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Saturday, August 13, 2016

As coisas que eu ouço: sede como as criancinhas



Esta foi mais vista do que ouvida: ontem ia eu toda atarefada a caminho dos meus afazeres quando, ao chegar à estação que tomo diariamente, noto os guinchinhos de alegria de duas ou  três crianças muito pequenas que se divertiam a girar sobre si próprias de braços abertos (quem nunca o fez em petiz, que se acuse...). Estava um lindo dia de sol e o quadro chamou-me a atenção pela sua inocência; bem se via que  não tinham nenhuma preocupação na Terra!

E do nada, reparo que um homem novo de fato e gravata se lhes juntou: abriu os braços e girou também, sem alterar a expressão do rosto, como se aquela brincadeira fosse a coisa mais séria deste mundo. Sorri enternecida para aquilo, julgando ser um jovem pai a brincar com os filhos.



Foi tudo tão rápido que mal deu tempo para perceber que não era o caso: ele rodou um par de vezes como um derviche com aquele ar grave de quem diz "virou que se faz tarde" (ou mais literalmente, como diria a Kylie Minogue, I'm spinning around, move out of my way) e, sem interromper o movimento nem mudar de cara, saiu da dança para apanhar o metro como se nada fosse.

 Isto diz muito da capacidade desta gente de viver a seu modo e de se estar nas tintas para o que o povo pensa, como já vimos, mas acima de tudo lembrou-me de como não se tomar demasiado a sério é condição sine qua non para a felicidade ou mesmo para o sucesso.

Se a uma pessoa crescida lhe apetece brincar ou  dançar o vira (ou outra coisa qualquer) out of the blue uma vez por outra, não está escrito em lado nenhum que seja proibido ou que precisa de ter horários e lugares específicos para tal - tão pouco se ganha automaticamente um carimbo de "figura de urso"  por causa disso, mas se ganhar, azar. E  até vos digo que só não me juntei a eles porque fiquei demasiado surpreendida e  não me queria atrasar, senão era limpinho. You can dance if you want to - and you can spin if you want to, era o que mais faltava.

Tuesday, August 9, 2016

Sissi esmiuça o estilo das londrinas (porque Londres andava muito sossegada).





O impacto das minhas primeiras voltas em Londres há uns aninhos valentes atrás, nunca se desvaneceu: viam-se aqui coisas que eu sonhava eventualmente usar (ou, se não faziam o meu estilo, pelo menos admirar de perto) mas que em Portugal eram raras ou mesmo impensáveis. Afinal, por muito que os portugueses quisessem armar em modernos, ainda se vivia uma certa sensaboria ou acanhamento em termos de estilo. Nunca me considerei uma trend setter nem a maior das early adopters, mas já na altura observava que qualquer tendência demorava bastante a instalar-se em solo luso.
 Muito ouvi "vais atravessar a cheia?" quando me atrevi a sair de corsários, apenas para os ver em cada esquina (e em versões baratas) dali a seis meses. Já em Londres, havia de tudo: lembro-me de tentar  não pasmar para uma rapariga japonesa de zori nos pés em pleno Inverno e com toda a parafernália de uma menina de Harajuku. 



A explosão da blogosfera e das redes sociais veio sem duvida atenuar muitíssimo essas diferenças. Hoje, Lisboa até tem uma comunidade de "lolitas" que se vestem "a la japonaise", e nem falemos das ridicularias que vemos em qualquer evento de moda...

De forma que quando se toma o pulso a uma das principais cidades na scene fashionista hoje em dia, as diferenças são mais subtis: afinal, existem sensivelmente os mesmos estilos dominantes seja em Londres, Nova Iorque, Paris ou Roma. Mas como em tudo... cada terra tem seu uso, cada roca tem seu fuso.


Já sei que contam que fale no mau, e no muito mau em que algumas inglesas sao useiras e vezeiras, conforme nos mostram certos reality shows: não me vou alongar nisto pois  por sorte, tenho tropeçado em poucas "chavs" com os seus cabelos arrepiados e colados à cabeça com gel, grandes argolas e tatuagens medonhas. 


Quem se veste mal fá-lo como as serigaitas portuguesas, sendo que não faltam lojas especializadas nesse look, nomeadamente em bairros populares: gigantes armazéns de poliéster capazes de dar arrepios a uma pessoa!




 No entanto, já descobri aqui umas marcas francesas que a par com os mini vestidos, tem peças amorosas e fora do vulgar em algodão, nomeadamente calças coloridas, muito anos 70. 
Voltando ao look "bairro social" que é praga a escala planetária, a diferença de Londres está na nail art que, apesar de ser muitíssimo popular e comum - há um salao de nails a cada metro, benzam-se - é bastante mais discreta. Muita unhaca, muita garra medonha, mas quase sempre de uma cor apenas, nada de bonecadas...
Talvez por muitos "manicuros" serem homens! Homens chineses, frequentemente, e casados com a manicura sua sócia. Os "nails corners" sao amiúde negócios de família, e - digo eu, que mesmo assim me recuso a entrar num - talvez o paterfamilias não tolere grandes maluqueiras à clientela. 




