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Saturday, March 12, 2016

A lamuria de Kim Kardashian: lidar com um passado "colorido".


Kim Kardashian ficou toda triste e magoada pelas críticas à sua última selfie sem roupa. Muita gente (nomeadamente algumas caras conhecidas) acusou-a de mostrar *mais uma vez* o que toda a gente já viu e de ser um mau exemplo para as jovens. Para não falar dos que se sentiram ofendidos por ela ter brincado que estava nua por não ter "nada para vestir" (bom, deixemos lá isso...). 

Arreliada, a menina sacou dos trunfos feministas da moda -o empowerment e o slut shaming : publicou um texto em que se diz atacada por ser "uma mulher confiante" e se queixa de as pessoas não esquecerem nem por nada que ela só saltou para  a ribalta graças a um vídeo indecente, lançando-lhe em rosto "teu passado te condena". 


Rebebebeu pardais ao cesto, lá desatou a Kim em modo Madalena arrependida, mas *muito* pouco:

"Sinto-me poderosa pelo meu corpo. Sinto-me poderosa pela minha sexualidade e por me sentir confortável na minha pele; por não ter medo de mostrar os meus pontos fracos nem daquilo que possam dizer de mim. E espero que através desta plataforma possa encorajar o mesmo «empoderamento» junto de raparigas e mulheres de todo o mundo" (irra! estará a tentar criar uma praga, em modo "se todas fizerem o mesmo já não parece tão mal"?).



E continuou com o choradinho:

"Sou «empoderada» pelo meu marido, que é tão tolerante, que me dá tanto apoio e que me fez descobrir uma nova confiança em mim própria. Ele permite-me ser eu mesma e ama-me incondicionalmente" (muita gente diria que aconselhar a mulher a despir-se para dar nas vistas com o propósito de lucrar mais ainda quando já não se precisa de fama ou dinheiro é uma forma esquisita de amor, mas não elaboremos).

Depois, lá se queixou de lhe atirarem à cara o passado em chapadas de lama, realçando que transformou um momento de humilhação na possibilidade de ser um "modelo de comportamento" (say what?).



"Tudo volta sempre ao meu vídeo para adultos. Sim, um vídeo que foi feito há 13 anos atrás. Sim, 13 ANOS ATRÁS. Literalmente há esse tempo todo. E as pessoas ainda querem falar sobre isso? Sobrevivi à vergonha e ao medo, decidi dizer «que importa, faz melhor a partir de agora, segue em frente». Não devia estar sempre à defesa, a enumerar os meus êxitos para provar que sou mais do que algo que aconteceu há treze anos. Sou mãe, esposa, irmã, filha, empreendedora e tenho direito a ser sexy".

Ora analisemos isto como gente sensata.

 Que tão cedo não nos livramos de Kim Kardashian e companhia, é um facto. E fazer o quê- sinais dos tempos. Lá terá alguma virtude como qualquer filha de Deus, quanto mais não seja a de ensinar como se segura um decote pouco ergonómico com fita super cola, o que sempre há-de prevenir algumas figuras tristes por aí.

 Que Kim Kardashian está em boa forma (aprecie-se ou não as suas formas e escolhas de moda) é outro facto. 

Também é verdade que - moral e exemplo à parte - nus artísticos de bom e mau gosto sempre os houve, que ela está a expor o que lhe pertence com o beneplácito do marido que lhe calhou e que em última análise, o problema é dela. 

Se é certo ou errado despir-se, não vamos agora por aí: o que conta é que Kim Kardashian se sente incomodada por associarem a sua constante nudez ao seu passado de...nudez. Topam a contradição?

Mas vejamos duas outras coisas igualmente verdadeiras: Kim Kardashian não é totalmente destituída do sentido do apropriado. Quando baptizou a filha soube ir à Terra Santa, coisa mais linda, cobrir-se com um véu (tradição que muita menina beata não cumpre por considerar "careta"), mau grado o vestido ser demasiado coleante para a Igreja e não lhe ficar lá muito bem. 


Segundo, Kim Kardashian  afirma-se Cristã. Logo, não pode deitar as culpas à falta de valores e deve lembrar-se (como suponho que lhe dá jeito lembrar) de que Jesus não condenou a mulher adúltera pelo seu passado. Jesus era um amor, dizia "quem nunca pecou que atire a primeira pedra" e aceitava toda a gente. 

Mas alto - Jesus não disse "desta livras-te; não te condeno, continua lá com a tua vidinha airada que ninguém te pode criticar por isso". 

Ná. O Divino Redentor salvou a vida da mulher desmiolada, perdoou-lhe os pecados mas avisou-a para não cair no mesmo dali em diante. O resto era com ela. Os Evangelhos não nos contam o que foi feito da mulher, mas das duas uma: ou aproveitou a sua boa sorte, passou a detestar os seus erros com verdadeira contrição e levou vida nova a partir dali, sendo discreta, boa esposa e dedicando-se a boas obras de tal ordem que, mesmo que tenha ficado a viver na mesma localidade, as suas indiscrições se tornaram uma memória distante nos anais do vilarejo (ou um exemplo de que toda a gente merece uma segunda oportunidade) ou ...continuou a fazer das suas e da fama nunca mais se livrou.


O passado é uma seca: é que por muito que já não exista, não pode ser apagado. Tudo o que resta é substitui-lo dia a dia por um presente melhor, de tal forma que o que lá vai deixe de ser relevante. E sim, por mais aborrecido que isso seja, até estar provado que quem errou passou uma fase horrível mas já não é essa pessoa, há que dar provas e mais provas dessa mudança. Seja, no caso de uma figura pública, aos seus fãs, ou em questões mais privadas (um ex-toxicodependente que precisa de provar que está limpo, um ex mulherengo que quer provar à mulher que mudou, um ex-presidiário que necessita de mostrar à sociedade que está reabilitado, etc). 

