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Saturday, May 7, 2016

Coldplay dixit: You came to rain a flood


Talvez porque não tem parado de chover - e o céu parece determinado a continuar enquanto lhe der na gana - Hymn for the Weekend*, a nova canção dos Coldplay que pesquei por aí na rádio (e que conta com uma Beyoncé num registo irreconhecível mas bem bonito) não me sai da cabeça. 


Tenho uma relação estranha com a música de Chris Martin e a sua banda: às vezes
 deixa-me capaz de dormir em pé, mas do nada sai-se com temas cheios de significado, como Princess of China, Paradise ou See it in a boy´s eyes, que o cantor/compositor inglês escreveu para Jamelia.

 Hymn for the Weekend é uma canção de amor alegre, mas agridoce e com um ritmo quase marcial: tão boa e melancólica como uma canção de amor triste. 


When I was down, when I was hurt
You came to lift me up

Life is a drink, and love's a drug
When I was a river dried up
You came to rain a flood

 Parece confuso? Eu sempre achei que as canções de amor angustiadas, com histórias tristes, são mais conseguidas e menos superficiais. Por algum motivo, é muito difícil cantar sobre um romance quando corre tudo bem. Talvez porque na fase linda as pessoas estão demasiado envolvidas (e tolas) para se sentarem a escrever poemas e a arrancar melodias do peito. É nos momentos maus (sejam ou não definitivos), quando a roda pára de girar, que se olha para trás, que se faz uma análise e que a ideias fluem à laia de desabafo. 


Mas Hymn for the Weekend escapa a esta regra. Consegue transmitir o que se sente quando um amor é bom e saudável, daqueles que fazem com que as canções de romance falhado deixem de fazer sentido. Mas não deixa de ser agridoce, porque até o amor feliz é dor que desatina sem doer.
Afinal, os apaixonados emocionam-se com facilidade, à menor tonteria. Um simples "até logo" é um aperto no peito, umas palavras romanescas ou uma discussão mais acalorada levam às lágrimas, e todas essas delicadezas, esses luxos do sentimento em modo "todas as cartas de amor são ridículas".
 Mesmo no caso de paixões como esta que os Coldplay descrevem, que vêm curar como um bálsamo, causar a euforia de um vinho forte e vivificar como uma inundação benfazeja.


*O vídeo passa-se na misteriosa Índia, e alude ao festival religioso de onde se copiou a ideia para as colour runs da vida. Seria mais giro antes de tirarem o significado à coisa e desatarem a atirar tinta uns aos outros porque sim, mas pronto.







Friday, May 6, 2016

Rai´s pisquem as mulheres malucas, irra!


Diz a imprensa que uma campanha de detergente anda a deixar as mulheres "em delírio". Com o título "um Perfume que se veste mas também se despe", o conjunto de quatro pequenos vídeos de cerca de 45 segundos mostra o modelo Gonçalo Teixeira a colocar a roupa na máquina enquanto dirige olhares sugestivos e ditos picantes à audiência lá em casa. 



Ponto um: tudo a favor dos homens desembaraçados que tratam da própria roupa. A ideia de pôr num anúncio um mancebo a fazer o que lhe compete quando vive sozinho ou se a sua mulher não se dedica apenas à casa e o casal não dispõe de governanta...até está muito bem.  São sinais dos tempos. Depois, o jovem é bem parecido. O anúncio está engraçado, cómico até, embora ficasse mais elegante com um texto menos brejeiro. E sem trocadilhos, por amor da santa. A imagem fala por si. 


Agora, que o mulherio reaja com "delírio" e "euforia" a um simples modelo - não desfazendo - isso já é um bocadinho demais. Nenhuma senhora que se preze admite que lhe digam que está eufórica ou em delírio, era só o que faltava.

 Que se aprecie a beleza masculina, que o eye candy para "elas" venda até detergente como a beleza feminina vendeu revistas para homens e carros estes anos todos, é natural: sex sells. Mas sejam discretas, que diabo. É escusado comentar o vídeo em termos de bradar aos céus ou reagirem como se nunca tivessem visto um homem na televisão, quanto mais na vida real. Mas agora acham bonito mostrarem-se desesperadas e necessitadas, ainda que seja na brincadeira?


