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Saturday, February 13, 2016

Quando eles dizem (ou acham) que amam.



O termo "amo-te" banalizou-se intoleravelmente. Em verdade, tenho para mim que sempre foi coisa que se dizia da boca para fora, naqueles momentos em que se confunde o entusiasmo da paixão (ou até da paixoneta) com algo mais forte e mais sólido. Ou pior, nos instantes em que alguém, com más intenções, faz mil juras e protestos para se aproveitar da ingenuidade alheia, ou da patética tonteria feminina de ceder a tudo para obter umas migalhas de amor. Não há nada mais triste do que isso.

Mas enfim, antigamente essas promessas eram palavras que saíam da boca dos namorados e o vento levava, ou que ficavam esquecidas num pedaço de papel, na arca das trapalhadas daquelas missivas que o poeta classificou, com justiça, como ridículas.

Hoje em dia, em que até a pessoa mais desmiolada tem voz activa nas redes sociais, o caso é um bocadinho pior, pois qualquer "amo-te" (seja sentido, falso, postiço, para inglês ver ou genuíno mas mal colocado) é declarado em público sem qualquer pudor. E com o S. Valentim à porta,  preparem-se para ver expostos ao mundo muitos "amo-tes" que se não fossem em suporte digital, não valeriam o papel em que seriam escritos.


Creio que não devia ser assim. Acredito, como o Carlos da Maia, que o amor verdadeiro é algo tão delicado que, não devendo ocultar-se (se alguém precisa de andar às escondidas numa relação, então não devia estar nela em primeiro lugar) convém ser envolto num certo pudor quase religioso ou supersticioso. Como os verdadeiros devotos se acanham em expor a sua fé, os verdadeiros amantes não querem ver profanado o seu amor. Ou seja, quem ama a sério não esconde, mas também sabe ser discreto. Não quer ver a sua devoção exposta a más intenções alheias, nem roçá-la por aí com os "amores" vulgares de quem está junto à falta de melhor.

E se numa mulher um "amo-te" vão e fátuo não cai lá muito bem, mas é desculpável porque muitas são românticas ou emocionais... de um homem há que ouvir isso com uma dupla camada de sal, já que é suposto eles terem terror à palavra e ao compromisso, salvo quando sentem verdadeiramente.


Já não falo dos "amo-tes" mentirosos e aproveitadores acima descritos. Deixemos isso de lado, porque é sórdido demais. Falemos naqueles que até se sentem, mas são um caso de mau diagnóstico.

Quando um homem diz que ama, ou age como se amasse, se arde na intensidade de um suposto "amor" que o consome e lhe vira a cabeça, mas esse "amor" só lhe serve para as conveniências, se não vem acompanhado dos cuidados mínimos para que a "amada" se sinta bem, tranquila, segura, então para o diabo com tais "amo-tes". Se por "amor" entende posse, ciúme, ou "venha a nós"...então não é amor: é obsessão.

Mas vejamos outro estilo de "amo-te contrafeito":  se um homem que aparentemente é bem intencionado, que não gosta de banalizar o palavrão, ao cabo de uns meses lá diz um "amo-te" mas não lhe passa pela ideia "esta é a rapariga dos meus sonhos" nem a necessidade de ter aquela mulher nos seus braços para sempre, se não pensa em fazê-la feliz e protegê-la acima de tudo, se não vê atrás dessa mulher um berço e um altar, se o facto de "amar" não o converte num homem diferente e melhor, então não ama verdadeiramente.




 Atrevo-me até a adivinhar que não está sequer realmente apaixonado, mas que se entusiasmou por alguém que estava à mão; que cedeu ao hábito, à necessidade biológica de afeição e companhia; que caiu num "amor vulgar" desses que, mesmo quando duram, não aquecem nem arrefecem. É como um amor comprado na lojinha do chinês, produzido em série para desenrascar. Da espécie dos "amores" que enganam os dois, que não estão à altura de serem chamados "amor" e que ninguém merece, em suma.

Afinal, se para cada panela há um testo, como diz o povo, haverá algures um "amo-te" verdadeiro para cada alma neste mundo de Deus. Daqueles que têm o fogo devorador e a intensidade da paixão, mas também a nobreza do sacrifício e a matéria prima da eternidade. Só que também há por aí muito medo e muita preguiça, muita vontade de "fazer dever", muito espírito de "antes mal acompanhado do que só" e muitas outras coisas que enchem os restaurantes de romantismos baratos todos os Fevereiros.


Adele devia ter adoptado o stage name "Adélia Desgraçada"



Oh Adelinha, vamos sentar-nos aqui e ter uma conversa de mulheres, que eu até gosto de a ouvir, acho que tem uma imagem óptima e só quero o seu bem. Tudo bem que os ex, quase todos ou todos mesmo, são uma praga da Humanidade (muitos só pelo facto de partilharem o planeta, outros porque aborrecem deveras) e uma inesgotável fonte de inspiração. 

Depois há os primeiros amores que voltam e a magia até se dá: veja-se este caso de dois namorados separados pela II Guerra Mundial que nunca se esqueceram e agora se reencontraram com 90 e poucos anos, que até me fez aparecer uma lagrimita ao canto do olho.