 Mas será na maquilhagem que se vê o maior contraste comparando com as portuguesas, apesar de a "pintura para Instagram" se ter banalizado por este mundo de Deus. Aqui o caso e sério - tanto nos visuais menos decorosos e de gosto, como entre as fashionistas de serviço e profissionais de moda.
 Para já, as londrinas levam a makeup tão a peito que mandaram pela janela a velha regra da educação à inglesa, segundo a qual uma senhora JAMAIS se retocava em público (por oposição à tradição francesa, que permitia retocar ( apenas) o baton e o pó de arroz).



 Qual! Elas fazem TODA  a maquilhagem no metro, para quem quiser ver. Muitas fazem-no, vá. E estamos a falar de sombras elaboradas, contouring, eyeliner, you name it. Com uma destreza e uma chutzpah (leia-se lata ou descaramento) que me faz sorrir...embora mande a boa educação que se faca vista grossa a estas "operacões de beleza em público".

Depois, talvez pela influência de tanta muçulmana e árabe que cá mora (muitas, aliás, trabalham como brow stylists) o threading é um must (e baratissimo) e a palavra de ordem são as sobrancelhas de Instagram...pintadíssimas, enceradíssimas, algumas a beirar, quando não ultrapassam de largo, o exagero.
 O strobing também é uma febre - e só é pena que muitas meninas, que até trabalham na área da beleza, o usem em plena luz do dia,  ficando com a cara a brilhar com mais ar de facepainting espacial do que de maquilhagem bem feita...

No entanto, mandam as boas Casas de modas que as suas funcionárias, na maioria, se cinjam a uma discreta elegância: cabelos e unhas em tons naturais e maquilhagem ao estilo Chanel: baton nude ou encarnado, sombras neutras e rosto uniforme, cabelos soltos e brilhantes ou apanhados num rabo de cavalo ou chignon. Muito old school, bonito e bon chic bon genre.


 
Mas para apreciar o verdadeiro estilo inglês em todo o seu esplendor, para não ver roupa feia nem demasiado ousada por mais que se procure,  há que ir para o campo (hoje partilhei com uma rapariga que mora no countryside  um ode de amor às galochas, que como sabem aqui se tratam carinhosamente por Wellies) ou para a Chelsea, Fulham e por aí. E o preppy mais puro, o melhor look old money sem esforço que se pode.





 Elas com os seus Chelsea blow dry - o brushing solto tão admirado na Duquesa de Cambridge:




E eles muito janotas com a melhor alfaiataria inglesa predominando por ora os tons de Verao, como o azul escuro (ma non troppo). Toda a gente - casais, famílias com os seus adoráveis bebés louros ou ruivos, grupinhos de raparigas -  parece muito correcta, muito composta, uma perfeição. Há dias vi um clone de Kate Middleton sair de trás de um arbusto num parque - com os copos, a dizer palavrões, mas bem vestida e penteada que eu sei lá....

De mais a mais, a feminilidade esta em voga: abundam os skinny jeans subidos, sim, a par com os culottes - mas fazem grande sucesso os vestidos rodados e as saias plissadas sob o joelho em nude, preto ou burgundy, que se usam numa infinita variedade de combinacoes... 



Porém, se se quiser vir a Londres tirar alguma lição de estilo, que seja para aprender a dominar a arte de usar sapatos rasos com elegância. Apesar de aqui toda a gente, ou quase, ir de ténis ou calcado prático para o emprego (o que me faz sentir menos extraterrestre com a minha mania de trazer um dustbag com uma muda de sapatos) TODO o mundo em Londres tem o mesmo hábito (e já agora - descalçam-se à frente de quem estiver, sem problema algum: dizem os nativos que por estas bandas ninguém tem tempo para reparar na vida dos outros...) isso não quer dizer que se circule com qualquer coisa até mudar para uns Burberry, L.K. Bennett ou Jimmy Choo.
 Nada disso. As londrinas "bem", sejam baixinhas ou altas,  são exímias na arte das proporções e possuem uma invejável colecção de flats cuidadosamente escolhidos, o que lhes garante um porte tão distinto e uma  figura tão esbelta como se estivessem de saltos.

 E pronto, assim de rajada isto é o que me chama mais a atenção. Mas como vejo tanta coisa, decerto me hei-de inspirar para partilhar convosco mais algumas ideias...





 




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