Recomenda-se:

Netscope

Thursday, September 14, 2017

Taylor Swift: e a nobre arte do Shake it off, era só conversa?




Taylor Swift ( que até respeito mais que qualquer outra "estrelinha" do momento, por ser uma rapariga de classe apesar de muito namoradeira e por ter umas canções aceitáveis) lançou, com estrondo, o seu novo single, Look What you made me do:



E- tal como o público esperava- a cantilena e o respectivo videoclip  são um ode a todas as celebridades com quem a cantora tem tido "guerrinhas" ultimamente e à forma como é retratada pelos média ( uma víbora manipuladora que passa por santa mas que se vinga destruindo os ex namorados nas suas músicas e uma "mean girl" control freak, sedenta de poder, com um esquadrão de amigas bonitas e fúteis).


Este número de Swift (zangar-se com alguém e alfinetar a criatura no próximo hit que lança) começa a ganhar mofo. E a perder o sentido à medida que ela vai ficando mais velha.




Ao ouvir a canção, recordei-me de uma situação que se passou comigo.


Há uns anos (quando eu ainda levava certas coisas e certas personagens demasiado a sério) tive sérias razões para ganhar aversão figadal a uma pessoa.

Digamos que a criatura (Deus lhe valha, era tão desinfeliz que merecia mais pena que outra coisa...) teve o atrevimento não só de tentar pregar-me uma partida, a mim que estava contentinha da vida e quieta no meu canto sem fazer mal a uma mosca (e nem andava a fazer assim muita troça das pessoas nem nada, juro). 

E ainda por cima, uma partida que representava tudo aquilo que mais desprezo neste mundo!

Agora olho para trás e vejo que era caso para um par de calduços e rir do assunto; mas na altura doeu e pior, o incómodo não desaparecia. A raiva é como o amor: consome, gasta energia, uma pessoa deita-se e acorda a pensar nisso.



Fiquei muito magoada, pois quem não se sente não é filho de boa gente... e não me orgulho de dizer que congeminei umas quantas artimanhas para expor a pessoa ao devido ridículo (esperem lá- orgulho pois. Soube-me bem e foi mais que merecido!).

É que eu tenho uma paciência de chinês, um saco de "dar o desconto" aos outros extremamente elástico e é muito raro zangar-me ou perder as estribeiras. Prezo o auto domínio acima de quase tudo e acho muito feio ser mesquinho. Dou a outra face, que é como quem diz "deito ao desprezo".

 Dizem-me muito que não percebem como tive calma nesta ou naquela situação, que não sabem onde vou buscar o sangue frio e que tenho uma pachorra de Job e tolerância ao intolerável. Mas quando finalmente me zango, quando o saco rebenta (ou até é a primeira vez que pisam o risco mas calha tocarem-me cá nos meus dogmas ou valores de base) o caldo pode entornar-se e aí já não vejo a direito.



Em resumo, eu já tinha desabafado e retaliado, já a estória arrefecera, a poeira baixara e em boa verdade tinha deixado de ser caso para tanto... mas eu continuava a deitar fumo. Insistir na fúria estava a fazer-me mais mal a mim do que à alminha que iniciara a confusão para começo de conversa.

Até que uma grande amiga minha, farta de me aturar e de não reconhecer a minha pessoa naqueles preparos, me disse:

"Por amor de Deus, Sissi!!!! Tente ser mais magnânima! Isto está a tornar-se ridículo!" (ela é inglesa por isso usou o termo "gracious", que acho muito apropriado mas complicado de traduzir).



Foi como uma baldada de água fria bem necessária. É bom termos amigos que nos dêem um puxão de orelhas de vez em quando. Eu que tanto defendo manter a classe acima de tudo estava a ser rancorosa, e pior - a deixar que aquilo me amargurasse. 




Parou ali a brincadeira e passei a não levar as pessoas e os episódios tão a peito.

