num *mau* pedestal, esperando mundos e fundos dela sem dar grande coisa em troca ou contando com extrema devoção e paciência enquanto ele parte a louça toda. E se ela de alguma forma belisca essa imagem que ele criou - porque já não o pode aturar - que catástrofe! Para um Mr. Big, ele é o grande prémio e a mulher é um troféu para fazer pendant. Embora aparente todas as características do Homem Alfa, no fundo o Mr. Big é um menino que vai à lata das bolachas uma e outra vez, contando nunca ser castigado porque é o ai-Jesus, o supra sumo. E quando as coisas dão para o torto pela milésima vez, a culpa NUNCA é dele...ainda fica muito triste e a sentir-se injustiçado. Enredos destes resultam nas séries e nos filmes porque os guionistas forçam a barra para contentar o público. Na vida real? Nem tanto.

5 - O mulherengo



Para uma mulher selectiva e segura de si , um mulherengo dificilmente passará da categoria de pretendente. É que apesar de vir em vários moldes, com várias caras e de existir em todas as classes sociais - do "pintas" vulgar ao James Bond sofisticado, passando pelo hippie que usa a desculpa do "amor livre" -  é fácil detectar a quantidade de mulherio e de "amigas" a gravitar à volta dele.

 Mulheres que não toleram concorrência e que preferem rapazes circunspectos costumam ter o seu ordinarómetro bem afinado e fugir deste género. Já mulheres mais inseguras ou competitivas, que têm a fantasia de transformar um rufia num homem de família ou que gostam de tentar ofuscar as outras são presas fáceis para estes coleccionadores. E não esqueçamos as desmioladas e as ingénuas...em todo o caso, embora este espécime só costume enganar quem quer ser enganada, há um exemplar por outro mais "artista" que gosta de brincar ao número do marinheiro: ter uma namorada em cada porto, fazendo cada uma crer que só tem olhos para ela...
 Esta ave rara costuma ser o grande trauma no "livrinho negro" da maior parte das mulheres, ou o grande "abre olhos". Se tiverem sido extra sortudas, foram cortejadas por um assim no liceu, tudo não passou de bilhetinhos super inocentes, ficaram vacinadas para o resto da vida e ainda estão para perceber como há mulheres que dão dois dedos de conversa a tais malandros...

6- O engraçadinho-parvinho




Um engraçadinho-parvinho é um sub-tipo que às vezes convive no mesmo corpo com outras tipologias, como o Mr. Big, o mulherengo ou o verdadeiro parvalhão.

 Dependendo da combinação, esta característica pode ser mais ou menos insuportável. A maioria das mulheres cita o sentido de humor como uma qualidade sedutora no sexo oposto, mas o engraçadinho-parvinho usa o facto de ser um brincalhão - e de ter realmente piada - para fugir dos confrontos, escusar-se a pedir desculpa se fez algo mesmo mau, para evitar falar a sério ou, em casos mais graves, para ser um sacana de primeira e dizer ou fazer coisas desagradáveis sem ser castigado por isso. Se está ressentido com algo, um engraçadinho-parvinho é incapaz de ter uma conversa de gente, tirar o assunto do sistema e voltar ao normal: arrelia a pessoa com piadinhas de mau gosto o resto da vida. Também é o tipo que se atreve a troçar da namorada, criticando-a mais ou menos jocosamente à frente de quem está...e se ela desatina, já sabe que todos lhe vão dizer "não leve a sério, ele é um bem disposto, um ganda maluco".  Na óptica deste bobo da corte tudo se resolve na brincadeira, o que mostra que nunca cresceu, que não tem intenções de encarar nada com termos e em última análise, que tem muito pouca consideração pelos sentimentos alheios. A maioria acaba dispensada  quando uma mulher se cansa de tanta risota sem graça nenhuma (ou quando um pretendente mais íntegro se apresenta) com a guia de marcha "junta-te ao circo, palhacito".