A História está cheia de pessoas que bateram no fundo mas viraram uma página. Algumas até chegaram aos altares: Santo Agostinho, que foi o pior devasso do mundo, ou Santa Pelágia, que foi uma famosa meretriz.

Para um Católico, sofrer julgamentos de valor ou tolerar desconfianças pode ser uma forma de penitência. Para qualquer outra pessoa dotada de bom senso e sentido da responsabilidade, é apenas um processo lógico e racional de quem assume o que foi e não quer palmadinhas nas costas. O "o que lá vai, lá vai" leva tempo e dá trabalho.


Kim Kardashian tem o direito a ser sexy, como qualquer mulher- mas há muitas formas de o ser sem  cair na vulgaridade ou lembrar o público que ficou famosa por tirar a roupa. Se a acusam disso e acha que tem mais a oferecer, há bom remédio: mudar de abordagem.

 Estão ao seu alcance os meios para realizar grandes projectos, para acudir a imensas obras de caridade, ou simplesmente dar a cara por uma causa nobre. De preferência, com alguma coisa vestida, e roupa não lhe falta. Fizesse ela isso e claro que haveria sempre quem murmurasse, mas não seria tão...confuso. Se lhe dá jeito continuar a ser relevante só pelo seu corpo, com que direito se vitimiza por fazer o que lhe dá na gana? Ou entra em modo own it , que se dane, é para o lado que eu durmo melhor, fecha a matraca e deixa rosnar quem rosna, ou MUDA DE VIDA.

Aquela frase de Oscar Wilde "todo o santo tem um passado e todo o pecador tem um futuro" é citada a torto e a direito. Mas o passado só serve para aprender. A reputação do futuro é escrita todos os dias: ou no caso da Kim, a cada postagem nas redes sociais.



A nobre arte de "o que arde cura, e o que aperta segura".


Já vos contei aqui como aprendi essa bela máxima do "o que arde cura, e o que aperta segura". Mas cada vez a acho mais exacta, o que prova que nem sempre as lições de vida mais valiosas se adquirem quando temos maturidade para isso. Se depois as guardamos para quando são realmente precisas, isso depende de cada um.

Por vezes os remédios mais eficazes ardem ou são amargos: seja o desinfectar de uma ferida com álcool, mertiolato ou vinagre, seja enfrentar as consequências de um mal feito e consertar o que sobrou, o que frequentemente envolve uma catarse bem desagradável e exige carradas de paciência.

E o que segura (ou antes, o que dá segurança e estabilidade) pode apertar um bocadinho.

Ter um excelente emprego, fama, prestígio ou um negócio de grande sucesso faz pagar as benesses com uma data de prisões: grande nau, grande tormenta. Coco Chanel dizia e muito bem "o dinheiro só tem um som: o da liberdade!". Porém, antes de alcançar essa independência, essa deliciosa liberdade de ir e vir como bem entendesse, de ser dona do seu tempo, Mlle. Chanel passou longas horas no seu atelier a esforçar-se como uma galega, a cumprir prazos, a aturar sabe-se lá que exigências. Depois, qualquer pessoa com um papel relevante na sociedade sabe que tem a responsabilidade de estar à altura do seu bom nome: não goza, como o homem comum, de carta branca para fazer figuras tristes.


 Outro exemplo é a família: poucas coisas são tão maravilhosas como ter um clã que nos ama e protege - e poucas pressupõem tantas dores de cabeça, grilhões e responsabilidades. Quem não está para isso, condena-se a contar só consigo. 

 E no amor? Lá se queixava Caetano Veloso "porque você me deixa tão solto/porque você não cola em mim"? Quem ama segura, agarra, aperta, o que pressupõe deixar-se apertar de volta. Quem ama quer exclusividade e dedicação absoluta, a paz doméstica de todas as certezas...o que nunca pode funcionar de forma unilateral. 

 É utópico, ridículo mesmo, pensar em exigir tal coisa. Qualquer compromisso sentimental é um investimento de alto risco, que nem vale a pena assumir a não ser que se acredite piamente "nunca encontrarei ninguém que me complete mais". É abrir mão de todas as outras liberdades e possibilidades por alguém que vale a pena, ser fiel confiando que o outro fará outro tanto, prescindir de conhecer outras pessoas porque - aqui o raciocínio não é nada altruísta - essa é a única forma de garantir a posse do ser amado. Quem hesita, arrisca-se a perder: não apertou, não segura.

Aceitar que o que cura pode doer e que o que segura pode restringir não é mais que ter maturidade e noção da responsabilidade. Compreender que nada é de graça. Que o que vale a pena, exige trabalho, abnegação, doação de si mesmo (a)...e resistência ao ardor que cura. Quem não possui esse bom senso, sujeita-se a andar sempre com achaques mal curados e a nunca encontrar segurança em parte nenhuma...









Friday, March 11, 2016

Frase do dia: Super Mulher (que remédio!)



Washington Ivring, autor the The Legend of Sleepy Hollow, dizia das mulheres:

"Muitas vezes pude notar a grandeza de alma com que a mulher suporta os mais esmagadores revezes da fortuna. Os desastres que quebram e prostram o homem, parecem estimular toda as energias das mulheres, dando-lhes tal intrepidez e elevação de carácter que, por vezes, atinge o sublime".

Isto é muitíssimo verdade: a capacidade feminina de fazer face à adversidade, ser forte ante a dor física e moral ou virar-se do avesso para proteger o seu clã é uma das nossas maiores heranças- e um dos nossos super poderes. Mas como todos os super-poderes, tem o seu senão: é a razão pouco ética de certas empresas menos democráticas preferirem contratar mulheres (queixam-se pouco e trabalham além das suas forças) e o motivo de a mulher suportar o insuportável, aturar o intolerável ou tentar consertar o que não tem arranjo.

E isto é paradoxal, se acreditarmos que a natureza feminina se sente atraída por tudo o que é belo, que tende para o conforto, a delicadeza, a suavidade. Delicada mas forte como as cordas de um piano, é o que eu digo sempre. Espada numa mão e livro, bâton ou frigideira na outra (then again, a frigideira é uma arma estupenda em caso de necessidade...).

