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Saturday, March 19, 2016

3 coisas que Jesus aturou tal como nós


Porque amanhã começa a Semana Santa - que em termos espirituais e de tradição é a minha época preferida do ano - têm-me ocorrido algumas ideias para partilhar convosco sem querer repetir, em modo "post típico da quadra" o que já foi dito em anos anteriores. E ontem lembrei-me disto ao (re) ver um dos meus filmes "de Páscoa" preferidos. (Semana Santa não é Semana Santa sem filmes de Páscoa, por mais que os canais actualmente prefiram passar coisas tipo Shrek).


Talvez a vossa avó tivesse o costume de dizer, se vos via arreliados com alguma coisa "deixá-lo! Paciência! Mais do que nós sofreu Jesus!". Digo as vossas avós porque a maioria das pessoas mais jovens vai perdendo esse útil raciocínio enraizado na nossa cultura, que tanto ajuda a relativizar os problemas. Esse e o de dizer "tudo seja por amor de Deus!" ou "seja por amor dos meus pecados!" ou ainda de oferecer as contrariedades pela conversão dos pecadores ou pelas alminhas do purgatório (um dia debruço-me mais sobre o tema das alminhas).

Qualquer pessoa baptizada saberá a história da Paixão de Cristo, que vem a propósito mesmo fora desta época do ano. Se nos fazem dar voltas inutilmente, refila-se "que estupidez - andei o dia todo de Herodes para Pilatos". Um falso amigo, já se sabe, é um Judas. E quando alguém quer livrar a água do capote, diz "lavo daí as minhas mãos como Pilatos".




 Porém,  se pensarmos bem na vida de Cristo - e sobretudo, nos Seus últimos dias -  não só nos Seus grandes sofrimentos, inimagináveis para qualquer pessoa hoje, mas nos desaires "menores", vemos que Jesus passou mesmo coisas aborrecidas tal como nós. Ao que o Divino Redentor se submeteu!

 Obviamente, lidava com os desgostos com santa sabedoria e paciência, embora se irritasse por vezes ( o melhor exemplo foi quando perdeu as estribeiras e expulsou os vendilhões do Templo a pontapé).



 Mas ao fazer-se Homem aceitou sujeitar-se a todas as coisas que nos tiram do sério, não usando o Seu poder para se livrar delas. Quanto a mim isto é dos maiores testemunhos da Sua divindade. Ou para quem não é Cristão mas até acredita que Jesus fazia milagres, a derradeira prova de que Jesus era mesmo muito especial.

Qualquer um de nós, se tivesse a capacidade de andar sobre as águas ou transformar água em vinho, ficaria muitíssimo tentado a no mínimo, pregar um susto a certas almas ou usar qualquer milagrezinho para escapar a um problema difícil. Ser humano NÃO é fácil, e Jesus experimentou isso nas mais ínfimas maçadas. Ora vejamos:


1 - Amigos da treta



Jesus teve muitos amigos dedicados como Santa Marta e Lázaro, José de Arimateia, Nicodemos, o primo S. João Baptista (embora nos seja sugerido que não tinham oportunidade de conviver muitas vezes) S. João Evangelista (que O seguiu até ao fim e  prometeu tomar conta da Virgem Maria como um filho) e - reza a tradição - Maria Madalena. 

Mas não só foi traído por Judas por cinquenta dinheiros como Pedro, que jurava lealdade aos quatro ventos, negou três vezes que O conhecia, com medo de ser preso também. 



Claro que é compreensível ter-se acobardado com todo o povo a gritar mata e esfola e demais a mais, S. Pedro arrependeu-se logo a seguir e veio a redimir-se de tudo, tanto que Jesus o escolheu para ser o primeiro Papa. Mas não deve ter sido nada agradável  saber (e obviamente Jesus sabia tudo) que um grande amigo disse, numa hora tão negra "não conheço este homem de parte alguma e não tenho nada a ver com isso". 

 Depois, mesmo João (com Pedro e Tiago Maior) adormeceu como um prelado enquanto Jesus se debatia horrivelmente no Monte das OliveirasE Pilatos? Não era um amigo mas simpatizou com Ele, sabia-O inocente...e ainda assim não O defendeu  para não arranjar complicações nem perder o seu tachinho como Governador da Judeia. Todos já passámos por uma destas, embora em grau menor: estarmos numa aflição qualquer e mesmo os íntimos ficarem descansadinhos como se nada fosse. Ou terem muita pena, acharem que temos muita razão, mas entrarem em modo "isto não é nada comigo". Thanks a lot.

2- Dúvidas paralisantes, mesmo sabendo que no fim vai correr tudo bem



Que Jesus soubesse os horrores que O esperavam no dia seguinte mas ainda assim se voluntariasse para sofrer a morte é um dos aspectos maravilhosos a contemplar na Semana Santa. Depois de dizer aos três dorminhocos que O acompanhavam que se encontrava "numa tristeza mortal", Jesus, cheio de pavor, retirou-se para rezar,
 debatendo-se na angústia de levar a Sua missão redentora até ao fim. Mesmo estando ciente de que tudo fazia parte do Plano, que no fim ia ressuscitar e assustar à brava os fariseus deitando abaixo o Templo, teve dúvidas e chegou a pedir que se fosse possível, não tivesse de tomar aquele cálice. Ficou tão aflito que suou sangue e foi confortado por um anjo, como sabemos. Mal comparado, muitas vezes vemo-nos numa inquietação semelhante: antes de uma prova/reunião/intervenção cirúrgica importante, por exemplo. Temos a certeza das nossas capacidades, tudo está preparado e ensaiado, sabemos que vamos sofrer por uma boa causa mas que no fim valerá a pena, mas ainda assim só apetece deitar tudo a perder e fugir para bem longe. Principalmente quando os outros nos deixam sozinhos a dar o peito às balas e queremos mais que tudo que se "afaste de nós esse cálice".

