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Monday, August 21, 2017

Já o tetravô*** usava crista- os penteados "Império"




De há uns quinze anos a esta parte, os penteados cheios de gel para homem têm andado sempre na berra- uns aceitáveis, outros de um mau gosto atroz (olá, Carlões e Carlitos do tuning, do puxa ferro e das danças afro latinas!).



Dos estilos moicano ou gladiador às "poupas" tão do agrado dos jogadores da bola e seus seguidores, passando pelos looks mais longos mas igualmente "no ar" usados por celebridades como os meninos dos One Direction, sem falar nas versões que os hipsters se lembram de inventar, salvo seja, para acompanhar barbas e tatuagens (fora o "toutiço para homem" de que hoje não trataremos).



Gostos à parte, todos estes mancebos, ou quase todos, devem sentir-se muito à moda, muito trendy, muito avant-garde...sem pensar, ou sem se lembrarem, que esses visuais já andaram muitíssimo em voga há uma data de anos.



E responderão eles, indignados: mas quando, Sissi? Olhe que não estou a ver. O meu penteado não se parece com nada que eu tenha usado no liceu, nem com o cabelo comprido do meu pai nos anos 70, nem com a poupa à Elvis do avô nos anos 50, nem com as brilhantinas que se viam, em diversos estilos, nos anos 40, 30, 20, nem em 1900 e bolinha... está com os copos?

E diria o Cristiano Ronaldo: eu não sei, que eu não fui à escola, etc.

Pois é, cavalheiros, temos de recuar mais um bocadinho, um bom bocado para lá de 1900 e bolinha. Ou antes, para 1800 e bolinha.  Mais precisamente entre 1803 e 1821 (compreendendo o período da Regência em Inglaterra, entre 1811 e 1820, ou seja, a época em que os romances de Jane Austen foram publicados) quando o Estilo Império imperou, passe o pleonasmo.

Josefina Bonaparte

Este estilo - na arquitectura, decoração e moda (que rejeitava os visuais elaborados e as grandes cabeleiras pré-revolução francesa) era inspirado pelo gosto imponente de Napoleão Bonaparte e das mulheres da sua família, pela estética militar, pelas campanhas napoleónicas no Egipto e sobretudo, pela Antiguidade clássica.


Nos vestidos das senhoras, os decotes desceram, a cintura natural foi escondida e passou a situar-se logo abaixo do peito (o que pareceu aos contemporâneos tão disparatado como a mim me parece hoje - mas isso é assunto para explorar noutro post) e passaram a usar-se tecidos finos, as saias mais estreitas e justas ao corpo...atrevimentos que escandalizavam os mais conservadores.


Quanto às melenas, perderam comprimento e volume, sendo apanhadas "à grega" ou mesmo cortadas "à Tito" ou "à la victime" (imitando o corte atabalhoado que o carrasco fazia às vítimas do Terror antes de as pôr na guilhotina). E as feministas em 2017 acham-se muito subversivas por escortanharem o cabelo, não é? Ná, minhas meninas, já foi tudo inventado...


Por sua vez, os homens passaram a usar, basicamente, tudo o que usava o socialite Beau Brummel, pioneiro do dandismo (figura tão responsável por simplificar e modernizar o vestuário masculino como Coco Chanel o seria mais tarde em relação à roupa feminina).


 Grandes gravatas, calças compridas em detrimento de culottes (salvo em situações formais) polainas e fatos mais semelhantes aos que vemos actualmente.


E os cabelos, se já não andavam longos pelos ombros abaixo nem empoados, não eram por isso menos espectaculares nem trabalhosos: à falta de gel, usava-se pomada ou óleo à base de gordura de urso perfumada com essências para esculpir as madeixas e dar o efeito "despenteado".


Aproveitando a textura natural do cabelo, havia quem destacasse ondas e caracóis ou quem fizesse poupas e cristas.


Repare-se como muitos destes penteados à Tito, à César e à Brutus podiam figurar num qualquer editorial de moda dos nossos dias:












É claro que alguns cabeleireiros sabem disso, chamando os penteados actuais, inspirados nestes, por "Regency Hairstyle"...mas acredito que à maioria, nem lhe passará pela cabeça que usa na dita cuja um look copiado de um Bonaparte, de um Mr. Darcy ou de uma personagem de "A Fogueira das vaidades"....


***tetravô à falta de palavra mais adequada, porque escrever "quinto ou sexto avô" não cabia no título...

2 comments:

Susana said...

E, na verdade, esses penteados naquela época, conjugados com o vestuário, transmitiam mais elegancia - como mostram os retratos - ao contrário dos tempos de hoje, que geralmente transmitem um ar duvidoso (seja do vestuário ou do próprio porte - ou falta dele). Quase parece um vírus, frequento um daqueles ginásios de grandes superfícies e, além dos Carlões, tudo o que é personal trainer ou professor anda com essas cabeleiras fartas tipo popas, parece que faz parte da farda. Quando lá estou lembro-me inúmeras vezes dos posts da Sissi. Sinto-me como o Herman Geographic - os portugueses -atras dos galhos e folhas. E a polémica em volta dos livros de atividades da Porto Editora? Sou completamente contra os diferentes níveis de dificuldade mas pelas alminhas do purgatório... Fosse eu criança preferia certamente o livro cor de rosa, não me obrigassem a ter de ter e ser tudo unisexo! Acho que Menina que é menina ainda prefere colorir vestidos de princesas e fadas. Deixem as meninas serem meninas e os meninos serem meninos, está tudo a cair no exagero que até tiram a graça às brincadeiras. Beijinhos Susana

Imperatriz Sissi said...

Olá Susana...acaba de levantar um ponto importantíssimo. Estes penteados espetados, com os uniformes militares e as roupas elegantes daquele tempo, davam um ar marcial a quem os usava. Mas num look total - cavas, calças demasiado justas ou a descer por ali fora, etc- criam um excesso que fica mesmo duvidoso. Muito me havia eu de rir se passasse pelo seu ginásio! Talvez me esconda atrás de uma samambaia para ir lá espreitar :D

Quanto à polémica dos livros, Ricardo Araújo Pereira teve um comentário brilhante e engraçadíssimo sobre o assunto em que me tirou as palavras da boca.De esquerda ou não, o cavalheiro é genial! Beijinho

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