Mas bom seria que este super poder não precisasse de ser usado tantas vezes. Que o mundo e o sexo forte não se fiassem nele para atirar sobre ombros frágeis, feitos para o roçagar das sedas e o brilho das jóias, penas e fardos desnecessários. Isso de ser Super Mulher é muito lindo e fica muito bem dizê-lo, mas nem sempre é uma escolha. Até Joana D´Arc fez o que pôde; não o que quis.






Thursday, March 10, 2016

Pobres brinquedos: anos 80 x hoje

Não é a primeira vez que aqui se esmiuça indignadamente o estado de sítio que vai pelo maravilhoso mundo dos brinquedos. Particularmente nos brinquedos de meninas (sim, alguns destes ainda são "para menina" por mais que a McDonald´s se tenha curvado à doideira, como discutimos aqui e como João Miguel Tavares disse nesta crónica que é das coisas mais lúcidas que li nos últimos tempos). 

Porém, analisando-os todos juntos chega a ser assustador. De acordo com os fabricantes de brinquedos, as pequenas de hoje não podem aspirar a um corpo "perfeito", mas devem vestir como meretrizes; não podem ser femininas no sentido tradicional do termo, mas é desejável serem flausinas e aprenderem desde cedo o atrevimento. Ai não querem crer? Vejam pelos vossos olhos.


1 - My Little Pony

ANOS 80
Já aqui falámos em detalhe no desastre sinistro dos pequenos póneis humanizados e serigaitos, com direito a mini saias e pestanas postiças. Felizmente isso não passou de uma medonha edição especial, mas quer os desenhos quer os brinquedos têm agora um design muito mais infantilizado, diferente dos modelos elaborados que nos encantavam na infância

 
HOJE

Na linha da moda das ilustrações para livros infantis que supostamente as crianças de hoje apreciam, porque "são iguais aos desenhos que elas conseguem fazer". Olhem que divertido, que estimulante: rabiscos e garatujos...


2- Barbie...e o pobre Ken

ANOS 80
  Depois de anos a bater-se valentemente contra as vozes detractoras que a acusavam de estimular "padrões impossíveis" de beleza, a querida Barbie (que em meados do início do milénio já tinha aumentado a cintura e reduzido o peito, acabando por ficar mais Skipper do que Barbie) lá cedeu à ditadura da beleza real, à concorrência da trambolha invejosa da Lammily e à febre politicamente correcta da consumidoras.  Isto sem falar nas Barbies My Scene e outros lançamentos da pobre coitada a vestir como uma serigaita, para enfrentar a concorrência das Bratz com meias de rede e colagéneo nos lábios há uns anos atrás. 

HOJE

 Farta de remar contra a maré, de ser odiada pela sua perfeição, a nossa amiga ganhou agora vários tipos de corpo( não necessariamente muito realistas: veja-se que a versão "curvy" tem anca larga mas pouco peito... depois, arrisco dizer que em termos de marketing são um desastre; quem tiver várias bonecas vai ver-se aflita para comprar roupa para todas. Recordam-se de como era tentar enfiar na Barbie vestidos giros, mas feitos para outras marcas?). Além disso, a Mattel  publicitou amplamente os novos tipos de cabelo (o que não percebo como é novidade, já que a Barbie sempre teve amigas com todos os cabelos, etnias e cores...). Já o Ken, como vimos em triste pormenor, passou do seu charmoso tipo de college boy a ser bastante...lingrinhas e ameninado. Só não faz duck face para as selfies porque é um boneco, mas se calhar ainda arranjam forma de conseguir isso. E já há pressão para ele engordar também. God help us all


3- Pinypon
ANOS 80

Aqui entre nós, nunca tive muitos Pinypons: dava prioridade à Barbie, a livros, estojos de médico e lápis Caran D´Ache. Mas uma vez o menino Jesus trouxe-me um conjunto engraçadíssimo de Pinypons tendeiros, com uma carrocinha para vender frutas e flores, e lá fui comprando um por outro para alargar a colecção. Eram baixinhos, bojudinhos, infantis e super amorosos, com olhinhos pretos e inexpressivos, mas de uma maneira fofa. 

Pinypons e Pinyponas, todos vestiam umas jardineirazitas do mais inocente que há. E podíamos trocar-lhes as perucas de plástico, recordam-se? Se não estou em erro, fazendo isso dava para transformar um Pinypon em Pinypona: uma vez carecas, os pinypons não tinham sexo, como os anjos. Era tudo super progressivo e mente aberta mas não como hoje, que na altura ninguém punha maldade ou política em brinquedos nem se maçava com questões de "género".  
HOJE

Pois bem, olhem para os destravados dos Pinypons agora: para já, têm boca e alguns, cabelo à séria. Depois, fazem caretas, com o ar atrevido de criança chica-esperta a precisar de umas boas palmadas. E por fim, os penteados e as indumentárias: cristas, saltos altos, tops curtinhos de sair à noite e mini saias estilo kizomba. A sorte é que os Pinypons continuam rodinhas baixas (também, a marca perdia a  razão de ser...) e quase não têm pernas para mostrar, senão era a desgraça completa. Até há Pinypons namoradeiros. Bonito exemplo.


4- Barriguitas

ANOS 80
Confesso que não brincava com as Barriguitas, mas achava-lhes uma certa graça, principalmente às que cheiravam bem ou tinham cabelo colorido. Também elas eram inocentes, angelicais e bojudinhas. E escusado será dizer que também elas sofreram uma chocante transformação: de ingénuos bebés bochechudos, passaram a serigaitas e valdevinos magrinhos (só não têm um six-pack porque isso dava cabo da marca) maquilhados como travestis em palco e alguns, com um olhar alucinado que mete medo ao susto. 

