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Saturday, March 26, 2016

Que tal um detox emocional de Primavera?



Recentemente cruzei-me com este artigo muito engraçado que sugere 18 formas de detox bem úteis: não tanto no que respeita à alimentação, mas mais no sentido de deixar ir maus hábitos ou coisas/pessoas que causam mau estar. Das meias sem par aos rancores, passando pelos contactos inúteis no telemóvel. E como estamos em época de renovação, acho isso muito sensato. Se as florzinhas nascem de novo, porque não havemos nós de fazer uma actualização?

A Quadra apela à paz e à bondade. Mas sermos caridosos e tolerantes com os demais não implica lidar de perto com o que indispõe, com o que não faz bem, ou manter, por costume ou por qualquer obrigação que se formos a ver, não é tão séria quanto isso, proximidades que não trazem nada de bom. 

Cada um terá a sua lista de padrões, comportamentos ou tipos de pessoas que gostaria de deixar para trás - e aquilo que quer chamar a si. Pessoalmente, passei a colocar a bondade como o critério mais importante para escolher quem deve andar por perto. Fulano (a) ou beltrano (a) poderá ser carismático (a), fascinante, divertido (a), bem sucedido (a), sofisticado (a) ou, em última análise, uma pessoa honesta, leal e honrada, (três características que estão sempre no topo da minha lista). Mas se não for intrinsecamente bondoso (a) - tendo sempre em conta, claro, que perfeito ninguém é - confesso a minha pouca vontade de conviver de perto.

Uma pessoa bondosa pode andar triste, mas nunca será amarga, revoltada ou ressentida; pode ter mágoas para com este ou aquele com justa causa, mas não faz disso o centro da sua vida nem passa o tempo a alfinetar, a bater num cavalo morto; não se melindra por qualquer coisa, dá o desconto aos outros e à vida,  esquece-se de si própria e como não é egocêntrica, dificilmente se torna maçadora e maldisposta. Se tiver sentido de humor, troça do que bem entender mas conhece os limites do bom gosto. Quem é bondoso (a) raramente exagera, raramente pisa o risco...e se o fizer, sabe desculpar-se. Põe-se no lugar dos outros. Tem sensibilidade para pensar "se calhar não devia dizer ou fazer isto" em vez de julgar que tudo lhe é devido.

Ora, quanto mais crescemos mais a nossa paciência se torna selectiva. Mais criteriosos ficamos quanto ao dispêndio da nossa energia. Tornamo-nos uns snobs emocionais. E devíamos exercer esse direito sem complexos de culpa. 

As coisas que eu ouço: voz da peixeira, voz de Deus


É sempre um agrado ir à "praça" pela manhã comprar legumes frescos, carne, peixe e os bons acepipes da aldeia trazidos pelas vendedeiras em grandes cestas. Por cá temos uma feira ao Sábado que é um encanto - onde se vende de tudo, de alfaces a restos de colecção de boas lojas passando, infelizmente, pelas inevitáveis mercadorias contrafeitas. Estas últimas só um cego não lhes vê a falsidade, mas são a alegria de muita "senhora- que- quer- ser -bem", mas vai à feira maquilhada como um mimo, de casaco de pele falsa, leggings bordadas e de stiletto, a espatifar os saltos na brita...que as ciganas o façam, compreende-se: as feiras são um bom sítio para arranjar casamentos lá à moda do seu povo. Não sei como conseguem trabalhar assim desde madrugada, mas cada uma sabe de si. Agora quem vai às compras, é um disparate...bem se vê que lhes falta conhecer Senhoras verdadeiras, que têm Keds e Tod´s para estas situações!

E depois temos o Mercado D. Pedro V, que apesar de ter sofrido umas obras valentes mantém algum do seu charme, com as estruturas em ferro estilo Arte Nova de quando foi construído, em meados de 1860, e um altar a Santo António com o responso gravado em pedra, talvez para ninguém perder lá nada. 

Convenhamos que as ditas intervenções não foram lá muito boas: puseram-lhe um chão de tal ordem que não há vez nenhuma que eu não escorregue ali como gente grande, e olhem que nem uso saltos muito altos ou finos, muito menos para giros destes. Houve um dia que me estatelei umas poucas de vezes, parecia que tinha patins...e sempre que lá vou parece que piso ovos. Num sítio tão frequentado por gente de mais idade, não sei como não há velhotas a tombar ali dia sim, dia sim.


 Mas sempre que tenho horário dou um pulinho ao Mercado: adoro ver as flores lindas, as bancas com os brinquedos à moda antiga e comprar bolos tradicionais, como os "Cardeais" - uma monstruosidade de pastel que parece o filho ilegítimo de uma Bola de Berlim com um pão de Deus, mas enfeitado de chantilli e com um cone de morango no meio a lembrar um barrete eclesiástico. Já não são o que eram, mas ainda é o único sítio onde se encontram.

 Pois bem, por estes dias fui lá apetrechar-me de peixe, crustáceos e moluscos para a Semana Santa. E a peixeira que me atendeu, muito simpática e palradora como é tradição do seu ofício, começou a conversar comigo, perguntando se eu era estrangeira...é que o mercado está cheio de turistas!

Conversa vem, conversa vai, comentei com ela que a Quaresma devia ser boa para o seu negócio. Respondeu-me espantada: "ai menina, não! Isto agora a gente nova não respeita as tradições. Quer tudo carne e mais carne!".

