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Saturday, February 20, 2016

As avós têm MESMO sempre razão.




Há tempos falei-vos na mania de dormir com mantas e cobertores pesados e consistentes, táctica instintiva mas infalível da avó a que nenhuma insónia de criança resistia. E vá-se lá saber porquê, ainda hoje se me querem ver em modo off é atabafarem-me com um cobertor que não seja leve. O truque resultava tão bem comigo e com os meus primos que já dei por mim a pensar que o melhor presente para um baby shower são mini cobertorzinhos e mantinhas aconchegantes: descanso garantido para pais de primeira viagem!

E por estes dias, cá em casa disseram-me que afinal não era mania, eu tinha mesmo razão. Ou melhor, a minha querida avozinha é que nunca se enganou. Não é um mito, isso de a roupa de cama "pesada" ajudar a dormir melhor. Segundo alguns especialistas, é um santo remédio contra a espertina, o stress e a ansiedade. "Terapeutas ocupacionais têm observado que enquanto um toque leve alerta o sistema nervoso, a pressão profunda é relaxante e calmante. Um cobertor pesado molda-se ao seu corpo como um abraço caloroso. A pressão também ajuda a relaxar o sistema nervoso".

O que, mais do que me dar razão, comprova a máxima "as avós sabem sempre tudo". A intuição de quem foi mãe duas vezes dá-lhes conhecimentos e estratégias que os terapeutas só descobrem depois de se virarem do avesso!

Por isso, se têm dificuldades em conciliar o sono ou crianças que não pregam olho em casa, antes de recorrerem a remédios ou terapias mais exóticos, considerem pôr de lado a roupa "térmica extra leve" e dar uma chance aos cobertores "de papa", às colchas fofas, às mantas de retalhos e aos edredons da arca do enxoval (aqueles que custam imenso a levantar para fazer a cama). À falta disso, até o IKEA vende umas versões actuais bem pesadotas e macias. Uns almofadões e travesseiros bem grandes também ajudam. É cair nos braços de Morfeu enquanto o João Pestana esfrega um olho.










Thursday, February 18, 2016

Três insólitos do dia.



Neste mundo só se entedia quem não presta atenção a nada...



1 - O SEF desmantelou uma rede de casamentos de conveniência que operava num local com o engraçado nome de Bairro da Pasteleira. Os alegados pretendentes pagavam 10 mil euros por cada "noiva". A romântica que há em mim diria "já uma mulher não se pode casar em paz" (porque enfim, há pessoas que se conhecem de formas muito esquisitas mas até acabam por se apaixonar) não fosse algumas das felizes contempladas terem companheiros que pactuavam com o negócio enquanto permitiam, com tais casórios, a entrada sabe Deus a quem no país. Interesseiras e bígamas. Boa.



2 - Os senhores do lixo cá para as minhas bandas têm uma noção de justiça muito apurada. Quem tem a sorte de ter o contentor mesmo ao pé da porta, compensa essa benesse sendo-lhe atribuído um jacó do lixo sem alavanca - o que obriga a cada acrobacia bem perfumada para manter a tampa aberta e atirar os sacos lá para dentro, que vocês não imaginam. Os caixotes com alavanca estão todos em zonas mais afastadas das casas para ninguém ser menos que ninguém, parece-me. Ou então são todos para os amigos. Nem acredito que estou a escrever sobre lixo, mas a questão já me anda a arreliar há tempos. Tenho é preguiça de ligar para a Junta de Freguesia e perguntar por uma coisa tão parva.