Tenho dito muitas vezes como me parece paradoxal as mulheres considerarem que
igualar ou superar muitos homens em imoralidade e má criação é uma "conquista" feminina, uma grande liberdade que se alcançou. 
A quem foi criada na boa e velha  tradição de uma mulher ser discreta,  nunca dar o primeiro passo e de se fazer misteriosa por mais entusiasmada que esteja, isto parece mesmo estranho. Boa, em vez de lutarem para que os homens ajam como cavalheiros decentes nivelam por baixo, fazem pior do que eles e ainda se queixam "nenhum homem presta, só me saem duques e cenas tristes". Brilliant.

É igualdade? É. Mas no mais puro modo "ou há moralidade ou sobra para todos". Eu até dizia "isto é falta de roupa para lavar em casa", mas depois ainda me respondiam "eu quero é que o Gonçalo me lave a roupa" e a brejeirice would never end. Passo.




John Cleese e Nuno Markl dixit: o planeta dos melindres


O  lendário elemento dos Monty Python  afirmou há tempos, no vídeo que podem ver abaixo: "Não subscrevo a ideia de que temos de ser protegidos contra todo e qualquer tipo de desconforto".

É por isso que Cleese (como outros comediantes famosos de que já aqui falámos, aliás) se recusa a actuar em campus universitários, pois "a ideia do politicamente correcto (que era inicialmente evitar o mau gosto e a maldade) passou a condenar como cruel qualquer tipo de crítica a qualquer grupo específico. Mas toda a comédia é crítica, por muito inclusiva que uma piada seja".

E depois comparou este estado de coisas a uma paranóia orweliana generalizada , a um verdadeiro "1984" em que não se pode dizer nada nem brincar com nada. Fico mesmo vaidosa de um dos meus comediantes favoritos reflectir no mesmo que eu, que já várias vezes comentei convosco como vivemos a época maluca do "crime pensar". Then again, acho que não posso orgulhar-me de tal raciocínio que nada tem , ou deveria ter, de raro; não se trata de great minds think alike; trata-se de esta ser a única perspectiva que ocorreria a uma pessoa normal, não anestesiada pelo status quo dos media e dotada de senso comum.



É curioso: os mesmos intelectuais e artistas da esquerda caviar, ou de uma certa facção "liberal" (for whatever that means) que defendem a "arte" feia ou chocante, as performances obscenas, ofensivas e  de mau gosto e as imagens de uma suposta "beleza real"  demasiado crua, são os mesmos que levantam, indignadíssimos, a bandeira do melindre e do "ofendedismo" à mínima coisa.

Também por cá, Nuno Markl expôs o assunto de forma bastante lúcida neste texto, em que aponta o ridículo de um champô para a queda de cabelo, que já existe há anos, chamado "contra cabelo suicida" ter sido retirado assim que algum vidrinho ofendido se lembrou de levantar a lebre nas redes sociais.

Diz Markl: "(...)de há uns anos para cá, a sede de muita gente de colocar muros à volta do que provoca desconforto – na vã esperança que esconder acabe por significar o mesmo que não existir – torna o mundo um lugar mais triste. É uma polémica típica desta era de fusão explosiva (e perigosa) entre o politicamente correcto exacerbado e a propensão das redes sociais para o linchamento aleatório em massa. As ondas de linchamento tornaram-se tão comuns que acabam por retirar força às causas que genuinamente merecem que se grite contra elas.

De repente, tudo é passível de ser entendido como um atentado, como uma ofensa. Cada dia há um novo linchamento em massa levado a cabo por pessoas que tanto ficam transtornadas com o que é importante como com o que é acessório. Ou com o que é absolutamente inofensivo".


Chega a ser curioso que as pessoas que se dedicam a fazer humor sejam das poucas dotadas de sensatez para estas coisas. Mundinho disparatado em que estamos... e toda a gente acha normal. Às vezes sinto-me como a Alice no País das Maravilhas, a tentar encontrar sentido numa terra de doidos.

Thursday, May 5, 2016

Não faço a mínima de quem seja Gonçalo Carter.





É um desses miúdos que fazem vídeos com imbecilidades, não é? Um qualquer produto da geração MTV que vive de desconchavos nos social media, correcto? Uma consequência destes tempos em que vale tudo para chamar a atenção, até #aftersexselfies, e em que nem os adultos se envergonham de pôr online as suas preferências de alcova, estou certa? Um desses meninos ameninados que fazem carinhas e beicinho mas querem ser rufias, right? Não devo andar longe. 