HOJE


Aqui temos uma contradição: a Barbie engordou para não criar frustrações com um ideal de beleza "perfeita", as Barriguitas emagreceram para - digo eu - combater a obesidade infantil. Lá está, ninguém entende o politicamente correcto. 


5- Polly Pocket

ANOS 80
Foi brinquedo que nunca me encantou - uma espécie de circo de pulgas, mas com bonecas míiiiiinimas. O jingle era mesmo "tão pequena/num anel a poderás levar". Bem, os fabricantes adaptaram-se aos novos tempos fazendo o mesmo que todos os outros: enserigaitando as bonecas. Mas enquanto a Barbie engordou e reduziu o peito, o Pinypon ganhou carinhas e boquinhas e a Barriguita emagreceu, a Polly Pocket entrou naquela máquina do filme "Querida, aumentei o miúdo" e ficou enorme comparada com o que era.

                                      Comparação de tamanho entre a Polly Pocket original e a actual                             
Em altura e em silicone. Será uma Polly-Purse ou uma Polly- Bag e de certeza que é uma Polly Stripper, agora Polly Pocket, faz favor. Para terem uma ideia, até há quem se entretenha a fazer miniaturas da Miley Cyrus com Polly Pockets. Enough said.




No meio deste cenário dantesco, só o Nenuco continua igual a si próprio (se bem que vi umas edições todas anime e maquilhadíssimas há uns tempos, mas devem ter desistido da ideia). 

O mais estranho é que curiosamente - e sabem que "sexismos" não são comigo - os GI Joe, Action Man, Playmobil e outros brinquedos "para meninos" não foram ainda, graças aos céus, contagiados por esta febre. Com a loucura que para aí vai de efeminar os homens para evitar os "estereótipos de género" confesso que tive medo. Mas (por enquanto) os rapazes estão a salvo, por isso concentrem-se nas vossas filhas, que a coisa está preta. Muito preta (creio que ainda posso dizer "a coisa está preta", ou isso ofende alguém? Uma pessoa começa a pisar ovos nem que não queira...).

Wednesday, March 9, 2016

Rui Reininho dixit#2: efectivamente, gosto de aparência


Não é bruxaria, mas adivinha muita coisa.



Efectivamente gosto de aparência
Aparentemente sem moralizar
Aparentemente escuto as conversas
Efectivamente sem moralizar

Sempre adorei esta canção dos GNR e não consigo ouvi-la sem me recordar da minha professora da Primeira Classe....

É que eu - habituada a cavalar pela quinta com os meus primos monte acima monte abaixo e à complacência das freiras do infantário- ainda me estava a acostumar à disciplina da sala de aula. E um dia, distraída a fazer uma tarefa qualquer (provavelmente o picotado, que eu abominava com paixão...) esqueci-me de onde estava e desatei a cantarolar muito determinada: adoro as pulgas dos cães/e todos os bichos do mato/o sorriso das crianças dos outros/cágados de pernas p´ró ar... (achava graça à letra e comecei a cantar antes de saber andar- old habits die hard!).

Fez-se um silêncio enoooorme...levantei a cabeça e dei com toda a criançada a fixar-me como quem diz "esta é maluca". Capaz de me sumir pelo chão, virei-me a medo para a Professora Isabel, que eu adorava, e lá estava ela, olhando-me muito divertida com o seu bom sorriso:

- Continua, que eu gosto muito desta canção!




E lá cantei as pulgas dos cães, os bichos do mato e os cágados. A parte que não era própria para crianças ficou salvaguardada porque eu não sabia as rimas todas e assim como assim pensava que "engatar" era "enganar" (por outro lado, não deixa de haver uma certa verdade nisso).

Os anos passaram e continuo a gostar muito de ouvir Efectivamente, principalmente a última parte: na na na na, efectivamente - gosto de aparência, etc. Não só porque se calhar tenho preferências bem definidas, mas porque lá dizia Oscar Wilde, só as pessoas muito superficiais não julgam pelas aparências. Ou apenas pelas ditas cujas, vá. Se as soubermos analisar sem generalizar demasiado e ouvir as conversas duas vezes mas responder só uma aprende-se muitíssimo, captam-se muitas subtilezas úteis, faz-se um profiling tão bom como os do FBI e com esse pequeno hábito de Sherlock Holmes, poupam-se imensas arrelias. Mais cágado menos cágado, o poema é exacto. E a fórmula é útil até para o maior bicho do mato...

É um homem ou um menino? Descobrir em três sinais



Há por aí nesta internet milhentos textos - até aqui no salão temos alguns-  a separar homens de rapazes, o homem certo do amor errado, um cavalheiro verdadeiro de um falso, a explicar as pistas para saber quando "ele" vale a pena (mesmo que pareça um bad boy) ou os sinais mais evidentes para fugir antes que seja tarde

Isto para não falar nos erros-chave que eles cometem ou nas pequenas coisas que salvam tudo. E nas muitas outras nuances já por aqui escritas, já tratadas em incontáveis outros sítios e publicadas nas revistas femininas todos os meses, por este mundo fora, desde que começou a haver publicações dedicadas ao mulherio. 

É muito texto! É muita tinta gasta no tema! É muito neurónio torrado a analisar o "inimigo" que as mulheres, fiadas no seu ardil, ou por irritação, tantas vezes apelidam de "básico". Talvez na guerra dos sexos - que é muito parecida com uma dança - as meninas (nisso todas são eternas meninas...) caiam no erro de subestimar o adversário. Outra hipótese é o adversário ser realmente "básico", mas não como se pensa, e a mente feminina complicar o que é claro como água, pela sua mania de ver só aquilo que gostaria que fosse verdade, de consertar tudo e de aturar o impossível.

E no entanto, a fórmula é realmente clara; não tem nada que enganar. Com três situaçõezinhas apenas, se vê o que é trigo e o que é joio...desculpem qualquer auto plágio ou redundância e pensemos nisto como um resumo da matéria dada.