7 - O Houdini indeciso




Regra geral, este é outro que nunca passa das intenções a não ser que uma rapariga seja super modernaça, super mulher da luta ou então, se calha até não ser nada disso mas é apanhada em maré de não aturar mistérios. Em todo o caso, tal caramelo só deixa de ser um mero pretendente caso uma mulher o abane pelos colarinhos e lhe pergunte directamente o que é que ele afinal quer. Um rapaz destes é capaz de alimentar uma paixonite e andar atrás de uma rapariga anos a fio, sem nunca realmente pôr as cartas na mesa - ou pior, de ser como certos cometas e de dar um ar da sua graça quando lhe dá jeito, sempre à espera que seja ela a declarar-se.

 Faz o género de aparecer e desaparecer, de ter coisas marcadas e evaporar-se à última da hora sem explicação, em suma, nem vale a pena tomar a sério o que ele diz. Quase sempre a história, que nem história é, acaba com as últimas mensagens dele a ficarem sem resposta. Anos mais tarde fica-se a saber que casou com a primeira namorada autoritária, a única com paciência para o aturar porque enfim, mais vale o diabo que se conhece do que o diabo que não se conhece, e que praticamente o arrastou até ao altar pelos cabelos - com as damas de honor a barrar a porta da Igreja de rolos da massa em punho, não fosse ele tentar uma fuga das suas.


8- O Monstro

Tecnicamente este não devia fazer parte da lista porque poucas azaradas o encontram, graças aos céus - mas vamos inclui-lo porque todas já ouviram falar dele. O monstro é quase sempre um mito urbano, o tipo horroroso com quem uma amiga-de-uma-amiga se relacionou e que a deixou à beira de um ataque de nervos, senão pior. Poucas têm o azar de enfrentar tal besta mitológica, que é uma versão mais negra, mais subtil e mais psicopata do doidinho de serviço. Dá até medo descrever tal personagem, pois as suas patifarias vão do abuso emocional à manipulação pura com base em promessas estapafúrdias, passando por traições sucessivas e coisas  mais sinistras. É o género que se orgulha de deixar para trás um rol de corações destroçados e mulheres em maus lençóis. Se o doidinho de serviço às vezes não faz por mal - e até faz mal a si próprio- o Monstro é cruel de propósito. Nunca gosta minimamente de ninguém e digamos apenas que é uma alma danada e problemática além de toda a salvação, que serve para contar histórias instrutivas de arrepiar as imprudentes e para dar mau nome ao sexo forte. Felizmente a fama costuma precedê-lo, quando o ar esquisito não o denuncia... 
Depois, ele tende a aproximar-se apenas de mulheres que estejam carentes, porque no fundo é um cobardolas, logo quem tenha um mínimo de auto confiança está a salvo.

E mais coisa menos coisa, está a lista completa. A boa notícia é que gente decente e equilibrada há por aí aos montes; o resto serve para ilustrar posts deste género e para um dia contar às netas "no meu tempo havia um palerma que fazia assim e assado.."

8 "Mr. Wrongs" que quase todas as mulheres encontram, parte I



Para encontrar o Mr. Right, eventualmente tropeça-se em Mr. Wrongs. Antes de achar O Tal, pode ser inevitável esbarrar num perfeito anormal, salvo seja. A maioria das mulheres já se terá deparado com pretendentes que correspondem a um ou mais dos perfis abaixo. E com um bocado de pouca sorte/ ingenuidade, terá perdido algum tempo precioso com um ou mais destes atrasos de vida - afinal, nem a rapariga mais felizarda e/ou selectiva está livre de cometer erros crassos, ou da sua versão do Hall of Shame.  Faz tudo parte do processo, vivendo e aprendendo, etc. Além disso, qualquer conversa numa roda de amigas prova rapidamente que estes tipos são mais comuns do que se pensa, deixando no ar a pergunta "serão produzidos em série?" (uma série com defeito de fabrico, claro).

