Recomenda-se:

Netscope

Saturday, January 30, 2016

Momento "tá-se tudo a passar"


O ano começa de tal modo que de repente só me lembram estes anúncios ou a canção do Jorge Palma. Ainda faltam uns dias para o Entrudo logo não sei se é disso, mas
 apetece-me indagar, como um senhor que conheci, se é do Carnaval, se é dos caretos, se é a Lua que anda a pôr as pessoas malucas. É que quando se começa a correr o fado da doideira, parece uma epidemia e é ver os casos a desfiarem-se como dominós a
 fazerem-se cair uns aos outros.


 Senão, vejam o que tenho visto, que fico capaz de me benzer com a mão esquerda e não é nada comigo: são filhos a renegarem pais, pais que se entretêm a arreliar os filhos de manhã à noite, melhores amigos de toda a vida a cortarem relações de forma súbita sem razão aparente - (com direito a cenas infantis do estilo "eu vou-te bloquear-te e deletar-te", como cantava o outro) gente ressabiada que se entretém a fazer chamadas assustadoras em plena luz do dia e a deixar nabos no pára-brisas das pessoas (nabos, por amor de Deus; de todas as partidas que se podiam pregar, para quê pendurar legumes tão volumosos?). 

Outros decidem dar em hippies, largar tudo, dormir no jardim com este frio para estarem "em contacto com a natureza e o seu Eu interior" e há ainda os que vendem o que têm e não têm para entregarem nas mãos de gurus new age porque o reiki e as pedras é que os hão-de salvar- até deitam fora todo o guarda roupa para passarem a vestir só túnicas. Já que falamos em horóscopos e bruxedos, o Ano do Macaco está à porta e pode ser que venha daí tanta macacada por antecipação. É melhor reforçarem a vigilância do Zoo e arranjarem algum espaço extra por lá pelo sim, pelo não, não vá ser preciso albergar gente também. Criarem alas a mais no manicómio também não seria má ideia, já agora. Ainda a procissão vai na ponte e já está assim...chegando a Primavera não sei o que será. Será que só eu reparo, ou notaram alguma coisa estranha lá para as vossas bandas?

Ainda há pais como deve ser.


E já se sabe, não há nada como um pai à moda antiga, com as quartas bem medidas, armado de sentido estético e do decoro, para pôr juízo nas filhas (que é afinal de contas, o seu trabalho) não importa a circunstância nem a idade delas. Nunca é tarde para aplicar a bela máxima chinelo canta, moral avança. Ora vejam:

1- Este pai de Terras de Vera Cruz que (em modo barraqueiro, mas pronto) impediu a filha de dançar twerk ou funk ou lá que coreografia demoníaca da selva vinha a ser aquilo, em plena rua, lembrando duas grandes verdades: "não foi assim que a tua mãe te educou" e " ninguém aqui é teu amigo nem te respeita". Ah grande.


PAI Pega filha Dancando Funk e olha o que ele fez :o
Posted by MC Maromba on Sunday, 24 January 2016



2- Um pai americano naquele programa em que as noivas desmioladas torram os miolos para escolher entre vários vestidos praticamente iguais e quase todos horrorosos (invariavelmente cai cai, tubo ou suspiro, a mostrar as gordurinhas todas). Homem conservador apesar do aspecto de motard, recusou-se a pagar 8 mil dólares  por um balandrau transparente e decotado ou a levar a filha ao altar nesses preparos feita flausina, porque "isso não parece vestido de noiva". A única forma de a pequena - que vá lá, mostrou tino- não sair dali de mãos a abanar foi a stylist propor alterar o modelo, acrescentando-lhe umas mangas 3/4. Ficou bem bonitinho, assinale-se, mas o melhor foi o comentário do sensato papá - que ele sim, devia ser o stylist ali: "sem as mangas, o vestido parecia incompleto". E é mesmo isso que muitos vestidos actuais me parecem...meio vestido! Um vestido meio feito, outro vestido por fazer, diga lá minha menina que disparate vem a ser? Como alguém comentou aqui no blog há dias e muito bem, querem por força usar no dia do casório vestidos de baile de debutantes. De baile de debutantes manhoso, vá, que os vestidos de baile é suposto terem qualidade e não serem decotados em exagero. 

You go, dad. Mai´nada.




Friday, January 29, 2016

"Nova" lei da Física: tudo quanto é mau * e reles* se junta


Digo nova mas se calhar nem é-  às tantas algum cientista genial já detalhou a fórmula dando-lhe outro nome ou usando outra premissa que não o mau e reles

Possivelmente, dizer que o semelhante atrai o semelhante resumiria a ideia, mas fica aquém. É que reparem, vejamos isto através de exemplos: muitas vezes temos dito por aqui que quanto mais extravagante, estapafúrdia, indiscreta e pouco democrática ou favorecedora uma tendência, mais depressa é adoptada por pessoas fora de forma e que já usam coisas discutíveis. Quando vieram as litas, foram rapidamente adoradas por quem usava bandage dresses de lycra brilhantes e curtíssimos  a mostrar o pernão. Quando vieram as tachas, foi ver quem gostava de calções extra curtos e sapatões a juntá-las ao seu guarda roupa. Fica tudo a fazer pendant, tudo a brilhar, tudo a dar nas vistas e de preferência, tudo em simultâneo que é para ferir bastante os olhos aos pobres inocentes que passam na rua. E quem diz isto em modas, di-lo nos comportamentos e nos hábitos. Por alguma razão certos sítios, certos bares, certas lojas atraem certo tipo de público e não outro. 