Mas - eu que conheço muito pouco da sua discografia, vá- será que cada single seu tem de versar um amor antigo? É que depois de Hello, de que eu até gostei bastante mas  já não era o primeiro nem o segundo com o tema "porque é que ele se foi embora?" ainda vem mais este bater na mesma tecla. Será que a  Adele é assim tão desgraçada? O Herman José tinha uma personagem assim, o fadista Felisberto Desgraçado, mas acho que nem ele era assim tão chorão.  



De qualquer maneira....bem dizem que quem vive do passado é museu, mas a julgar pelo sucesso da menina concluo que as suas letras devem falar à alma de MUITA gente que tem pedras no sapato, ressabiamentos, mágoas mal resolvidas e uma vontade infinita de gastar kleenexes...

Já estou como a Susaninha: ai meu Deus, como a vida é triste.

Friday, February 12, 2016

Momento national Geographic#6: aqueles casais deprimentes, parte II




Antes do textozinho romântico que é suposto escrever para este fim de semana (vá, sou contra romantiquices e xaropes mas posso desligar o cinismo um pouco) deixem-me amargar-vos um bocadinho as vésperas do Dia dos Namorados, para não ficar tudo muito peganhento.

É que vi isto, não consigo "desver" o que vi e sofrimento adora companhia. Ou seja, tenho de desabafar.

 Já se sabe que as pessoas a quem "tanto lhes faz ser a noiva no casório como o morto no enterro" pioraram muito com a era do Instagram. 



O feio hábito do attention whoring não só é estimulado da mesma forma que uma estufa faz crescer as plantas, como os recursos estão todos à mão para quem quer chamar as atenções sobre si mesmo, ainda que da pior maneira. Sinceramente, às vezes interrogo-me se certas criaturas pensam que estão a partilhar conteúdos para o vácuo ou a falar sozinhas, tal é o descaramento com que publicam intimidades.

E agora há casalinhos que superam isso tudo. Muitos deles vieram mesmo tornar realidade aquele medo que ocorre quando se vêem certos parzinhos mal arranjados na rua: "nem quero imaginar estes dois trambolhos entre quatro paredes!".

Ou seja, criaram a hashtag #aftersex  e desataram a publicar selfies suas depois de...enfim, dos seus rituais de acasalamento. Como diz este artigo sobre o assunto, discrição e privacidade são noções ultrapassadas para muita gente.

Digo isto com voz de narrador de documentário sobre macacos. 




As tais selfies -algumas- nem seriam especialmente reveladoras, não fosse a indicação explícita do que andaram para ali a fazer. Agora se postam tal coisa para mostrar ao mundo que são amados, que andam contentinhos da vida, que não lhes falta nada, que finalmente desencalharam ou para arreliar alguém, já não faço ideia.

Atenção, não digo que, fossem todos os ditos casais de uma beleza de capa de revista, a coisa fosse menos chocante ou menos parva. Isto há namorados ridículos que são como as mães babadas: acham sempre que nunca ninguém se apaixonou à face da terra. Mas enfim, o resultado não seria esteticamente tão disparatado nem tão embaraçoso. 

Há pessoas que brincam dizendo que só falta partilhar online que se foi à casinha; eu acho que já não falta mais nada. Só respeito por si próprios e pelo par, que isso está a faltar de certeza.

 



Terra de idiotas- uma realidade distante?





Esta semana dei uma olhadela ao filme homónimo, que de vez em quando passa na televisão e que nos forneceu tema de conversa para o jantar. Para quem não viu o filme, o enredo é simples: no presente as pessoas de Q.I. elevado vão adiando ter filhos, enquanto a população menos dotada e menos culta não faz o mínimo planeamento familiar, reproduzindo-se como roedores, o que resulta em, daqui a 500 anos, a Terra estar povoada de perfeitos burros vestidos.

Questões reprodutivas à parte (que isso da inteligência às vezes salta gerações e pode nascer um génio numa família de gente estúpida como um melão; talvez não tenha acesso aos estímulos mais adequados, mas não deixará de ser brilhante à sua maneira)
 pergunto-me se teremos de avançar muito no futuro para assistirmos a uma realidade semelhante. 

Não tanto por uma questão de dotes intelectuais inatos, mas pela forma como usar o cérebro está a cair em desuso. 

Senão, reparem: já nem falo em aspectos como o avanço tecnológico, que às vezes simplifica um bocadinho demais (por exemplo, dizem que as pessoas andam a ficar desmemoriadas porque dependem demasiado do Google para confirmar informação) nem do facilitismo no acesso ao Ensino Superior. 



Mas basta olhar à nossa volta com olhos de ver para notarmos que estamos entregues à bicharada: por um lado, as pessoas menos instruídas. Antigamente entretinham-se acumulando muito conhecimento empírico na escola da vida: jogavam cartas, iam à caça, a bailes, dedicavam-se à agricultura, conversavam à lareira, partilhavam receitas, contos e mezinhas, inventavam cantigas ao desafio e para passar as informações mais importantes da actualidade e regular os bons costumes, lá estava a Igreja que quanto mais não fosse lhes dizia "se forem debochados e malcriadões, vão para o Inferno" e as obrigava a decorar uns Padres- Nossos e umas Salvé Rainhas, que se não entrassem na alma ao menos exercitavam a memória.



