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Tuesday, December 5, 2017

Três anúncios que eu devia adorar (só que não).

Passar muito tempo todos os dias num shopfloor todo luxuoso não é só glamour: também tem os seus inconvenientes, e um deles é sofrer com anúncios à última colecção/jóia/perfume a passar em loop nas telas ad nauseam. Ora, se isso acaba por enjoar quando são spots de que se gosta, imaginem quando acontece com reclames que nos merecem embirração...é uma arrelia!

Vejamos então três que me andam a  tirar do sério: 


Chanel, Gabrielle





Entenda-se: eu adoro all things Chanel (bom, quase tudo), incluindo boa parte dos seus perfumes, e acho Karl Lagerfeld um génio. Depois, apesar de eu ser muito esquisita quando se trata de fragrâncias novas, Gabrielle é uma pura maravilha. Acho mesmo que se vai tornar um clássico.  Deixa-nos envoltas numa nuvem deliciosamente aromática e luxuosa- sabem quando um aroma dura o dia todo e tem o efeito "mas o que cheira tão bem? Oh! Sou eu!"- um dom raro numa época de perfumes produzidos a martelo sem grande inspiração, ou cada vez mais "baptizados". É um perfume verdadeiramente fabuloso, juro. 
 Porém, confesso que tive preguiça de o experimentar graças ao anúncio. 




Não tanto por eu embirrar com a menina enjoadinha de serviço, Kristen Stewart (que até está bastante bem em alguns dos ads de maquilhagem da marca, honra lhe seja feita) mas porque o conceito é mostrá-la endurecida, arrapazada, trapalhona, agressiva, desalinhada, meio tontinha e cheia de chiliques (estará triggered, meu floquinho de neve?), sem o mínimo de feminilidade nem graciosidade. 

Salva-se a luz, a fotografia e a imagem parte Grécia antiga (uma das inspirações na mais recente colecção Cruise da marca) parte anos 1920. Ok, eu entendo que o look, silhueta e atitude "à la garçonne" fazem parte do imaginário central da Chanel, mas não é preciso levar a ideia à caricatura. Mademoiselle Chanel era avant garde,  sim senhor, e moderna e fumava em boquilha e usava calças, mas procurava sempre a beleza, a harmonia estética.  Then again, com todas as ideias feministas e de abolição de "estereótipos de género" que estiveram na moda em 2017, este é capaz de ser, simplesmente, um anúncio do seu tempo. Se isso apela ao público-alvo que compra Chanel, já é outra história. Ainda bem que o produto fala por si...


Jo Malone, Crazy Colourful




Gosto muito desta popular marca de perfumes (recomendo o de flor de laranjeira e o de rosa encarnada, ambos uma maravilha) e costumo achar muita graça tanto ao seu conceito minimalista, quase de botica, como ao facto de ser uma marca very british. Jo Malone  honra o seu DNA inglês e faz um sucesso estrondoso com os consumidores orientais, especialmente chineses (que a compram quase por atacado, se lhes derem asas). Isso pode explicar a imagem meio excentricidade asiática, meio Mod Londrino dos anos 1960 do seu anúncio de Natal (que de natalício só tem mesmo os Christmas crackers- aqueles pacotinhos dourados com surpresas e confetti.




 Mas também não era preciso ir tão longe! Entre os gestos esquisitos e meio infantis dos protagonistas, de quem tomou uns pirolitos valentes ou não joga com o baralho todo, mais a maquilhagem, as caretas, a coreografia peculiar/ enervante (aquele gesto circular com os braços faz-me choques nos neurónios) e a música psicadélica, não sei se acho o anúncio apenas muito curioso ou verdadeiramente perturbador. 

Parece ter sido inventado por alguém que só aguenta as reuniões familiares de Natal com uma valente dose de copos e cigarros que fazem rir e criou isto só para desconstruir a quadra. Depois, o rapazinho, com aquele cabelinho de boneco e aquelas sobrancelhas, lembra-me não sei que persona non grata e só me apetece dar-lhe um safanão. Aliás, tenho vontade de entrar por ali dentro, desatar aos pontapés às caixas e correr tudo à bofetada, a ver se se comportam como gente. Tarados. Ufa, que me soube bem tirar esta do sistema.


Dolce & Gabbana - The One


É paradoxal eu não gostar destes spots, porque como sabem Dolce & Gabbana é provavelmente a minha griffe preferida. Ainda por cima, a-do-ro quando voltam às raízes inspirando-se na cultura do Sul da Itália e nos anos 1950, com todo um imaginário que fala aos meus genes e aos meus gostos, por muito estereotipado que seja. 

Desta feita, a marca decidiu continuar a apostar no universo pitoresco a que nos tem habituado, pondo os protagonistas da campanha a interagir com os populares numa festa folclórica de Nápoles ao som de Tu vuo' fa' l'americano, com muita cor, muita pasta e muito gesto de mãos. E decidiu juntar a isso um bocadinho de mediatismo imediato, passe a onomatopeia, convidando para "caras" do perfume The One duas das maiores estrelas de Game of Thrones, série que parece ter o condão de agradar a gregos e troianos.

 Até aí, nada contra. E diga-se em abono da verdade que a versão fotográfica da campanha resultou - quase toda ela - lindamente. O pior é que em vídeo, a ideia tinha tudo para funcionar...mas por alguma razão que me escapa, não funciona




 Primeiro, Emilia Clarke: a menina é encantadora e muito simpática, mas escusavam de lhe disfarçar a beleza com uma peruca acachapada (fui investigar, é mesmo uma peruca) e  uma maquilhagem que lhe dá cara de quem dormiu pesada sesta (estranhíssimo, já que a D&G costuma ser infalível quando o assunto é maquilhagem). 




Mas o que constrange no spot nem é isso: é que, tanto na versão masculina como na feminina, o John Snow e a Daenerys parecem totalmente forçados, acanhaditos e pouco à vontade, o que a modelos ainda se desculpava mas é esquisitíssimo em quem faz de representar o seu ganha-pão. Até fui googlar para perceber se era só impressão minha ou se mais gente achava o mesmo, mas parece que basta dar uma volta pelo Youtube para perceber não sou a única a ter tal opinião. Será má direcção de actores? Ou a premissa da coisa é fingir que as personagens de Game of Thrones saltaram directamente do universo da série para Nápoles e se sentem completamente taralhocas  no meio daquela festa toda? Em todo o caso, o resultado soa amador, algo que não se espera da dupla D& G- culpa sua, porque nos habituou à perfeição.  Vergognazza.




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