1- Quando se apaixonam



Um homem é selectivo, decidido, seguro de si e corajoso. Sabe bem as coisas que deseja e agarra-as com as duas mãos, não parando quieto até as concretizar. Como não se contenta, ao contrário de tantos "homens beta e modernaços" com a rapariga que está à mão, ao ver aquela que corresponde ao seu ideal (e/ou que lhe provoca emoções fortes), não suporta prolongar as "áreas cinzentas" entre a amizade, o romance e o compromisso. Como qualquer pessoa dotada de maturidade, tem a consciência do quão raro é encontrar alguém especial - logo, de uma maneira muito clara (ou pelo menos, de forma compreensível) um homem põe as suas intenções preto no branco, não vá outro mais decidido aparecer.
 Já um menino...por mais apaixonado que esteja, nunca está apaixonado que chegue para sacrificar o seu egoísmo: enrola, hesita e faz todos os jogos que nós sabemos.

2 - Quando se relacionam



Um homem sabe que a vida já tem - de sobra-  complicações inevitáveis. Por isso vai simplificar tudo o que estiver na sua mão e evitar situações escusadas que entristeçam a sua mulher ou que a deixem desconfortável. 
 O seu relacionamento tem primazia e o casal torna-se uma equipa, uma fortaleza para enfrentar o mundo lá fora. Defender a sua dama não só o faz sentir forte, masculino, como tem motivações práticas e racionais: um homem a sério vê uma relação como um projecto a dois, que por sua vez é um suporte para os seus outros objectivos de vida. Logo, é responsável e oferece estabilidade porque ele próprio precisa disso para realizar grandes coisas a nível profissional, social, etc. 
 Por sua vez, um menino não tem as prioridades bem definidas: quer uma mulher ao lado a todo o custo...mas também se acha no direito de continuar a ser um eterno irresponsável, não fazer ajustes nem sacrifícios, gozar certas liberdades, viver ao sabor dos caprichos e não atribuir diferentes graus de importância às pessoas e sectores da sua vida.
 Isso traduz-se em coisas desagradáveis como esbanjar em engenhocas e farras os recursos que deviam ser canalizados para um futuro a dois, não abrir mão de *mais um* passatempo dispendioso e fútil pelo bem da família ou permitir influências maliciosas de terceiros.

3- Quando fazem disparates



O homem perfeito é um ser que não existe: mesmo os de melhor coração e com as mais nobres intenções erram às vezes, como qualquer ser humano. Por mau feitio ou por orgulho, ciúmes, cansaço, frustração...uma pessoa diz e faz coisas de que se arrepende.

 A diferença é que um homem procura remediar para ontem a situação. 

Se por descuido deitamos fogo à cozinha, o impulso automático é apagá-lo e limpar os estragos para que tudo volte ao normal, certo? Não deixamos arder, atiramos água aqui e ali e no fim de tudo esturricado, tentamos usar a divisão para cozinhar como se nada fosse.

 Com uma relação é o mesmo. Um homem sério trata de reparar o mal feito seja pedindo - textualmente ou não- desculpa (gesto geralmente acompanhado "daqueles" abraços fortes que confortam corpo e alma) seja explicando-se, discutindo objectivamente o assunto e aplicando imediatamente um plano de contingência. Isso inclui eliminar as causas, se estiver na mão dele fazê-lo. Simples, não é? Um homem procura, de todas as formas, reconfortar e reassegurar a cara metade, pondo fim ao rastilho que espoletou a explosão ou levando a cabo as "obras de reabilitação" necessárias. Um menino tenta fazer as pazes porque lhe custa abrir mão do relacionamento, mas sem encarar o erro, sem se tornar um homem melhor, sem limar arestas nem prescindir de nada. Resumindo, vive em modo "venha a nós" e ainda espera um muito obrigada por cima.


Moral da história: não convém perder demasiado tempo com análises. Se parece um menino, se calhar é um menino. E o propósito de ter um homem ao lado é um dia vir a criar meninos, não treinar ad aeternum com um bebé grande feita Mary Poppins...


Tuesday, March 8, 2016

The Walking Dead ensina: nunca sejas a rapariga que "está a jeito"


O último episódio de The Walking Dead mostrou um rompimento amoroso aborrecido: o ex-militar Abraham terminou abruptamente a sua relação com a Rosita, que é valente e bonita. Quando a pobre coitada, em lágrimas, insistiu em saber o motivo de uma mudança tão súbita, o grandalhão de cabelo cor de cenoura e bigode à viking foi brutal, mas honesto:

"Julgava que eras a última mulher à face da terra...e agora vi que não és".

É que os dois tinham andado na estrada sem conviver com quase ninguém, a matar zombies e a manter-se vivos como podiam. Mas agora, que estão inseridos numa comunidade maior de sobreviventes, Abraham tem bastante por onde escolher, encontrou uma rapariga que o encanta mais, e...sabem o resto. E a pobrezita lá ficou a chorar, sem lhe ocorrer ao menos dizer "também eu julgava que eras o último mas agora vi que há muito peixe no mar, meu grande estúpido". Sempre salvava a face.

Nota para os fãs da série: isto não vai acabar bem para a rival nem para a Rosita, aposto convosco. 


Mas adiante: o que interessa aqui não é o programa, é a moral da coisa.

A Rosita, que até é uma jovem bastante esperta e desembaraçada, cometeu o erro crasso de muitas mulheres: deixou-se ser a "rapariga que está a jeito" ou à mão. Aquela com quem um homem se envolve à falta de melhor.  Ou com quem até assumiu uma relação mas porque calhou. A rapariga que ele não procurou, que lhe caiu aos pés ao primeiro sorriso, que não lhe deu trabalhinho nenhum a conquistar, que se calhar até andou feita tonta atrás dele ou que lhe facilitou a vida num relacionamento supostamente casual (embora com a ideia desonesta de lhe "deitar o laço"). 

A diferença é que a Rosita tem desculpa: realmente, num cenário apocalíptico não há muito por onde escolher, muito menos machos alfa aptos a sobreviver e a defender a parceira. 