1- O Papa-Açorda


À primeira vista, parece o genro que a sua mãe pediu a Deus. É engraçado, atencioso, dedicado e não dá problemas. Surprise surprise, superficialmente até parece demonstrar integridade e hombridade, qualidades raras. No todo é uma boa pessoa, tem as melhores intenções do mundo e como há poucas boas pessoas por aí e ninguém é perfeito, só tarde (ou tarde demais) se percebe que o rapaz é um grande Papa-Açorda, que é uma versão mais inócua do homem Peter Pan. Ou seja, é demasiado passivo, comodista e preguiçoso - a pontos de perder a dignidade. Tem preguiça de lutar por uma vida estável, preguiça de cuidar da forma física, preguiça de se defender se o tentam rebaixar, preguiça de a ajudar nas tarefas mais elementares, preguiça de mostrar à mãe que é um homem feito. Claro que faz isto aos poucos, disfarçando o problema com desculpas mais ou menos esfarrapadas. 

A longo prazo, revela muitas características do Homem-Banana e prova que não é homem com quem se possa contar no dia-a-dia, quanto mais numa aflição. No limite, o desleixo e a passividade são de tal ordem que o rapaz se torna socialmente inadequado, vulgo "não te posso levar a lado nenhum!". A admiração e o respeito evaporam-se, porque ninguém aguenta um peso morto na sua vida, nem estar ao lado de um egoísta disfarçado. Uma ressalva, porém: este género convém lindamente a qualquer mulher mandona com grandes rendimentos, que adore tomar todas as decisões e disponha de camareiras, jardineiro, ama, cozinheira...nestas condições a coisa até funciona, porque ele pode passar o dia sentado com uma consola, a brincar com os pequenos como o grande bebé que é, ou brincar aos maridos quando dá jeito.

2- O à-falta-de-melhor

Sabem aquele rapaz super bem parecido, amoroso, razoavelmente bem sucedido e promissor, mas....bonzinho demais? Aquele que a sua mãe e a sua avó viram uma vez e adoraram mas você, nem tanto. Geralmente este Príncipe Encantado sem grande substância aparece na vida de uma rapariga depois de um namoro com um bad boy que obviamente correu mal e até se aceita ir jantar com ele porque enfim, é mesmo encantador e indiscutivelmente bom rapaz. Mas depois não passa disso: em parte porque lá diz o ditado piroso, uma pessoa não manda no coração, em parte porque ninguém quer um mau rapaz mas uma atitude mais firme e masculina faz muita falta. O melhor é não alimentar o assunto, porque se partir o coração a um rapaz tão simpático vai ficar sempre com remorsos. Nos momentos maus até pode ocorrer-lhe "porque é que não quis o Pedro, que era tão adorável?" - o que é um erro, porque decerto o Pedro teria os seus defeitos se o tivesse conhecido melhor. E se não houve faísca é porque não houve. Ninguém merece ser "gostado" assim-assim, nem viver um "amor de papelão". 


 3- O doidinho de serviço


Razoavelmente perigoso e literalmente doidinho, tipo, diagnosticado. Se ultrapassar o estatuto de pretendente, rapidamente ganha o carimbo de "ex que veio do inferno". Os sinais estão presentes desde o início, mas ou porque uma mulher tem mais em que pensar ou porque o toma simplesmente por um rapaz muito expansivo, em modo cada-um-com-as-suas-manias (afinal, ninguém conta com uma dessas) não dá ouvidos ao seu instinto, não liga o ordinarómetro nem procede à devida verificação, e zás. Quando dá por si, em semanas ele já fez trinta por uma linha: de mood swings a cenas de possuído tipo Chucky, o Boneco Assassino, passando por discussões que escalam do nada até descobrir que está envolvido em desonestidades, ordinarices e pantominices de toda a ordem, o caos é tal que só resta pedir pernas a Santo Amaro e fugir depressa. 

Mas não se pense que o enredo finda por aí: não só no rescaldo se vêm a descobrir coisas do arco da velha sobre o taradinho-canta-monos (nomeadamente, que da reputação ninguém o livrava, que já no infantário tinha sido expulso por tentar pegar fogo à escola ou envenenar os coleguinhas pondo veneno dos ratos no bolo de aniversário) como de vingança, ele tenta causar todo o tipo de problemas. De atirar ovos à casa da ex a difamá-la por aí para volta não volta ligar a chorar que nem uma Madalena arrependida à três da manhã, o catálogo de maluquices é grande e colorido. E como este tipo costuma ser frenético nas ligações emocionais, um verdadeiro Manel dos Plásticos, o mais natural é muito tempo depois ainda ser incomodada por outras-entretanto-ex apavoradas que caíram na cantiga do bandido, a tentar comparar histórias ou formar um grupo de apoio. Credo.