E quantos relacionamentos, negócios ou amizades acabam graças às más companhias? Pessoas aparentemente decentes que do nada, escolhem ombrear com gente que não interessa. E se postas perante um "ou nós, ou eles" nem pensam duas vezes. Quando assim é, fica o reles imediatamente identificado e não há que ter pena: como diz o povo, só se estraga uma casa...ou não se estragou, porque o mau fundo estava lá e foi só ver com uma luz daquelas forenses onde o lixo andava. A coisas que não prestam parecem ter um ímane para se colarem umas às outras. 



Basta estar atento para ver como isto é matemático e dar graças por esse detox espontâneo. Imaginem que em vossa casa o pó, as embalagens, os papéis e tudo o resto marchavam por seu pé, salvo seja, para a pá do lixo e daí para o caixote. E que uma vez lá, o saco preto dava um nó em si próprio e ia aos pulinhos até ao contentor ou Ecoponto, poupando-vos trabalho. Ficavam a lamentar-se? Não, até agradeciam ter a casa a brilhar sem nenhum esforço vosso ou da senhora da limpeza. E assim é com a vida: quando o que não interessa se afasta automática e alegremente, indo juntar-se ao seu semelhante em modo lé com lé e cré com cré, está a cumprir-se a mais básica das leis naturais...


Quando uma mulher quer ser maluca, nem os Nazis a impedem.


Apesar de um certo humor negro - dentro dos limites, vá- não me desagradar, nunca na vida me imaginei a gracejar com o Holocausto. Mas o caso - contado neste artigo fantástico do Expresso-  é verídico e não só diz muito da maluquice feminina (que nunca escolheu épocas) como da natureza humana, que é igual a si própria não importa quão negras sejam as circunstâncias.

Pois bem, imaginem-se como judeus em pleno Terceiro Reich. Fugir era dificílimo, a morte quase certa e os poucos amigos que ousassem esconder-vos arriscavam-se eles próprios a ir parar a campos de concentração e extermínio sem tir-te nem guar-te. Que fariam? Eu não sei quanto a vós, mas a não ser que me juntasse a um dos poucos movimentos resistentes (hipótese provável, pois detesto estar parada) ia tentar ser tão invisível quanto pudesse, e muito agradecida por cima.

Pois bem, não foi isso que fez uma tal Erika, vivaça rapariga de 19 anos e a última a ser escondida por um corajoso casal de médicos que sofreu severas consequências à conta disso: farta de estar confinada ao calor, não teve mais nada: decidiu ir para o terraço apanhar banhos de sol como Nosso Senhor a trouxe ao mundo. 


E ainda por cima, de modo a ser vista pelos estudantes do liceu em frente, que depois de apreciarem o espectáculo julgaram tratar-se de uma louca suicida e chamaram a polícia. Atrás da polícia veio a Gestapo e se não é uma amiga da família, certificada 100% ariana, vir comprometer a sua reputação de mulher séria dizendo "nein, herr kommandant, quem estava a apanhar banhos de sol era eu!" tinha marchado tudo para Auschwitz naquele dia. 

Ora, eu não tenho nada contra as pessoas tomarem banhos de sol como bem entenderem lá na sua privacidade. Se se sentem muito confiantes na sua figura e querem atirar fora a roupa, more power to you. Mas não à vista de todos e com a Gestapo à perna... ainda por cima, arriscando a pele de quem, por amor ao próximo, oferece a sua hospitalidade em circunstâncias tão complicadas. Isto de ser Bom Samaritano é mesmo um grande desafio. Além das conjunturas que apresentam sempre surpresas, ainda é preciso lidar com a potencial  doideira de quem está a ser ajudado. Se isto não prova que há doidivanas que põem a vontade de ser exibicionistas acima de tudo, até da sua felicidade e segurança, não sei...



Thursday, January 28, 2016

A lamechice do "és responsável por aquilo que cativas"


Ainda há dias eu recebia comentários no post onde vos confessei a minha embirração com O Principezinho. Ou antes, o meu "não entendo o sururu espiritual à volta do Principezinho". Que se é para virar do avesso verdades transcendentes, mais valia agarrarem-se ao Catecismo...

Às voltas com os leitores que comentaram a obra super existencialista, cheguei a uma conclusão para ficar em paz com o maçador do Principezinho: o seu mérito (ou o seu mistério) reside em tanto crianças como adultos lhe acharem graça e algum significado. Lá que o livro é esquisito é, tenho de admitir. O que não me converte à seita do Principezinho (havia de ser lindo; "igrejas" em forma de planetas com embondeiros, sacerdotisas a gritarem histericamente "cativa-me!" e casórios a serem celebrados com "amar não é olharmos um para o outro- é olharmos juntos na mesma direcção" em cântico gospel) mas pronto, reconheço que faz pensar, nem que seja para embirrar com a coisa.