3- Um rapaz de 21 anos foi apanhado (num sítio onde já morei, por sinal) a assaltar uma casa. Mas não se julgue que o mancebo roubou ouro e outros objectos pequenos. Ná. Andou dias a carregar uma carrinha das mudanças com o recheio, luxuoso ainda por cima, da casa das pessoas. Ainda pensei que tivesse ficado apaixonado pelas coisas, que nunca tivesse visto mobília tão bonita e se sentisse tentado, que estivesse para casar e lhe apetecesse mobilar o ninho, eu sei lá, porque poltronas, jarrões (alguns bastante monos, diga-se) e sofás não são coisa que se venda na feira da ladra, mas não. Andava a vender tudo na internet, o que levou a que os compradores recebessem a visita da GNR. O crime nunca compensa, mas neste caso o malandro cansou-se realmente para nada...foi um arrastar móveis para os proprietários agora limparem melhor!

Abyssus abyssum invocat


Sabem aquele conto do Aprendiz de Feiticeiro (há inúmeras versões, só portuguesas são umas quantas) em que o bruxo avisa o seu pupilo para jamais abrir uma certa porta? Claro que ele acaba por fazer precisamente o contrário e depois sai de lá de dentro algo que ele não consegue controlar. Tão pouco é capaz de fechar a porta de novo, para que tudo voltasse ao que era e o feiticeiro não dê pela sua desobediência. Uma vez aberta essa passagem, nada fica igual.



Na história do Barba Azul, há um enredo semelhante: a última esposa tem autorização para abrir todos os quartos-  menos um, onde ele guarda os seus segredos mais terríveis. E ao transpor essa porta, não só ela percebe a monstruosidade do passado dele (neste caso era mesmo mau; Barba Azul era um assassino de mulheres em série, bem sabemos) como, ao trazer essas revelações para a luz, ele se enfurece e revela o seu lado pior.

É a velha história da Caixa de Pandora.


Obviamente, os segredos, esqueletos no armário ou simples particularidades das pessoas comuns raramente são tão maus - por negros que sejam- como os do Barba Azul. Nem as reacções tão horríveis como a dele. E dificilmente o conteúdo dos quartos fechados será tão destrutivo como a magia do Feiticeiro. O que não significa que não saiam da mão. Que não magoem, o que leva a devolver a afronta atirando com uma revelação igualmente desagradável. Ou que quem tinha a porta fechada não revele, face à confusão que de lá saiu, a sua faceta menos bela.



De vez em quando, numa discussão, numa de catarse, abrem-se estas portas. E ninguém fica igual: nem o aprendiz, nem o feiticeiro. Nem o Barba Azul, nem a mulher. Porque o abismo atrai o abismo. Quem olha para o monstro é fitado de volta.

Tudo se transforma e dificilmente volta à pureza inicial. A não ser que a destruição seja tão grande - e o elo entre os intervenientes tão forte - que a explosão revolva a terra e acabe por dar maior vigor às raízes. 

Não tendo a certeza disso, é melhor deitar fora a chave e passar longe desses corredores. Há portas que são trancadas a sete chaves por uma boa razão.



Wednesday, February 17, 2016

"Isso não é amor, é violência"



Um novo vídeo a alertar contra a violência no namoro anda a correr as redes sociais, e dá que pensar - tal como o aumento das queixas relacionadas. Antigamente podia culpar-se um alegado status quo de misoginia, hoje se calhar podemos deitar as culpas à morte do cavalheirismo, isto sem contar que nem só as meninas são vítimas desse mal. Mas talvez seja mais útil atalhar o problema do que apurar-lhe a raiz com ideias utópicas pelo meio.




 O que me aflige mais no triste fenómeno é a sua subtileza (ou a subtileza com que começa e se instala): repare-se que, afirma o Observador, 22% dos jovens não reconhece que possa estar a ser vítima de violência, e 16% (isto é chocante) considera "normal" forçar o outro a intimidades indesejadas. 

É importante alertar para os sinais, porque poucos agressores entram à bofetada - isso seria horrível, mas um sinal de alerta imediato. A violência é muito mais discreta e consegue ser bastante confusa. Começa, quase sempre, pela "suave" agressão psicológica que não tarda a descontrolar-se.