Pensei cá com os meus botões que ela tinha razão, por um lado: as tradições, toda elas, andam pelas ruas da amargura como temos visto; mas quanto à carne, não sei. Cá para mim ainda há gente que aproveita a quadra para fazer uns batidos detox para inglês ver. Olhem que com tanta partilha de imagens de comida nas redes sociais, não vi uma alma que fosse a postar um "peixinho de Quaresma". Quando muito vejo papas de linhaça mas é pelo modismo, não pela data...





Friday, March 25, 2016

Um filme e uma reflexão para a Sexta-Feira Santa




Semana Santa sem filmes de Páscoa não é a mesma coisa, e a RTP1 teve o bom senso de não quebrar a tradição, passando não só um dos meus preferidos - Quo Vadis - como esta produção italiana, Mary of Nazareth. Já tenho usado algumas imagens do filme em posts passados, mas recomendo que tirem um bocadinho desta Sexta-Feira Santa para o verem, se tiverem "máquina do tempo". 

Não é um filme perfeito (algum é?) demais a mais tendo sido feito para televisão, mas a perspectiva feminina é muito interessante, tem Paz Vega como uma Maria Madalena que vale a pena ver, um Menino Jesus de cabelos de ouro (deixem Jesus ser como sempre o representaram em paz e sossego! Se Deus quis um filho pôde muito bem dar-lhe caracóis dourados!)  e o mais belo S. José, vivido pelo actor italiano Luca Marinelli. 



A produção, que teve vários eruditos da Santa Madre Igreja a servir de consultores para que, embora servindo-se da Tradição e das "lendas pias" muito populares durante a idade Média, para preencher as lacunas que não vêm na Bíblia sem ir contra o que está escrito, mostra alguns pormenores menos discutidos, como a apresentação de Nossa Senhora no Templo, a morte de José ou uma versão algo criativa da vida "airada" de Maria Madalena no palácio de Herodes.

Mas voltemos a S. José: quando o filme estreou, na presença de alguns dos actores e de representantes da Igreja, um seminarista exclamou, ao ver a interpretação de Luca Marinelli como o marido varonil, trabalhador, justo e gentil da Virgem Maria: ora aí está o que é masculinidade!



Sobre isso, já falámos aqui: muitas raparigas de bem sonham com um príncipe, quando deviam procurar um S. José ou seja, um homem protector, masculino, corajoso, trabalhador e honrado. Ele é o modelo de marido e pai perfeito, cheio de meiguice, constância, fidelidade e bravura nas pequenas coisas. Antes de morrer, José desabafa com Maria: "será que procedi como devia? A única coisa que fiz toda a vida foi trabalhar!".



 Mas é nessa missão aparentemente simples, humilde e anónima que está a grandeza e a mensagem...nem Maria nem José realizaram (directamente, pelo menos...) milagres, daí serem tão bom exemplo .O filme mostra a Virgem Maria a cortar o pão, a preparar alfaces e cenouras, a costurar como qualquer dona de casa, e achei isso lindo.



Para um bom Católico, a santidade pode estar nas tarefas insignificantes do dia a dia; para quem seja simplesmente muito boa pessoa, a bondade está nos ínfimos gestos e na empatia do quotidiano, mais do que em meia dúzia de boas acções espectaculares que dão nas vistas. 

Nem todos podemos realizar grandes feitos - movidos pela fé ou não. Almas religiosas e completamente altruístas como a Beata Teresa de Calcutá, fervorosas e valentes como S. Nuno Álvares Pereira ou, pelo contrário descrentes (o Dr. Sousa Martins, por exemplo) ou mesmo de moral questionável (como Oskar Schindler) mas com um coração generoso e meios para aliviar o sofrimento de muitos na hora certa, têm uma missão muito especial. 




Mas fazer a vontade de Deus, para quem acredita em Deus, ou deixar simplesmente o mundo melhor do que se encontrou, não depende necessariamente da dimensão e impacto das boas acções: para quem as recebe, a diferença é sempre grande.
Santa Zita era uma simples criada que pouco fez em vida além de mourejar o dia todo e sofrer as afrontas com paciência. Qualquer voluntário anónimo que ajuda os necessitados terá, para cada um deles, a aparência de um anjo, pelas pequenas atenções que lhes dispensa. 

 Mas é claro que um realizador, quando quer contar uma história, escolhe um ponto de vista, uma perspectiva, e tem de seleccionar o que vai mostrar ou realçar. O filme não esquece o sublime exemplo de bravura feminina da Virgem Maria ao pé da Cruz, mas deixa de fora alguns dos episódios mais tocantes da Paixão - a conversão instantânea de S. Longinus e o diálogo de Jesus com o Bom Ladrão, mais tarde conhecido por S. Dimas. Estou sempre atenta a esta parte, seja num filme, numa Missa ou numa Via Sacra. 



Porque o Bom Ladrão, como o Filho Pródigo, é sempre um pouco de cada um de nós. Ou de alguém que conhecemos. Ao Bom Ladrão, para passar de pecador empedernido, um malfeitor dos piores condenado à morte mais infamante (Jesus foi a excepção, como sabemos; para ser condenado por Lei à Cruz, só sendo escravo, agitador ou mesmo MUITO má pessoa) bastou-lhe um momento de consciência para se redimir perante toda a Humanidade, para passar da escória aos altares. Aceitou a sua Cruz e viu-se como o último dos malfeitores, mas não deixou de se achar digno da piedade de Jesus - da bondade de quem era bom.