Hoje, como passam o tempo? A embasbacar -dependendo da faixa etária e localização- para os programas da manhã ou da tarde, pejados de dramas da vida real e de cantores brejeiros que fazem trocadilhos malandros próprios para adolescentes com as hormonas em ebulição, para a Casa dos Segredos, para as séries mais degradantes que a MTV se lembre de fazer ou no limite, para coisas do estilo Jackass. O resto do tempo livre
 passam-no nas redes sociais a partilhar piadas igualmente brejeiras e conteúdos semelhantes ao que vêem na televisão, a discutir futebol como se fosse assunto de estado ou a dançar qualquer música "marota" e "sensual". Nada os diverte se não for brutal, lascivo ou envolver dinheiro. Nos casos piores, tentam copiar os gangs que vêem nos videoclips. Em suma, perderam até o rótulo de "bons selvagens", de gente simples, humilde e genuína, para estarem cada vez mais básicos, em contacto como nunca com as necessidades e os comportamentos do Cro-Magnon.


Mas não julguemos por um instante que só a instrução salva alguém: não é pela camada "culta" da população que nos salvamos. Não só pessoas com estudos superiores admitem orgulhosamente ler pornochachadas e o culto ao grotesco tomou conta da Arte,  como  ainda há dias vimos a loucura que vai pelas faculdades do continente americano (no Brasil a loucura é completa e nos E.U.A. pouco mais se adianta) e as inutilidades politicamente correctas que intelectuais e cientistas perdem tempo a analisar, em vez de tentarem esclarecer os mistérios do universo ou fazerem por solucionar os problemas reais da Humanidade, como era costume.


Vão-se preparando, é só o que vos digo. 

Thursday, February 11, 2016

Alegoria das pessoas- bolo


Visualizem  o seguinte cenário: vocês vão à padaria e vêem um bolo lindíssimo, artisticamente feito. Uma verdadeira obra prima da cake art. Não resistem a provar uma fatia, cheios de gula e curiosidade, convencidos de antemão de que tem de ser delicioso como parece. Mas mal lhe ferram o dente...percebem que afinal aquela Mona Lisa da pastelaria não sabe rigorosamente a nada (acontece muito, até já vos contei um episódio) ou que até sabe um pouco mal, a creme de pasteleiro (blhec) em vez de natas e doce de ovos. Imaginem pior ainda, pois estamos na Quaresma e convém não tentar muito as almas: que sabe a azedo (Credo!). Depois, não contente com enfiar-vos este grande barrete, o malfadado bolo provoca-vos uma intoxicação alimentar que vos deita por terra três dias.

Voltariam a achar os bolos dessa padaria apetitosos? A sentir vontade de os provar? Duvido. Por muito bela que fosse a escultura do pastel, por muito aparato que fizesse na montra e que até lhe reconhecessem a formosura, a recordação do mau estar ia 
impedir-vos de se aproximarem dele. A não ser que fossem extremamente teimosos ou masoquistas.




Pois há pessoas que são exactamente como um bolo desses. São apelativas (bonitas, carismáticas, poderosas ou cheias de glamour) e com isso, conseguem impressionar por um tempo, mantendo por perto amigos ou um amor. Mas tantas asneiras fazem, tantos desgostos dão, tantas vezes desiludem, é tanto mais do mesmo, que a certa altura uma pessoa já fica cega para a sua beleza ou o seu encanto. Podem aparecer no maior esplendor, e até se lhes reconhece os atributos com que andaram a enganar os incautos, mas já não causam efeito. Olha-se para elas como quem vê um bonito edifício abandonado ou uma escultura bem conseguida mas sem outra utilidade além de ocupar espaço. Pior ainda, entra-se em modo "já nem te estou a ver, já me pareces um mosquito". 

A não ser que se seja de uma teimosia ou masoquismo sem limites. Mas como diria a Mafalda (abaixo) "a paciência tem limites, e o infinito também".







"Pistoleiras" sem fronteiras


Ainda estive para empregar o termo Aventureiras sem Fronteiras, mas receei que não se percebesse que género de aventureira estava a descrever.  Isto para não escrever Rameiras sem Fronteiras que não ofendia ninguém, já que as meninas são do género de se tratarem  amigavelmente umas às outras por "bitch", pegas e outros "mimos carinhosos" que agora são moda entre certo tipo de mulheres. Mas como não queria um título muito malcriado, Pistoleiras sem Fronteiras ou Loureiras sem Fronteiras também serve.

Isto porque a fazer zapping descobre-se cada pérola...



Eis que a Sic Radical anda a passar este programa, espécie de Jogos sem Fronteiras, o concurso que tanto animava os Verões da nossa infância (nunca perceberei que graça achava eu àquilo, mas entusiasmava-me) ou de Gladiadores Americanos, mas com flausinas de péssimo ar que se esgatanham, insultam e tramam umas contra as outras para disputar 100 mil dólares. 