To be continued...


Thursday, January 21, 2016

"Sim" e "Não" do dia #1

Às vezes, a diferença entre o bom e o mau styling está nos pequenos nadas. Um toque original (frequentemente, aliando as tendências às necessidades práticas) pode fazer um look, enquanto um erro cometido por insensibilidade ou descaso deita por terra uma toilette que de outra forma podia ser interessante.

Assim, decidi criar uma pequena rubrica nova aqui no Imperatrix (há tempo que não estreávamos uma!) : pequenos "Sim" e  "Não"  que elevam ou estragam um visual.

- Sim: brincar às camadas com um blusão de couro

Além de os perfectos e biker jackets estarem na moda neste momento, são um clássico e um básico. O que significa que provavelmente muitas de nós terão um exemplar em casa. Ou mais do que um (sabem o complexo "um que se herdou, outro que apareceu a bom preço e era pena deixá-lo na loja porque enfim, é pele verdadeira, outro que era tão bonito e não se resistiu, etc"). Mas seja para tirar partido dos que já tem ou para justificar a compra de um todo o terreno destes, dar-lhes mais uma utilização é sempre benéfico. Afinal, um casaco assim é demasiado útil e confortável para se vestir apenas como agasalho de meia estação. 



Uma vez que está em voga usar camadas, tenho utilizado os meus perfectos e bikers como se de blazers ou coletes se tratassem: sob um statement coat ou sobretudo de lã, fazenda ou tweed; sob uma canadiana ou mesmo debaixo de uma gabardina clássica ou capa sem mangas! Os blusões mais curtos, justos e maleáveis são ideais para conseguir esse efeito sem acrescentar demasiado volume. 
 A combinação resulta bem com coordenados de calças, mas igualmente com vestidos. O melhor? Pode andar-se de mangas curtas debaixo do casaco de pele, que garanto que o frio não passa. Ah - e funciona para o menino e para a menina.

 - Não: peças a fazer pendant, como as criancinhas

Sabem quando alguma pequenada, que ainda não tem obrigação para mais (o estilo apura-se com o tempo, já se sabe) convence os pais a comprar-lhe todo o merchandising do herói do momento...e depois quer usar tudo junto? Para levar para a rua. Isso. E se não tiver educadores com pulso muito firme e gosto apurado, lá vai o pequeno para a escola vestido com t-shirt, ténis e mochila do Homem- Aranha, ou a pequena toda vaidosa com saia, t-shirt, sapatos, casaquinho e mochilinha da Violetta/Floribella/Frozen. 

Tudo a condizer, é uma festa...pois bem, isto nas crianças desculpa-se mas nos adultos nem tanto. O pior é que vejo muita menina crescida a fazer mais ou menos o mesmo número: gosta de uma tendência, por isso acha que tem de a exibir em mais do que uma peça ao mesmo tempo, em vez de deixar que um elemento no conjunto fale por si.
 Há dias vi acontecer isto com as franjas: uma senhora, levando demasiado à letra a velha linha de orientação de coordenar a carteira com o calçado, passeava toda contente com umas lindas botas às franjas e uma carteira com o mesmo efeito. Resultado? Parecia vinda do Faroeste...e por acaso era tudo em pele e de boa qualidade, senão que seria!

Num visual equilibrado podem estar presentes duas, no máximo três tendências (e como três já é muito, convém que a terceira seja super subtil-o bâton do momento ou algo do género) e muito importante, um e um só elemento de cada. 

 

Wednesday, January 20, 2016

Com "migas" destas, quem precisa de inimigas?



Andam por aí montes dessas campanhas feministas e anti slut shaming a dizer que os homens deviam ser instruídos desde pequeninos a não classificar as raparigas com mimos tão lisonjeiros como"galdéria"(o que, deixando de lado os exageros e ofendedismos, é a sua obrigação de cavalheiros). 