Não quero entrar em discussões de Doutrina que fogem muito à minha especialidade, mas entre os Católicos sempre houve os que se desleixavam, caindo no pecado da presunção de se salvarem sem merecimento, achando que Deus lhes perdoaria as patifarias mais extravagantes se se arrependessem quando lhes desse jeito;  e por outro lado, os que caíam em excesso de zelo, achando-se menos do que nada, vivendo no terror do Inferno e duvidando da Misericórdia Divina. 



O Bom Ladrão arrependeu-se sinceramente no momento em que era suposto estar mais amargo e revoltado; foi capaz de ver a injustiça onde ela estava, de pensar mais nos sofrimentos do Inocente ao seu lado do que nas próprias dores; e envergonhou-se dos seus deboches e maldades. Por isso, mesmo à última da hora, foi-lhe garantido o Paraíso.

Desta feita a história do Bom Ladrão é-me especialmente querida por estarmos no ano da Misericórdia. Toda a gente tem direito a uma nova oportunidade, a um recomeço, a uma página limpa. Isto é verdade a cada Páscoa, está acessível a toda a gente, mesmo a quem seja tão mau como tinha sido o Bom Ladrão ou pior ainda...ou precise, simplesmente, de começar tudo de novo, corrigir o que correu mal, reinventar-se. Essa é a beleza da Sexta-feira Santa: as mudanças custam muito, fazem sofrer. Mas esse sofrimento purifica, como lapidar um diamante para que ele possa brilhar.

 A todos, desejos de uma linda Primavera e de uma Santa Páscoa.

Thursday, March 24, 2016

Quando hippies chegam ao Parlamento, é o que temos.



Ora vamos lá ver uma coisa. Eu que sou careta assumida, que refilo para aqui com as doideiras das feministas de não se depilarem e gritarem que há opressão em todo o lado, não tenho nada a ver - nem quero- com o que se passa debaixo das saias alheias. 

Por estranho que pareça, até me dou bem com algumas hippies. Evito visitá-las nas aldeias idílicas de pedra onde moram porque tentam por força impingir-me tofu com todos (o chutney, em contrapartida, é uma delícia) e porque têm ideias esquisitas quanto ao impacto ambiental da descarga da casinha. Not my cup of tea, portanto. E é claro que - por muito que compreenda a necessidade de privacidade durante o parto - deito as mãos à cabeça com as doulas ou, pelo contrário, as barbaridades associadas ao parto "natural" ou à amamentação em público sem os devidos cuidados (se se voltarem discretamente para a parede, já não é nada comigo). Também acho uma contradição que, querendo tudo muito como manda a natureza, se entupam das hormonas-que-engordam que vieram com o movimento do amor livre; no entanto, cada uma sabe de si

 Ainda há dias uma conhecida-de-uma-conhecida se pôs como veio ao mundo nas redes sociais com a desculpa de "mostrar a barriga de oito meses", mas expondo tudo o resto (imagem publicada pelo marido macho-beta e super liberal sem noção do apropriado, nota bene) e eu só me persignei, mas mais nada.

E se nos "dias sensíveis" cada uma opta por tampax, modess, ou um copinho reciclável que pessoalmente acho repugnante e me lembra as ideias da bruxaria diânica em versão sinistra, também não tenho nada a ver com isso.


Desde que usem alguma coisa e não façam como certas feminazis que andam com manifestos de dar náuseas acerca disso, ou a fazer arte e a regar alfaces com...bom, blhec,  nem como aquele rapazinho que distribuía Evaxs pela escola, tudo bem. Usem lá o que bem entenderem discretamente para andarem limpas, livres e à vontade como nos anúncios. A ideia do tal recipiente arrepia-me até à alma, mas jura quem usa que é confortável e como diz o senhor pai, com o mal dos outros posso eu bem. Ou das outras, neste caso.

Agora que um partido - representado por um homem, de resto - venha impor uma redução no preço dos ditos copinhos horrorosos a ver se as mulheres se acostumam, já é muita modernice junta. É muita intromissão num assunto íntimo, é querer por força que as mulheres virem hippies malucas com muita consciência ambiental e que lutam contra o fim do "tabu" da menstruação, ou que gostam de chocar falando nisso. (Não é tabu nenhum: é só uma função natural com a qual ninguém tem nada a ver).

 É surpreendente: mal a esquerdice chega ao poder, dá nisto. De criminalizar piropos a baixar o preço a objectos íntimos de senhora (then again, não sejamos injustos: o Partido Comunista votou contra; nem o proletariado tem pachorra para ideias tão fúteis!) temos um laboratório de ideias avançadas. Tudo, menos pugnar por aquilo que de facto ajuda as mulheres. Eu sei lá, criar empregos, ou apoios à família como em França, por exemplo. 

Se não faltar nada às mulheres, elas próprias decidem que utensílios higiénicos são mais convenientes. Não é preciso ir para o Parlamento discutir o que se passa sob a roupa de cada uma. Podiam ter-se ficado pela bela ideia de as despesas veterinárias contribuírem para baixar o que se paga às finanças, que isso sim foi bem pensado e justo, já que são um Partido pelos animaizinhos. 

Agora o bicho mulher, esse sabe cuidar de si próprio, se o deixarem. 

