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Monday, October 23, 2017

Uma história sem heróis que anda nos jornais #2: o juiz, a adúltera, o marido, o amante e a moca com pregos






Esta semana, mais uma história sem pés nem cabeça incendiou as redes sociais, fez as delícias dos jornalistas, mandou as feministas pelo ar e deixou o Zé Povinho  indignado (sendo que as pessoas decentes e as feminazis não costumam indignar-se juntas).

Vamos lá a ver se consigo resumir o conto que parece, sem tirar nem pôr, ter saltado do Decameron de Boccacio, com umas pinceladas de The Walking Dead (que até começa hoje e tudo) e um cheirinho a prosa de Camilo Castelo Branco.

O Tribunal de Felgueiras e depois, o Tribunal da Relação do Porto, cada um por sua vez, deram e confirmaram uma sentença de pena suspensa a dois homens acusados de agredir uma mulher à força de moca com pregos. Moca com pregos tipo a "Lucille" do Negan - quem não acompanha a série, vide abaixo a imagem simpática:





Credo.

Porém (como se já não fosse esquisito o suficiente que as pessoas andem para aí a desancar-se com armas artesanais dignas de um cenário pós apocalíptico) ao que parece os agressores eram, respectivamente, o marido e o amante da infeliz, que se uniram para a sovar (ou tentar assassinar, vá; dois homens não precisam, para "apenas" sovar uma mulher com metade da força de um só deles, de se munir de uma moca com pregos). 

No entanto, os dois juízes (um cavalheiro e uma senhora) fizeram vista grossa à barbaridade do acto e decidiram ver o caso pelo prisma moral da coisa, invocando argumentos bíblicos, mais alguns de pundonor e vergonha à moda do sec. XIX para minimizar, de certa forma, a tresloucada agressão- em traços largos, que o marido estaria ferido da forma mais profunda na sua honra, e humilhado, e deprimido e ofendido na sua masculinidade, cometendo assim um crime passional (podem ler o documento na íntegra aqui).




Ora, a estória é tão reles, tão má em tantos ângulos, e com tanta faltinha de fibra moral de todos os intervenientes (incluindo de muitos comentadores de bancada por estes facebooks da vida) que eu só posso tentar raciocinar em tópicos.




1 - Eu sou toda pelo pundunor e pela honra e pela vergonha, apaixonadamente contra todo o tipo de traição e de adultério (só a ideia em si me causa náusea, venha da parte do homem venha da parte da mulher) e ninguém gosta mais de um argumentozinho bíblico e de um raciociniozinho vitoriano do que eu. 

Aliás, faltam por aí juízes com bússola moral que saibam pregar às pessoas um sermão bem dado, a ver se aprendem a distinguir o certo do errado nestes tempos de moral de elástico. No entanto, devagar com o andor, que o santo é de barro: embora caiba aos juízes a interpretação da Lei (e Direito não seja a minha área) quer-me parecer que há uma diferença entre um safanão dado de cabeça quente que correu mal, entre perder a cabeça ante o choque da traição...e um acto de sequestro premeditado, incluindo levar a moca na mala do carro pelo sim, pelo não.

 Se vamos desculpar que um homem agrida à mocada a esposa ou a amante com uma moca à Walking Dead, estamos a abrir um precedente perigoso: por este andar, um dia destes qualquer bruto ciumento, qualquer Otelo de vão de escada, pode desfazer à paulada a companheira, ou atirar-lhe ácido, ou qualquer horror desse género, só porque imaginou uma traição, ou sonhou, ou lhe vieram contar umas mentiras, ou simplesmente porque lhe dá jeito livrar-se da respectiva. Isto não é o Paquistão, minha gente!




2 - A sentença do juiz, a falar de mulheres honestas e honra e vergonha e brio masculino, podia ser discutível, mas não deixaria de ser coerente se o Sr. Doutor tomasse apenas as dores do marido- homem antiquado, machista, de valores de outros tempos que se via humilhado pela esposa desavergonhada. 