Ou seja, as galdérias em causa (há que chamar tudo pelos nomes)  lá fazem as corridas de obstáculos, os puzzles gigantes e as gincanas com acessórios de esferovite, mas com muita peixeirada, palavrão, twerk, unhacas gigantes, traseiros de hectare ou de melancia, tatuagens horrorosas (juro que vi um beijo garatujado num pescoço) coxas grossas com mini saias de lycra e outros trapos de stripper medonhos pelo meio. Enfim, o costume.  Aliás, o título do programa em Portugal é mesmo "Desavergonhadas".



Mas sabem o que me incomoda? Nem é o conteúdo em si, que já se sabe que o mundo anda como anda e se uma pessoa vai afligir-se com o mau gosto passa a vida a ter quebras de tensão. É o facto de - como nos Jersey Shores e outros "Shores", nos Kardashians e nas Casas dos Segredos - estes comportamentos ordinários serem apresentados como positivos, vencedores, aspiracionais ou no mínimo, normais e inofensivos. 

Não há ironia na coisa, não há um "vejam estas primatas", nem um  "digam às vossas filhas que não tentem copiar isto", muito menos um "não imitem isto em casa, não sejam desavergonhadas, vulgares e grosseironas". Nada. É em modo "tudo muito lindo" para ser imitado pelo tipo de pessoas que nós sabemos e transmitido às infelizes crianças que elas vão pondo no mundo. 

Admiram-se com as figuras que vemos na rua e com os atrevimentos que às vezes saltam ao caminho de pessoas de bem? Eu cá não.

Wednesday, February 10, 2016

Um tipo feminino em vias de extinção.




Só há dias reparei que o canal FOX Crime está a passar duas das minhas séries preferidas: Poirot e Miss Marple, as muito glamourosas adaptações da obra de Agatha Christie. Que pratinho. 




Apaixonei-me pela série Poirot em pequena (começou em 1989!) porque a avó era fã acérrima e eu fazia-lhe companhia ao serão, já então a pasmar para as roupas e os cenários. Íamos buscar um petisco qualquer e ficávamos na saleta com uma manta sobre os joelhos a observar como o detective belga punha as suas "celulazinhas cinzentas" a analisar, tim tim por tim tim, os enredos mais intrincados. Um dia ainda arranjo todos os episódios e uma valente dose de tempo livre - cada história é looonga - para ver tudo de fio a pavio.



 Por Miss Marple interessei-me mais tarde, mas foi igualmente amor à primeira vista: a simpática solteirona mostra como a intuição feminina, aliada ao simples conhecimento e observação da natureza humana, é o suficiente para uma pessoa não se deixar enganar. E claro, há igualmente uma boa dose de figurinos riquíssimos e grandes actores na série (como Julian Sands, Sophia Myles e Saffron Burrows). 



Mas para uma observadora atenta, os dois programas têm outro aspecto interessante: os cavalheiros e as senhoras. A forma como se vestiam, moviam e comportavam é very british, certo, mas também é um produto do seu tempo.



 Assistindo a Poirot e a Miss Marple podemos contemplar em toda a sua glória a english rose, um tipo feminino em vias de extinção: uma delicada beldade inglesa de pele de porcelana, cabelos naturalmente escuros, acobreados ou louros, olhar misterioso e suave, faces rosadas, uma classe a toda a prova, maneiras impecáveis e modestas. Os ingleses bem se lamentam que o arquétipo tenha quase desaparecido, a favor do estilo stipper chic cheio de extensões no cabelo, saias curtíssimas, bronzeamento artificial alaranjado e quilos de maquilhagem. Sinais dos tempos...

Quem tem juízo e gosto pode sempre inspirar-se no passado. É o que vale.








La bella mafia


Dizia Mario Puzo que na Sicília, as mulheres são mais perigosas do que as armas. Eu acho graça brincar com isso e com a minha costela de que me orgulho bastante, embora tenha tanto jeito para o mal como para fazer crochet. Às vezes calhava bem, porque isto na vida não se pode ser sempre bonzinho, mas tenho de me contentar em vestir como uma vilã de vez em quando (já se sabe que em qualquer enredo a má da fita veste sempre melhor). Nem conseguia copiar nos testes, por amor da Santa! Porém, as mulheres da Sicília têm fama de serem duras de roer, danadas mesmo, mulheres fortes e capazes...e com isso já me identifico, até porque tenho exemplos de sobra na família. Não esqueçamos também a sua mística, sensualidade e sentido de estilo, que tanto inspiram as colecções da Dolce & Gabbana, os anúncios da Martini e inúmeros filmes.


Mas às vezes a realidade supera a ficção: há pouco vi uma notícia que - sem ter graça nenhuma, vá- me fez sorrir. Parece que um grande clã mafioso na Catânia foi apanhado (cerca de 100 pessoas foram presas, suspeitas de trabalharem para a família Laudani)...incluindo várias mulheres, que com os maridos atrás das grades deram andamento aos negócios. Aliás, diz que havia uma que era a autêntica Patroa, a Madrinha daquela gente toda, a cumprir o código da omertà e a cuidar da famiglia de tal maneira que nenhum homem se atrevia a desafiá-la...espertalhona, a senhora!

É pena que o sentido de clã lhes desse para o crime, porque em tudo o resto são, como diria Eça, uns mulherões, capazes de tomar os assuntos nas próprias mãos e de manterem a parentela unida contra o inimigo. Há tradições que não mudam.



Tuesday, February 9, 2016

Tens a mania que és impermeável, ou quê?