3 - Passar de bestial a...inimigo público, vá.



Ora vejamos a  cronologia: no Domingo de Ramos, ou seja amanhã, Jesus entrou em Jerusalém triunfante. Tinha mais admiradores e apoiantes do que conseguia atender: as multidões seguiam-nO, chamavam-lhe Rei dos Judeus, Messias e Filho de Deus e era tudo uma grande festa. Menos de uma semana depois foi preso, julgado sumariamente, torturado e executado. A mesma multidão que o aclamava exigia histericamente agora que O crucificassem - arrisco dizer, muita gente sem saber ao certo porque pedia tal coisa. Bastou verem-No acusado e na nó de baixo. De um momento para o outro, até preferiam Barrabás, um famoso salteador, a Jesus que não tinha feito senão curar leprosos, coxos e paralíticos e ajudar pobrezinhos. Claro que o diabo até podia andar lá a virar a cabeça do povo e a acicatá-lo, dadas as circunstâncias, mas em qualquer época não há nada tão volúvel como a admiração ou gratidão das pessoas. Não raro, está-se na coroa da lua mas basta uma intriga para que os bajuladores se transformem em acusadores, jurando aos pés juntos "aquele (a) nunca me enganou". Por mais que seja uma mentira e injustiça completa. As celebridades que perderam tudo devido a um escândalo estão aí para o provar, mas quem já foi alvo de um rumor maldoso que é um sarilho para resolver pode entrever como Jesus se terá sentido.


Em conclusão, foi preciso Cristo ser verdadeiramente Santo e gostar MUITO da Humanidade para ter vindo cá abaixo ver isto. E o pior é que 2000 anos depois tudo continua mais ou menos na mesma, o que põe à prova a santa paciência de cada um  todos os dias que Deus deita ao mundo...






Friday, March 18, 2016

Estado de graça, cada uma tem o seu.



Chontel Duncan não é a primeira mulher de esperanças a gerar controvérsia por manter abdominais de ferro apesar do seu "estado interessante". No ano passado, a bela modelo Sarah Stage já tinha lidado com críticas tanto pela sua esplêndida forma durante a gravidez como por recuperar a silhueta logo, logo a seguir a pôr no mundo um bebé amorosíssimo, rechonchudo e perfeitamente saudável. Por cá, também a apresentadora Carolina Patrocínio foi alvo de comentários menos simpáticos pelas mesmíssimas razões.

O fenómeno de existir uma ideia pré concebida de como uma grávida deve ser para que a considerem "verdadeiramente mãe" (redondinha, exausta, com estrias e um pouco desleixada) até já tem nome: bump shaming. Que é apenas mais uma forma de skinny shaming ou beauty shaming (sofrer críticas por ser magra e/ou linda).

Sarah Stage

Porém, Chontel- modelo de fitness e empresária deste ramo na Austrália - decidiu aproveitar o seu protagonismo nas redes sociais para mostrar como cada mulher vive esta fase de modo diferente. Ora por motivos de saúde, de metabolismo, de estilo de vida ou simplesmente, porque nunca se sabe se calha em sorte a cada uma um barrigão ou uma barriguita, não há mulheres "mais mães do que as outras". Umas querem cuidar-se e fazer imenso exercício (até porque já era seu hábito fazê-lo e, salvo por indicação médica expressa, não há motivo para parar) outras preferem o somewhere in between, outras não gostam, não querem ou não conseguem - ponto. E para o demonstrar mais claramente, a ex Miss Universo posou grávida de quatro meses junto a uma amiga sua, uma "grávida comum" com cinco meses de gestação (imagem acima).


Pessoalmente (pondo de parte se acho bem ou mal esta exposição de momentos íntimos nos social media, mesmo tratando-se de modelos de fitness) como já vos disse, acho que não há desculpas - salvo uma gravidez que exija repouso absoluto, e mesmo isso não implicará "comer por dois" e desprezar os cremes hidratantes - para que uma mulher perca o encanto e a feminilidade só porque vai pôr um bebé neste mundo. Quem tem força de vontade para se manter bela - desde que siga as recomendações médicas e não caia em exageros - merece aplauso, não censuras.

                                            
Claro que nem todas têm de parecer modelos, mas os cuidados de beleza devem vir durante e depois da gravidez, porque quanto menores os "estragos" e melhor a forma, mais fácil será recuperar a silhueta. Cresci com esses exemplos na família e daí não me tiro. Não há nada mais encantador do que uma mãe bonita...nem nada mais deprimente do que uma mulher desmazelada a dizer mal das outras quando devia estar a transbordar felicidade, a publicar no Facebook que "a barriga deformada é uma prova de amor" e a deitar ao inocente que ainda mal abre os olhos as culpas do visual danificado.

No entanto, é uma escolha individual num período delicado que envolve muita coisa - nomeadamente hormonas - e ninguém tem de pôr regras quanto àquilo que uma futura mãe deve ser ou não. Nem exigindo que todas tenham recuperações pós parto "impossíveis", nem rosnando que uma grávida deve ser redondinha e vestir como a mãe da Família Coração. Haja paciência.