Ocorreu-me isto porque entretanto, um artigo que me passou pelos feeds apontou que a famosérrima frase, que muita gente (e em particular, mulherio que levou uma tampa monumental e quer fazer o ex sentir-se culpado) adora partilhar a esmo nas redes sociais-   não foi bem traduzida para português. 


*Enjoo*

Ou antes, que a tradução escolhida e que se celebrizou não foi a mais ilustrativa. Aparentemente, comentou alguém, Exupéry escreveu o livro em francês e inglês nos E.U.A. (não confirmei, tive preguiça aliada a uns problemas informáticos) e na língua de Shakesperare, terá usado o verbo "to tame" - domar

Ou seja (peritos na língua de Baudelaire e na obra, corrijam se há aqui algum mal entendido porque em inglês, se é verdade que se escreveu "tame", não restam dúvidas) a raposa esquisitóide diz ao Principezinho "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que domas". E não "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas". 


"Brasileirices" à parte, bate certo.


A ser assim, a frase perde 50% daquilo que sempre me arreliou e faz muito mais sentido. É que reparem, cativar é uma coisa muito vaga e pode ser perfeitamente unilateral. Qualquer pessoa se sujeita a ir na rua e um obcecado ou uma necessitada qualquer apanharem uma paixoneta por si. E dizerem que sofrem muito por causa disso, acharem-se com direitos mesmo que o caso não seja correspondido. Ou pior, dar-se dois dedos de atenção por cortesia e zás, ficar-se responsável pelas ideias malucas que os outros acham por bem meter na cabeça. Aquilo que cativa os outros não me diz respeito, ora essa. Cada um que seja responsável pelos seus actos e pelas ilusões que cultiva lá consigo. Foi uma citação que sempre me pareceu bastante irresponsável, egoísta, cheia de inversão de culpa e de feeling of entitlement. Lá está, muito usada por gente que acha que tudo lhe é devido, sobretudo por (este exemplo é mesmo o mais comum e expressivo)  mulheres carentes que decidem ir atrás de um homem que não lhes liga, que se dispõem a tudo e quando ele, que nunca as enganou, as manda à sua vida ou vai à sua vida, nothing promised no regrets, lá choramingam "mas tu CATIVASTE-ME!". Ou pela sua versão masculina, vá. Em ambos os casos, ora tretas, desculpem lá a frieza que sinto para com raposas que não chegaram às uvas.

Mas domar, domar é outra coisa. Domar implica envolvimento de ambas as partes. Domar pressupõe muito tempo juntos, sugere que os implicados mudaram alguma coisa um no outro, que estiveram profundamente ligados. Aí entra o sentido do dever e da honra, aí a raposita já teria alguma razão. Quem se envolve, quem se une, quem jura e promete, quem deixa cair as suas defesas e faz cair as da outra parte, se há uma rendição mútua, quem molda o outro e se deixa moldar a uma imagem ou projecto que é de ambos (seja no amor, noutros afectos ou em qualquer outro tipo de associação) tem uma responsabilidade. As ligações não desaparecem simplesmente. Mas em todo o caso são sempre obra de dois envolvidos, não se enganem. Mesmo de quem se deixa domar. Isso do "tu cativaste-me" ou do "ser domado" nunca morre solteiro, por mais que o queiram justificar com frases tristes e fofinhas...









Gigi? Oui, c´est moi




Gigi Hadid é a modelo du jour. Um produto do momento e da geração de manequins que - via redes sociais e por seu próprio punho- veio devolver o mediatismo (e o rosto) às modelos, depois de longos anos em que a indústria, a ressacar da era das top models, optou por dar protagonismo aos designers fazendo marchar fileiras e fileiras de meninas de Leste anónimas, pálidas, esquálidas e praticamente clonadas, com uma ou outra vivaça rapariga brasileira a roubar ocasionalmente os holofotes.



 É quase escusado falar no que tem feito Gigi - seria mais rápido detalhar o que não tem feito - basta ver como liderou o desfile da Versace na Semana de Alta Costura de Paris e a sua presença na "casa de bonecas" da Chanel... e isto só nos últimos dias. 



Ora, haverá que apontar a Gigi Hadid. Nomeadamente a overdose de partilhas nos social media e a sua proximidade ao clã Kardashian, em especial à sua best friend forever Kendall (por muito que se desculpe a Kendall Jenner o pecado de ser Kardashian) com quem até partilha a personal stylist, Monica Rose. Nada que cause admiração, já que a mãe de Gigi, Yolanda Foster, de quem a menina herdou a beleza, foi uma modelo famosa nos anos 80 e mais recentemente, uma bem sucedida reality star daquelas do Canal E!


 Algumas vozes mais vanguardistas também apontam que o seu estilo não é nada de especial; que se esperava mais de uma modelo com o seu ainda recente, mas vasto currículo; que o que veste nada acrescenta ao que usam milhares de raparigas da mesma idade por este mundo de Deus e que só escapa com alguns desastres porque
 é ela a vesti-los.

Talvez. Mas posto tudo isso (e sabem como embirro com reality shows e celebridades postiças - nem ligo ao Instagram, imaginem) eu gosto de Gigi Hadid, e não será só por um certo je ne sais quoi que lhe atribuem. Tão pouco por ser uma rapariga atlética e com curvas que, não fazendo por se transformar noutra coisa, também não advoga bandeiras lamechas de beleza real, embora a sua atitude de california girl que se está nas tintas tenha um certo apelo.