O pior é que- se é que li bem - os juízes em causa fizeram vista grossa ao facto de o caso ser bem mais sórdido, mais reles e mais estranho: o amante, que não sabemos que arranjo teria com a mulher ou com o casal (é tudo tão sujo que podemos supor as coisas mais mirabolantes) não gostou de levar um par de patins, e como tal ligou ao marido traído (e trouxa) para, os dois muito amiguinhos, se unirem numa vingança bem cobardolas contra a desgraçada. E o juíz deu pena suspensa aos dois: ao traído e ao "amigo".
 Ora, isso não é coisa de marialva cioso dos seus brios. Nem nos tempos mais sombrios para os direitos (salvo seja) das mulheres, onde nenhuma ousava pôr o pé em ramo verde sem arriscar uma tareia das grandes ou coisa pior, se ouvia falar num marido que se aliasse ao amante para dar uma lição à traidora. Um homem nunca ficaria mal visto por defender a sua honra pela força; mas seria decerto alvo de chacota, chamado de animal bovino/caprino de mansos costumes e grandes hastes, enfim, coberto de ridículo e usado como um trapo vil se, além de atraiçoado, fosse unir forças com o autor da sua desonra para vingar a afronta. Aliar-se ao homem que lhe pôs os chifres parece coisa de feministos, de gente toda adepta do amor livre, enfim, de homens beta, carregadinhos de estrogénio, depravados, demasiado fracos para porem a própria casa na ordem. Enfim, uma badalhoquice, queiram desculpar. Bater na mulher com uma moca é péssimo, precisar de chamar o amante da dita cuja para ajudar? É que nem a honra pode ser chamada para um desconchavo desta laia. Trouxa, banana e cobarde. Chamar machista a isto é uma afronta.





3 - Por fim, haja paciência para os feministas de bancada, indignadíssimos pelos motivos errados. É que não faltou gente que em vez de dizer, muito civilizadamente "caramba, não é à mocada que se resolvem estas coisas, nós não somos uma cambada de bárbaros, uma pessoa mandava a meretriz das dúzias para casa da mãe e pronto" e de analisar que o importante é não haver traulitada nem arrochada nem violências em modo Walking Dead seja em que caso for...não.

Houve muito quem se indignasse não tanto pelo crime cometido, mas por a mulher, em cima da tareia de criar bicho,  levar um raspanete do juiz por ser adúltera, em modo "só Deus pode julgar" (os que não invocaram logo a laicidade do Estado), ou  "viva a liberdade e abaixo o decoro"... vulgo: "ninguém é de ninguém!", "vejam só! Se for um homem a trair é um garanhão, se for uma mulher a explorar a sua sexualidade já é uma p***...". Isto como se o "direito" de ambos os sexos à libertinagem e à falta de respeito fosse a prioridade. Pudera, quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho...

Eu tenho para mim que se uma mulher quer "explorar a sua sexualidade" em moldes questionáveis, pelo menos com mais do que um "explorador" em simultâneo, é melhor deixar-se estar solteira (e o mesmo vale para um homem, já agora). Até pode ficar mal vista, ganhar má fama, ficar para tia porque segundo as feministas isto é uma sociedade machista e opressora e ninguém quer levar malucas ao altar, mas ao menos não magoa ninguém e não corre o risco de ver um marido furioso e um amante ciumento a pedir-lhe explicações. Não que isto justifique mocas com pregos nem arame farpado ou tiros e bombas e socos nas trombas, bem entendido.

Os tempos vão tão negros que nem as pessoas têm o mínimo de moralidade, nem os juízes sabem pregar moral, e quando o povo tenta chamar os juízes à razão ainda soa como um coro de Sodoma e Gomorra. Não estamos num cenário pós apocalíptico, mas imita bem...

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