Entre esta e a obrigação de declarar as galinhas poedeiras como "efectivos" para cobrarem impostos pelos ovitos que as pessoas têm em casa, não sei o que é pior.







Wednesday, March 23, 2016

Até me cai mal desabafar na Quaresma, mas...





É que hoje me cruzei com uma alma capaz de tentar um santo, e não de uma forma divertida. De tentar um santo a descer do altar e dar-lhe uma traulitada. E entrei em modo "morda a língua, Sissi, morda a língua que estamos na Semana Santa e para peixeira já basta uma" tal foi o chorrilho de disparates com que me brindou, como é seu costume. No espírito "ai que eu sou uma mulher culta, moderna, esperta, interventiva, com consciência política; ninguém sabe mais do que eu e urge contar isto ao mundo!".

Deus nos defenda de Marias-Sabichonas que dão sentenças sobre tudo, opinam sem confirmar, dão argoladas até na própria área de especialidade, têm opinião sobre tudo, não sabem que o calado vence tudo nem que a uma Senhora cai bem ser discreta e calma. Sempre avinagradas, sempre sassaricadas, destemperadas e imprudentes, mortinhas por aparecer e botar faladura acerca de coisas muito sérias em vez de cuidarem dos seus assuntos, invariavelmente a criar filhos atoleimados, carentes de atenção e de disciplina.

E Santo António deve ter um grande sentido de humor ou pensar "mal por mal, só se estraga uma casa", porque não conheço uma única mulher assim que - quando não é uma solteirona amarga - não esteja casada com um banana incapaz de dizer ai ou ui nem que a casa venha abaixo, quanto mais de lhe bater o pé com um simples "mulher, basta!".

Margaret Thatcher, por favor venha cá abaixo ver isto. E Nossa Senhora nos dê visão para nos mirarmos no mau exemplo do que não deve ser feito. *Uff, já me sinto melhor*.

Um discreto milagre para peles delicadas e desidratadas


Estou apaixonada por este creme que aparentemente não tem nada que se lhe diga. É um creme de dia normal, para pele seca, com Factor de Protecção 15 e óleo de amêndoas doces - ingrediente que nunca deixo faltar no meu arsenal. Mas só isso...e no entanto, não o largo há duas semanas!

Mal comparado, é como quando vemos uma amiga perdida de amores, caidinha, super feliz, ao lado de um rapaz do mais banal que há, cujos encantos, enfim, não são lá muito evidentes, e perguntamos  intrigadas: que tem ele, para te conquistar dessa maneira? E ela "sei lá...faz-me feliz! Sinto-me bem ao pé dele!".

Pois sinto o mesmo quanto a este pequeno ai-Jesus da Nivea. A  icónica marca não só faz bem os clássicos como de vez em quando nos surpreende com umas fórmulas para rosto, corpo e cabelo que se tornam indispensáveis. Ora, o creme veio cá para casa por estar em promoção e nem foi comprado para mim. 

Mas eis que, com o frio que tem feito, a minha pele entrou naquele modo sequioso que raramente me acontece e, como cuidados antes a mais que a menos porque com peles finas e pálidas não se brinca, lancei mão de todos os remédios possíveis. Porém, mesmo recorrendo a cremes de perfumaria ou ao meu sempre fiável Toleriane Riche da La Roche Posay, continuava a sentir desconforto.

Finalmente, arrisquei experimentar o Nivea rosa que para ali estava (porque com esta pele reactiva nunca se sabe), pensando "se tem óleo de amêndoas doces tem de ser sofrível" e oh, maravilha. Alívio instantâneo. Nada de alergia e epiderme repousada, macia, luminosa, com um toque "fofinho" e tratado.

É um creme rico, mas não gorduroso, que absorve rapidamente. Aliás, a textura assemelha-se à do BB Cream da Nivea de que vos falei, também fantástico para pele seca (e que agora foi lançado num tom mais claro).

Lembra-me os cremes do antigamente, que eram simples mas faziam realmente diferença. Às vezes não vale a pena complicar muito nem investir demasiado, está visto.



Tuesday, March 22, 2016

3 peças a ter à mão TODAS as manhãs (para sair de casa a horas)

Cross my heart, quem gosta/entende de moda é retratado estereotipadamente como demorando séculos para se arranjar, mas quase sempre é o oposto: quem sabe o que comprar/vestir e tem o armário *minimamente* organizado despacha-se mais rápido. Ou devia. Não deixem que vos digam o contrário. 

Porém, há calcanhares de Aquiles que deitam por terra as melhores intenções. Mesmo conhecendo bem o conteúdo do armário, investindo nos básicos imprescindíveis, etc...sem ter *certas coisinhas* sempre a jeito, até a stylist mais competente se verá aflita para ficar apresentável a tempo e horas. Quando isto falha - e ninguém está livre, mea culpa, mea culpa- a mulher mais organizada transforma-se numa barata tonta igual a todas as outras.

Ora vejamos o que tem de estar SEMPRE a postos para não deixar os outros à espera enquanto experimentamos fatiota atrás de fatiota:

1 - Tops de algodão com mangas


Top ASOS

Tenho dito muitas vezes que são imprescindíveis, mas não basta comprá-los: é preciso estarem operacionais. Um simples top de manga comprida ou 3/4, preto ou branco, pode ser combinado com uma saia lápis, sob um fato para ocasiões menos formais, com uns jeans boot cut, boyfriend ou flare, usado por dentro de umas calças clássicas de cintura subida...bom, praticamente com qualquer coisa. Não há nada mais irritante do que ter pressa, estar de calças vestidas, ter o calçado escolhido...e andar à procura da t-shirt, polo, blusa ou camisa certa para pôr por cima. Estes ficam sempre elegantes e são tão neutros que nunca sofrem do complexo "hoje nada me cai bem".