Penso muitas vezes que não me importaria de voltar aos meu dezasseis anos sabendo o que sei hoje e refazer algumas coisas, mas juro-vos que queria os dezasseis anos do meu tempo. Também fazíamos disparates - tinha colegas que eram um horror -  mas éramos mais inocentes, mais elegantes e mais discretos. Definitivamente.

Da crueldade de maior ou menor gravidade contra o animalzinho inocente já nem falo - é assim que os psicopatas começam, os psicopatas também adoram dar nas vistas e se este foi "diagnosticado" pelo público a tempo e o cãozinho está bem de saúde e melhor entregue, ÓPTIMO. Mas o que isto prova é que quando se trata de attention whoring, as pessoas até perdem a noção de crime perfeito. 



Não bastava fazer uma maldade. Era preciso mostrá-la ao mundo sem sequer (já que a consciência não lhe assiste) olhar para a lei. Tipo, fazer o raciocínio "até me apetece maltratar um cachorrinho fofo e ter imensos likes mas às tantas sou catado pela bófia", ou lá como esta gente fala.

Há tempos dizia-se que o Google anda a atrofiar a memória das pessoas porque com tanta informação sempre disponível,  já não é preciso saber nada de cor. Eu diria que as redes sociais fazem outro tanto, não à memória mas à noção do bem e do mal. Se não houver chinelo (ou neste caso, chicote) em casa para atalhar a maleita, claro. E reformatórios nas redondezas. Mas esperem, a educação no Colégio Militar é que é violenta, mofenta, preconceituosa e salazarenta, não é *sarcasmo*? Poupem-me.

As coisas que ouço: ele há pessoas mesmo inconvenientes, Credo.


As regras de civilidade social nem todas são escritas na pedra, a preto e branco e letras gordas. Ainda que estivessem, de pouco ia servir porque assim como assim a maioria não se podia estar mais nas tintas para a boa educação e não segue as directrizes óbvias, quanto mais as nuances....

Mas tenho a certeza de que haverá algures uma regra implícita quanto a não mencionar, diante de um casal que ainda por cima não se conhece bem, os ex de um ou de outro. Como numa conversa que me contaram esta semana:

João: olá Frederico! Há quantos anos, blá blá, blá...olha, queria apresentar-te a minha mulher, Dora.
Dora: como está, Frederico? Prazer em conhecê-lo.
Frederico: ah...eu conheço-te! * nota bene o "tu" super agressivo* Tu não namoraste com o Filipe da faculdade X ou Y?

Assim como quem diz "tu não trabalhavas na Zara?", mas com o tom acusatório de quem afirma "tu partiste o coração ao Filipe" ou pior, "tu namoraste a turma inteira". Em todo o caso, dito como se isso interessasse ao Menino Jesus.



Yup, estou certa de que essa regra de sensatez, ou exercício de sensibilidade, devia estar nos compêndios. Algures ao lado da directriz que explica que nunca se pergunta se uma senhora está de esperanças (porque ela pode só ter engordado e é aborrecido) da que enuncia que nunca se pergunta "é a sua filha?" a um cavalheiro (porque pode ser a namorada vinte anos mais nova) e pertíssimo da regra que frisa que  não é leal nem bonito ser amigo de um inimigo do amigo ou continuar em grandes amizades com os ex dos amigos, principalmente se se portaram mal (porque não se pode servir a dois senhores). 



Antigos namoros - ou de resto, quaisquer esqueletos no armário e episódios "coloridos" ou embaraçosos da vida de alguém - não se mencionam a não ser que se tenha grande convivência e confiança com a pessoa e principalmente, com o casal em causa. O indiscreto que fala pode não ver mal nenhum nisso, c´est la vie e tal, hall of shame cada um tem o seu, certo; mas nem todas as pessoas são assim tão modernaças e encaram águas passadas com a mesma ligeireza, tipo num dia namora-se e no outro vai tudo alegremente para os copos como nos filmes americanos.