Felizes as mulheres do Mundo Antigo




A condição da mulher nas diferentes sociedades de há mais de 2000 anos atrás tinha muito que se lhe dissesse. Aliás, foi um pouco assim sempre - com os direitos e deveres a variar para melhor e para pior, evoluindo e regredindo, de época para época e lugar para lugar, não necessariamente em crescendo. Por exemplo, ao contrário do que se convencionou nos bancos de escola, as mulheres na Idade Média (ou pelo menos, um número apreciável delas) gozavam de maior protagonismo e prestígio na vida pública do que em certos países/meios europeus durante o século XIX e mais além - isto se não quisermos entrar em comparações com a situação feminina actual em determinadas sociedades islâmicas. 

A própria Bíblia está cheia de regras e princípios - alguns aparentemente contraditórios entre si - acerca do comportamento feminino e das normas conjugais. E apesar do papel aparentemente submisso da mulher (ou mesmo por causa disso) era-lhe dada muitíssima atenção. Para o bem e para o mal, vá...



Uma série que vale a pena seguir no Canal História - e que a cada episódio analisa versículos bíblicos para tentar perceber o que eles nos dizem da vida quotidiana desse tempo, com base em dados não só do povo hebreu, mas das outras culturas com quem contactava - chamou a atenção para esta lei curiosa:

Quando um homem se tiver casado recentemente, não irá à guerra e não se lhe imporá cargo algum. Durante um ano estará livremente no lar para tornar feliz a mulher que ele desposou.(Dt 24,5)


É certo que os historiadores e especialistas convidados atribuíram - e com razão - tal medida à necessidade de as famílias crescerem rapidamente, dados os altos índices de mortalidade daquela altura. Escapar à infância era uma sorte e mesmo quem chegava à idade adulta estava sujeito a bater as botas devido a uma peste ou outra macacoa qualquer, isto quando a guerra ou diferentes formas de violência não tratavam de dizimar boa parte da população. 


Porém, atente-se na expressão utilizada: não é "estará livremente no lar para garantir descendência" ou outro termo mais categórico.

A Bíblia fala especificamente em tornar a mulher feliz. Num período de Lua-de-Mel ou numa grande licença de casamento para que marido e mulher se acostumassem um ao outro. Um ano inteirinho a cultivar o romance. Isto é muito sofisticado *e bonito*.

 Reparem que o nosso código do trabalho mega civilizado e democrático só diz, super friamente "são consideradas justificadas as faltas dadas por 15 dias seguidos por altura do casamento". Coisa mais chocha e sem coração. Hoje fala-se muito na "igualdade de direitos da mulher"...mas vejam lá se alguém se rala com a "felicidade da mulher"!


Depois, é curioso como vivendo numa cultura judaico-cristã, não se frisa actualmente o modelo defendido pela religião dos antepassados: quando uma pessoa se casa, não é para "ser feliz"- é com o dever de tornar o outro feliz. Se ambos trabalharem nesse sentido, focando-se mais nas suas obrigações para com a cara metade do que na própria felicidade, pela lógica ambos serão felizes. É o mesmo que toda a gente ser bem educada, dar prioridade a quem deve, não incomodar os outros, tratar bem o próximo: se todos cumprissem era uma alegria...


Mas não. Cada um casa com o desejo egoísta de "ser feliz" e descasa com o dobro da velocidade logo que, muito superficialmente, lhe parece " já não sou feliz!". Sem atentar que a felicidade não é assim uma coisa em linha recta, inalterável, adquirida; "ser feliz" não é andar por aí todos os dias como quem tomou um batido de Prozac ao pequeno almoço. A felicidade é feita também de pequenos alívios, de muitos confortos insignificantes. Um marido que faz por emendar as suas pequenas faltas e procura poupar à mulher toda as arrelias que pode, que a protege o melhor que sabe, que é carinhoso nas banalidades quotidianas... vale mais do que outro que se esmera nos grandes gestos, mas no dia a dia só faz o que lhe apetece como se vivesse sozinho, sem considerar os sentimentos "dela".

 Por vezes os antigos sabiam mais do que nós. Ou tinham outra atenção ao que realmente importa...






Thursday, March 17, 2016

Bem prega Soror Sissi, põe like no que ela faz, não faças o que ela diz?





O mais giro de ter um blog é que - seja um Pequeno e Médio Blog ou um grande blog - 
vai-se criando uma comunidade. É como um clube onde se juntam pessoas com ideias semelhantes ou que, ainda que não concordem em todos os aspectos, se interessam pelos mesmos temas.

Quando chamo "salão" a este cantinho é mesmo o que sinto: que já conheço quem passa por cá e que quem lê já me conhece também. Um blog não vive sem os seus leitores. E sobretudo não vive sem habitués (obrigada! obrigada! obrigada!). 

Ora, quando se trata de uma página com ideias como as desta, um pouco caretas e que fogem ao mainstream, acontece muito aquilo que já temos discutido: há quem diga "gosto muito de ler, mesmo que não concorde com tudo" e "aqui dizem-se coisas que as pessoas até pensam mas não afirmam com medo de ferir susceptibilidades" ou ainda "nunca tinha reparado nesse aspecto; vai-se ficando insensível até alguém apontar que isso não é normal". Se calhar também há quem se ofenda e nunca mais cá volte, mas esses raramente comentam por isso fico-me numa abençoada ignorância, já que detesto debater...

Como também já comentei algures, fico contente com isso porque é exactamente o que penso em relação à maioria das páginas que aprecio. Gosto delas porque dão eco às minhas próprias ideias ou porque precisam coisas que já me tinham passado pela cabeça mas não sabia bem que nome lhes dar. Mesmo que não esteja de acordo com tudo o que lá se escreve. O que interessa é despertar consciências, dar forma às coisas, estar atento ao que se passa - fazer um pouco de tertúlia, em suma, de preferência com bom humor.