Se torço por Gigi, se gosto de a ver (quem disser que não estava extraordinária no desfile de Max Mara em Fevereiro do ano passado carece de sentido estético) é, antes de mais, pela sua beleza. Cara de bebé à parte (e isso contribui para o seu encanto) Gigi é realmente bela. Não é uma dessas celebridades razoavelmente aceitáveis que com uns retoques e montes de maquilhagem nos tentam fazer engolir como beldades. Nem, como Kendall ou Karlie Kloss, uma rapariga altíssima, com perfil de modelo e uma cara bonitinha, que nos vendem como "linda". 

Por muito relativo que isto pareça, há uma diferença entre ser gira e ser bela, entre ter porte de modelo ou mesmo ser uma manequim extremamente talentosa, carismática ou exótica e ser bela. Cara Delevingne é carismática e exótica, por exemplo. Mas Gigi é bela. Tem os traços correctos, na medida exacta entre o harmonioso e o diferente para se tornar notada.

 Nem demasiado sexy como Kate Upton, que está ali no limite e apesar de linda de rosto uma pessoa se questiona se o corpo dela será mesmo bem feito ou não, nem uma beleza relativa como Alessandra Ambrosio. Eu diria que está no topo com outra verdadeira beleza do momento, Emily Ratajkowski. Mas mais vestida, vá.



Gigi tem um tipo de formosura que é intemporal. Como outras belezas famosas, possui um condão raro: levaria cartão verde em várias épocas. Consigo imaginar Gigi a ser elogiada na Roma Antiga, no Renascimento, na Belle Époque, nos anos 50, 60 e até mesmo nos 70, 80 e 90. Haverá mais belas do que ela? É possível. Mas ela passava no filtro e isso é o suficiente.




Depois, é cheia de vida e isso sente-se. Quanto ao seu estilo, haverá decerto melhor e mais espontâneo - Rosie Huntington Whiteley, por exemplo; igualmente uma beldade que veste do mais casual ao formal com uma classe incrível. 



 Nem sempre Gigi  acerta; tem dias. Falta-lhe provavelmente o berço e a experiência de Rosie. No entanto, dois pontos positivos aqui: ela veste (quase sempre) para as curvas que Deus lhe deu. E com a sua mistura (ou a mistura que a stylist faz para ela) de golas altas, ténis brancos, caxemiras, boyfriend jeans, tons  neutros, skinny jeans, botins, statement coats, peças desportivas, cuissardes e inspirações dos anos 1990 com um ou outro vestido clássico pelo meio, consegue três coisas: usar o que a favorece, inspirar raparigas da sua idade e ao mesmo tempo, ser uma boa referência para mulheres dos 30 em diante. É simples? É. E eu à originalidade prefiro peças de qualidade. Funciona? Sem dúvida. Acima de tudo, resulta nela. A roupa pode até não ser aquelas coisas, mas a forma como cai vai muitíssimo de quem usa, e isso é mérito de Gigi. 



E por fim, o nome- Gigi! É um petit-nom nome queridinho, à starlet da era de ouro de Hollywood, à moda antiga. Sou suspeita porque isto de Gigis, Lilis, Sissis, CZs, Zazás e Mimis é tudo parecido, mas imaginam-na a ficar famosa com o seu nome de baptismo, Jelena? Parece nome de uma princesa guerreira de Conan, o Bárbaro. Sempre gostei de uma mulher capaz de se impor sem usar sequer o primeiro nome todo. Uma mulher que o faz não se preocupa sequer se a vão levar a sério ou não. 



Tem tanta confiança em si mesma que se está perfeitamente marimbando. É um bocado " sou a Gigi, tenho uma cara de bebé fofinha, gosto de comer como gente normal mas não me acho nem mais real nem mais glamourosa do que as outras lá por causa disso e visto o que me apetece- deal with it."

Wednesday, January 27, 2016

Uma mulher prudente vale o dobro, até os bárbaros o sabem.


Há dias estava a passar um dos filmes de Conan, o Bárbaro, com Arnold Schwarzenegger, que me divertiam bastante em pequena. Não me franzam o sobrolho, eu adorava o Conan em BD. Uma escolha estranha para uma rapariga, talvez, mas gostava mesmo. Não só pela figura desempenada do bárbaro mas pelas guerreiras, bruxas e princesas que encontrava pelo caminho. Bruto e bárbaro ou não, Conan era um homem Alfa. Conan não aturava desaforos. Conan levava tudo à frente à espadeirada até se tornar rei. Conan não falava muito, dizia "Crom!" quando se espantava com alguma coisa e olhem lá. Era mais um homem de acção e eu sempre preferi gente de poucas falas.


Para terem uma ideia, eu que nem gosto muito de ir ao cinema (partilhar uma sala apertada com estranhos, sem poder fazer pause ao filme quando me apetece e sentir-me na obrigação de lá ficar mesmo que me aborreça de morte não é o meu cup of tea- para isso, vou ao teatro) quis ir ver a versão nova, com o bem apessoado Jason Momoa. Fail. É claro que não gostei. A atmosfera não tinha nada a ver com a dos filmes originais. 