 E nisto (sem querer pôr o pé em searas que não são da minha competência) eu diria que todos os cobardes se parecem. É uma brincadeira de mau gosto aqui, um dito ácido ali, uma cena de ciúmes de bradar aos céus mais adiante para depois evoluir, mas assentando sempre no descaso pelos sentimentos do outro, na indiferença pelo sofrimento que se provoca, no controlo, no desrespeito, na capacidade de ser cruel

O namorado que, "na brincadeira" põe defeitos no intuito de diminuir a auto estima de uma rapariga, não se ensaiará, mais tarde, em abusar noutros sentidos. O que a atormenta com delírios possessivos pode muito bem "perder a cabeça" e passar das palavras aos actos. A namorada "apaixonada demais" que afasta o mais que tudo da família e dos amigos, que controla cada passo dele, corre o risco de escalar para algo muito pior. Não estou a exagerar. Conheço casos. Há raparigas terríveis.




Reconhecer que a pessoa por quem se está apaixonado(a), que se admira e com quem se partilham tantas emoções não é boa rês pode ser uma das coisas mais difíceis em qualquer idade, mas pior um pouco quando se viveu pouco e tudo é cor de rosa. E nisso o vídeo está spot on. "Se te humilha, se ignora a tua vontade e a tua decisão, se te obriga a fazer o que não queres, se te diz que te insulta porque provocas (ou "mereces") se te faz sentir que a culpa é tua...isso não é amor, é violência. Quem te ama, não te agride. Quem te humilha, não te respeita".

Parece simples, mas para quem está envolvido é um novelo. Apontar estas listas de sintomas faz uma diferença enorme, principalmente nas mentes jovens e impressionáveis. Qualquer relação violenta deixa marcas, mas quanto mais cedo suceder, maior a probabilidade de criar um padrão. Sabem as mulheres que parecem ter tendência para os bad boys? Quase sempre houve um primeiro que a fez sentir que as coisas são mesmo assim. 

O amor deve ser paixão - e a paixão é avassaladora, por vezes - mas acima de tudo cuidado, carinho, gentileza, fazer com que as pessoas se sintam bem. Se uma relação não tem esse efeito, se acrescenta mais sofrimento do que paz e alegria, algo está mal. E isso tem muitos nomes, mas "amor" não é um deles.




































































































































































































































































A paranóia do "patriarcado opressor" já cá chegou

Imagem via

Uma amiga aqui do salão convidou-me a comentar este texto do Público, que critica uma crónica de Miguel Esteves Cardoso. 

E ao lê-lo, conclui-se uma coisa: gostamos, sem o saber, de ser oprimidas pelo machismo e pelo sexismo. Viva a bela opressão. Nenhuma mulher é feliz sem uma opressãozita diária. Isto porque no entender das fanáticas do feminismo da moda, ser feminina, gostar de ser tratada com cavalheirismo e não ter um fanico por desigualdades imaginárias é pactuar com a opressão.


A ideia não é nova, nem minha: por terras de Vera Cruz e nos E.U.A. há várias páginas divertidíssimas - como esta - a satirizar os exageros das "feminazis" e os medos paranóicos da opressão, do sexismo e desse papão a que chamam o patriarcado. O patriarcado está para o feminismo como o capitalismo está para os comunistas e o diabo para os Cristãos: é culpado de todos os males da Humanidade, da pobreza à varicela passando pelos mosquitos.


Não que eu queira tentar analisar aqui as 50 sombras do feminismo. 

 Ou tentar perceber se o feminismo é a simples crença em direitos iguais e pugnar por causas realmente importantes, como a defesa das mulheres em países como a Arábia Saudita (se é isso, eu prefiro dar-lhe outro nome) ou um conjunto de movimentos não unificados e de ideias contraditórias cheias de "venha a nós".  Com dois pesos e duas medidas a roçar, quando não defende mesmo, uma misandria desgraçada ao mesmo tempo que advoga a imagem da mulher tipo Lena Dunham:  promíscua, desleixada e mandona, anti depilação, invejosa da beleza alheia, etc.... e cujas ideias distorcidas de igualdade nos deram cabo de muitas alegrias ou vantagens de ser mulher (como haver senhores que se oferecem para nos carregarem as malas e outras belezas do cavalheirismo).
.
Se fosse por aí nunca mais nos entendíamos, pois nem as feministas assumidas parecem entender-se.  