Quando aqui se aponta o ridículo, é no espírito de não ir com a carneirada sem questionar, vulgo "ei! Já repararam nisto? Já viram que toda a gente acha isto bonito, ou normal, mas se calhar não é bem assim?".

Mas depois há outro tipo de amigo/seguidor/leitor que me intriga. É o que concorda com tudo, acha imensa piada, diz que sim senhor, até partilha para os amigos (e nós agradecemos) mas depois vai e faz exactamente o contrário. 

Atenção: não que tenham de me dizer que sim a tudo ou fazer como eu acho melhor, Deus me livre; o blog não é uma democracia mas isso limita-se à decisão sobre os conteúdos, não ao que as pessoas fazem com eles depois. Ninguém pretende criar um movimento, nem uma seita, nem ter um exército de cyborgs (bom, isso teria graça mas dominar o mundo há-de ser uma canseira e uma sensaboria: se toda  agente se portasse bem, depois troçávamos de quê?). Só me parece esquisito. 


Há quem considere engraçadíssimo que aqui se faça pouco das unhacas ou da ostentação pateta de comida, por exemplo, mas depois não resista a exibir o último verniz gel com bolinhas que pôs (ou pior, "meteu") para a última jantarada de sushi com as "migas". E eu olho e fico assim, O_O, desculpem lá o boneco. 

Já houve até quem, seguindo atentamente o Imperatrix, estando careca de saber como aqui se pensa - e segundo disse,gostando muito do blog - ficasse muito magoado quando, por uma daquelas coincidências, aqui se criticou algo em que por acaso essa pessoa tinha estado envolvida. Era de estranhar, quando a dita iniciativa estava mesmo a pedi-las...

Têm-me dito "o pior é que quem precisava de ler alguns textos teus não passa por cá". Certíssimo. Mas que quem lê e está de acordo faça precisamente o oposto, das duas três: ou tem uma grande capacidade de rir de si mesmo (a), o que é fantástico, ou acha-me graça mas não me leva a sério (o que não faz mal nenhum; também não me levo demasiado a sério, que isso é sinal de grande ego e pouco tino) ou está a gozar consigo próprio (a), ou comigo, nem sei.

É claro que eu preferia não fazer zangar ninguém com este post. Só estou a reparar, como reparo em tudo, por uma questão de coerência...


Eu embirro com...esse palavrão do "comer saudável".







Frisando e realçando, não é com o hábito de ter uma alimentação saudável (embora os modismos papalvos do detox e das papas com linhaça para inglês ver me irritem). É mesmo com a expressão "comer saudável" que eu embirro solenemente.

De um momento para o outro - como todas as modinhas - "comer saudável" tornou-se um chavão que as pessoas usam como se não houvesse outra forma de dizer exactamente o mesmo. Um chavão pretensioso que dá origem a montes de artigos aburguesados em jornais e revistas e pior, a uma multidão de posts ranhosos nas redes sociais. "Hoje apeteceu-me comer saudável" - lá reza a postagem com um prato de salada cheio de filtro fotográfico. 

Uma salada metida a chic muito provavelmente regada com um molho feito na Bimby e levada para o emprego numa tupperware genuína da Tupperware, que é para a pinderiquice ser completa, absoluta e irrefutável.

Gente normal e escorreita diria, de forma gramaticalmente coesa, "hoje apeteceu-me comida saudável" (ou um jantar/almoço/lanche saudável) . Ou então,  "hoje apeteceu-me comer saudavelmente". 



Mas não. Qual quê! Umas porque vêem/ouvem os outros falar e escrever assim e nem se detêm a pensar se é bem ou mal dito, outras porque acham lindo, zás.

Querendo ser chic a valer, esta malta diz exactamente como o nosso povo amoroso: o comer, o comerzinho (expressão que, já vos tenho dito, por mais que não esteja incorrecta eu abomino porque me lembra sempre comida retrasada).

A intenção aqui não é- bem sei - usar um verbo como substantivo à moda da aldeia. É algo bem pior, porque não é genuíno: parece-lhes que fica muito bem, muito urbano, trocar as voltas ao português. 

Mas o mais engraçado é que quem tem de facto uma alimentação saudável não se lembrará de se repenicar toda (o) com dizeres desses, quanto mais de partilhar o "repasto" a não ser que queira dar a receita...é o pão nosso (ou a salada nossa) de cada dia. O hábito de comer saudavelmente (não "saudável", irra!) é como a inteligência, a nobreza, a beleza ou a riqueza (a riqueza antiga, vá): quem tem não precisa de o afirmar aos quatro ventos...quanto mais preocupar-se com a forma mais moderna de o gritar ao mundo!

Wednesday, March 16, 2016

Coisas que é um sarilho para encontrar nas lojas #1: botas para usar com saias




Antonio Marras


Passei o Inverno arreliada com isto, e como apesar de a Primavera estar à porta o frio ainda se faz sentir, tive de analisar o caso que me tem complicado a escolha das toilettes.

Ora pensemos: a tendência dos anos 70 dita que podemos usar botas com saias linha A ou culottes. E a sensatez recomenda que - com saias abaixo do joelho - as botas não folguem nas pernas. 


Casadei


Com saias curtas ainda é outra história (das duas uma, ou se opta por umas cuissardes discretas ou vamos por botas de cano largo e descaído, que num look boho até é favorecedor) .

Mas para acompanhar todas as outras saias e vestidos, é mais recomendável - se não quisermos usar sapatos ou botins - botas de cano justo, maleável, que se adapte à perna. A única excepção à regra será um modelo como o  Shark Lock da Givenchy, que fica interessante mesmo que não seja lá muito correcto.