Ou mesmo que as mulheres deviam perder o hábito "degradante" de se insultarem umas às outras em termos semelhantes, para que os homens não se sintam no direito de o fazer também, tudo no melhor espírito solidariedade feminina. O que até seria justo - e simples questão de boa educação- se não beirasse o exagero paranóico, como vimos, e se não fosse o paradoxo que vamos ver mais adiante.

Ora vamos por partes: nenhuma mulher bem educada chama a outra (na cara dela, vá) vadia, rameira, marafona, pega, meretriz, galdéria (ou o equivalente a isso tudo em palavrão geralmente começado pela letra P ou C) etc; tão pouco, se tiver bebido um bocadinho de chá em pequenina, insultará a inimiga ou serigaita com o muito queirosiano "gado" ou uma forma mais específica de animal de presépio/zoológico/quinta. Ná. Nem de viva voz, nem por escrito. 



Primeiro porque uma mulher bem criada não desce a esgatanhar-se com outra  - God forbid.  Mais facilmente dá costas o mais altiva e serenamente que puder, deixando a criatura falar para o boneco, a fazer a peixeirada para o vento, a puxar o próprio cabelo,etc. Porém, caso não consiga mesmo evitar um confronto directo (Credo!) o piorzito que dirá é um "grande ordinária", "a menina não tem dignidade nenhuma" e coisas desse género.



Mas na classificação ou descrição da criatura feita em privado, o caso é outro. E desculpem mas não há politicamente correcto nem solidariedade feminina que roube o devido desabafo contra quem não tem solidariedade feminina alguma (vulgo, destruidoras de lares; nós sabemos que a  culpa é deles mas é preciso uma desavergonhada para ajudar a dançar o tango) ou contra as traidoras da raça que se portam mal, agem como umas desesperadas e nos deixam ficar mal a todas. Portas adentro, uma senhora diz aquilo que quer e descreve os seus desafectos como achar melhor. Na guerra vale tudo, ou quase tudo.



Porém, é até ridículo estarmos com tais discussões quando o tipo de mulheres e de raparigas que costumam ser assim descritas (tanto pelo sexo oposto, como pelas contrapartes cuja imagem tratam de desclassificar por associação) fazem questão de se mimosear com "insultos carinhosos" entre si, entre amigas ou melhor, entre "migas".

Ouça-se um grupo de flausinas e serigaitas falar, ou perca-se tempo a notar os perfis dessas "meninas" em qualquer rede social, e constata-se logo o óbvio: com "migas" como elas, quem precisa de inimigas?




Do vulgar "gaja" e dos ordinaríssimos elogio-pesca-elogio "lindona, gostosa, poderosa, gata" a uma linguagem de bordel ou de casa de correcção, estilo "minha (ai Senhor, cá vai) badal****/bovina/pega/pu***/suína"... a lista é de fazer corar um carroceiro. 

Se tratam assim as "migas", que dirão às rivais supostamente invejosas com quem vivem obcecadas, em quem adorariam partir uma unha postiça e a quem mandam "beijinho no ombro"?



Em todo o caso, se se dão pelos nomes, se se apresentam verbalmente como se os actos e os trajes não falassem por si, caso arrumado: é legítimo e sem injúria classificá-las assim, de ordinárias para baixo, ainda que lá com os botões de cada um. Quem se auto-proclama animalejo, não pode ofender-se se outrem tratar a bicharada pelos nomes...



Três filmes com looks inspiradores da semana


Eu e a minha mania de me sentar a ver filmes que já devia ter visto mas não me apeteceu ou não calhou. Ou que por acaso estão na máquina do tempo quando acontece andar à procura de qualquer coisa para me entreter nos bocaditos vagos. Quase sempre descubro alguns visuais inspiradores. Certos figurinistas têm de facto talento - e uma vida mesmo divertida...

