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Monday, July 10, 2017

As coisas que eu ouço: como calar uma pata-choca



Para garantir que chego a horas sem correrias, costumo apanhar quase sempre um dos autocarros directos para o aeroporto, que é certinho como um relógio (uma das grandes vantagens de Londres é a abundância de transportes públicos...uma pessoa só usa o carro se quiser ir às compras ou passear fora da cidade, isto quando a Uber não quebra o galho; para quem não aprecia conduzir, como eu, não podia ser melhor). 

E embora haja aqui condutores de bus um pouco estranhos (incluindo alguns que nem se maçam a aprender inglês; os passageiros que necessitam de informações que tirem pela pinta, pois então!) regra geral até costumam ser simpáticos. 

Quero dizer, nem passam por cima das poças de propósito só para troçarem dos peões, como os malucos dos holandeses nem nada (true story!). Alguns até abrandam e voltam a abrir as portas se houver gente a correr atrás deles, e quando já nos conhecem de vista dizem-nos sempre o seu "how are you today?".

Mas esta semana apanhei uma "senhora" (aqui não faltam mulheres a conduzir autocarros, algo que ainda não se vê tanto assim em Portugal) que era uma verdadeira personagem. Tinha um cabelo encaracolado num rabo de cavalo todo no ar, tipo espanador, e uma personalidade a condizer: é que todo o santo percurso (e como a "carreira" pára em muitas capelinhas, a viagem ainda dura uma boa meia hora) a criatura NÃO SE CALOU, a ralhar o tempo todo. 




É sabido que a murmuração é um defeito que as mulheres devem evitar, mas juro que esta levava a murmuração a outro nível. Se não achasse impossível uma hárpia daquelas ser esposa e mãe, ficaria cheia de pena do seu pobre marido e filhos!

É preciso dizer, para quem não conhece bem Londres (ou só andou de transporte público algumas vezes enquanto turista) que por estas bandas se aplicam umas teorias que só podem ter sido importadas das Índias às viagens de autocarro, e mesmo algumas de comboio.

Não sei se haver por aqui uma comunidade indiana tão grande que até o presidente da câmara é desses lados terá alguma coisa a ver com isso, que pensem "assim como assim já ninguém estranha", mas tenho para mim que em certas horas e em certos percursos, andar de autocarro em Londres não será tão diferente de fazê-lo em Bombaim ou das zonas mais remotas da China comunista. Ou seja, é tudo ao molho e fé em Deus!




De todo o modo é comum, quando o autocarro/comboio está cheio, o motorista pedir (ou ligar uma mensagem automática a pedir) que toda a gente se esprema como puder dentro do veículo, para caberem mais almas. Costumo ter sorte, pois apanho o autocarro quando ele ainda vai vazio, mas se puder evito estas enchentes. Imaginem, tudo apertadíssimo, com malas, com sacos, com carrinhos de compras, carrinhos de de bebé... e o motorista ou a gravação a solicitar nas calmas "please move down inside the bus so we can continue our journey." Dá vontade de os mandar a uma certa parte!




Ainda assim, já está realmente tudo acostumado e não costuma haver grande altercação por causa de tais apertos, pois a civilidade ainda vai sendo de rigueur por cá...valha-nos isso.

Voltemos à mulherzinha: talvez as mensagens automáticas estivessem avariadas, talvez ela gostasse simplesmente de ouvir a estridência da própria voz. O que é certo é que sempre que podia, berrava com os passageiros para darem espaço uns aos outros, num rumorejar constante de guinchos. Não contente com isso, berrava com os outros condutores e quando não havia mais ninguém, ralhava para o rádio. Claramente a pessoa não estava em si e comecei a pensar se estaria em boas mãos...




Chegados ao destino, ainda arranjou maneira de mandar vir com a ambulância que assistia um acidentado, porque não lhe apetecia ir pelo caminho que ficava exactamente ao lado - uma mota toda partida no chão, o desgraçado de maca, polícia e INEM...e a doida queria passar por cima! Claro que se riram dela, porque felizmente o desastre não tinha sido grave. E saí aliviadíssima, finalmente.

Foi sol de pouca dura, porém - ao voltar para casa, apanhei a mesma tarada no caminho de regresso. E a cena repetiu-se, para pior. No percurso de volta é necessário apanhar os trabalhadores do centro de cargas e descargas, que por alguma razão são sempre todos indianos e cerca de 50, à vontadinha. E claro, a bruxa ralhou, ralhou e ralhou com os pobres coitados, que como não podia deixar de ser, faziam troça dela lá na sua língua...a dada a altura já ia tudo a rir e a encolher os ombros, e eu já estava tão cansada que não me admirava que tomassem balanço e desatasse tudo a dançar e a cantar tipo filme de Bollywood mais minuto, menos minuto.



Entretanto a minha família telefonou-me. Atendi e com isso   o cavalheiro idoso que ia ao meu lado, que eu tomara por indiano também, percebeu que eu era portuguesa e perguntou-me, num português perfeito, se eu era de Lisboa como ele. E lá me explicou, a rir, que aquela mulher era sempre a mesma coisa. Todas as viagens o mesmo. Não há paciência...

Por fim, mais uma paragem...e podem imaginar que o circo continuou: as pessoas a tentar entrar e a ogresa de uma figa a tratar mal toda a gente, cada vez mais histérica. Mas houve uma senhora que não estava mesmo para a aturar. Muito calma, muito composta, sem se alterar nada, argumentou com ela, respondeu-lhe umas poucas de vezes sem levantar a voz e por fim desistiu de viajar naquele autocarro, avisando-a  categoricamente: "deixe estar que anotei os detalhes todos e vou fazer queixa de si!". A maluca aí perdeu mesmo as estribeiras, guinchando a plenos pulmões "YOU DO WHATEVER YOU WAAAAAAAAAANT!". E fechando as portas com estrondo, lá nos conduziu aos trancos e barrancos...




Olhem, certo é que depois desta última explosão ela se calou de vez. Nem piu. Nem chus, nem bus, nem catrapuz: foi um sossego até à estação.

Com pessoas assim, das duas uma: ou um cristão desce ao mesmo nível e lhes aplica um correctivo na linguagem que entendem melhor, enchendo-lhes a cara de bolachadas, ou fica nas suas tamancas e as ameaça com aquilo que elas mais temem. Tenho a certeza que para uma pessoa assim, perder um emprego onde pode gritar com os outros é o pior dos castigos. De qualquer maneira, admirei a classe da senhora mas fiquei com pena que não tivesse escolhido a primeira opção. Uns sopapos bem dados tinham sido mel, e ficava com um final mais giro para este relato.





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