 O que interessa é que eu não esperava era - tão cedo, pelo menos - aplicar tais piadas a um artigo escrito em Portugal. 
Para resumir a crónica em causa, basta dizer que num momento querem a igualdade a martelo, até no que não nos convém, para logo a seguir se ofenderem se alguém, num discurso, diz ,gramaticalmente correcto mas sem pisar ovos, "portugueses" em vez de "portugueses e portuguesas". 



É desse "sexismo" tão "grave", tão "insultuoso", que trata a crónica de "uma mulher com consciência feminista" que nos trouxe aqui hoje.

Vá-se entender: tanto querem uma igualdade absurda como exigem condescendência. 

Assim não, senhoras! 

Então para "calar-se ao sexismo" ou "permitir a opressão" que leva à violência doméstica, às violações e a outros flagelos,  basta não se indignar se nos incluem, num discurso, na massa dos "portugueses" sem dizer logo, como quem pede desculpa, "e portuguesas"?

 Basta não achar isso uma misoginia perigosa para ser uma traidora da raça, querem ver?

 Claro que uma pessoa fica contente quando fazem a fineza de dizer "senhoras e senhoras, meninos e meninas" como no circo (o que também pode cair mal e soar antiquado a algumas feministas, já não sei; qualquer dia nem o circo escapa no meio deste circo todo) mas pronto.  Não sermos tratadas de forma paternalista não devia ofender nenhuma mulher ajuizada. Eu não me melindro com isso, de todo. Concordo com Miguel Esteves Cardoso: dispenso tal pinderiquice que até vai contra a gramática. 



   Passo a citar o dito artigo, porque acho isto muito complicado:

"A linguagem cumpre várias funções e está imbuída de poder. Poder esse que se situa, muitas vezes, no domínio simbólico. Usar o masculino como a regra a que se subordina o feminino patrocina a invisibilidade de metade da humanidade, tira-lhe poder, é sexista. É incompreensivelmente machista. E, isto sim, pior do que piroso, é perigoso. A lógica da dominação masculina, de que a linguagem se encontra tomada, tem servido para oprimir as mulheres. Serve a quem acha, por exemplo, que esse domínio se pode estender até à violência numa relação de intimidade. Ou, se quiserem uma notícia fresquinha a ilustrar de forma clara, justifica que um em cada três rapazes ache legítima a violência sexual no namoro".

 A violência doméstica terá muitas causas, infinitas motivações socio-culturais. Mas daí a culpar a língua portuguesa...Margaret Thatcher mandaria estas senhoras seguir-lhe o exemplo lavar a louça, como ela fazia nas horas vagas que gerir um país lhe deixava.

Porque a ela, como a qualquer mulher satisfeita e ocupada, essas lamurias bateriam ao lado. Uma mulher séria e a sério não tem medo do "patriarcado". Nem tempo para pensar no que  seja esse papão...




Tuesday, February 16, 2016

"O amor é nobre demais para ser mendigado"




Vi esta frase (que se é daquelas da internet, cai na categoria dos lugares comuns que falam muito claro) neste sensato artigo do tipo "ele (a)  não está assim tão interessado (a)" publicado pelo Observador.

É daquelas verdades que toda a gente devia ter em casa colada no frigorífico. Particularmente as mulheres, que às vezes tendem a teimar no que gostariam que fosse, em vez de verem o que está à frente.