1- The Bachelorette


Este tem uns anos, acho que até já tinha passado os olhos por ele e a premissa não me agradou muito (três raparigas dadas a todos os excessos e desbocadas que se fartam? Not my cup of tea!). Porém, vendo melhor, vale a pena deitar o olho às toilettes de Kirsten Dunst, que faz o papel de uma queen b***tch de primeira. E já se sabe, as vilãs (ou pelo menos, as anti-heroínas) vestem sempre melhor.


 Quando se trata de estilo, evil is cool. Para começo de conversa, a personagem, Reagan, tem um cabelo louro-branco lindo e decente (porque uma coloração loura, seja em tons frios ou quentes, não tem meio termo: ou parece muito bonita e muito cara ou é francamente reles). A actriz é loura natural mas mesmo assim está um trabalho muito bem feito. E é claro que uma má da fita carreirista mas sofisticada e super composta, uma mulher-Alfa do tipo Rainha do Gelo, não podia usar outro que o louro-açúcar de CZ Guest ou de Carolyn Bessette-Kennedy


A combinar com um bâton encarnado do mais clássico e um guarda roupa muito polido e lindo de morrer em tons neutros,com direito a acessórios Chanel, peças de Phillip Lim e Kate Spade. Os visuais das outras personagens também merecem uma olhadela- nomeadamente, Isla Fisher num vestido que só não passa das marcas porque é Dolce & Gabbana, que sabe a fronteira exacta entre o sexy e o vulgar: se um vestido é muito apertado, convém que seja extremamente bem feito.

Bom trabalho da versátil stylist Anna Bingemann.


2 - Millenium: The Girl With the Dragon Tattoo

Quando saiu não me despertou curiosidade, e esta semana apanhei o filme a meio... agora vou ter de o rever com atenção para mais detalhes, mas foi o suficiente para me agarrar às toilettes. Yup, que se dane o serial killer, o guarda-roupa é que me fez colar ao enredo.
 A figurinista Trish Summerville fez um trabalho extraordinário, embora subtil, vestindo na perfeição uma série de personagens diferentes de épocas distintas. 

De trajes dos anos 1960 ao visual Bon Chic Bon Genre da sempre lindíssima Joely Richardson passando pela elegância sóbria de Daniel Craig e pelo look punk-gótico de Rooney Mara (com uma colecção impressionante de perfectos e biker jackets envelhecidos de propósito que não consegui averiguar mas suspeito que possam ser Rick Owens, Yang Li ou Balenciaga)não esquecendo o seu disfarce de benzoca com vários trench coats e vestidos (Burberry?) em tons de bege, o filme é uma festa para olhos atentos.

3- Hansel & Gretel: Witch Hunters


Este já andava há séculos com curiosidade de ver e por acaso saiu mais interessante do que eu esperava. É muito difícil fazer a belíssima Gemma Arterton parecer mal (acho que a menina quando quer fica bem até num saco de batatas) mas nunca a vi tão bonita como aqui- o mérito também vai para o departamento de caracterização e maquilhagem, sem dúvida. 


Porém, quando se trata de um filme de conto de fadas, cuja acção se desenrola numa época não especificada (sec. XVIII? Inícios de século XIX, quando a versão mais conhecida de Hansel & Gretel foi publicada? Um período imaginário maluco?) é muito fácil cair na tentação de os figurinos parecerem máscaras baratas.


 Aqui não: a costume designer Marlene Stewart assegurou que cada detalhezinho foi bem feito, que as roupas tinham o devido toque "gasto" e que cada peça foi ajustada ao milímetro para quem a vestiu. De modo que temos um festival de corpetes, espartilhos, blusas de camponesa, calças e casacos em pele que parece bruxedo, mas que bem pensado, dava para pedir algumas coisas emprestadas e levar à rua nesta estação sem problemas, vide.





Tuesday, January 19, 2016

"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer"?


"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer" - a minha sábia avozinha repetia com frequência este adágio local, bem duro de escutar naquelas idades em que mesmo o adolescente mais bicho-do-mato quer fazer muita fé no seu grupinho de amigos. Era outra maneira de nos entranhar um dos lemas de uma família reservada e orgulhosa, que acreditava firmemente que o sangue é mais espesso do que a água

Ouvi vezes sem conta o raio da frase, geralmente seguida de um sermão que enaltecia os pais, os irmãos, a cara metade e meia dúzia de parentes escolhidos como as pessoas que realmente se importam connosco. Os amigos - os verdadeiros - segundo a avó eram raros, e mesmo esses estão sujeitos a falhas, egoísmos e imperfeições. Mesmo os que parecem tão próximos como a nossa barriga (que raio de imagem, mas seja) podem surpreender-nos com umas voltas e umas dores em caso de crise.