Tanto quanto o inconveniente linguarudo sabe, esse pode ser (e quase sempre é) um tema sensível. A relação que menciona desnecessariamente, sem pensar, pode já ter sido motivo de arrelias entre a Dora e o João, de forma particular ou por ciúmes retroactivos em relação à vida passada de ambos de modo geral. Ou ter acabado da pior maneira e deixado algum trauma/problema de consciência à Dora ou ao Filipe. Em todo o caso, as pessoas mais conservadoras encaram os seus erros com grande discrição, principalmente se estão numa relação estável. E um fala barato nunca sabe se está a abrir a Caixa de Pandora dos outros, que podem não ser assim tão open minded.

É um bocado como pôr-se a falar de mortos e tragédias a quem está doente. Há sempre modo de uma pessoa se situar sem cair em gaffes destas. Perguntar "tu não tinhas amigos na faculdade X ou y?" esclarece na mesma a impressão do "já vi a tua cara em algum lado". Mas causar confusão, constranger os outros e lançar uma eventual discórdia é muiiiito mais divertido, não é?

Em última análise, tudo isto se resume à máxima "se não tiver nada de agradável para dizer, cale-se". E essa é bem simples e categórica...



Wednesday, May 4, 2016

Nouveau riche, fazer o quê?


Está muito engraçado este artigo do SOL sobre a ex-senhora da limpeza que se tornou euromilionária e que, apesar das boas intenções iniciais, tem feito todos os disparates da praxe, encarnado o estereótipo do parvenu em todo o seu esplendor... em suma, tornou-se uma caricatura do pato bravo. A última asneira em modo arrivista fazendo arrivismos foi ter espatifado um Maserati e - apesar de se vangloriar de "nem uma unha partir" (tinha de haver unhacas envolvidas, nem podia deixar de ser)- fugido do local sem assumir a responsabilidade pelo camião que escangalhou no processo.



Eu tinha-o adivinhado aqui, rezando para que assim não fosse - não porque possua super poderes (se os tivesse, também não contava a ninguém: punha-me eu a ganhar o jackpot bem caladinha) mas porque esse tipo de comportamento nos casos de rags to riches é tão típico, tão típico, que o enredo é invariavelmente o mesmo. 

Por mais que o dinheiro seja essencial, defenderei até à morte a máxima "antes um novo pobre do que um novo rico" (há quem vá mais longe e diga mesmo "antes um velho pobre do que um novo rico" pois, mal por mal, essas pessoas sempre são genuínas).



Isto porque dinheiro pode sempre fazer-se, cursos podem sempre tirar-se, 
visuais podem modificar-se, boas maneiras podem ser adquiridas... mas sem educação de raiz, um bocadinho de "mundo", bom ar de nascença e mais importante, valores familiares é muito complicado passar, sem incidentes, de uma realidade para a outra. Há pessoas que o conseguem brilhantemente, não o nego, mas fazem a excepção à regra. Possuem um dom natural para se adaptarem, muita discrição para aprenderem sem dar nas vistas, e uma inteligência superior que eventualmente passará por ter jeito para o negócio e/ou pela humildade de contratar quem sabe, para não falar numa certa graciosidade inata que transcende "estirpes".



Não me entendam mal, mas eu tremo quando ouço dizer (geralmente de forma elogiosa) que uma grande fortuna saiu a "gente simples e humilde". Não porque essas pessoas não mereçam, antes pelo contrário (em muitos casos, trata-se de gente honrada e trabalhadora) ou por não terem, eventualmente, um gosto sofisticado para aplicar tais quantias (dinheiro é a coisa mais neutra do mundo e cada um faz do seu o que bem entende) mas porque quase sempre a falta do tal "mundo" se traduz numa ingenuidade de bradar aos céus. O que é claro, não sucede com quem sempre viu o que o dinheiro faz de bom e de mau ou vem de uma família que conheceu melhores tempos.




Ou por uma vaidade que não conseguem conter nem para seu bem, ou por uma candura de quem nunca viu mesmo nada, por mais que tenham lido exemplos nos jornais, tratam de ir contar a todo o mundo como se não houvesse neste planeta burlões, raptores, pedinchões e aproveitadores. Há meses, quando um enorme jackpot foi sorteado cá para as minhas bandas, lá me vieram com essa do "gente simples e humilde". Zás, pensei logo "Deus os guarde e lhes dê juizinho e uma rolha". Pois sim. Rapidamente me chegou aos ouvidos, eu que nem os conhecia, que a senhora andava no café a relatar como tencionava dar um milhão a cada irmão e assim e assado. Como quem diga"vou comprar um aspirador para oferecer à minha irmã nos anos". Claro que tiveram de agarrar nas malas e fugir para o estrangeiro. Esperavam o quê?