Mas voltemos à personagem do Conan, arquétipo da masculinidade no seu estado mais puro. A dar uma olhadela à história com olhos de adulta, notei algo que me tinha passado despercebido. A Princesa que a pandilha do Conan está a ajudar começa a ter um fraquinho por ele e pede umas dicas à guerreira Zula (a lindíssima Grace Jones) que, não sendo mulher de meias tintas, lhe diz o seguinte:



E a boa da Princesa Jehna decide levar o conselho ao pé da letra. No final, sem sequer avaliar como quem não quer a coisa se o herói está interessado, pede-o em casamento à frente de todo o mundo. Ah rapariguinha decidida e descaradona. Mas o bárbaro, que além de não ser pássaro de gaiola (naquele momento, pelo menos) é um rapaz à moda antiga, fica perplexo com a lata e recusa categoricamente: "terei o meu próprio reino, e a minha própria Rainha". Uffff, que vergonhaça. 

Teria sido melhor se se fizesse misteriosa, não? Ao menos não levava uma tampa MEGA diante da corte inteira. Ela ainda lhe dá um beijo (que isto a dignidade às vezes escapa até nas melhores famílias) a ver se o Conan muda de ideias, mas ná. Até podia ser uma Princesa, mas perdeu o encanto quando fez de flausina. Ele não gosta de serigaitas, como qualquer homem de brio. Bárbaro ou não bárbaro, Conan é um cavalheiro: prefere arrebatar a mulher dos seus sonhos, sentir-se um conquistador, a contentar-se com a primeira que se lhe oferece de bandeja. Porque já se sabe, isso tira a piada toda, vai contra a Natureza e não costuma dar bom resultado.

E é claro que mais tarde Conan casa, tem o seu reino e a sua Rainha, fazendo justiça ao ditado: "não é que ele não fosse homem para casar. Não lhe apetecia era casar contigo". Livra... #dignidadefeminina. Cabe em todo o lado e poupa embaraços!

As coisas que eu ouço: duas palavras novas


Cada dia, uma novidade...eis que esta semana aprendi duas de que nunca ouvira falar...isto realmente, só se entedia quem não tem imaginação nem presta atenção ao que se passa.

1- Uma alma amorosa mas taralhoca lá de casa: "esse tipo esbanjou a fortuna toda em mulheres e vinho verde; era mesmo um «doidivã»". É que com a pressa de contar a história, a pessoa 
baralhou-se e fez um portmanteau entre "doidivanas" e "bon vivant". Acho uma palavra genial, lá por causa das coisas. Tenho visto por aí muito "doidivã" e ouvido falar em mais uns quantos estroinas destravados de tal ordem  que chamar-lhes apenas "doidivanas" ou "bon vivants" é um eufemismo. É preciso acrescentar algo que soe a divã, pois uma visitinha ao psicanalista só lhes fazia era bem. Inauguro pois a palavra e faço questão de a utilizar daqui para a frente!

2- Um grupo de rapazes brutamontes num café famoso pelas suas bifanas (fiquei um pouco desiludida com as ditas, mas sempre aprendi uma palavra diferente). "Que «gaja» horrível! Vejam só, um «gajo» que joga no Benfica arranjar um «saco» destes! A tipa é um autêntico «saco»!».
 Pois bem, no tempo da avó o nome para as raparigas desengraçadas era "frasco". Também já tinha ouvido os brasileiros referirem-se a uma pessoa chata, maçadora, inconveniente, como "saco" ou "mala sem alça" ou visto quem comentasse de alguma infeliz "aquela mulher é tão feia que devia trazer um saco pela cabeça". Confesso que também já classifiquei algumas criaturas mal enjorcadas de "saco mal atado" ou "saco de batatas" (cá com os meus botões, claro; não tive a indelicadeza de lhes dizer tal coisa, embora se calhar lhes prestasse um favor). Mas saco, assim só, saco, para chamar feia a uma pobre coitada, é inteiramente novo. As pessoas são mesmo criativas quando se trata de cortar na casaca alheia...

E no meio disto tudo, fiquei sem saber quem era a mulher, para ter a certeza se era assim um "saco" tão grande ou se estavam só a ser mauzinhos. 





Tuesday, January 26, 2016

Rita Ora, ou como roubar os flashes sendo a mais pindérica da festa

 Atelier Versace apresentou-se na Semana de Alta Costura de Paris com propostas para a Primavera/Verão 2016.

E como é costume nestes eventos o dress code é mais ou menos livre, sendo que as convidadas tentam homenagear o anfitrião usando alguma criação sua. 

Mas Rita Ora, a menina que quer por força ser uma versão ghetto de Gwen Stefani, tentou ter aquilo que no seu entender é o melhor dos dois mundos: cumprir o costume e não deixar de roubar as atenções aparecendo o mais provocante possível. E conseguiu-o (já lá vamos) usando este vestido que na passerelle não parecia mal de todo  mas que no chão e numa figura que apesar de esbelta não é de manequim, lhe deu um ar baratinho todos os dias.