 Raciocínio que me ensinou a dar um grande desconto aos amigos, ou a não esperar demasiado deles - uma grande ajuda para manter amizades de longa data. É que por muita devoção que alguém nos tenha, no fundo cada um cuida dos seus assuntos. E quanto mais não seja, num momento de aflição, por muito que goste de nós, o desejo de salvar a pele ou de levar a melhor pode falar mais alto. Os heróis são poucos, os mártires e os santos menos ainda, e flores de honra andam em vias de extinção.

 Quem não põe expectativas muito altas, não se desilude. E já não falo dos "conhecidos", dos "amigos de estroinice", das simpatias superficiais. Mesmo entre os "bons e velhos amigos", há que lembrar sempre que ninguém é perfeito. E que uns são mais imperfeitos do que outros. 


Longas amizades existem, mas boa parte delas vive do "gosto muito da tua companhia" ou do "uma mão lava a outra". As puras, as abnegadas, as que confirmam a frase "amigos são a família que escolhemos" são raríssimas.

A outra avó, que pensava de modo semelhante, essa jurava pelo ditado "é no hospital e na prisão que se reconhecem os amigos". Pois a experiência mostrou-me que ela tinha razão mas que para cobrir todas as eventualidades, é preciso juntar-lhe a conclusão de Oscar Wilde: é mais fácil ser solidário com um amigo em desgraça do que ficar genuinamente feliz pelo seu triunfo.


Quem já foi bafejado pela boa sorte sabe que nos bons momentos tem de ser extra lúcido com as amizades, pois em alturas dessas há três tipos de amigos: os verdadeiros (que comemoram a boa nova, que se alegram pelo amigo sem despeito e sem se sentirem diminuídos) os aproveitadores (que surgem ou ressuscitam do nada para se colarem à boa estrela e tirarem alguma vantagem disso) e finalmente, os invejosos (que de repente se mostram intimidados, inferiorizados, pouco à vontade, ou têm mesmo a lata de darem "elogios" que não soam como deveriam, ou de "alfinetar" a alegria alheia). 


Para estes últimos, seria melhor que a pessoa ficasse como estava, que não saísse da cepa torta. Um amigo verdadeiro partilha o bom e o mau, quer o bem do outro e confia nele; logo sabe que uma volta para melhor na sua vida não o fará mudar nem estragará a amizade.  Se acreditasse nessa falta de carácter, não seria amigo da pessoa para começo de conversa. Por isso, se o (a) amigo (a) está a ter um merecido sucesso/enriqueceu/ herdou uma fortuna/emagreceu ou mudou de visual/recebeu uma grande promoção ou prémio/está numa relação fantástica/ficou famoso/casou bem/etc, para um amigo a sério a alegria dele (a) é como se fosse sua. 


 Mas para um amigo inseguro ou invejosito, já não é bem assim. Nem se trata tanto, ou só, do "porquê ele (a)e não eu?" (até porque as suas ambições podem não ter nada a ver com as do amigo). É mais um sentimento de não querer evoluir mas não gostar que os outros evoluam.  Recentemente li uma frase, esta para quem gosta de moda, que explica a ideia: "uma amiga verdadeira não te deixa sair de casa mal vestida". Já uma amiga falsa, alegra-se à socapa pela triste figura da outra.

Gente assim prefere a versão mais infeliz - e portanto, mais confortável - do suposto amigo. 