Para a noite, Dolce & Gabbana

Então porque carga de água será tão complicado encontrar nas lojas botas justas deste género, em pele fina ou tecido - sejam longas ou *de preferência, para não se enrolarem na saia* pelo joelho? Mesmo entre as marcas de luxo estes modelos estão em minoria. Ou seja, caem na categoria das peças que fazem falta mas as marcas deixam sempre faltar.

 É claro que ( salvo no caso das cuissardes) para usar sobre calças, botas largas no cano são incomparavelmente melhores e mais confortáveis. Mas ainda assim devia haver mais botas-para-saias à disposição.


Jimmy Choo

É que é muito maçador passar o Inverno sabendo que de todas as botas no armário, só uma pequena parte se presta a ficar no sítio ou a não blusar sob uma saia justa. Ou optar mais vezes por calças à conta disso. E preservar como um ai-Jesus aquelas que ficam bem e são quentinhas! Haver tão poucas opções implica também investir muito numa peça de uso ocasional, já que praticamente só as griffes mais exclusivas têm estes modelos sempre disponíveis - e reparem, poucos com saltos práticos e confortáveis.

A fast fashion às vezes falta muito às necessidades do consumidor, ai se falha....um dia destes ainda me resolvo a desenhar calçado e o resto, em modo pede o guloso para o desejoso.






Macaquinhos no sótão, cada um tem os seus.


Em boa verdade, não sei porque se convencionou que são macacos os responsáveis por uma pessoa começar a malucar lá por dentro em problemas que nem existem (ou a atormentar-se com males passados aumentados à lupa da imaginação). Ter ratos no sótão é bem mais comum: quem já dormiu numa casa antiga sabe bem o barulho que eles fazem...parece uma rave descontrolada lá em cima!

Mas vendo bem, faz sentido que se tenha dado tal honra aos nossos primos simiescos, e não à rataria.  Macacos não se limitam a correr, tratando da sua vida como os ratos que só pensam em roubar comida e arranjar ninho: se hipoteticamente se apanharem num sótão hão-de inventar quantas cabriolas há com tudo o que estiver à mão. Atiram o que andar por cima dos móveis, vestem a roupa do avesso, abrem e fecham gavetas, balançam-se nos lustres pela cauda...


Assim são os nossos pensamentos: não se limitam a correr e a fazer barulho. Viram-se do avesso, arreliam-nos com caretas, penduram-nos as ideias de cabeça para baixo, um banzé pegado, até não conseguirmos ter um "diálogo mental" que se aproveite. Magicar pode ser um péssimo hábito. Isso do cogito ergo sum até pode ter provado que existimos, mas existir não quer dizer que se esteja a meditar em alguma coisa de jeito. 

Há dias alguém disse "bichinhos feios no sótão" em vez de "macaquinhos". Achei muito bem dito, até porque há macaquinhos lindíssimos, mas nem todas as macacadas que nos poluem o sótão são belas e inspiradoras. Algumas mais valia trancá-las no zoo e deitar fora a chave. Ou lavá-las com sabão macaco, para a nódoa sumir de vez.

Tuesday, March 15, 2016

As mulheres e o mito de "tens de viver a vida"


Tive finalmente ocasião de ver An Education, filme que me despertava curiosidade há algum tempo e que - ou por ser um pouco too close to home ou por falta de tempo, me tinha escapado. O enredo é velho: rapariga com ambições académicas/de carreira apaixona-se por homem poderoso que põe o mundo aos seus pés. Ora, a certa altura vê-se confrontada com uma escolha: a professora que ela admira diz-lhe "és bonita, és inteligente, podes ser o que quiseres. Vai para Oxford". E a jovem responde "a professora é bonita, inteligente, podia ser o que quisesse, foi para Cambridge...e aqui está a corrigir redacções".

O enredo -apesar de a acção se desenrolar nos anos 50/60, época em que as mulheres começaram a ver-se de forma mais evidente perante este conflito-  resume aquele velho dilema ou falácia que ideias feministas e demasiado idealistas nos arranjaram: podes ser o que quiseres. Podes ter tudo. E às tantas até é possível, mas é necessário um sentido sobre-humano de timing e de oportunidade, muita elasticidade, muiiito sangue frio e um bocadinho de sorte. Sem isso, o tanas é que podes.



Em nome de uma independência (que é importante, sem dúvida) de estudar, viajar, alargar as vistas, construir uma carreira (um processo que é  arriscado tornar discutível, mas que se prolonga demasiado para o bem da maioria) é incutido às mulheres que adiem ad aeternum casamento e filhos. Mas - já vimos isto - eis que dali a um par de anos o "ainda é muito cedo" começa a transformar-se no desagradável "olha que se faz tarde". 


Uma rapariga é desencorajada de casar com o seu primeiro amor - ou mesmo de aceitar um compromisso sério com o apaixonado de liceu - porque ambos têm de viver as suas vidas. O problema é que muito provavelmente, não se sabe bem que vida vem a ser essa. E a rapariga acaba por se afastar do Afonso, que vai-se a ver não seria pior (pelo contrário) do que o Manuel ou o João ou o Miguel que conhece mais tarde e que se calhar, só se calhar, não seriam tão relevantes como o Afonso, que mal ou bem lhe queria com a maravilha e ingenuidade da primeira juventude, capaz de tornar tudo possível. Algumas das mulheres mais felizes que conheço não foram nessa pandeireta do "tens é de viver a vida" e mantiveram-se ao lado do seu high school sweetheart até hoje. Com muito "é melhor o diabo que se conhece do que aquele que não se conhece" e muita paciência, o namoro lá sobreviveu a faculdade, início de carreira, ventos e marés, até atarem o nó. Se calhar sem terem logo ao início as condições ideais, mas em modo "tudo se faz, tudo se cria, amanhã Deus dará". Raro na nossa geração - e se calhar, não fizeram senão bem.