O assunto das más companhias já não é novo por aqui. Nem o de pessoas supostamente virtuosas e sofisticadas que por um certo vício decadente (ou porque a sabujice as diverte) acham graça a conviver com gente grosseira, duvidosa ou de má índole, julgando que por serem muito cínicas e muito superiores, escapam à lei do "diz-me com quem andas,
 dir-te-ei quem és".

Mas a verdade é que ninguém escapa a isso, assim como ninguém lhe foge o pé para o chinelo por nada. Isto é como as partilhas e aprovações de conteúdos nas redes sociais: dizem muito de quem partilha ou de quem, à socapa, faz o seu like em páginas ou imagens suspeitas em modo "o que acontece no facebook, fica no facebook". Afinal, a boca fala daquilo de que o coração está cheio. Depois, é um ciclo vicioso: a pessoa gosta dessas coisas ou companhias sórdidas porque está de certo modo corrompida, mas ao expor-se a elas cada vez se corrompe mais.  E se acreditarmos, como vimos aqui recentemente, que há uma lei da física que dita "as coisas reles tendem a agrupar-se" fica mesmo tudo explicado.



 É claro que qualquer um pode enganar-se. Dar o desconto a esta ou aquela pessoa, pensando erradamente "é espalha brasas, mas não é mau diabo" ou até tentar fazer de Bom Samaritano, enturmando a alminha na tentativa de a influenciar para melhor. 

Ou ainda -isto acontece bastante-  deixar-se convencer (por ingenuidade ou numa má fase da vida) por pessoas bajuladoras, loureiras, que dão graxa e se fazem de inofensivas, santinhas ou coitadinhas por interesse. Porém, uma vez descoberta a verdade, há o dever moral de, sem jurar vinganças nem guardar ódios, lhes cortar a confiança. De fugir à sua má influência de uma vez por todas e de não querer, nem por sombras, nem que seja na brincadeira, proximidades com tal tropa fandanga ou ver-se associado a gente dessa. Quem não faz isso, voltando ao mesmo, é porque ou é estúpido de todo, ou acha que é imune e impermeável (que é outra forma de se ser estúpido de todo).

Quase sempre, quem age assim pensa "sei muito bem o que ali está, mas acho piada ao servilismo dele (a). Dou-me com toda a gente e isso não me prejudica nada". Erro crasso...

Pessoas assim, não é que descreiam que basta uma maçã podre para contaminar o cesto. Fazem pior: não se importam de ter um cesto cheio de maçãs podres em casa, porque não tencionam comer as maçãs, só querem ver como apodrecem... sem reparar que com isso enchem a casa de mosquitos e de um pivete a azedo.

Não há que tapar o sol com a peneira nem inventar nuances: quem sabe com quem anda e não se aflige com isso, declara ao mundo, bem alto "sou um deles".


Eça de Queiroz dixit: lá por ser Carnaval, não se desfavoreçam de propósito.



Eça de Queiroz, "Os Maias"

Ontem não resisti a partilhar no Facebook do Imperatrix uma imagem carnavalesca divulgada por outro blog, o que levantou alguns argumentos interessantes. Coisa esquisita, entretanto o meu post sobre o assunto desapareceu do mural - do meu e de quem partilhou inicialmente o retrato a partir da página original. Censura ou avaria, não faço ideia...tenho para mim que o dono das imagens ficou arreliado com a troça, levou a mal apesar de ser Carnaval e tratou de retirar o conteúdo. Alguns instantâneos do dito desfile ainda estão disponíveis (fiquei curiosa, fui procurar) mas como não pretendo ser cruel e sim explicar um ponto de vista, vou deixar as pessoas em paz.

 Tratava-se de uma menina - até esbelta da cintura para cima, mas no todo com uma acentuadíssima figura de pêra e pernas mais cheias do que seria saudável ou razoável- que decidiu ataviar-se de borboleta descascada, vestindo (ou despindo) uma espécie de maillot com ceroulas recortado aqui e ali de forma a fazê-la parecer mais gordinha do que já era. E não é caso único, como sabemos: bastou olhar para a televisão este fim de semana, que na maioria dos corsos (especialmente nas localidades que ignoram o clima e escolhem inspirar-se no Carnaval brasileiro e não no Entrudo português) havia mulheres e raparigas "fora de forma" em fantasias muito reveladoras, sem fazer caso do frio, da decência ou da estética.



Sem querer bater mais no ceguinho, vejamos uma coisa: brincar ao Carnaval é sobretudo humor. Por isso, se quem não tem uma figura de celebridade brasileira com meses de preparação física para desfilar na Avenida lá no Rio de Janeiro quiser troçar de si própria aparecendo quase despida, está no seu direito.

O problema é que não me parece que seja essa a intenção. Quem se despe para o Carnaval não quer parecer cómica, nem satirizar o facto de estar "gorda". Quem se despe para estes desfiles fá-lo no detestável modo (blhec, cá vai) "o que é bom é para se ver". Em suma, quem desfila em não-trajes exibindo as abundâncias quer ficar sexy. O problema é que não fica e entristece-se caso alguém aponte o facto. É o problema do exibicionismo feminino que anda imenso na moda.