Mas na vida real, não há razão para cair numa falta de dignidade dessas (a não ser a falta de auto estima, ganância, medo de ficar para tia e/ou uma fixação parva e unilateral por um ser de calças tão substituível como qualquer outro). Também não vale usar a desculpa do "amor", porque o amor, se é verdadeiro, tem de ser recíproco e já se sabe: os homens arranjam muitas desculpas para tudo, mas quando estão *realmente* interessados não precisam de grande incentivo.

E claro que é má receita: raramente funciona, pelas razões que já vimos. Os homens, na sua esmagadora maioria, são seres de vontades firmes e de poucas considerações, que preferem pedir perdão que permissão. Podem envolver-se com a Rosita do momento, ser "caçados" por um tempo e arrastados para um "à falta de melhor"...mas nunca será aquela paixão. E no segundo em que lhes aparecer aquela paixão, a mulher dos sonhos deles, aquela por quem suariam as estopinhas sem pensar duas vezes, podem muito bem dizer e fazer como o Abraham. Ou pior, rematar com um horrível "eu nunca andei atrás de ti, antes pelo contrário".

Não se pode fabricar amor onde nunca houve matéria prima para isso- é tão estúpido como querer tirar vinho de bananas. Para cada Rosita, há um homem algures, que faria sei lá o quê  para estar com ela. Um homem disposto a procurá-la, a insistir, a virar-se do avesso como compete a um cavalheiro. Nenhuma mulher devia contentar-se com um Abraham, quanto mais esforçar-se para lhe "conquistar o coração". Mulheres são conquistadas - só assim podem ser tratadas como sonham. Por muitas voltas que o mundo dê. Mesmo durante um apocalipse.

Considerações do dia da mulher (em rosa- chá, não rosa- serigaita)



Eça de Queiroz, nas suas "cartas de Inglaterra" dizia que a História é como uma velhota que passa o tempo a repetir-se. Com o Dia da Mulher dá-se o mesmo. Todos os anos é de rigueur (para quem é blogger) fazer um post muito ou pouco feminista (conforme o blog) sobre o assunto (podem ver os do Imperatrix aqui, aqui ou aqui) geralmente lembrando mulheres com M grande (também tenho muito disso).

 E para quem não é blogger, é "obrigatório" partilhar nos social media citações, memes, frases feitas (umas do piorio, outras melhorzinhas) alusivas ao tema OU o retrato da praxe num jantar de mulheres que pode ser (e poucas vezes é) remotamente sofrível. 

Eu tenho em relação ao Dia da Mulher o mesmo sentimento que tenho pelo S. Valentim: que se assinale, mas sem clichés e - salvo se houver um evento especial a que se deva assistir - com privacidade. Qualquer jantar feminino marcado para esta data, por elegante e bem frequentado que seja, por mais cara de tertúlia *sensata* que tenha, corre o risco de ser confundido com uma espécie de reunião de tupperware com direito a strippers brasileiros e gerberas com um laçarote para todas as convidadas aos guinchos. Ou com uma reunião política de feministas-extremistas e maldispostas a protestar contra a tal opressão que ninguém sabe ao certo o que é.


No entanto, a ideia do dia é reflectir.

 Não só nos direitos e DEVERES cívicos, sociais e morais da Mulher (porque se fala tanto nos direitos, mas pouco nos deveres), não só nas grandes causas remotas que nos afligem (os direitos das mulheres em África, na Índia ou em certos países muçulmanos) não apenas na aplicação severa das leis que já existem para proteger o sexo frágil (sim, frágil, caluda feministas que pelo bem que nos querem até os olhos nos tiram) contra problemas como a violência doméstica em países civilizados e democráticos, mas nas causas discretas, nos problemas que andam para aí todos os dias mas há vergonha de falar nisso porque não é suposto acontecer tal numa democracia europeia. 

Este artigo do Observador, sobre a violência nas salas de parto, deu-me arrepios e palavra de honra, faz-me reconsiderar aquela minha ideia "maridos a assistir a nascimentos, jamais - um homem nunca deve ver a sua mulher em tais preparos; dá cabo do romance". É que a maioria já ouviu falar em partos traumatizantes em hospitais e maternidades públicas ou mesmo no privado (true story) - quase toda a gente já teve uma tia ou amiga que (pensamos nós, nos anos 70/80) encontrou uma equipa negligente, falta de privacidade ou um médico brutamontes. Mas parece que ainda é comum. Muito e tristemente comum. E já que não há um enquadramento específico que proteja as parturientes, dá jeito um homem forte capaz de dar um murro na mesa, salvo seja. 

Num país civilizado, não devia ser preciso um homem para fazer respeitar uma mulher numa situação de óbvia fragilidade...mas ainda vai sendo!




Monday, March 7, 2016

Dicas da Belle époque: "uma beleza que se degrada é um delito que se comete"

Hoje, num antiquário, veio-me parar às mãos um livro curiosíssimo que, a julgar pela referência às Gibson Girls e a Fluffy Ruffles (uma espécie de Carrie Bradshaw de 1907), pela ortografia e pelo que consegui apurar online, será do início do século passado.

O compêndio - uma espécie de manual de auto ajuda e aperfeiçoamento- dedica dois capítulos inteiros à beleza, que o autor, um tal Ellick Morn, considerava não só ser uma obrigação feminina, como estar (quase totalmente) ao alcance da vontade e ser influenciada pela bondade do coração. 

"As mulheres têm não só o direito, mas o dever de ser belas. O futuro do mundo está na sua expressão de beleza, porque (...) a conquista da felicidade está na redução à unidade do trinómio beleza - bondade - saúde. Se não fosse um brilhante paradoxo, diríamos que julgamos imoral a mulher feia, porque não responde ao apelo da espécie, opondo um obstáculo ao seu fim último, que é alcançar a felicidade; mas não seria equitativo julgá-lo porque a mulher não é sempre culpada da sua fealdade, embora o seja na maior parte dos casos por uma conduta irregular, anti higiénica e desordenada. Além disso, a mulher é muitas vezes feia porque não soube cultivar a flor preciosa da bondade".