O exemplo mais evidente, mais exagerado e mais triste dessa "mendicidade amorosa", são as desmioladas fazem o pior tipo de Mulher da Luta: as que entram em relações casuais não por diversão (o que seria um pecado individual e mais nada) mas na tentativa patética de conquistar o amor de determinado homem, ou simplesmente, um amor qualquer, oferecendo de bandeja o que devia ser arduamente conquistado. Aquelas que se "apaixonam" unilateralmente, que ouvem "não quero nada sério contigo (ou pior, " nada exclusivo") e em vez de se indignarem com tais propostas, de responderem ofendidas "mas quem julga ele que é?"...  arriscam a ver se funciona, impondo a sua presença, perseguindo depois o homem em causa com chamadas de atenção, convites, frases bonitinhas e outras tentativas humilhantes ou ardilosas de o "caçar". Nem sequer se zangam com as desfeitas nem desistem com as sacudidelas. 
Vê-las ou ver o mendigo mais experiente da cidade é muito semelhante...e constrangedor.




Mas em menor grau, quase toda a gente se ilude uma vez ou outra. Homens e mulheres. Mesmo pessoas sensatas. Ou porque o alvo do afecto enviou sinais confusos, ou porque uma paixão de muitos anos era fantástica ao início, cheia de todos os exageros e manifestações de devoção, mas morreu no ramo e ainda se acredita, em modo velho do Restelo, que possa voltar ao que era. 

É certo que as relações que valem a pena dão trabalho e que até os amores de lenda passam fases menos boas. Mas esse "trabalho" deve ser sempre bilateral, ainda que não em uníssono ou em perfeita sintonia. Se a pessoa não parece interessada, é porque se calhar não está. Se é preciso mendigar atenção ou implorar que a pessoa se comporte como gente, algo está mal. Se algo não cheira bem, se quem está apaixonado não se sente seguro e amplamente correspondido, falta qualquer coisa. O amor entre duas pessoas é sempre cheio de certezas, ainda que sejam certezas parvas. 



Para o bem de todos, qualquer apaixonado deve ser realista - ou mesmo fazer por se "desapaixonar" se concluir que não é correspondido. O amor tem nuances, mas não são assim tantas. É como aquela pergunta "este vestido faz-me parecer gorda/ordinária?" - se a pergunta surgiu, algo está errado.

Há coisas inequívocas mas que podem ficar sepultadas sob os vapores da ilusão. Para não fazer figura de pedinte, urge afastar a fumarada para as ver bem: quem está apaixonado (a) arranja maneira de comunicar e de se manifestar, por mais tímido (a) que seja; quem está apaixonado (a) perde o receio e até o sentido prático, logo não há cá grandes hesitações nem medo do compromisso; quem ama, vai buscar tempo e meios onde for preciso, prescindindo até de comer e de dormir. Quem gosta a sério tem medo de perder, logo não deixa o alvo dos seus afectos livre e solto para eventualmente se comprometer com outra pessoa. O amor vive da exclusividade, das garantias;  é essencialmente nobre, altivo e ciumento. Quer ser especial, quer a posse absoluta.  Ponto. Há que distinguir as jogadas amorosas, que fazem parte do processo de sedução, de evasivas ou do velho "este (a) anda a brincar comigo". Se o "interesse" parece morno, é (ou tornou-se) desinteresse.

E se alguém "não está assim tão interessado" não precisa que o desculpem. Precisa de sair da vida de quem lhe arranja desculpas. Com um prazo de "já ontem era tarde".




Monday, February 15, 2016

Era mau em séculos idos, é péssimo agora


Hoje entretive-me com os Arrenegos de Gregório Afonso, Criado do Bispo de Évora (que depois foram "novamente trovados" por Gil Vicente, na boca do barqueiro do Inferno) e fiquei cá a pensar que o que fazia alergia às pessoas noutros tempos (a minha é uma reprodução da edição de 1766) não anda tão longe do que arrelia - ou deveria arreliar- as pessoas de bem no século XXI. 

Arrenego de ti Mafoma
E de quantos crêem em ti

(Com tanto extremismo islâmico, é mesmo de arrenegar...)

Arrenego de quem toma o alheio para si.

(Iam adorar os problemas de corrupção do Portugal de hoje, iam).