Já disse por aqui várias vezes a minha opinião sobre Versace: faz coisas admiráveis (como as maravilhas usadas nos últimos anos por Angelina Jolie e Lady Gaga) e tem um conhecimento fantástico do corpo feminino...quando se afasta um pouco do estilo que a celebrizou: cortes, aberturas, redes, alfinetes, cores ácidas e toda uma sensualidade que na vida real raramente funciona como deveria (veja-se este vestido, que consegue fazer Irina Shayk parecer rechonchudinha).

 Mas voltemos à assistência do desfile: nestas circunstâncias, não é suposto usar-se o mesmo que se leva para uma qualquer entrega de prémios. Embora haja uma certa carta branca, a intenção é parecer mais uma conhecedora do que ficar com ar de quem vai pisar a passadeira encarnada. Pede-se uma certa subtileza (e estar confortável q.b. , afinal a ideia é ficar algum tempo sentada a ver e a comprar ; não tanto a ser vista). Outras convidadas como Lara Stone e Miroslava Duma, mais entendidas nestas andanças, apresentaram-se com o que é costume: calças, casacos, vestidos de dia com qualquer coisinha a mais e uns saltos bonitos. A própria Donatella foi de perfecto em pele e calças.


Elena Perminova, Joan Smalls, Lara Stone e Miroslava Duma

Mas não a Ritinha, que quando me tentam vender como it girl quem escorrega para o vulgar não me convence e não me convence mesmo e nisto eu raramente me engano, pronto.


Até pode ter havido uma razão qualquer para gelar e estar mal sentada o tempo todo neste mini vestido (que além de tudo me parece um tamanho acima do dela) e com umas não-sandálias, mas não foi essa ideia que passou nem às revistas da especialidade, por isso vou arriscar dizer que foi assim porque lhe deu na realíssima gana e que o contexto não salvou o look. Se gostava do vestido, comprava-o para levar aos próximos prémios MTV (para isso é adequadíssimo, goste-se ou não do modelo). Nesta situação, a contrastar com toda a gente confortável, simples e devidamente encasacada, Rita Ora dá a impressão de que Donatella perdeu o tino, convidou umas bailarinas de kizomba para animar a festa, e que uma se deixou ficar à socapa a conviver com a assistência. Just my two cents here e isso vale o que vale, mas que destoou, destoou.



Monday, January 25, 2016

Iolanda d´Anjou dixit (ou poderia ter dito): ai o futuro!


Quando terminei o post de ontem sobre a corte de Carlos VI, lembrei-me de um dos poucos romances históricos que apreciei mesmo - As Mulheres do Rei, de Dinah Lampitt - que se passa precisamente nesse cenário. Recomendo muito, a quem se interessar pelas peripécias de personagens tão fascinantes como Agnès Sorel ou Gilles de Rais

Embora seja complicado encontrá-lo nas livrarias (que são um lugar cada vez mais perigoso para o intelecto) ainda vai aparecendo em anúncios particulares online. Ora, o livro dá um enorme destaque à extraordinária Iolanda d´Anjou, a Rainha dos Quatro Reinos, uma das mulheres que mais admiro, como vos tenho dito.

E nele, a bela e competentíssima Rainha tem uma tirada que quase de certeza foi só licença poética da autora, mas que eu a imagino perfeitamente a dizer:

               "O futuro saberá decerto cuidar de si mesmo".


É que não seria possível governar melhor que muitos homens, gerir brilhantemente a educação de cinco filhos, lidar com intrigas palacianas de dar com uma pessoa em doida, ser uma esposa dedicada, cuidar dos interesses de um genro que viria a reinar num período delicadíssimo e fazer tudo isto sendo elegantíssima o tempo todo se andasse aflita a pensar no porvir, por mais negro que ele parecesse. A verdade é que só temos o presente para tratar do futuro. Conforme nos arranjarmos hoje, as peças vão-se compondo sozinhas para amanhã...não vale a pena uma pessoa fazer planos com os ovos que a galinha ainda não pôs, nem arreliar-se com aborrecimentos que o mais certo é não virem a acontecer.

Iolanda era o mais próximo que existiu de uma mulher perfeita, e se calhar a fórmula para isso estava em seguir à risca a regra Bíblica: basta a cada dia o seu mal, logo há que ir levando um desafio de cada vez...

Fugir da Matrix. Literalmente.


Há dias passava The Matrix na televisão e o senhor mano - que me arrastou ao cinema para ver essa pérola quando saiu - sentou-se a rever. Imitei-o e fui catapultada para a mistura entre "mmm, isto tem alguns momentos interessantes" e "tirem-me deste filme que isto não faz sentidozinho nenhum" que senti no mágico ano de 1999. Aquela estranha combinação entre seca monumental, imagens bonitas e instantes "isto dá que pensar" que me ficou, misturada com o aroma das pipocas naquela sala já extinta.

E de facto, o filme inaugurou um género. Não foi só marcante para os nerds de serviço. Para os meus olhos que já então eram atentos ao figurino (no caso, cortesia de Kym Barrett) havia todo um festival de estilo minimalista de finais dos anos 90 com muito cabedal, napa e silhuetas longas à mistura.

Só embirrava com aqueles óculos à pintas quando não havia sol algum, que nunca me pareceram naturais de usar e davam aos actores um ar mesmo parvo por mais cool que eles se esforçassem por parecer.