Voltando à rapariga em causa, comentei convosco que com a sua silhueta, o que lhe iria bem era um traje estilo Maria Antonieta (ou Maria Antonieta versão borboleta) pois- digo-o sem qualquer maldade - não precisaria de grandes anquinhas de arame para tufar a saia. Ficava bonita, divertia-se na mesma e a máscara tinha outro requinte. Mas não: a menina quis parecer (ai, cá vai) "boazona" a todo o custo, que agora até está na moda ter (já que estamos a fala de brasileirices) pernão e bundão . Mas até mesmo dentro do exagero e do mau gosto há limites, por isso deu nas vistas...

Como eu não desligo os ossos do ofício mesmo no Carnaval, tenho de dizer isto: até em mascaradas convém ter o nosso tipo físico em atenção. Não só pela beleza, mas para o disfarce bater certo e ficar credível.

Ou seja, há que usar o que combina connosco. Uma senhora gordinha fica espectacular de Rainha de Copas, por exemplo. Uma mulher de meia idade, com curvas e cintura mas um pouco "cheinha" fará um figurão vestida de taberneira medieval. Uma rapariga atlética pode mascarar-se de super-heroína sem problemas (desde que evitando vulgaridades e considerando o frio) e assim por diante. Quem tem cabelo escuro e pele clara, pode aproveitar isso para ir de gueixa; quem é loura, fica muito engraçada de alemã da festa da cerveja; uma morenaça não terá dificuldade em vestir-se de indiana ou de Pocahontas. Claro que é possível recorrer a uma boa caracterização para se disfarçar mais ainda, usando uma peruca e por aí fora, mas quanto mais próximo do nosso tipo for a personagem, mais conseguida e menos trabalhosa será a fatiota.

Eça de Queiroz, sempre muito atento às questões de elegância, defendia esta mesma ideia em Os Maias, na preparação para o famoso baile dos Cohens: cada um deve aproveitar a sua figura. 

Se não aproveita, é livre de brincar ao Carnaval na mesma mas não se pode queixar se não tiver tanta piada...ou se o resultado DEMASIADO engraçado.











Monday, February 8, 2016

Se ainda não decidiram de que se vão mascarar, fica a sugestão de uma heroína


Se têm algum tipo de farda em casa, podem sempre improvisar uma fatiota para homenagear Nancy Wake: uma delicada e sexy australiana bem casada com um rico industrial francês que praticamente sozinha, deu com a Gestapo em doida e matava Nazis com as mãos nuas.

 Começou por trabalhar como enfermeira e jornalista autodidacta, mas viria a tornar-se membro de uma força especial dos Aliados que cooperava com uma facção da Resistência Francesa e uma das mulheres mais medalhadas da Segunda Guerra Mundial.

 Nancy usava a sua perícia em combate e o seu irresistível sex appeal para derreter tudo o que lhe barrava o caminho. Com a cabeça a prémio, escapou de várias ciladas, salvando sempre os seus tesouros: pó de arroz, um frasco de creme de rosto, um saco de chá e uma almofada de cetim. Muitas vezes despistava a Gestapo dirigindo-se aos agentes com o seu sorriso mais doce e perguntando com uma piscadela de olho se gostariam de a revistar. Mais tarde (morreu com 98 anos) recordaria esses episódios com uma mistura de remorso e malandrice "céus, que sacaninha namoradeira que eu era!". 



O seu único arrependimento relativamente às aventuras que viveu foi a morte do seu amado marido, Henri- torturado e executado pelos alemães - pela qual se culpava. De resto, nunca teve medo de morrer: viver sem liberdade, afirmava, não era vida para ninguém.

Os camaradas diziam dela: "é a mulher mais feminina que já vi, até o combate começar. Aí vale por cinco homens!".

Mais uma que não precisou de se declarar feminista  nem de agitar bandeirinhas ou tirar a roupa em público para fazer o trabalho que só uma rapariga pode levar a cabo como deve ser; outra menina que fez jus ao que digo sempre: uma mulher deve ser delicada mas forte como as cordas de um piano. Ou melhor, à frase de Shakespeare: "parecer-se com a flor frágil, mas ser a serpente que se esconde sob ela". Bem podem pregar as extremistas que uma mulher tem de ser masculina para ser levada a sério. Nancy Wake, sempre de resposta pronta, dir-lhes-ia, e passo a citar: "podem meter essas ideias onde o macaco guarda as nozes!". O que quer que isso signifique só ela saberia, mas soa-me a resposta bem torta!


Mas as pessoas perderam a noção do bem e do mal, ou quê??


Por aqui já se falou ad nauseam na moral de elástico, no relativismo exacerbado, nas pessoas tíbias ou sem sal, nos "amigos" que não escolhem lados mas se admiram de serem chamados "Judas" com todas as letras, no "não julgueis" que é moda agora e na máxima (super em voga) que resume tudo isso: nada é errado se te faz feliz. Nem que seja imoral, pouco ético, desonesto, sórdido ou faça o próximo infelicíssimo. Este é o status quo, o esprit du temps.