Arrenego dos perdidos por causas não muito honestas
Arrenego também das festas
Que trazem pouco proveito.

Arrenego do casado mandado pela mulher.

(Também eu, que já se sabe que uma casa assim é desequilibrada e mal governada)

Arrenego dos letrados que não usam do que lêem.

(Ouviram, fãs de literatura light com estudos superiores?)


Arrenego dos que crêem nas riquezas deste mundo.
Arrenego da riqueza avara e mal usada.

Arrenego da paixão sem nenhuma esperança

Arrenego de quem dança sem ouvir tanger nem som

(Temos pior que isso: kizombadas, pimbalhadas, etc...antes dançar sem música!).

Arrenego também do bom que usa de ruins manhas
Arrenego das façanhas feitas por quem pouco vale
Arrenego do casal que nunca está em paz
Arrenego do rapaz que sempre serve chorando

(Haviam de ver os rapazinhos choramingas e efeminados de agora).



Vou também arrenegando de mil coisas que não falo.
Arrenego de quem presume e mostra mais do que é

Arrenego dos favores com que se pagam serviços
Arrenego dos chouriços e "comer" feito sem sal

(Se provassem a comida insossa que é lei agora, morriam).

Arrenego de quem peleja e vai contra o Padre Santo

(Não há paciência para quem faz da Igreja e da Polícia bode expiatório, por qualquer trauma contra a autoridade).

Arrenego de traje tanto quanto vejo desonesto

(Vestidos de lycra, leggings, e outros horrores: os "antigos" falavam de barriga cheia!).

"Arrenego da gentil dama que quer bem a  homem vil".

Arrenego do barato que depois se torna caro
Arrenego de quem mede maus e bons de uma [da mesma]maneira
Arrenego da alcoviteira e de quem sem causa mente.
Arrenego da gentil dama que quer bem a  homem vil.
Arrenego dos namorados que tendo tempo não pegam.

Hoje temos muita coisa barata e de má qualidade, o bem e o mal são relativos, alcoviteiras continua a haver, só que poucas são profissionais, é mesmo por gosto; mulheres patetas que se deixam enganar por canalhas também é o que mais há, e de namorados indecisos, nem falemos.

Arrenego da casada que deseja ser solteira
Arrenego da bandeira a que segue pouca gente
Arrenego de quem consente "posturas" em sua casa.

Se vissem as eternas Wendies de hoje, que querem agir como adolescentes sendo casadas, benziam-se. A nossa bandeira também já viu melhores dias, mas as de futebol estão para as curvas. E quanto aos pais que consentem manias em casa e não fazem avançar o chinelo, nós bem arrenegamos mas o comportamento da miudagem nas redes sociais mostra que o que há mais é quem consinta.

Arrenego de quem erra e jamais nunca se emenda
Arrenego de quantas coisas quantas arma o diabo
Arrenego do grande rabo sem alguns outros horrores



(Não sei quais são os outros horrores, mas no quesito "grande rabo" temos as Kardashians e a moda das mulheres melancia; nesse tempo não havia nada disso, ou andava coberto por grandes saiotes- até dava jeito para tufar as saias mas ninguém via o "conteúdo". Estamos bem pior agora!)

Arrenego de quem casa com mulher muito garrida
Arrenego também daquelas que tomam muitos amores
Arrenego de quem gastar a sua vida após elas
Arrenego dos mundanos depois que já são dos trinta

Da garridice já falei aqui; não há homem que mereça. E sobre pessoas armadas em teenagers com idade para ter juízo? De arrenegar, mesmo.

Arrenego do mau papo dos ruins mixiriqueiros
Arrenego dos lisonjeiros e também dos mentirosos.

Arrenego dos mui lindos e dos homens mulherengos.

(Eu não digo, eu não digo? Nem metrosexuais nem homens com muitas amigas, jamais).