Mas voltemos às que vão na tal pandeireta e largam o Afonso:  mais tarde, se conhecerem o tal homem poderoso e quiserem seguir o caminho dele, serem esposas no sentido tradicional, dedicar-se à família, o mais certo é ouvirem "estás a desperdiçar a tua vida". A vida, sempre a vida...

Para muita gente, uma vida só é vida se se assemelhar a uma conduta estilo Sexo e a Cidade ou Anatomia de Grey: carreira, amizades e imensos casos amorosos.

 Mas por outro lado, há o risco de um homem desse género - dominador, bem sucedido, com presença na sociedade-  não ser o que parece. Como no filme, nem tudo o que reluz é ouro. E a rapariga pode ver-se numa gaiola dourada, sem opção, sem alternativa, presa a uma relação disfuncional e com grande disparidade de poder. Encurralada.

Nisso o filme está certíssimo: aliás, é baseado num caso real e o testemunho da escritora que o inspirou dá que pensar. Dizia ela "antes de conhecer este homem estava sedenta de sofisticação. Depois de ele sair da minha vida, só queria estar com gente terra a terra e rapazes simples da minha idade".



A educação de uma mulher também é moldada pelos cavalheiros que conheceu. E há alguns que ensinam mais que mestrados, da melhor ou pior maneira.

É curioso como nos são dadas todas as escolhas, e no entanto elas continuam a não ser fáceis.Tem de se encontrar algures para as mulheres - e realçar para as gerações futuras - um ponto de equilíbrio entre o ainda é muito cedo e o olha que se faz tarde. Entre independência e amor. Entre espírito prático e felicidade. Entre o podes ser o que quiseres e o escolhe aquilo que é realmente importante.  Algures no meio disso tudo, há-de haver uma fórmula balanceada, do estilo "constrói alguma independência e não a percas mas quando o amor aparecer, agarra-o".

Suponho que tal pedra filosofal se encontre perdida entre o viver a vida e não desperdiçar a vida- que não é assim uma coisa distante, vaga, obrigatoriamente localizada num grande mundo onde todas têm de ser aventureiras, mas algo que acontece todos os dias. Na ânsia de viver, de viver não se sabe bem o quê, nunca se vive realmente.





As coisas que eu ouço: quando morre uma figura pública


Fiquei com muita pena de ver partir inesperadamente Nicolau Breyner. Como a maioria dos portugueses cresci com o seu rosto familiar; gostava de o ver e sobretudo, de o ouvir cantar. Uma voz riquíssima...inesquecível, o la-ra-la-la-la pim pim do Sr. Contente e do Sr. Feliz. 

Mas claro que - uns mais pesarosos, outros menos - na era em que qualquer anónimo tem tempo de antena, o comum dos mortais chama o luto a si, por muito pouco que tivesse a ver com a figura que deixa este mundo. É um fartar de condolências que a família nunca receberá, de agir como amigo chegado mesmo que só se tenha visto a pessoa de perto uma vez, de gabarolice nas redes sociais a contar o dia em que se vislumbrou o defunto no metro, de longe, ou que se lhe apertou a mão quando recebeu um qualquer prémio e calhava quem se finou fazer parte do júri. 

Há uma diferença entre lamentar a perda de uma personalidade estimada pelo público e fazer disso algo pessoal.  Faz-me confusão esse usurpar da dor alheia, como quem procura roçar-se na celebridade, fazer-se íntimo e ficar assim com a sensação de ser também um bocadinho famoso. Quanto mais não seja, como é a notícia do momento sempre garante alguns likes...



Isto porque, estava eu há pouco numa loja que tinha o rádio ligado em estação que não percebi qual era, e o programa deu espaço para os ouvintes fazerem a sua homenagem a Nicolau Breyner. Pois eis que um senhor qualquer que para lá telefonou, que o tinha conhecido via qualquer grupo de teatro amador a que estivera ligado (ou assim me pareceu...), depois de contar larga e compungidamente os escassos momentos em que se cruzara com o artista, de maçar a audiência com o ar pretensioso de pessoa importante, de gabar a grande simplicidade (tinha de ser) deste vulto da cultura e de enfim, agir como agem sempre as almas que adoram ouvir a própria voz, se sai com mais esta:

" Que o mesmo Deus que deu a Nicolau Breyner o talento para ser actor varra da face da terra (ou "extirpe da face da terra", já não sei, era um verbo assim assustador) os «artistas» que fazem programas que não interessam".

Olá! Isso é um bocado forte e super emocional. E ridículo, pelo menos neste contexto. Para já, a chamar o nome do Senhor em vão. Depois, há imensos figurões que não me importava de ver longe dos holofotes, mas daí a mandar-lhes uma maldição divina que os esfumasse do planeta para fora vai alguma distância. E em última análise, nem sempre os artistas se dão ao luxo de interpretar apenas aquilo que gostam ou para que se prepararam no Conservatório (os que lá andaram, vá)- Shakespeare e cinema de autor não enchem tanto os bolsos como novelas xaropentas e um actor precisa de pagar as contas. O próprio Nicolau Breyner esteve ligado ao estabelecimento de muita da ficção nacional conforme a conhecemos, ou estou enganada agora?

Isto as pessoas falam, falam, e só dizem disparates...foi um autêntico diga à gente como vai este país. O mal da fama é que uma pessoa se sujeita a "velórios" destes.