2 - Meias e collants 




Estar de saia ou vestido mas ter a gaveta das meias numa confusão? O mais certo é atrasar-se tanto que acaba por trocar a toilette toda e ir de calças para não se maçar, demorando o dobro. E querer calçar uns sapatos mas faltarem soquettes transparentes? Nem pensar.

3 - Camisas básicas curtas e longas
Camisa ASOS
De novo, quando precisamos de correr não há tempo para testar topzinhos, blusinhas, camisolinhas e camisinhas: o melhor é deitar a mão às camisas simples (brancas, oxford, de flanela ou de ganga, dependendo da situação). Mas há que ter à mão as versões curtas (para usar com saias, calças ou jeans de cintura alta) e as mais compridas caso apeteça vestir umas jeggings, por exemplo. Desatinar porque as camisas se enrolam sob a roupa ou deixam à vista o que devia estar coberto, não vale.



Se têm demorado mais do que o costume a estar prontas e ouvido piadinhas à conta disso, o defeito pode estar aqui e não na falta de inspiração. Experimentem.




Essa tristeza de "que o amor seja eterno enquanto dure"





E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


O poema é lindo, mas há muito quem o distorça sem remorso para caber na triste realidade das ligações casuais, das relações sem compromisso em modo "test drive" e dos "amorzecos à falta de melhor". Ou ainda, para justificar o fim dos entusiasmos fugazes que passam por "amor" - aqueles que até enganam, que arrancam uns "amo-tes" mas que passado o fogaréu da paixoneta, se vê que não era verdade. Até se podia ter alguma paixão, mera especiaria do amor, mas amor digno desse nome, viste-o

Tais proximidades, em maior ou menor grau, estão para o amor a sério como uma Birkin da Hermès falsa está para uma verdadeira: há imitações reles, umas melhorzinhas e outras que quase enganam os entendidos, mas nenhuma é o real deal.

E no entanto, vê-se bem que o pobre poeta estava apenas em modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer". É bom ser realista, porque mesmo o amor mais genuíno, se tem a quantidade de paixão necessária para saber a alguma coisa e a dose de sacrifício que é precisa para funcionar, vai fazer rir e chorar, levar ao céu e tornar os envolvidos pessoas melhores, mas passá-los pelas brasas do inferno de vez em quando. Faz parte. 

Mas para desfazer esta ideia desconsolada, deixem-me contrapor a Vinicius de Moraes as palavras do Ven. Fulton Sheen: "como dizia Eurípides, aquele que não ama para sempre não é um verdadeiro amante"


Um amor real, genuíno, puro, não é uma chama: tem labaredas que luzem e queimam, mas não se consome nelas; é como o arbusto ardente de Moisés, que ardia sem desaparecer. O amor verdadeiro é imortal, ou seja, não se fina naturalmente como qualquer ser vivo. É preciso matá-lo de propósito e mesmo assim, só com um grande trabalhão. Pensemos no amor verdadeiro como nos imortais do filme Highlander: eram belos, jovens, fortes para sempre;  em teoria, não podiam morrer. O tempo não os matava, não os debilitava; a doença não os atingia, espadas e pistolas feriam mas o estrago não era grande. Sentiam dor, mas sobreviviam. Para os matar, só cortando-lhes a cabeça à espadeirada e ainda assim, convinha que outro imortal tentasse a tarefa, porque para outra pessoa seria praticamente impossível.

Ou seja, para assassinar um amor desses raros e puros, um dos "imortais" envolvidos tem de o decapitar deliberadamente: ferindo para o debilitar muitas vezes, e com um golpe certeiro depois. Se é amor, não morre de morte morrida; tem de ser morte matada, e olhem lá... 

Do infinito enquanto dure está bem livre. Para correr tudo pelo melhor, é só evitar os homicídios em primeiro grau.



Monday, March 21, 2016

As coisas que eu ouço: tem mãe que é cega...tem mãe que não


Bem avisa o povo irmão. E quem diz mãe, diz sogra que lá vai dar. Às vezes até há sogras que são mais indulgentes do que as mães- em demasia, mesmo - e isto é a prova provada.

Uma senhora minha conhecida, mulher do Norte sem papas na língua, viu-se afectada por um vírus muito comum hoje em dia: a banalização da roupa de serigaita, que atinge até pessoas que consideramos "normais". Sabem, o bom e velho "é o que se usa agora" que muita gente adopta sem fazer caso se a vestimenta favorece ou é apropriada. A família da senhora estava de casório, e as filhas não tiveram mais nada: vai de se decotarem como se não houvesse amanhã. Pois a mãe, que é uma pessoa de bem e temente a Deus, já que não conseguiu impedi-las de se porem em tais preparos, não teve que não se queixasse às amigas em tom jocoso: "as minhas filhas vão que parecem umas rameiras, com as .... (bom, "abundâncias") todas à mostra". É um pouco atirar pedras ao seu próprio sangue, mas ao menos ficou o protesto registado.