Arrenego dos inimigos que jamais nos ameaçam
Arrenego dos que abraçam e conversam com ruins.
Arrenego da muito mansa e também da muito brava.
Arrenego do mui inchado e do cheio de vanglória
Arrenego da memória não de bom, mas ruim feito.

E como é tanta coisa abominável para arrenegar, quase podemos dizer como o Barqueiro:

Pois o rio vai tão mal e a barca tão vazia
Começo de arrenegar 
Primeiro da minha tia! (desculpe tia, não é consigo, é como quem diz).



Raios partam as áreas cinzentas.




Não ver tudo como preto ou branco é uma suposta virtude. Amiúde a verdade está algures no meio e quase sempre tem muitas faces. Nem sempre se pode ser radical.

Mas a bem da sanidade e de avançar na vida sem ter a cabeça em água, às vezes 
impõe-se pensar com clareza e isso implica, sim senhora,  ver as coisas como SIM ou SOPAS, como brancas ou pretas, sem meios caminhos. Sem desculpas esfarrapadas. Sem nuances (ou passando por cima das nuances que só atrapalham) sem meias tintas e meios termos, sem "sim, mas...".

Isto aplica-se a todas as áreas da existência, sem excepção. A própria Bíblia diz que "sim, sim, não, não" deve ser o nosso discurso. Por algum motivo será...

 Analisemos o problema através de exemplos:


Profissional e materialmente: ainda há dias vi uma grande máxima neste programa do Canal História. "Quando um negócio começa a ficar ruim, é melhor uma pessoa afastar-se dele antes que piore". Ponto. No entanto, o que mais há é pessoas que, lá porque já investiram mil, ou muitos anos e energia, preferem perder o triplo só para não admitirem que apostaram no cavalo errado.  Isso está muito bem se não afecta a sobrevivência, se é um hobbie, mas não quando coloca tudo em jogo. Em coisas importantes, ou se está dentro ou se está fora. Ou sim ou não.



Na sociedade: já aqui se falou muitíssimo no relativismo. No esbater das fronteiras entre o bem e o mal, o certo e o errado.  Ataques aos direitos humanos neste ou naquele país são desculpados como "faz parte da cultura deles", a prostituição chega a ser desculpada como "libertação da mulher", os bandidos são tratados como "vítimas da sociedade" ou inimputáveis; a corrupção é encarada como "comum" ou "normal" em países pobres ou de democracia recente, as crianças que espancam os colegas de carteira são traumatizadas ou hiperactivas. Em nome de não julgar, de não apontar o dedo, 
enumeram-se todas as áreas cinzentas possíveis por medo de dizer "isso é mau". O problema é que o nome que se dá à coisa não altera as consequências desse mal. A uma vítima tanto lhe faz ter sido atacada por um doido que não pode ser responsabilizado como por uma pessoa supostamente sã de espírito, mas sádica.


Na moda e outras superficialidades: ao analisar qualquer evento de passadeira encarnada, muitas vezes valoriza-se mais o aspecto artístico ou a originalidade do vestido do que a forma como ele assenta na mulher que o usa. Ora, isso tem a sua importância; mas em boa verdade não interessa tanto o designer, se é a tendência do momento  ou se foi feito com seda pura bordada a cristais, etc. Se não favorece a mulher, não é um bom vestido. Para ela, pelo menos. Não se pode dizer que alguém está bem vestida só porque anda com uma obra de arte pendurada no corpo. Se não a torna mais bela, não serve.  O resto são desculpas.


Nas amizades: desculpa-se o "amigo" aproveitador ou desleal porque é "amigo" há muitos anos. Porque se partilhou muitos momentos divertidos com essa pessoa ou porque vá, ela "esteve lá" naquela fase negra, mesmo que entretanto (ou simultaneamente)  tenha feito trinta por uma linha ou apunhalado pelas costas. Ninguém é perfeito e errar é humano, mas ou bem que se é amigo ou bem que não. A amizade não funciona por uso capião - isso é uma área cinzenta das grandes.