Mas apesar de não ser já novidade, cada exemplo que aparece ainda consegue espantar. De facto, vêem-se pessoas que levam a pensar se o mundo anda ainda mais cheio de psicopatas encapotados do que se pensa. Fazem o piorio, as maiores baixarias, com uma candura (ou lata) tal que se diria nunca lhes ter sido explicada a diferença entre o certo e o errado. Mentem, intrujam, descem às piores torpezas, traem, vigarizam e ainda muito obrigada por cima ou (se forem mesmo obrigadas a explicar-se a alguma alma que vá contra a corrente ultra tolerante com os pecados alheios e não esteja para defender malucos) dizem que agiram assim porque alguém as tratava mal, ou porque foram vítimas disto ou daquilo em pequeninas.

É o velho caso do trapaceiro que sobe na vida à custa de trampolinices e se confrontado, se justifica atacando "tu não percebes, tu sempre tiveste tudo de bandeja!" (como se não ter pais ricos seja desculpa para a desonestidade) ou da mulher infiel que encolhe os ombros dizendo "eu não era feliz, ele não me tratava bem, sentia-me sozinha!" (como se a separação não fosse uma forma honrada de lidar com tal aborrecimento ).

Fazem coisas destas, e outras, e acham naturalíssimo que ninguém os considere más pessoas. 

Continuam a cumprimentar e a convidar todos, até pessoas que ofenderam se for preciso, tratando meio mundo com uma mistura untuosa de peçonha e mel. E alguns ingénuos caem mesmo nisso, ou porque ficam desarmados com tanta desfaçatez - afinal, quem não deve não teme e quem anda tão à vontade não pode ter feito o que dizem- ou porque quem tem telhados de vidro não atira pedras.

Porém, se as "más pessoas" agem com tanta ousadia, se posam de simpáticas inocentes e pobres coitadinhas como se nada se tivesse passado, é mesmo porque o ambiente é propício a isso: muito pouca gente hoje em dia se afasta de fulano ou beltrano só porque é pantomineiro, de hábitos duvidosos ou moral questionável: é preciso um patife para defender outro, ou quanto mais não seja para o desculpar.

O mais grave é que actualmente, a maioria não acredita já no critério antigo de "ser uma pessoa honrada", logo caiu em desuso a máxima "para que o mal triunfe, é necessário que os bons fiquem a ver"...




Sunday, February 7, 2016

Apuleius dixit: mulheres, cuidado com a tesoura



Há dias estávamos cá em casa a ver os episódios mais recentes de Big Bang Theory e comentámos como Kaley Cuoco, a adorável Penny, perdeu imenso ao ter cortado as suas madeixas. É que há mulheres que ficam bem de cabelo bastante curto - não só lhes dá um ar mais sofisticado como lhes acentua os traços - mas sempre tive para mim que há poucas que fiquem melhor assim. São mais as que apenas escapam com isso sem estragar a beleza toda. 



Atenção-  é verdade  que mulheres realmente belas não precisam de se esconder atrás de um cabelão (recurso imediato de algumas raparigas vistosas, mas de traços grosseiros e gosto duvidoso).

 Mas não deixa de haver algo de mágico, de eterno feminino, num cabelo longo q.b. e bem tratado, penteado adequadamente sem exageros, brilhante, sedoso, aveludado, da sua cor e textura naturais ou se, avivado ou transformado por qualquer artifício, tão perfeitamente cuidado que tal não se note em raízes crescidas, pontas espigadas nem aquele horrível ar de "graxa" ou "palha".

A não esquecer também que as proporções e o estilo de cada uma contam muito: por vezes, quem decide fazer um corte radical pensa apenas se lhe vai bem ao rosto ou não, descurando o resto do corpo e a forma como costuma vestir. Regra geral, sempre  me pareceu que mulheres mais atléticas, curvilíneas ou cheiinhas, com busto acentuado e ombros largos -como  Kaley Cuoco - não ganham tanto em usar o cabelo muito curto: dá ideia que lhes faz a cabeça demasiado pequena em cima do resto, a não ser que optem por um estilo clássico, requintado, muito composto e pouco revelador (vide Morena Baccarin em "V" ou Robin Wright em "House of Cards"). 



Quem tem curvas, se quer cortar, melhor fará em optar por um penteado médio e bem feminino, estilo anos 50, como o de Marilyn Monroe e Ava Gardner.



Numa mulher franzina, uma Kate Moss, uma Twiggy ou Mia Farrow, o caso é outro; essas suportam melhor o "pixie cut" ou "corte à rapaz", dependendo tal escolha apenas do gosto pessoal por um look mais ou menos feminino no sentido tradicional do termo. 



Depois, uma coisa é a sofisticação, outra muito diferente é o sex appeal; uma coisa é a moda e o que agrada à fantasia das mulheres, outra é o que apela ao sexo oposto (pense-se em sex symbols como Brigitte Bardot, Raquel Welch, nos Anjos da Victoria´s Secret, todas do agrado "deles").  É preciso encontrar esse equilíbrio delicado dentro do bom gosto. Mas sou suspeita, pois acredito no que as avós me diziam: quem tem um cabelo bonito, é uma pena não tirar partido dele. Sendo que tirar partido não é necessariamente andar por aí com uma "peruca" enorme, sem corte ou volumosa em demasia, fazendo pouco caso do conjunto.