Porém, a ideia de "nada é real, tudo é permitido" era de facto interessante, levanta inúmeras metáforas, mais programação informática menos programação informática. Máquinas apocalípticas à parte, a teoria de haver realidades paralelas ou de o nosso mundo não existir realmente mas ser um de muitos hologramas não era nova na altura e continua a não ter nada de tão invulgar assim. Não faltam *supostos?* cientistas e filosofias esotéricas que a defendem. Depois, pode aplicar-se o conceito de "matrix" a qualquer carneirada em que toda a gente acredita sem fazer perguntas...o politicamente correcto actual é uma "matrix" de todo o tamanho!

E vejamos - até não me importava de nada ser real mas eu ter domínio sobre isso tudo e com um simples download, poder escolher a realidade à minha volta, descarregar a roupa que me apetecesse vestir ou programar-me para saber, em horas, qualquer idioma, arte marcial ou o que me desse jeito. Nada mal!



O que não tirava ao filme, a meu ver, uma certa idiotice de toda a gente estar cheia de medo de um papão que ninguém sabia muito bem o que era. Os argumentistas bem tentaram convencer-me de que a Matrix era uma coisa profunda, simbólica e muito má, mas pareceu-me sempre que andavam à volta de uma coisa que anda de noite. Um bocadinho como a Aparição, livro que toda a gente aplaude mas que para mim nunca passou de uma maluqueira pegada sem grande sentido.

De modo que eu, habitualmente toda pela honra, o heroísmo e a justiça, fiquei sempre convencida de que, se me visse em tais assados, faria como o tripulante da nave que se vendeu à Matrix: quero acordar na minha realidade perfeita, podre de rica, poderosa e sem me lembrar de nada desta porcaria.

É que entre alinhar com o "inimigo" e passar a vida a ser ligada a fios, a comer papas horrorosas, embrulhada nuns camisolões sem jeito nenhum e a morar numa nave  poeirenta, desconfortável e a tresandar a óleo de motor...irra, prefiro ser o judas da história...

Sunday, January 24, 2016

Carlos VI e a pior festa de sempre





Quase toda a gente - quanto mais não fosse nos tempos de faculdade ou coisa que o valha - já assistiu a uma festa (ou mais) que se descontrolou, acabou mucho loca e deu origem a histórias deste género. Ou no mínimo, com a polícia a ser chamada pelos vizinhos à conta do barulho. Há sempre um amigo doido com ideias brilhantes que nunca dão bom resultado. 

Pois bem, no caso do Rei Carlos VI (pai do famoso Carlos VII) que coitadito, começou por ser apelidado O Bem Amado mas passaria à História com o cognome O Louco, esse amigo doido das ideias literalmente luminosas (já lá vamos) foi Huguet de Guisay, fidalgo conhecido pela sua crueldade e esquemas, mas estimado na corte por ser um grande bon vivant.

Estava-se a 29 de Janeiro de 1393 (ou seja, daqui a dias fará precisamente 623 anos) e a Rainha Isabel da Baviera desejava comemorar em grande o terceiro casamento de uma das suas damas mais chegadas. A pompa e circunstância da celebração, porém, tinham outro motivo: animar o Rei seu marido, que sofrera no ano anterior um ataque de nervos que assinalaria o início da sua triste doença.

Ora, o novo casamento de uma viúva era sempre alvo de piadinhas algo obscenas, por isso um grupo de cavaleiros nobres, com de Guisay à cabeça, convenceu o soberano a alinhar numa brincadeira: vestirem-se de "homens selvagens" (figura mitológica semelhante aos faunos e aos sátiros, muito em voga naquela época) para dançarem e dizerem más criações aos convidados, desafiando-os a adivinhar a sua identidade.


Homens selvagens, por Albrecht Dürer 

 Até aí tudo bem. O problema é que, para darem a si próprios o ar de selvagens "peludos e cobertos de folhas" os foliões arranjaram umas fatiotas e umas máscara que os cobriam da cabeça aos pés, feitas de, adivinhem, linho colado com resina. Não contentes com isso, diz-se que se uniram uns aos outros com correntes. Por precaução, foi ordenado que não houvesse lume algum na sala - nem velas, nem tochas, nem nada. 

E os mascarados lá começaram a sua dança, fingindo-se possuídos de um frenesi diabólico, saltando e guinchando em grande animação. O pior é que o irmão do Rei,  o Duque de Orleães, não fora informado das regras do baile e ainda por cima tinha-se atrasado por vir já bem bebido de outra festa qualquer. Outros dizem que foi de propósito, por irresponsabilidade ou vingança porque Orleães  era useiro e vezeiro em meter-se em sarilhos e até se suspeitava que tinha pacto com o diabo, mas nunca se saberá ao certo. 

A verdade é que no meio daquele pandemónio, só se reparou que o Duque, trôpego de bêbedo, trazia um archote na mão quando a perna de um dos bailarinos pegou fogo. Tarde demais!