No amor: o sector que mais é vítima destas confusões, quase sempre nascidas do wishful thinking, da teimosia ou do medo de acabar só. É o velho "ele (a) ama-me, mas..." tem mau feitio/medo do compromisso/anda com uma vida muito complicada/sofre de timidez crónica/temos tido problemas/não tomou os comprimidos/ tem traumas de infância. Quem quer estar junto, arranja maneira. Quem não quer, arranja desculpas. Até porque lá dizia o outro, uma pessoa pode gostar de outra, sentir a falta dela, mas não estar assim tão interessada. Se o "amado" ou "amada" não age como tal, não se compromete, não pede em namoro ou casamento, não quer exclusividades ou até quer mas só faz disparates, só causa sofrimento, então fava para tais boas intenções. Quando uma relação não o chega a ser, ou não faz senão ser uma fonte de problemas, não a encarar como "preto" ou "branco" só aumenta a confusão, só ocupa espaço e impede quem fica nela de seguir em frente.


As farmácias deviam vender realismo e objectividade em cápsulas...

Sunday, February 14, 2016

É esquisito constatar isto: pessoas de volta-atrás




Quase se podia dividir o mundo em duas metades: a das pessoas que pegam no passado para o corrigir  (se necessário) tirando o bem do mal, e as pessoas que não só são incapazes de aceitar "foi assim, agora lidemos com o que há" como voltam constantemente, em modo disco riscado, ao argumento "se a minha avó não morresse ainda hoje era viva". Entes assim não avançam nem permitem avançar. Deixam os outros sem energia, de alma doente, e com isto estragam negócios, amores e laços de família.

Voltando ao filme de que falámos esta semana, nele havia uma máxima bem útil: "ou bem que lideras, ou bem que segues, ou faz o favor de não atrapalhar".

Mas meter isto na cabeça de quem tem um disco riscado no lugar do cérebro?

Xarope de S. Valentim: Corín Tellado


Estava eu a finalizar o post oficial de S.Valentim e a comentar como é lindo o casal do filme que usei para o ilustrar (hoje em dia, com a moda dos actores imberbes, já é tão raro ver-se um par realmente impressionante no cinema...) quando a senhora mãe me diz com ar pouco dado a romantiquices "é uma imagem à Corín Tellado, mas é bonita". E eu... "onde é que já ouvi isso?". 



Respondeu-me que era o mesmo que romance de cordel, ou um termo dos anos 70 (acho) para designar, grosso modo, qualquer romance folhetinesco do tipo Harlequin ou de Dame Barbara Cartland - sabem, aqueles xaropentos que as donas de casa e balconistas adoravam ler mas que às vezes até têm uns enredos de jeito (os da tia Bárbara ao menos passavam-se sempre em épocas interessantes) e mal por mal eram honestos; não se faziam pomposamente passar por literatura.

Mas não me dei por achada e lá fui confirmar o que era ao certo isso de Corín Tellado...reconhecendo imediatamente o género de livrinhos com desenhos coloridos e títulos muito engraçados que se encontram imenso nas feiras de velharias. Tenho visto alguns tão cómicos que até os fotografei:




Mas afinal o termo era algo bem mais específico: nom de plume da escritora espanhola María del Socorro Tellado López, que publicou mais de 4000 histórias (livra, nem a blogger mais activa dá tanto aos dedos) e vendeu mais de 400 milhões de livros, entre romances e foto-novelas, todos em cenários contemporâneos (ao contrário dos de Barbara Cartland e outros)  com enredos amenos, isentos de marotice e malandrice e com títulos patuscos como "Não me caso contigo", "Aquella linda muchacha", "Não esperava isso de ti", "Não esperes por ele",  ou "Divorciámo-nos".


















E a senhora Tellado lá continuou a escrever até quase ao fim da vida: aos 79 anos ainda publicava coisinhas românticas para mulheres sonhadoras. Sem algemas nem palavrões e com umas capas mais giras que as das 50 sombras....sem falar que provavelmente a prosa seria um bocadinho mais correcta!






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