Depois contaram-me um caso totalmente oposto, que apesar de bisbilhotices não serem o meu forte, muito me fez rir: há uma outra mulher, mãe de uns três autênticos Carlões de ginásio, que por sua vez só se juntam com Carlonas ou Sheilas Priscilas kizombeiras naqueles romances fugazes, mancebias e casas-separas que temos discutido.


 Até aí nada de especial - quer-se lé com lé e cré com cré, bem dizia a avó - mas pronto, às vezes uma mãe até pode ter posto no mundo um Carlão, Ricardão ou Ivan Rúben do piorio, e ainda assim querer que ele desencante uma rapariga mais discreta. É esperar muito, é não ter grande noção do próprio merecimento, mas existe, em modo "quem me dera que alguém pusesse juízo na cabeça do meu rico filho Ricardinho/Carlitos/Rubenzinho". 

Muitas destas pessoas gostam de ver a Casa dos Segredos, mas Deus as livrasse de terem uma da protagonistas como vizinha, quanto mais no papel de nora, percebem a ideia?

 Mas esta "senhora" é muito ciente da realidade (um ponto por se olhar ao espelho...) e com uma mente muiiiito aberta. Não só aprova os desconchavos como aplaude, atira foguetes e patrocina o circo se preciso for...

Eis que uma das "noras" da dita matrona posou para a Playboy, sabe Deus em que figuras...e a "sogra" ficou a impar de orgulho, deliciada por vê-la "famosa". E se dúvidas houvesse, numa postagem pública da dita e veneranda publicação masculina em que a menina aparecia, lá comentou, desvanecida:

"Coelhinha mai´linda da sogra".

Agora posso dizer que já vi tudo e o que o mundo está mesmo de patas para o ar. Ou no mínimo, que há gente mesmo, mas MESMO MUITO doida. 

Em boa verdade, nenhuma destas mães/sogras é cega: só que uma tem bom senso e outra não. Enfim, to each their own - ou se calhar, como diz outra sogra que eu conheço e que é uma santa, "o que importa é que as pessoas sejam felizes". Se vamos indignar-nos com a doideira alheia, andamos sempre a benzer-nos, de cabelos em pé, enervadinhos de todo...






16 coisas que só bloggers entendem


Como dizem os brasileiros, "quem nunca?"


1- A sensação "estarei a escrever para o boneco?"



2- Ou de repente, o feeling oposto "tenho de ter cuidado com o que ponho aqui, que isto está  a ficar muito povoado". Um blog deixa de ser um espaço para desatinar à vontadinha e começa a tornar-se assim uma coisa pública, embora uma pessoa não saiba ao certo como nem porquê.



3- Receber MUITOS comunicados de marcas que esperam promoção sem ao menos dar a testar o produto ou convidar a blogger a conhecer o conceito, eu sei lá. Alguns com temas que não se adaptam minimamente ao conteúdo que produzimos.  Hello, não falta assunto para escrever. Uma pessoa sensata não recomenda coisas que não conhece, muito menos baseada num press release chapa-4 enviado a toda a imprensa e blogosfera. E em última análise, em alguns casos é muito "venha a nós". Lata, anyone?




4- Haver sempre uma alma que se sente atingida pelo que escrevemos, por mais brando e inocente que até seja o texto,  e não só fica danada como se mostra TODA triste. Se as carapuças servem enfim, mas quando as pessoas ficam tristinhas há assim um remorsozito.



5- Receber aqueles emails ou comentários que nos aquecem o coração e fazem uma blogger sentir que salvou o dia. Ou que torna o dia de alguém mais animado.



6 - A impressão de já conhecer bem quem nos lê, mesmo que vivam do outro lado do oceano. E vice versa, quando um seguidor ou seguidora nos envia um artigo porque já sabe que nos vai interessar ou motivar comentário/post. Great minds think alike.


7 - Rir enquanto se escreve...e depois achar piada quando comentam "o que eu me ri com isto". E pensar que às tantas, os guionistas de stand up comedy podiam caçar talentos na blogosfera. Ou que temos alguma vocação para palhacitas em part-time.



8- Começar a ver por aí expressões características nossas (e de outros bloggers) que até aqui ninguém utilizava *momento twilight zone*.


9- Escrever um post só por carolice, achando que não interessa a ninguém, e ter um eco enorme; escrever outro que achamos interessante e actual e ...nah, nem por isso.


10 - Às vezes, só às vezes, pensar "devia marimbar-me para a qualidade e fazer um ego blog ridículo só com pseudo sessões fotográficas de moda". Não necessariamente com retratos muito bons nem corrector ortográfico. É que uma pessoa nem é de intrigas, mas vê-se cada disparate com milhares e milhares de fãs que ou é tudo comprado, ou anda tudo doido.




11 - Ficar arreliada se alguém se inspira em trabalho nosso (nada de mal nisso, toda a gente o faz e essa interacção é um dos encantos da blogosfera, mas a César o que é de César) ou faz um post a propósito de um nosso sem deixar o devido link para referência nem dizer " fulana de tal mencionou isto e também gostaria de dizer da minha justiça"

E ficar em modo "digo alguma coisa, ou deixo passar?". Já não falo de batatadas à conta de supostos plágios que por aí se vêem na blogosfera, às vezes com razão outras sem, em modo paranóico (principalmente quando uma blogger menos conhecida acusa outra mais famosa de copiona, em modo "tanta reputação e afinal copia os outros esperando que ninguém note").