Em segundos cada dançarino incendiou o próximo e gerou-se a cena mais horrorosa que se possa imaginar. Transformados em tochas humanas, os "selvagens" uivavam de dor enquanto tentavam livrar-se dos fatos, incendiando tudo o que tocavam. A Rainha, a única a saber que o marido era um dos bailarinos, caiu logo desmaiada. O Rei só escapou à tragédia porque a jovem Duquesa de Berry, de apenas 14 anos, era tão corajosa como esperta: tinha reconhecido Carlos VI e tratou de o afastar dali e de o esconder sob a sua volumosa saia, protegendo-o das faíscas.


Detalhe da Duquesa acudindo ao Rei
 O pânico gerou-se e quatro homens foram queimados vivos antes que alguém lhes pudesse valer, apesar de vários convidados se ferirem a sério tentando ajudá-los. Além do Rei, só um dos foliões sobreviveu: o Senhor de Nantouillet, que se atirou a um grande tonel de vinho e ficou lá até as chamas serem extintas. O mórbido caso, que ficou conhecido como "O Baile dos Ardentes",  gerou uma revolta tal que a corte (e em particular o Duque de Orleães, considerado culpado por toda aquela desgraça) foi obrigada a fazer penitência e a pedir desculpas públicas aos cidadãos de Paris, não fosse o povo cumprir a ameaça de "depor o rei e matar os nobre dissolutos". 

Qual Jackass, qual carapuça - gente imprudente e brincadeiras estúpidas sempre houve, principalmente quando há copos a mais e juízo a menos. O que não existia na Idade Média era MTV nem Youtube, para registar as façanhas que às vezes acabam mal...

  

A nobre arte de ser indomável (Black Snake Moan)


O título e a premissa deste estranho filme - em que Samuel L. Jackson redime uma Christina Ricci totalmente perdida com um método no mínimo fora do vulgar - sempre me ficaram, embora fosse fita que eu vi só uma vez.

A ideia de um ser humano ter dentro de si uma fera escondida, um lado negro, um desassossego que quando está activo, leva tudo à frente e causa mais destruição ao "hospedeiro" do que aos outros pareceu-me fascinante.

 Em algumas pessoas esta faceta, este "lobisomem interior" existe mas raramente se manifesta, ou só ataca com subtileza - não sendo por isso menos perigoso, apenas mais discreto. Leva a bloqueios e a escolhas erradas e só quando é amansado de vez se percebe que era a raiz de todos os problemas.

 Noutras almas semelhantes, mas de cunho mais visceral e impulsivo, esse rugido da cobra negra é bastante evidente: são pessoas muitas vezes belas, brilhantes, com todas as qualidades, mas de quem se diz com pena "ninguém tem mão nele (a)!". A Cobra Negra, salvo seja, leva-as a extremos e excessos, a nunca se entregarem de facto a nada nem a ninguém, a uma combinação estranha entre grande confiança e profunda tristeza, a não levarem os projectos até ao fim, a ficarem aquém do potencial que toda a gente vê, mas que ninguém parece ser capaz de moldar nem de polir.



Gente que sofre de uma Cobra Negra existe em todas as classes sociais e géneros, sendo que os estragos, ou o grau dos estragos, condizem com o seu estilo de vida, com o ambiente em que se move, apresentando diferentes níveis de gravidade de acordo com tudo isso. É um mal comum aos grandes génios, poetas, artistas, beldades - que se consomem tantas vezes demasiado cedo e têm destinos românticos, mas trágicos. Rafael? Morreu de amor nos braços da FornarinaFlorbela Espanca? Sabemos como acabou. Jim Morrisson? Destruído de dentro para fora pela sua alma de bacante. Marilyn Monroe? Morreu em busca de um amor que lhe bastasse e a protegesse do mundo. E podia citar exemplos o dia todo...

 Pode haver mil causas para a Cobra Negra existir e rugir lá dentro: um trauma ou um amor perdido que causou essa cicatriz, carência e sensação de que "falta uma peça no puzzle" espoletando um fogo interior impossível de conter (em Literatura a história de Humbert, em Lolita, de Duras em O Amante ou de Heathcliff, em Wuthering Heights, são exemplos típicos) . Ou pode simplesmente ter-se nascido com ela, com algo de aparentemente indomável. Muitas vezes, é uma combinação das duas possibilidades. 



E a cura, o alívio, a redenção, quase sempre residem em encontrar a peça, ou as peças, que faltavam. Para algumas pessoas está em achar a causa, a raiz da questão, o motivo de fundo - muitas vezes num divã, em modo Freud explica. Olhando de frente para a besta, ela é dominada para sempre. 

Outras alcançam a paz na religião ou exorcizando os seus fantasmas através da arte. Outras ainda, encontrando ou reencontrando o amor que lhes faltava, a pessoa que- quase sempre, sendo feita da mesma massa e tendo ela própria uma Cobra Negra consigo - é capaz de as compreender e de esgotar, refrear ou pacificar esse excesso de energia sem ganhar queimaduras no processo. O amor incondicional tudo cura, ainda para mais se der frutos que obriguem a tirar as atenções de si mesmo.

Tudo o que é belo e poderoso na natureza possui o potencial para a perfeição, mas o risco do descontrolo. Tudo o que brilha pode arder com demasiada intensidade. Tudo o que é forte pode ferir. Os verdadeiros afortunados são aqueles que, dotados de tanto fogo, de tanta luz, encontram em si ou em outrem as ferramentas para brilhar e aquecer sem incêndios nem cinzas...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...