A beleza física era também vista como ao serviço de uma espécie de eugenia, do apurar da "raça", ou seja, como um alto ideal que transcendia a satisfação do indivíduo:

"A mulher deve ser ambiciosa de beleza. Neste caso a ambição não é um vício mas a primeira das virtudes, porque demonstra nela a alta compreensão de um dever sagrado, o de dar a vida a homens belos e sãos.  Entre os primeiros deveres da mulher está a tentativa de obter um tipo ideal de beleza. Esse dever devia estar pelo menos ao mesmo nível de uma boa instrução. As tentativas feitas pela mulher para alcançar beleza nunca se perdem, porque mesmo que ela não consiga realizá-las imediatamente e para as suas satisfações pessoais, realizá-la-á nos seus descendentes.


Lina Cavalieri
Desde os seus primeiros anos a obrigação moral de aprender a arte de ser bela impõe-se à mulher não para desenvolver uma pueril presunção galante, mas para realizar um fim augusto, o de aperfeiçoar o corpo e a alma da raça a que pertence. Criar para si um tipo de beleza, conservá-lo o maior tempo possível, transmiti-lo aos seus filhos, eis o verdadeiro feminismo da mulher, eis o que pode fazer dela rainha do mundo e o ser a que devemos todas as dedicações e sacrifícios".


La belle Otero


Longe das ideias do nosso tempo, em que assistimos um certo ressentimento contra os padrões de beleza, o escritor acreditava (à semelhança de uma beldade contemporânea, a Bela Otero) que ser formosa era a principal missão da mulher e que a inspiração em ideais de beleza nada tinha de funesto: em teoria, o corpo seria uma criação do espírito. Por um esforço de vontade prolongado, seria possível modificar a figura e imprimir-lhe o tipo de beleza que melhor sintetizasse os gostos estéticos de cada um(a).




"O desejo ardente de realizar um ideal de beleza dá sempre resultados positivos. A nossa alma possui um poder plástico de transformar lentamente o nosso rosto, dando-lhe a fisionomia que os nossos olhos contemplam mais frequentemente e do ideal de beleza que fixamos...a primeira operação a executar é escolher um ideal de beleza e viver intensamente a ponto de nos imaginarmos no modelo. Mesmo praticando a ginástica física, não se deve perder de vista o modelo ideal. Todos os movimentos devem ser feitos pensando no modelo que se quer imitar". 



Mas desenganemo-nos se a ideia parece superficial: para que a beleza física fosse duradoura, tinha de partir da alma. "A mulher que quer conquistar a beleza deve evitar a vida desregrada, o vício, as fadigas que desfeiam, as causas de doença e as preocupações. Tudo o que ajuda a fazer-nos melhores e mais sãos, ajudará a tornar-nos belos". 

O autor acreditava mesmo que não havia pior crime que o de lesa-beleza: "são pois, culpadas de lesa - beleza as mulheres que não têm a ambição do seu corpo, que o deixam enrugar e envelhecer, que extinguem no rosto o esplendor divino da suavidade, que esquecem o dever sagrado da coquetterie sublime, que por uma conduta desregrada degradam a pureza das formas. Mais culpados ainda são os que impedem a mulher de satisfazer a sua aspiração soberana de beleza, que a sujeitam a trabalhos penosos e degradantes, que fazem dela a besta de carga, que abafam a flor divina e degradam a alma feminina nas fadigas diárias dos escravos. Uma beleza que se degrada é um crime que se comete"...

Em tempos de "igualdade" e "beleza real" muita gente discordará destas ideias "antiquadas" ; mas outras tantas pessoas - nomeadamente as adeptas do fitness- verão aqui umas quantas verdades...



Também sentem isto?





Cada indivíduo tem uma atmosfera própria, tão particular como um perfume de assinatura. 

Gostava de ter um nome para esta estranha sensação: por vezes, quando nos lembramos de alguém - seja essa alma mais ou menos relevante, querida ou persona non grata, do passado ou do presente, viva ou não - não é tanto o seu rosto ou a sua voz que ocorre, mas todo um ambiente que vem com ela. É mais forte e involuntário do que o que se sente quando nos imaginamos a comer um limão.

 É como um pequeno filme a passar na cabeça de forma imediata, involuntária e ultra rápida, com a sua própria fotografia, iluminação e banda sonora. Flashes de lugares onde se esteve com a pessoa, de imagens, de boa disposição ou desconforto, tingidos pelo estranho filtro da memória que dá outra cor às coisas, igualzinho aos do Instagram.

 Por exemplo, quando me lembro da bisavó L. não é tanto o seu sorriso pronto ou as piadas que contava sempre, mas o feeling de chegar à sua quinta com o chão de lajes coberto de musgo e o telhado baixo da cottage com o forno a lenha. Por algum motivo a imagem surge-me sempre ao por do sol e no Outono, sob aquele silêncio estranho que se faz sentir no campo quando os pássaros se vão deitar, embora tenha lá estado em todos os horários e estações. E isto apesar de ter recordações que me são mais gratas, como as nossas conversas ou os figos pingo de mel colhidos da árvore.

 Já se me recordo da casa do bisavô A., antes de o ver a ele sou transportada para as escadas de pedra, para o cheiro da lareira e para o sabor da célebre água da Vila, religiosamente trazida em cântaros de barro pela Sra. G (água milagrosa que eu achava detestável e mais tarde percebi que é parecidíssima com a de Evian) e bebida em púcaros de esmalte.



E quando penso na minha amiga I., que vejo tantas vezes, vem-me de imediato à cabeça o quarto todo desarrumado de tanta brincadeira de adolescentes, a tresandar (lindamente, vá) a incenso de lótus e Halloween de J. Del Pozo. 

Vá-se entender...