Sem mesmo dar chance à pessoa de provar a sua fidelidade, assume coisas do tipo: " fulano está todo importante: aposto que nos vai desprezar" ou "já não me sinto à vontade com sicrana agora que ela é a mais gira do grupo".A sua frase preferida é "beltrano mudou muito e já não conhece os amigos, fez-se um peneirento de nariz empinado" mas no fundo quer dizer "ele (a) já não é um de nós". Seja o "um de nós" um dos encalhados, um dos falidos, um dos fora de forma, um dos desleixados, um dos que estão em relações que não prestam, um dos azarados ou simplesmente, um "um de nós" imaginário.

Se tivesse cinco euros por cada vez que ouvi dizer isto de alguém, sabendo que se passava precisamente o oposto...vivia que nem um pachá.

Por isso, desculpe avó, mas permita-me aperfeiçoar a máxima: é na queda em desgraça e nos grandes triunfos que se distinguem os amigos.


 Mas um amigo verdadeiro tem outros traços distintivos. Um dos mais importantes, que normalmente não engana, é a paciência para aturar a pessoa no seu pior. O que é mais do que levar flores ao hospital ou chamar um táxi para quem bebeu demais. É sofrer o lado menos divertido, mais crítico, mais patético e definitivamente, menos glamouroso do amigo, por meses a fio se necessário for. É fazer pelo amigo ou amiga o que se faria pela família - maldizendo a sua sorte às vezes em modo "estou bem arranjada contigo" (elas) ou "olha-me este #$%&" (eles), gritando à pessoa que se recomponha porque já ninguém aguenta, mas nunca pondo em causa o seu apoio.


Outro que traça a linha entre os amigos bons e os outros é proteger o amigo a todo o custo - seja defendendo-o se outros dizem mal dele, interrompendo categoricamente alguma piada de mau gosto que visa vexar a pessoa, ficando ao seu lado na iminência de um desacato de bar que ameaça
 tornar-se físico ou sabendo escolher lados. Eu diria mesmo que a coragem é a característica mais marcante de um amigo verdadeiro porque a amizade, como o amor, exige bravura.


Muitas vezes um amigo vê-se posto à prova: seja interrompendo quem fala mal de um amigo ou troça dele (o que obriga a vencer a timidez, passar por desmancha-prazeres ou incompatibilizar-se com alguém) seja recusando-se a ser amigo dos desafectos do amigo, ou mesmo a tolerá-los com cordialidade: o inimigo do meu inimigo meu amigo é


 Ser amigo de alguém exige outra característica sine qua non, que é a lealdade: tomar as suas dores, custe o que custar. Nem sempre há formas diplomáticas de o fazer, mas lá dizia Dante: os piores lugares no inferno estão reservados a quem fica neutro em tempos de crise.


 Digam o que disserem, quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. É impossível gostar muito de uma pessoa, ser seu confidente, comer o seu sal como dizem os árabes... e ao mesmo tempo compactuar, em alegre camaradagem, com quem lhe fez alguma maldade ou lhe quer mal. Isso não é exequível nem no amor, nem na guerra, nem na diplomacia, e na amizade também não. Claro que se pode dizer que acontece às vezes na política, onde os inimigos de hoje são os aliados de amanhã.


 Mas não esqueçamos que os políticos têm de ser vira casacas uma vez por outra e procuram o poder acima de tudo; logo a arte do possível , a realpolitiks, não pode espelhar-se na amizade
 nem servir-lhe de modelo. Se alguém "não está para se maçar" se diz muito "eu não me meto nisso" ou "isso é lá com vocês, resolve tu"; se prefere ofender um íntimo a melindrar um suposto conhecido, não é que seja uma pessoa dada à paz: é antes dada ao egoísmo, ao seu conforto, à sua cobardia.


 Até pode ser uma alma muito divertida, muito prestável, um cortesão razoável ou um político de mão cheia, mas não serve para amigo do peito. Amigos são aliados. Nas alegrias e nas guerras de cada um. 

A frase "sou amigo do meu amigo" é estafada até à exaustão, mas muita gente confunde amizade com simpatia ou afinidade. Não percebe que "ser uma barriga que nunca há-de doer", ser um amigo verdadeiro, não é tão diferente de fazer um casamento durar. É uma canseira. É um compromisso. É um juramento de bandeira. Por muito que viva de farras e galhofas, é uma coisa muito séria para gente séria...



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