Pensando nisto, lembrei-me deste texto encantador sobre o assunto, da Metamorfose (vulgo, O Asno de Ouro) de Lucius Apuleius:


"(...) se se cortam os cabelos das mais bela das mulheres, despojando a sua face desse ornamento natural, ainda que ela tivesse descido dos céus (...) fosse a própria Vénus, não poderia agradar, nem sequer a Vulcano. Que há de mais encantador do que cabelos de linda cor, propriamente penteados, que lançam ao sol um clarão doce ou brilhante deixando diversamente deslumbrados os olhos? Não é também um encanto ver uma quantidade de cabelos artisticamente levantados no alto da cabeça ou de um comprimento raro, esparsos e flutuantes sobre os ombros?".

O nobre escritor romano falava a verdade na óptica masculina. É que já se sabe, os homens nisto querem a eterna Vénus...agradam-lhes as madeixas a compor o conjunto, as ondas onde gostam de correr os dedos. Nada a fazer. Em todo o caso é só cabelo, logo volta a crescer: cada uma que faça do seu o que achar melhor, desde que não insista em dar-lhe uma tesourada para a seguir se lamentar, como um Sansão de saias, que perdeu a força da sua feminilidade. Para isso é que não há paciência...

Isto é alarmante. Meus ricos livros. Minha rica independência mental.



E meus ricos filhos, caso algum dia venha a ser mãe, este estado de coisas se mantenha, se espalhe para estes lados e eu me veja obrigada a mandá-los para uma universidade que os sujeite a tais desvarios.

Lembram-se de termos falado de como certos comediantes americanos se estão a recusar a actuar em campus universitários porque os estudantes politicamente correctos, cheios de ideias "ultra liberais" se ofendem com tudo e vêem racismo/sexismo até num mosquito? Ou de como as feministas pediram numa conferência que não se aplaudisse os oradores, para não causar aflição a almas traumatizadas? 

Pois uma amiga aqui do blog, a propósito do post de ontem, enviou-me este artigo do Público que dá conta de como um movimento de estudantes norte-americanos pede para que os universitários sejam "protegidos de livros perturbadores". O que para começo de conversa, em Democracia e no sec. XXI é no mínimo estranho. 

Mas mais esquisito ainda é que não estamos a falar de proibições como houve em tempos idos, que mal ou bem, concorde-se ou não, acabavam por ter alguma lógica pelo menos à luz do tempo. Não estamos a falar de livros que ponham ideias malucas na cabeça das pessoas, que incitem contra qualquer religião ou regime político ou vá, passíveis de chocar, de apelar à violência ou de provocar convulsões na sociedade. Nada parecido com passagens do Alcorão censuradas, como se fez na Turquia, para evitar que fanáticos as tomassem ao pé da letra; nem com o Mein Kampf; nem sequer, vá, com as obras do Marquês de Sade.


Nada disso. Estes meninos e meninas sensíveis, criados com o espírito em algodão em rama e nutridos a finais felizes querem, "em nome do bem estar emocional" ser resguardados de obras que tenham passagens que lhes façam confusão.

Sabem como em pequenos vocês pediam aos pais "não contem mais, não quero ouvir o resto" quando o lobo estava prestes a comer a avó do Capuchinho ou coisa assim? Isso, mas em adultos. 

Ou seja, estas flores de estufa exigem preservar as suas frágeis e liberais mentes pró aborto e eutanásia, pró liberalização das drogas, anti armas e anti-slut shaming contra "papões" tão horríveis  como os contos de Andersen, as Metamorfoses de Ovídio (e outros clássicos romanos e gregos), O Grande Gatsby, Anna Karenina, as obras de Kafka, Virginia Woolf, James Joyce ou mesmo de Fernando Pessoa. Ou seja, tudo livros perfeitamente subjectivos e até brandos mas que -ai Jesus - possam conter "elementos perturbantes" como alusão à violência doméstica, à depressão ou ao suicídio.

Ou seja, a sua preocupação não é tanto com o impacto negativo geral que qualquer destas obras possa hipoteticamente ter, mas com o facto de acordar chiliques na mente fraquinha de quem os lê. Tudo típico de uma geração que adora responsabilizar "os outros" pelas consequências dos seus desmandos.


De resto, o delírio- pois não há outro nome - tem ido tão longe que não se estende só à literatura. Alguns futuros advogados de Harvard, lembra o artigo, pediram que a lei sobre violação não fosse leccionada, porque a mera menção da palavra podia "acordar traumas" em estudantes que tivessem sido vítimas desse crime. Como é que esperam estudar Direito de modo a ajudar alguém no futuro, escapa-me. Talvez contem que quando acabarem o curso os protestos e campanhas feministas tenham erradicado o flagelo da face da terra (antes fosse). Mas também é uma excelente desculpa para ter menos matéria para estudar. Já agora não estudem também o enquadramento legal para o homicídio, porque não é suposto acontecerem tais coisas. E os estudantes de Psiquiatria também podem boicotar as aulas, porque num mundo ideal não existem psicoses, gente depressiva nem psicopatas.

Isto ultrapassa o "crime pensar" que eu temia que se instalasse ou a infantilização da sociedade. Isto é a loucura completa, capaz de deixar a um canto todas as personagens doidas de Alice no País das Maravilhas.






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