Monday, March 14, 2016

Susan Sarandon: belíssima aos 70 anos.


A revista Activa deste mês trouxe uma interessante entrevista com uma das minhas actrizes preferidas. Não sei se pela escolha de papéis, se por me identificar com o seu fototipo ou com o seu pedigree celta-siciliano, sempre achei Susan Sarandon inspiradora. Mas como sou despistada nestes detalhes e a idade de uma senhora não se pergunta, fiquei surpreendida ao saber que a beldade ruiva - que mais coisa menos coisa, parece sempre na mesma- fez 70 anos.

 70, meninas e senhoras! Não que ter 70 anos hoje em dia seja nada do outro mundo. É só o que vem depois dos 60 que são os novos 50 e sempre acreditei que uma pessoa mantendo-se sensivelmente igual a si própria até certa idade, depois disso já não modifica muito mais. Principalmente se tiver sido bela em nova, já que a verdadeira beleza depende mais dos traços correctos do que da frescura da primeira juventude. Basta olhar para outras belezas como Julianne Moore, Cate Blanchett, Monica Bellucci ou Sophia Loren para perceber isso.

Até aos vinte e poucos anos, qualquer rapariga minimamente esbelta que se atavie é engraçadinha, mas a ilusão desfaz-se rápido. Há uma tendência para sobrevalorizar a juventude confundindo-a com beleza, quando na verdade a juventude é um photoshop temporário.



Não obstante, ter 70 e aquela figura impecável e um rosto lindo que aparenta menos duas ou três décadas (em boa verdade, nem saberia que idade lhe dar) continua a ser obra, até porque (como o artigo aponta e muito bem) apesar do seu tipo de pele delicado (quem tem pele clara e sardas sabe que não pode haver descuidos) a actriz parece ter retocado muito pouco a cara, se é que intervencionou o que quer que fosse...

Em todo o caso, a receita de Susan Sarandon não é tão diferente da fórmula apontada por todas as famosas bonitas que se conservam bem: focar-se na família, ter alguns cuidados de cosmética/exercício/alimentação sem exageros, manter-se apaixonada por projectos, hobbies e causas...viver, em vez de existir. Se ela o diz eu acredito, até porque é remédio acessível e bom de aplicar.

Susan Sontag dixit: os "antes" e os "depois"




Num documentário da National Geographic que conta a história de Anne Frank sob uma série de ângulos que eu ainda não tinha visto explorados, citou-se a impressão da escritora Susan Sontag quando, aos 12 anos, viu imagens dos horrores de Bergen-Belsen:

"Nada do que eu vira até ali me ferira tão profundamente. Parece plausível dividir a minha vida em duas partes: o antes e o depois, embora levasse vários anos a compreender o que tinha visto. Quando olhei para aquilo, algo se quebrou; algum limite tinha sido atingido. Senti-me irrevogavelmente magoada, ferida, mas uma parte dos meus sentimentos começou a contrair-se; algo morreu; e algo dentro de mim continua a chorar desde então".

Qualquer ser humano tem uma série de momentos "antes e depois" ao longo da vida. São perdas de inocência, lições, quebras de ingenuidade, mágoas profundas, cicatrizes que nunca saram e que sabe-se lá que efeito borboleta desencadeiam na alma e no destino de cada um; outras servem de "wake up calls" ou, como diz o povo, de "abre olhos".

 Nem todos esses momentos, revelações. acontecimentos, imagens, palavras ou instantes que mudam uma pessoa e que assombram para sempre são necessariamente trágicos (também os há felizes, cómicos, nostálgicos ou no mínimo, agridoces).


 Nem todos acontecerão na infância ou primeira juventude, embora seja certo que quanto mais cedo, maior a possibilidade de o impacto ser grande ou a cura - se caso disso - mais difícil de descobrir. E em última análise, a maioria destes momentos impactantes é relevante para a história pessoal de cada um, mas não é tão comum andar de mão dada com um instante crucial da História da Humanidade. Quando acontece - caso de famílias separadas durante o Holocausto ou de um casal que se perdeu no Titanic ou no  Terremoto de 1755 - deixam de pertencer apenas à esfera íntima para se entrelaçarem num drama mais alargado, de interesse científico, com cunho testemunhal, mas não obrigatoriamente mais pungente para quem o viveu.

De todo o modo,  são fronteiras que nunca se ultrapassam por completo, linhas que separam áreas do coração e da mente que jamais se desvanecem de todo. A  memória tem infinitos truques, nuances e avenidas. Dos "antes e depois" aos "se ao menos...", passando pelos "what if?", pelos "sorry ever after" e pela angústia de comparar possibilidades (afinal, "tragédia é sempre a medida entre o que foi e o que poderia ter sido"). E tem o poder de continuar a fazer chorar - ou a rir - toda vida por algo que já lá vai noutro tempo, quase noutro plano da existência. 

Por muito que se goste de Museus, memórias e retratos às vezes não são mais que armazéns de material emocional altamente inflamável. 


Sunday, March 13, 2016

8 momentos para entrar em modo "que se dane"

A prudência é uma das virtudes cardeais (aliás, a mãe das virtudes cardeais)- infelizmente  confundida muitas vezes com passividade ou bananice.  Mas lá dizia Maquiavel que às vezes mais vale ser ousado do que prudente

Dentro do bom senso, há ocasiões em que se aplica um "que se dane", um "temos pena", um "perdido por um, perdido por mil", um "é para a desgraça, é para a desgraça" um "remember the Alamo" ou simplesmente, em que se entra em modo "Avé Maria e avante".