Isto quando não querem, como a ex-senhora da limpeza de Marco de Canaveses, ostentar e serem além de ricos, famosos; ou à semelhança do ex-marido da dita senhora, derreter tudo em mulheres de mau porte e vinho verde, que isto o dinheiro, como o poder, não muda ninguém: é uma lupa que mostra o que as pessoas são na realidade. 

Deus nos guarde dos deslumbramentos dos alpinistas. Bem diz o povo que "o que o berço dá, a tumba leva". Ou como explicam aqui e muito bem, "só existe um tipo de elegância: a discreta".







A tradição irlandesa de pedir um homem em casamento


Como este ano foi bissexto, falou-se bastante na antiga tradição irlandesa que permitia que as mulheres, a cada quatro anos, virassem os bons hábitos ao contrário e pedissem em casamento os namorados que nunca mais se decidiam. O meu lado de irish lass não concorda nada com uma tradição tão descaradona assim à mulher da luta, mas enfim. Por algum motivo seria a cada quatro anos...

Diz-se que o costume nasceu no sec. V, quando Santa Brígida se queixou a S. Patrício que havia demasiadas mulheres na ilha a ficar solteiras à conta de marmanjos que iam adiando, adiando, adiando...e não se descosiam (ou cá entre nós, que não eram bons rapazes, que as tomavam por garantidas ou simplesmente, não gostavam delas o suficiente para dar o nó). Por outro lado, também há muito quem defenda que na verdade Santa Brígida não existiu, que é meramente uma cristianização da deusa céltica Brigid; outros ainda sustentam que ela era uma druidesa que se converteu ao Cristianismo e já se sabe que os druidas tinham umas ideias esquisitas, logo tudo é possível.


O certo é que a pouco cavalheiresca tradição foi ficando e acabou estabelecido que, caso o homem recusasse o pedido, teria de pagar uma pequena multa em presentes (como luvas ou um vestidos de seda) para adoçar o golpe e a vergonhaça à menina que levasse um "não".

E se ao longo dos séculos houve casamentos que resultaram felizes apesar desse começo nada elogioso, também tem havido algumas cenas caricatas- como esta rapariga tão bonitinha que bem escusava de se rebaixar a tal papelão:



Apre, antes ficar solteirona numa casa cheia de gatos. Ou vá, esperar por um homem a sério que estivesse mesmo interessado nela. Nenhuma mulher merece! Rapariga alguma devia ter de pedir o namorado em casamento a não ser que, vá, tivesse tratado o rapaz muito mal, estilo Penny e Leonard do Big Bang Theory.



Mas o uso lá se mantém até hoje, apesar de, com tanta igualdade *e lata*, já haver mulheres que, com ano bissexto ou sem ano bissexto, não só tomam toda a iniciativa e mais alguma em vez de se deixarem cortejar, como pagam o seu próprio anel de noivado, outras que praticamente arrastam o homem até ao altar e demais atitudes  nada românticas que quase sempre dão mal resultado.




Esta semana está disponível no canal Hollywood um filme sobre o tema, com a bonita Amy Adams (filme que os irlandeses detestaram, mas pronto). Ela viaja até à Irlanda para aproveitar a tradição de 29 de Fevereiro, mas *SPOILER ALERT* pelo caminho encontra um irish lad todo Alfa que lhe põe as ideias no lugar, dizendo-lhe "este é um costume parvo em que mulheres desesperadas fazem a proposta a homens que não se querem casar".


 E depois mostra-lhe como um homem verdadeiro age. E acaba por pedi-la em casamento, com o anel de noivado da mãe dele e tudo, como manda Deus e o figurino. Santa Brígida que me desculpe, mas as moças casadoiras farão melhor serviço a si próprias se se pegarem com fé a Santo António... o nosso santinho tão português lá dá o jeito de o caramelo desatar a língua ou desencanta outro pretendente mais capaz. Já Santa Brígida só dá o mote, em modo "olhe minha filha, desembrulhe-se".