 Mas se imitação é a maior forma de elogio e o acrescentar um ponto ao que outra blogger disse faz completamente parte do jogo, as boas maneiras cabem em todo o lado. Um post não tem menos valor por o mote inicial ter sido dado por outro blog. Não temos de ser as masterminds por trás de todas as ideias do planeta; elaborar a partir do que foi escrito por outrem e assumi-lo não só é a coisa mais normal do mundo (escritores, cientistas, todos o fazem) como prova inteligência e boa educação. O "finjo que foi ideia minha e ninguém vai reparar" não engana ninguém e cai mal. Não há necessidade.


12 - Escrever um texto enquanto o diabo esfrega um olho (às vezes parece que já estão escritos dentro da nossa cabeça e é só psicografá-los)...e depois perder imenso tempo à procura das imagens certas para o ilustrar. Argh.



13 - Sentir que o blog é um tamagochi. Mas menos barulhento e mais trabalhoso. E sorrir quando um amigo nos diz que vai começar um blog, o que é óptimo, mas já se sabe que a maioria desiste pelo caminho. Como deixavam morrer os tamagochis. Then again, eu dei o meu tamagochi para adopção porque não aguentava ver o bicho sempre a finar-se, o que não sei se prova amadurecimento ou que tenho mais jeito para inventar/partilhar conteúdo escrito do que para limpar caixinhas de areia virtuais.


14 - Férias, fins de semana e datas especiais para as outras pessoas são só isso mesmo (ou vá, agora há a obrigação implícita de partilhar alguma coisa no Facebook ou no Instagram, senão para muita gente é como ir a Roma e não ver o Papa). Mas para quem bloga é uma aflição. Ir de férias e a internet não ser lá grande coisa? Que contrariedade. Preguiça de Domingo ou mais que fazer? E o blog, e o blog? Devia inventar-se um nome específico para o stress da blogosfera. Depois, há o reverso da medalha:  por muito rápido que se escreva e até nem custe muito, há sempre quem pense "esta não faz nenhum, não tem vida, só pode". Não é assim. Só que há quem perca duas horas da sua vida que ninguém lhe devolve a fazer as unhas de gel ou a ir a jogos de futebol e há quem tenha outros hobbies.

15 - As pessoas esperarem que tenhamos sempre opinião sobre tudo. Estilo "o que é que pensas disto, hein?". A contar com algo extremamente espirituoso, sarcástico e divertido, e nós "bom...nada?" ou estarmos para lá de Bagdad quanto ao assunto. 
Chama-se a isso ter opinião segmentada, ou seja, ter uma posição forte sobre algumas coisas e neutralidade quanto a outras. Não, não se chama, inventei agora. Mas às vezes andamos mais distraídos, ou um tema não nos apaixona, ou temos o modo "sarcasmo" desligado. It happens.



16 - Ter MUITA dificuldade em não vir contar a correr certas situações ridículas que ouvimos, com medo que alguém venha a reconhecer-se no post ou a sentir-se identificado com a história. Que tentação. Os dedinhos a saltar, o texto a correr na cabeça, uma vontade de desabafar gigante porque o tema está mesmo a pedi-las, mas seria aborrecido ou mesquinho fazê-lo. Naquele dia, pelo menos. Must...fight...Satan.

Sunday, March 20, 2016

Conclusão assustadora sobre a escassez de homens "a sério"



Há dias passei os olhos por esta comédia levezinha sobre uma mulher "malvada" com quem um rapaz ingénuo e demasiado bonzinho, sem grande espinha dorsal - um verdadeiro homem beta - cai na asneira de se envolver. Bela e independente mas má como as cobras, a rapariga faz do infeliz gato sapato, obrigando os amigos a ir em socorro do banana antes que seja tarde demais.

Então - atenção spoilers, mas também não é grande filme - os dois decidem raptar a malvada e mantê-la fora de circulação enquanto tentam juntar o moço com o seu verdadeiro amor, uma bonita noviça. 

E aqui vem a parte interessante: em cativeiro, a megera acaba por revelar que procurava um homem que pudesse pisar apenas porque tinha perdido o noivo (um macho alfa típico, forte e assertivo) numa luta ilegal. Interessava-se por molengões que pudesse dominar apenas para evitar magoar-se: no fundo o que ela desejava era um homem firme e decidido, que a fizesse sentir feminina. Moral da história, acaba por se apaixonar pelo "raptor" trapalhão que, à sua maneira, lá lhe bateu o pé. 

Ora, até me admirei por um filme que brinca com a ideia "no fundo, todas as mulheres gostam é de marialvas com coração de ouro" não ter feito cair o Carmo e a Trindade com berros de "sexismo e misoginia", já que há tão poucas comédias realistas nesse aspecto: a maioria prefere a protagonista descaradona e  o herói passivo, que se for preciso perdoa a mulher infiel com um muito obrigado por cima.

 Mas o que achei realmente curioso foi este comentário de um internauta no IMDB a respeito do filme, que levanta uma série de pontos acerca de a masculinidade estar démodé (cruzes!):

"A mensagem e sensibilidade deste filme são realistas e têm uma orientação masculina. Isso não o torna misógino: há mulheres por aí tão malvadas e detestáveis como um homem abusivo. Uma parte importante da educação masculina é aprender a reconhecer as más mulheres, e como lidar com elas. Tragicamente, a tradição de os rapazes aprenderem a ser homens está morrer na nossa cultura. Milhões de meninos estão a ser criados por mães solteiras e os média e a nossa cultura estão a ficar dominados pelo ponto de vista feminino. O protagonista é um produto desse ambiente - felizmente, os seus amigos não".