 A ter uma visão mais "Católica" do assunto, se quiserem.. embora alguns grandes santos se ofendessem e não deixassem créditos por mãos alheias. Por outro lado, os Santos enfureciam-se quando a glória de Deus estava em causa, e não a sua pessoa. Por outro ainda, isto transcende a religião: é algo comum a qualquer filosofia de auto domínio, bem viver e civilidade.

Ofender-se com justiça é legítimo, mas tomarmos como crime de lesa-Majestade qualquer agravo que nos façam é indigno não só de um um cristão, mas de qualquer pessoa de bem. É muita presunção. É acharmo-nos acima de toda e qualquer contrariedade.



 Acima de tudo, é deselegância. E eu não queria resvalar para a deselegância, até porque assim a pessoa malvada ficava mesmo a ganhar.

Por vezes - já o tenho dito - a nossa vitória é maior se aplicarmos às coisas e às pessoas um valente "deixa para lá" ou um "as acções ficam com quem as pratica".

 Ricardo Coração de Leão morreu ferido por uma flecha disparada por engano, perdoou o seu homicida e ainda mandou dar-lhe dinheiro. Soube ser Rei e deu desconto à situação do moço: não  havia glória em esborrachar uma pessoa insignificante por danos que já não se podiam reparar (a sua mãe, Leonor da Aquitânia, é que não esteve pelos ajustes e mandou executar o rapaz da maneira mais horrível, dizem). Quem não vive para as ninharias deste mundo não se pode consumir por causa delas. É isso que distingue as pessoas verdadeiramente inspiradoras!

Mas deixemos Ricardo Coração de Leão e voltemos a Taylor Swift Coração de Cheerleader.




 O grande mote para mais esta "cantiga de maldizer em versão pop" é, claro, ter sido apanhada a mentir (por nada mais nada menos que Kim Kardashian)  quanto a concordar ser mencionada de forma pouco lisonjeira por Kanye West na canção e no controverso videoclip de "Famous". Para muita gente caiu a máscara de rapariga amorosa e alguns amigos e fãs de Taylor alinharam com o "inimigo".



É claro que o escândalo vende e Taylor Swift sabe vender como ninguém. 

É possível que Miss Swift se sinta lesada, que até tenham em certa medida sido injustos com ela e que, para uma rapariga que tenta apresentar-se com certa elegância, seja o fim do mundo ser exposta como mentirosa  por uma figura de moral questionável como Kim Kardashian (por muito relevante que Mrs. Kardashian-West se tenha tornado,  por mais que muita gente jure que ela é boa pessoa e ainda que eu tenha que reconhecer que não lhe falta uma certa compostura na forma como se defende quando é atacada por outras caras conhecidas).



Mas não foi Swift que popularizou o mantra (muito útil, aliás) Shake it off? Não era ela que cantava que haters gonna hate e que os cães ladram mas a Taylor Swift passa com o seu esquadrão de amiguinhas e fantasmas de ex namorados e tudo como dantes no quartel de Abrantes?

Apesar de Taylor Swift ter tantas amigas, faltou-lhe uma amiga verdadeira, franca e sensata como a minha!

E depois, o erro foi dela mesma,  que andou a falar com pessoas com quem tinha razões para não simpatizar (acredite-se ou não que a birra de Kanye nos Grammies foi encenada para tornar Taylor mais famosa) e a associar-se a figuras com quem preferia que não a associassem. Há que aceitar a responsabilidade, rir do assunto e ...shake it off.



Tinha-lhe ficado melhor manter-se nessa onda, eu acho. Uma mulher chega a uma altura na vida em que tem de aprender a tal máxima de deixar as acções com quem as pratica, a dar um deixa para lá, um "Deus te ajude, coitadinho que não sabes o que fazes", a não devolver o carvão que os outros atiram para não ficar toda enfarruscada- a não deixar, enfim, que a raiva a consuma e a procurar a melhor vingança: viver lindamente e arreliar os antagonistas com a sua felicidade. Não há tortura pior.

A cantiga Look what you made me do é muito contagiante, admito - mas acho Shake it Off um lema bem melhor para viver bem.





No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...