Tuesday, May 3, 2016

A salganhada da MET Gala

Uma conclusão acerca da passadeira encarnada da gala MET: a organização podia decidir, de uma vez, se é baile ou gala e acima de tudo, se é black tie (um código que se vai tornando mais e mais confuso com o aligeirar das tradições) ou white tie. Isto porque há subtis, e não tão subtis, diferenças no dress code (se quisermos ir by the book, claro).

 A definição de "evento formal" é muito vaga, o que resulta em ver-se cavalheiros de casaca, de smoking, de fato escuro, e a não ditarem, por sua vez, as toilettes das senhoras, que vão de vestido longo de noite, vestido de baile, de cocktail, de smoking feminino, de tailleur  (vide Sarah Jessica Parker em modo Carrie Bradshaw) ou seminuas (este ano calhou a vez a Madonna, que melhor faria em voltar a vestidos deslumbrantes deste género).

 As próprias griffes alimentarão muitas vezes estes faux pas, já que - sinais dos tempos - parecem frequentemente mais interessadas em promover este ou aquele modelo do que em ataviar de acordo as celebridades, suas clientes ou parceiras. A questão é: se um evento com a publicidade e envergadura da MET gala não dá o tom para eventos formais mundo fora, o exemplo é tenebroso. Como esperam ensinar as pessoas a vestir-se?

Segundo, na ânsia ora de cumprir o tema anual (neste caso,"Mão x Máquina") ora na de obter o máximo de buzz possível, aposta-se mais na criatividade (que nem sempre é inspirada) no que no rigor, na beleza ou mesmo em favorecer quem atravessa o red carpet.  Vejamos então alguns exemplos deste ano:


Bonito e apropriado, em diferentes géneros:

Liu Wen, Zac Posen (o meu look preferido).



Blake Lively, Burberry



Dita Von Teese, Zac Posen

Doutzen Kroes, Zac Posen




Katy Perry, Prada (péssimo look, mas vestido aparatoso e material interessante)



Jessica Chastain, Prada (o decote não a favorece por aí além, mas  o tecido é bonito)



Kate Upton, Topshop


Emily Ratajkowski, Prabal Gurung


Zoe Saldana, Dolce & Gabanna


Rosie Huntington Whiteley, Ralph Lauren Collection (o fitting é tudo)


Poppy Delevingne, Marchesa



Os disparates

Nicki Minaj, Moschino (e novidades?)



Madonna, Givenchy Haute Couture (e de costas?)



Rita Ora, Vera Wang (só mais um naked dress que engorda)


Amy Schumer, Alexander Wang (um vestido caro que parece barato e vulgar)


Lupita Nyong’o, Calvin Klein (e eu que gostava tanto de si, Lupitinha)


Lady Gaga, Atelier Versace (tem andado tão bonita, e agora isto).


Kim Kardashian e Kanye West, Balmain


Kerry Washington, Marc Jacobs (só porque não faz sentido nela).


Irina Shayk, Givenchy Haute Couture



É o que temos, para o bem e para o mal...


Dúvida existencial do dia: o vestido pirilampo de Claire Danes



Num baile MET sujeito ao ambíguo tema "Manus x Machina: Fashion in an Age of Technology" que abordava as técnicas de couture clássicas versus a tecnologia ou massificação da produção de moda, e cujo cumprimento do dress code me levanta uma série de questões (já lá iremos noutro post), povoada de mais criações exóticas (e francamente questionáveis) do que de vestidos deslumbrantes (também voltaremos a esses...) apareceu Claire Danes com este Zac Posen que me baralhou o sistema. E que pôs toda a gente a falar, incendiando (ou neste caso, iluminando) a internet. Fiquei tão confusa em relação a ele que tive de perguntar em casa o que achavam, sem chegar a grande conclusão.


Vós sabeis como esta mania serigaitesca de pôr tudo a tudo a brilhar, das corridas às unhas passando pelos piercings me arrelia sobremaneira. Depois, o vestido é um cai cai, o que além de se ter banalizado e de fazer as delícias das pessoas de gosto duvidoso em qualquer evento, não favorece toda a gente.

 Mas depois há o outro lado da questão: primeiro, o fitting do vestido é imaculado, ache-se ou não que resulta lisonjeiro na actriz. Zac Posen sabe o que faz, basta reparar nos outros vestidos da sua autoria usados nesta edição do MET.