Já aqui vimos que há quem atribua a epidemia de "meninos ameninados e pés de salsa" à poluição, que anda a baixar os níveis de testosterona. Mas que se lembrassem de apontar as culpas ao fenómeno recente de haver muitas mães a criar os filhos sozinhas, isso não me tinha ocorrido. Tudo bem que sou pela família tradicional e blá blá blá, mas esta agora assustou-me. A ser verdade, mal estamos, com tanto divórcio, boas raparigas azaradas que enfim, lá se livram de um cafajdesti e arcam com a responsabilidade mas já se sabe que não é fácil, isto para não falar dos casos piores: tanto relacionamento casual que acaba em filhos a ser criados pela mãe serigaita e os avós complacentes, isto quando o avô está presente porque isto às vezes a serigaitice dura gerações.

Felizmente ainda vai havendo alguns homens alfa à moda antiga, que juram sem pudores politicamente correctos "filho meu tem de ser muito masculino!" para contrariar a modinha. Mas quem não encontra um desses, ou até é do mais antiquado mas tem o azar (lagarto, lagarto) de ficar viúva ou casar com um mostrengo que a obrigue a fugir e a criar o crianço sozinha?

Urge abrir um colégio militar em cada esquina, a ver se paramos de ver figurinhas destas e de aturar mulheres infelizes...


O terror do Domingo de Ramos





Bom, para ser franca não foi um terror em Domingo de Ramos, mas lá vai dar: reza a tradição que o alecrim benzido em Domingo de Ramos é muito bom para afastar trovoadas e outros males- hoje já fui buscar o meu raminho, by the way.

A senhora minha avó era muito crente nisso, muito piedosa e sabia imensas orações para tudo. E também tinha um medo terrível das trovoadas, vá-se lá saber porquê, logo guardava religiosamente os alecrins abençoados para a eventualidade de raios e coriscos. Sempre que trovejava, zás: ia buscar uma telha, punha-lhe brasas, o dito alecrim e mais algumas ervas benéficas (arruda e mais alguma coisa, creio) e começava a lenga lenga em cadência:

S. Gregório se levantou/seu caminhinho andou/Nossa Senhora lhe perguntou/ "onde vais, S. Gregório?"/Vou arredar as trovoadas/arredá-las bem arredadas/para onde não haja eira nem beira/nem pé de figueira/nem pedra de sal/nem nada que faça mal.



Nessas operações eu era sempre recrutada para "assistente" da avó, já que delirava com rezas, padres, freiras, romarias, "santinhos" e de resto, tudo o que me soasse a mágico, religioso ou maravilhoso. Encantava-me o mistério de tudo aquilo, apesar de não ter grande medo dos trovões e dos relâmpagos - mesmo tendo na família alguém que foi atingido por um raio e ficou para as curvas, ou talvez por isso.

Mas houve uma certa tarde que de facto, parecia que Nosso Senhor estava a ralhar (que era a explicação que se dava às crianças para as tempestades). Fez-se escuro como breu, os raios andavam mesmo à volta da casa, a luz foi-se e eram trovões de tal ordem que pareciam mandar tudo abaixo. E para cúmulo, eu, o meu irmão e os meus primos estávamos todos lá em casa- uns cinco ou seis miúdos com idades entre os sete e os dois anos.

Vendo aquele toró do fim do mundo, a avó lá foi buscar a telha e o resto da parafernália. Eu segui-a nas calmas como de costume, mas os outros abriram um berreiro, especialmente os mais pequenitos. E a avó, assarapantada, a ver se os calava, não foi de modas: em vez de lhes dizer que não se passava nada ou coisa do género, tratou de dar um "santinho" a cada um. A um coube um crucifixo (que eu ainda tenho), a outro uma Nossa Senhora, a outra um Santo António e assim por diante. E conforme o fez, BUM! Caiu um raio mesmo em cheio no jardim.



Os pobres pequenos, vendo aquele cenário, a ladainha de S. Gregório e a necessidade de  santinhos para o que desse e viesse, é claro que ainda se afligiram mais, em modo " se são precisos santinhos o caso está mesmo complicado; ai que vamos todos bater as botas". Só me lembro do meu irmão muito pequenino, muito lindo, com os seus longos caracóis louros, a berrar como um desalmado agarrado a uma Nossa Senhora de Fátima que nem um anjinho lavado em lágrimas - e os outros todos em iguais preparos, cada um guinchando para seu lado ai que lá se vai tudo, como se estivessem prestes a dar a alma ao criador.

Asterix e a sua aldeia não teriam mais medo se o céu ameaçasse cair-lhes na cabeça...

Ainda hoje me rio da cena, mas na altura foi um banzé daqueles. e curiosamente, foi a última vez que me afligi alguma coisa com trovões - talvez porque eles caem quando Deus quer e tanto faz ter medo como não. Tenho o maior respeito e até sou capaz de chamar por S. Gregório e Santa Bárbara pelo sim, pelo não - quanto mais não seja pelo encanto do ritual - mas medinho, miufa, nunca mais foi coisa que me assaltasse...



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