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Wednesday, July 12, 2017

O povo perdeu a noção do decoro, está confirmadíssimo.




Já tenho dito coisas do género muitas vezes, mas nunca deixa de me surpreender que a fronteira entre "liberdade" e "libertinagem" se tenha esbatido - se é que não desapareceu de todo.

 O grosso da população entrou, oficialmente e de papel selado, em modo "nada é errado se te faz feliz" e perdeu a noção do bem e do mal. E nada confirma tanto isso como abrir as caixas de comentários dos nossos pasquins, como já vimos. De pedir a pena de morte com requintes de tortura de meter medo a um carrasco medieval por cá cá aquela palha a enunciar, para todo o mundo ver, o que gostaria de fazer entre quatro paredes se tivesse oportunidade, quando não partilha mesmo no Instagram o que acabou de fazer, fico a pensar se as pessoas não estarão cada vez mais baixas, boçais e viciosas. 




A não ser que escrevam a brincar (e com muitos erros ortográficos e palavreado sujo) no Facebook mas se comportem de maneira totalmente diferente na vida real- também pode ser isso. 

Queira Deus. Porém... duvido!

O Correio da Manhã publicou, como publica tantas vezes brejeirices do género, uma "notícia" dessas para atrair comentários-ordinários:  uma cabeleireira americana de meia idade arranjou um namorado de vinte e picos. Contente da vida, tratou de se amancebar com o rapazinho na mesma casa onde vive com a filha de vinte anos e parece que - sem fazer caso do exemplo que dá à pequena -não é nada discreta nas suas intimidades.




 Os vizinhos queixaram-se a e a criatura, que não se deve importar nada de dar nas vistas por tais motivos, veio assumir que sim, que se costuma exceder nas suas expansões acasaladeiras, não fossem as pessoas pensar que era a filha a fazer tanto barulho. Oh mãe extremosa (e guerreira, acrescentariam muitas serigaitas)! Oh comovente sacrifício!
(Aqui entre nós, a menina tem um aspecto de tal ordem que não vale muito a pena defender a sua honra, mas seja). 

Até aí, enfim. Há por este mundo gente bem esquisita, que vive de forma esquisita e é normal que esses casos atraiam a atenção - ou façam rir -  por serem invulgares.

O que me chocou não foi o alegado barulho, claro - os pecados de cada um não são contas do rosário dos outros. Cada um é como é desde que não esqueça a máxima "vícios privados, públicas virtudes". Ou como diria o ti Marco Paulo, uma lady na mesa, etc. Quem quer causar ruído de qualquer tipo (ou porque gosta de fazer altas festanças até às tantas, ou tem uma família grande e barulhenta que fala aos berros, ou...enfim) precisa de investir numa casa retirada e num bom isolamento.



 Tão pouco me afligiu a falta de noção do apropriado da protagonista, que coitada, é um estereótipo ambulante do poor white trash. De uma pessoa com aquele ar e aquela demografia não se espera grande coisa.

Ná: o que me arrepiou foram os leitores portugueses, sem um pingo de vergonha alheia (nem vergonha própria, assinale-se) a defender em massa o direito de incomodar os vizinhos. Ou de resto, o "direito" inalienável a viver em modo Sodoma e Gomorra e ainda receber um prémio por cima.

 Isto dito em termos totalmente abjectos e com argumentos do tipo "os vizinhos têm é inveja", "daqui a nada é preciso pedir autorização à câmara para *inserir verbo*", "o que é bom é para se ouvir" e "eu também gosto e os incomodados que se..." percebem a ideia. Assim, como se não houvesse diferença entre ser púdico, indignar-se por a senhora fazer lá o que (com mais dignidade ou menos) está no seu direito, meter-se na vida alheia, ou indignar-se com justiça porque a senhora está a pisar a liberdade dos outros.




 Como se fosse saudável, aconselhável,  a coisa mais normal do mundo,dar a conhecer à vizinhança os seus detalhes mais privados. Como se fosse desejável que adolescentes e crianças sejam expostos às acrobacias de tutti quanti.




É que já se sabe, é preciso um devasso para defender o outro.

Sempre me desgostou que o povo português tenha uma certa tendência infantil para a malandrice e a brejeirice, de que o sucesso da música pimba dá tão eloquente testemunho. No entanto, comentários destes, num número tão grande, fazem-me pensar em que raio de depravação viverá esta gente: é como se vivessem numa frustração permanente, como bichinhos na selva, ou  como miúdos da escola sempre prontos a dizer asneiras à socapa, ou com medo que o tio Salazar volte para lhes tirar a sua "liberdade" e trancafiá-los nas celas da PIDE por indecência. 


Ou isso, ou há ali uma grande hipocrisia. Aqui há tempos, a propósito de uma notícia de conteúdo semelhante no mesmo pasquim (adolescentes que andavam numa promiscuidade desgraçada nos lavabos de uma discoteca lisboeta) vieram os rústicos do costume defender a rebaldaria, e taxar quem se indignava de púdicos e virgens ofendidas. E houve um rapaz que esteve muito bem e escreveu: vocês são todos muito "mente aberta"..mas queria ver se fosse com as vossas filhas, se ficavam contentes! É o ficavam (espero que não...).


4 comments:

Susana said...

Que falta tem feito este salão! Fico contente pela retoma da actividade. É que não se encontra com facilidade leitura ligeira, com um certo tom de graça, conteúdo pedagógico e interessante! Bem vinda de volta �� e os meus parabéns pelo casamento. Apercebi-me tardiamente através dos posts, sou das aves raras que não tem facebook. Muitas felicidades na nova etapa da vida pessoal e também profissional.

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Susana, pelos votos e por continuar a acompanhar...os meus novos deveres não me deixam, por enquanto, publicar com a mesma regularidade. Porém, com um bocadinho de esforço tudo farei para actualizar mais que uma vez por semana! Beijinho :* :* :*

Marisa Fernandes said...

Susana, totalmente de acordo!
Sissi, já dizia a senhora minha avó, falecida há 20 anos: este mundo não tem arranjo. Se vivesse nos nossos dias, morreria de espanto e vergonha.
Um beijinho.

Imperatriz Sissi said...

Maria Fernanda, as nossas avós fazem cá muita falta mas estou de acordo: não aguentariam o mundo como ele anda. Não é, se calhar, que as pessoas façam pior do que antigamente (algumas) mas perderam a vergonha de o demonstrar e até se orgulham! Beijinho.

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