Eu dava-lhe algo mais sobre o busto para o fazer parecer mais amplo, o que equilibraria em relação à amplitude da parte de baixo, mas isso é subjectivo. O corte, os drapeados, os volumes da saia, tudo encantador, nada a dizer. Segundo, a piscadela de olho a Grace Kelly, que cai sempre bem, e a simplicidade do styling. E terceiro, a ideia de usar fibra óptica é decididamente arrojada, mas o resultado é mais etéreo do que extravagante. O comentário geral foi que Claire parecia a Cinderela, e apesar de eu considerar muito perigoso o número "vestido de Princesa Disney" que quase sempre deixa a desejar, neste caso acho que o efeito romântico e sonhador foi bem conseguido.

Quanto mais não seja, Claire respeitou o dress code, usando um vestido de baile onde ele realmente pertence, e num modelo intemporal, mais brilho menos brilho. Só tremo é de ver as imitações baratas com LED que vão surgir quase de certeza, mas isso é outro conto.

Monday, May 2, 2016

Donatella Versace é que sabe.


Este fim de semana pude ver (na SIC) a afamada produção televisiva House of Versace, muito comentada pela prestação de Gina Gershon, que interpretou magistralmente a larger-than-life Donatella.


O filme (que conta também com uma das minhas poucas musas inspiradoras vivas, Raquel Welch- cada vez mais bonita- e com um Enrico Colantoni que é o vivo retrato de Gianni Versace) tem algumas falhas motivadas pelo baixo orçamento. Por exemplo, a sessão fotográfica que pretende reproduzir Richard Avedon a retratar Cindy, Nadja, Christy, Claudia e companhia parece um trabalho de catálogo baratinho. E a própria protagonista admitiu que, uma vez que a Casa Versace não se envolveu na rodagem do filme, muitos figurinos tiveram de ser reproduzidos, o que, por muito bem que se trabalhe, nunca é a mesma coisa. Mesmo assim, adorei os looks pretos de Donatella: muito simples, muito femininos, fitting perfeito (já falaremos disso...).

"Não se consegue simplesmente recriar Versace. Há uma razão para Versace ser Versace" explicou a actriz, que percebe alguma coisa do assunto porque, sendo amiga de Tom Ford, passou os anos 90 embrulhada em Gucci e Yves Saint Laurent (lucky girl!).


Não posso concordar mais com isto. Já por várias vezes disse aqui que embora Versace - tal como Cavalli, aliás - seja um pouco risqué, sensual e colorido de mais para mim ( quando se trata de italianos, prefiro Dolce & Gabbana ou Armani) no corte é um prodígio.

Usa-se algo Versace (eu recomendo as calças) e zás-trás, as formas da mulher são enaltecidas na perfeição, sem achatar nem engordar a figura um palmo. Este aspecto foi muito bem conseguido na película, aliás: a caracterização de Gina Gershon obrigou-a a emagrecer e fazer musculação para ganhar a silhueta petite e  ultra definida de Donatella Versace, mas houve igualmente bastante trabalho de espartilho, até porque parece que a própria Donatella os usa até sob t-shirts: "eles constroem aqueles vestidos para ficarem incríveis, mas a não ser que haja tempo para fazer o espartilhado e os ajustes da mesma forma que Versace faz, o resultado não é assim tão fabuloso".


A frase "aperte mais na cintura!" foi dita imensas vezes durante a rodagem. Ora aí está um mantra com que me identifico (para desespero da minha costureira, diga-se). Donatella sabe como exaltar a feminilidade. E feminilidade é uma ideia muito presente neste House of Versace, já que retrata o esforço de Donatella (actual Vice-presidente da empresa) para não deixar cair a Casa criada pelo irmão.

Embora o filme seja assumidamente um trabalho de ficção, foi baseado numa pesquisa intensiva sobre Donatella Versace. E quando ela ensina à filha a importância do bâton, dizendo que a sua mãe "pintava os lábios ainda antes de beber café", frisa a importância dos saltos altos no porte e na confiança ou reflecte se uma mulher é a Lua (reflectindo o brilho do homem que tem a seu lado) ou antes uma estrela (aparentemente pequena e frágil, mas cintilando com luz própria), não só isto são coisas que facilmente imagino a saírem da sua boca, como espelham o espírito da mulher italiana (e do sul, de mais a mais) mas também da mulher tradicional, feminina, conhecedora do seu papel e das armas à sua disposição. Mamma mia!








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