Bem gostava de explicar isto melhor. Mas sei que estas memórias podem ser complicadas quando são ruins, porque assaltam de surpresa. Emily Brontë dizia que os pensamentos são tiranos que voltam para nos atormentar. Pois deve ser assim que o conseguem! Ouvi dizer que estes "filmes" são muito comuns em quem sofre de stress pós traumático, mas pela lógica calculo que seja algo que sucede muito aos realizadores de cinema: é que dá para elaborar uma storyboard com estas imagens fugidias....se as conseguirmos agarrar e precisar! 

 Certa vez perguntei a uma amiga psicóloga se havia designação para isto, tentando descrever o "sintoma" conforme pude. Chamou-lhe memórias fragmentadas. Pareceu-me um belo nome, mas não me esclareceu o mistério...

Sunday, March 6, 2016

7 diferenças que é urgente explicar (Parte I)

Em grandes e pequenas coisas, o diabo está nos detalhes. E a vida está cheia de pormenorzinhos (uns mais subtis do que outros) que se toda a gente soubesse distinguir, o mundo era um lugar bem mais agradável. Vejamos alguns:


1- Traje social x traje de gala



Ou vestido de cockatil/vestido de noite x vestido de gala...e outras confusões de dress code. Muita gente acha que o casório da prima às nove da manhã é a ocasião perfeita para copiar o vestido comprido cheio de lantejoulas que a Cristina Ferreira usou na última gala da TVI. Fail.

2- Chocolate quente x leite  com chocolate (quando não é pudim)




Nada contra leite com chocolate, mas quando se paga (geralmente mais caro) por chocolate quente, espera-se chocolate em barra derretido com um bocadinho (ou não) de leite. E ainda há estabelecimentos que servem uma versão escaldante e derretida de pudim boca doce, mas não muito doce, que não arrefece de maneira nenhuma e que é preciso comer à colher. Moral da história: se não há quem sirva o real deal, mais vale preparar a beberagem em casa...

3- Ser feminina x ser uma flausina ridícula



Já se viu em detalhe aqui: uma coisa é ser delicada, graciosa, meiga, evitar fazer de "chica esperta", não recear ser ocasionalmente a  ser a "donzela em apuros" e deixar que os homens façam o seu papel de cavalheiros. Outra é fazer-se "fofinha", falar à bebé, ter o conteúdo cerebral de um peluche da Hello Kitty  e ficar histérica, aos guinchos, perante qualquer percalço (e.g pneu furado) ou ante a vista de um rato ou aranhiço. Isso não é amoroso, não é giro, não é (blhec) quiduxo. É patético. Bitch please.

4- Dar apoio x "mais valia e estar calado"



Encorajar quem está em baixo, fazer de ombro com paciência de santo nos momentos mais negros de um amigo ou, no limite, dar-lhe um choque de realidade é uma coisa. Mas dizer coisas parvas do estilo "talvez não te tenhas esforçado o suficiente" quando a pessoa já se virou do avesso...isso não é nada produtivo. Ou bem que se tem a resposta para o problema, ou bem que se é um bom ouvinte e mais nada. Afinal, ninguém gosta de ouvir sentenças que pouco adiantam.

5- Efeito "bronzeado" x base terrosa



Algumas pessoas ficam melhor bronzeadas - principalmente as de pele dourada, morena ou parda, que às vezes parecem macilentas no Inverno. Depois, um pó bronzeador estrategicamente aplicado pode dar aquele ar "dispendioso" a uma maquilhagem, mesmo em caras pálidas. Mas - tal como acontece com o blush- nas mãos erradas (ou da cor errado) o desastre é muito provável. Duas manchas cor de tijolo nas faces não dizem "faz de conta que fui esquiar a St. Moritz" como algumas trapalhonas julgarão. No entanto, pior ainda é tentar conseguir o efeito bronzeado recorrendo ao fond-de-teint. Por mais que certas esteticistas de esquina armadas em maquilhadoras continuem a dizer o contrário, a base deve ser do tom da pele: serve para uniformizar a cútis, não para "dar cor". 

6- Respeitar as mulheres x ser um "capitão salva galdérias"


Tratar toda a gente com respeito- em especial o sexo frágil - e não ser um chauvinista é cavalheirismo. Já não fazer distinções e valorizar da mesma maneira uma rapariga bem comportada, elegante, que se pode apresentar aos pais ou uma serigaita vulgar, de moral questionável, com a desculpa da modernidade ou dos "direitos iguais"...é uma opção individual, claro. 
Muito do agrado de certos homens-beta- de- mente- aberta que defendem o "amor livre" porque assim acham que somam conquistas fáceis mas acabam "caçados" assumindo um relacionamento sério com uma das doidivanas com quem pretendiam apenas  divertir-se. 


Outros ainda sentem-se uns salvadores da pátria ao fazerem de raparigas problemáticas "mulheres honestas", achando que assim afirmam a sua masculinidade e que elas lhes ficarão gratas para sempre. Quase sempre o conto acaba com o homem "modernaço" a queixar-se de ter feito figura de parvo, porque já se sabe: podemos tirar a rapariga da barraca, mas não a barraca da rapariga. E com o "cavaleiro andante" ter dificuldades em arranjar mais tarde uma mulher decente, porque a fama corre e uma reputação estragada não conhece sexos.

7- Guiar devagar x "devagar, tipo rally"



Ir "só a 70" numa estrada normal ou numa estrada íngreme de montanha aos zigue-zagues NÃO é a mesma coisa. Há que adequar a velocidade ao terreno, porque guiar a 80 junto a um precipício não é exactamente tão seguro como fazê-lo na circular à vontadinha. Por muito que alguns ases do asfalto insistam em confundir prudência com exagero. E em sacar do argumento "desmancha prazeres!" quando alguém enjoa e vê a sua vidinha a andar para trás com tanto cross country. A mania é mais comum aos cavalheiros, embora também haja mulheres aceleras que convidam ao estribilho misógino sem graça nenhuma "mulher ao volante/perigo constante".



To be continued....



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