1- Quando se encontra "aquele" livro/vestido/peça de colecção/etc



Fazer aquisições "quando se pode e os bons negócios aparecem" não é o mesmo que cair em compras por impulso: é uma regra de smart shopping. Se por acaso se deparou com algo que costuma procurar e sabe que lhe dá sempre jeito, mais vale fazer o investimento agora do que andar à procura como uma barata tonta mais tarde - aí sim, fazendo compras apressadas e se calhar menos vantajosas.

2- Quando se apresenta uma ocasião única de "desatar o saco"



Ou seja, de dizer tudo o que tem entalado há imenso tempo a uma determinada pessoa - para o bem ou para o mal-  mas faltou a ocasião, o momento ou a coragem. Está bem que a flecha disparada ou palavra dita não voltam atrás, mas as oportunidades perdidas também não. Se um discurso está "gravado" na mente a passar em loop e a atormentar a alma é porque se calhar o verbo precisa mesmo de ser solto. Além disso, engolir em seco provoca doenças ruins. Caso sinta "se não disser das boas e das bonitas, rebento" ou pior, "se não falar agora, vou ficar na dúvida se fiz bem o resto da vida" siga o impulso ou o instinto, e seja o que Deus quiser. Pior do que está não fica e no mínimo, é um alívio.

3- Na TPM

Esta é exclusiva das mulheres, mas convém que face a ela os homens presentes também apliquem o bom e velho encolher de ombros. Por mais que se diga que é mito, ela existe. O papel das hormonas no organismo ainda fará correr muita tinta, mas ficar mais gulosa,  emocional ou sensível ou nesses dias é perfeitamente natural. É claro que o auto-domínio cabe em toda a parte, mas mais vale regalar-se com um sundae se o corpo pede ou desabafar se está mais capaz disso do que noutras alturas do que ficar com um humor pior ainda. Aplique-se a isso a regra "what happens in Vegas...".

4 - Quando não há outro remédio senão partir a louça toda



Esta é muito semelhante ao momento nº 2, mas aplica-se mais a circunstâncias em que os outros abusam da boa vontade/boa educação/timidez de cada um, fazendo dos bonzinhos capacho. Só que até os tapetes precisam de uma sacudidela de vez em quando e quem não se sente, não é filho de boa gente. Se o risco foi mesmo pisado, há que aproveitar aquele momento de indignação, de "não, chega, assim também é demais" e accionar o modo defesa ou contra-ataque de imediato. Com sorte, o oponente fica assarapantado e sem acção por ver que o "tapetinho" reagiu. Lá dizia Sun Tzu, há que surpreender o inimigo e atacá-lo quando ele menos espera, de uma forma contra a qual não lhe passaria pela cabeça prevenir-se. 

5- Quando se apaixona *mesmo*



O amor não é desculpa para tudo - muito menos para prejudicar terceiros. Mas é verdade que muda as pessoas e as faz reconsiderar muitos "nunca farei isto ou aquilo" que atiram para o ar no seu estado normal. Uma amiga bastante sensata disse-me uma vez, quando me ouviu comentar "gabo-lhe a pachorra" perante outra amiga que ia a correr para casa fazer um grande jantar para o marido que até cozinhava razoavelmente: "dizes isso porque ainda não te mordeu o bicho!". O bicho, claro, era o Cupido. Lá diz o povo, "quem pensa não casa". O amor verdadeiro não bate à porta todos os dias e embora a necessidade de ponderação não desapareça de todo (já se sabe, quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer) sem capacidade de arriscar, nada se faz.

6- Quando lhe aparece uma boa oportunidade (e assim como assim, não há uma alternativa melhor)



Muitas coisas boas (e outras tantas que dão para o torto) surgem quando até se está sem rumo certo, sob a forma de algo que quebra o tédio. Por exemplo, estar sem grandes perspectivas de carreira e cair do céu uma proposta apetecível mas temporária, ou mais desafiante do que seria desejável, ou que fica longe. É verdade que pode correr menos bem. Mas se não tem nada melhor para fazer, why not? Dizem os entendidos que a sorte também se fabrica e que uma das maneiras de a atrair pode ser, simplesmente, virar as rotinas do avesso. Nada de bom sai de águas paradas.

7- Quando algo não tem nada de errado...e a (o) faz MUITO feliz



Deus nos livre de seguir aquela filosofia indecente do "nada é errado se te faz feliz" (Bob Marley não era má pessoa, mas devia estar a fumá-las - como era seu hábito - quando disse tal). No entanto, há coisas que se adoraria fazer e que não são condenáveis (eticamente, moralmente...) nem indignas, nem reles, que não prejudicam ninguém (nem o próprio sequer) mas pronto, ou porque há medo que os outros pensem "nem parecem coisas tuas!", ou por falta de coragem/tempo/energia, ou para não perder a compostura, ou por *enunciar razão* vai-se adiando ou recusando essa alegria. Nada é eterno e embora seja de evitar a filosofia living la vida loca ou andar sempre a dar uma voltinha no wild side, convém viver um pouco.

8- Quando há motivos para festejar



 Muitas vezes cai-se no péssimo hábito de não assinalar as coisas boas. Não celebrar datas especiais ou boas notícias, por exemplo. Há uma razão para se chamarem "datas especiais" e "boas notícias": é que não acontecem todos os dias. Deixar de assinalá-las porque "não dá jeito" é o mesmo que dizer - conforme as crenças de cada um - ao Céu, ao Universo ou à Sorte "não me tragas mais nada disto porque eu não aprecio". Dentro das possibilidades de cada um, agradecer e festejar devia ser obrigatório. Até porque ninguém gosta do chato ou da chata a quem Deus dá nozes, mas não tem dentes. Um dia não são dias, que diabo.




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