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Saturday, October 28, 2017

Momentos que me fazem ter vergonha de ser mulher #1





Em "O Primo Basílio", Eça de Queiroz conta como, no teatro, um grupo de cavalheiros se indigna ao ver uma parede toda"grafitada" de obscenidades escritas e desenhadas com cinza dos charutos. E diz um:

" E passam aqui senhoras, vêem, lêem! Isto só em Portugal!".

Pois bem, Eça morreria para a vida se visse o que as "senhoras" escrevem, com a maior desfaçatez, nos murais de hoje em dia. No mural das redes sociais, pelo menos.

A página Lady Mustache chamou a atenção para este "fenómeno" e com carradas de razão. Os comentários brejeiros, vulgares e fora de propósito do mulherio nos retratos de agentes partilhados pela PSP na sua página de Facebook... são de uma pessoa se finar de vergonha alheia. 


E dirão alguns: oh Sissi, descontraia, são brincadeiras!




 Pois para isso, só tenho uma resposta: classe! A elegância cabe em todo o lado. Até há maneiras elegantes de elogiar o porte marcial de um polícia se uma mulher não conseguir, de todo, disfarçar a sua admiração pela autoridade.




 Não é preciso ser brejeira, histérica tão pouco. Assim como no piropo masculino há uma linha que separa um "bom dia menina bonita" de um "és tão boa, fazia-te e acontecia-te", há uma diferença entre comentar "que garbosos que estão, tenho orgulho na nossa polícia" de um nojento (sic)"só coisas boas, venham cá prender-me" .





Como alguns comentadores assinalaram e muito bem, agem/falam/escrevem que nem descompensadas, em modo desesperada que "parece que nunca viu um homem"(ou o que é mais certo, em modo "desesperada que vê demasiados homens e com demasiada frequência, mas em ligações tão fugazes que mal tem tempo de lhes pôr a vista em cima").  

Basta um rapaz normalíssimo enfiado numa farda para terem um chilique... e o que é mais mau, para darem públicas mostras desse chilique sem se importarem que a sua família, amigos, colegas ou empregadores possam ler esses bonitos comentários.




Nem lhes passa pela ideia que algum pretendente em que eventualmente estejam interessadas possa ver e perder, imediatamente, todo o respeito por elas.

 E ainda ficam danadas, ainda se acham cheias de razão, se alguém lhes chama a atenção para a triste figura que estão a fazer. Os cavalheiros que se atreveram a avisá-las ou a pedir moderação foram taxados de "invejosos e machistas". Ok.

Repito-me ad nauseam: em vez de lutarem para que os homens se portem menos mal, lutam pelo "direito" a agir mil vezes pior que eles!





Ora, questões morais ou religiosas à parte, as mulheres ganharam a liberdade de fazerem o que bem lhes der na real gana. O mal é de cada uma; a diversão, a liberdade e as consequências também. O que não convém é que sejam patéticas e/ou indiscretas acerca disso...ou que depois se queixem que correu mal, que não as respeitam, que nunca mais lhes telefonaram, que são sempre usadas, feitas de tolas e atiradas fora, que os homens não prestam, que não arranjam quem as assuma, etc. É que para esses choradinhos não há pachorra.




 E muito menos há pachorra para quem se queixa de "objectificação da mulher", quem protesta contra os piropos e o assédio verbal...apenas para depois objectificar o sexo oposto sem pejo nenhum. São capazes de dizer mal da polícia, de não ter qualquer respeito pela autoridade, mas se for uma "autoridade jeitosa"? Faça o favor de me multar. Blhec.

Objectificação essa que me leva a outra questão, que uma comentadora levantou no facebook e muito bem: os rapazes que estas desmioladas tão acesamente assediam terão provavelmente namoradas ou esposas. Escreveu ela, cheia de razão: e as mulheres deles? Gostavam que fosse convosco?

 Responde uma "ora, casassem com homens feios". 

Claro, lá porque alguém casou com um homem fora do alcance delas já merece sofrer esses impropérios...e ainda têm a lata de falar em solidariedade feminina!




É por essa hipocrisia que não suporto o argumento da solidariedade feminina, do "nenhuma mulher deve chamar galdéria a outra": é que só serve para desculpar quem se porta mal. Se alguém condena a mulher que se envolve com um homem casado, por exemplo, há quase sempre um "bonzinho" que saca da solidariedade feminina para se solidarizar...com a amante. E para a esposa, não há solidariedade feminina? Por que raio devo eu ter solidariedade feminina para quem não a tem com as outras mulheres? Ná, desculpem. Aqui não há solidariedade para malucas.

Quem fala assim dos maridos das outras, em modo " a sua mulher sabe que você está solteiro?", só pode ser má pessoa. É alguém que não se ensaiaria de tentar passar das palavras aos actos, se fosse ao vivo e não no Facebook. 


São, ou parecem, atitudes de fêmeas que, não tendo encantos que prendam um homem bonito, desabafam assim. Há quem diga que a cultura dos envolvimentos descartáveis foi uma das "conquistas" das feministas fanáticas: uma forma de dar às mulheres mais desfavorecidas pela natureza acesso (embora em modo casual e temporário) a homens que jamais se aproximariam delas para relacionamento sério. E sentindo isto, de ressabiadas, estas "mulheres emancipadas e bem resolvidas" vingam-se dessa maneira para quem quiser ver - ou ler.




 Só quem nunca não conviveu com  militares (e quem diz militares, diz jogadores da bola, milionários, astronautas, celebridades, príncipes ou qualquer estereótipo de macho alfa) é que desconhece o género destas criaturas...

É preciso ter muita fé e confiança no juízo dos homens - e fazer por dar um bom exemplo, não vão eles pensar que de repente, as mulheres são todas assim. Porque quando tantas falam dessa maneira, pensam desse modo, fazem tais figuras, ficamos todas a perder. 

Ou então não: o mau comportamento é tão comum que um homem que encontre uma rapariga minimamente certa das ideias põe-a logo na coroa da Lua...

Thursday, October 26, 2017

Dicas de beleza (e produtos) da semana

Como sabem, gosto de partilhar convosco as dicas que vou testando e aprovando. Aqui ficam umas ideias que me deram imenso jeito ao longo dos últimos dois meses:


1- Mini elásticos transparentes:



Tinha trazido um pacotinho deles de Portugal, mas não me lembrara de os utilizar. Há umas semanas apeteceu-me experimentar um apanhado com várias tranças que copiei dos desfiles Dolce & Gabbana (como vos disse, o dress code recomenda cabelo preso...) e ocorreu-me utilizá-los. 


Para fazer tranças fininhas não há melhor, mas (a não ser que o vosso cabelo seja excepcionalmente espesso e volumoso) funcionam igualmente bem para rabos de cavalo, totós, chignons e tudo o que a imaginação permitir, pois são mais resistentes do que parecem e esticam bastante. Como são invisíveis não comprometem o resultado final e seguram as madeixas muito melhor do que os elásticos comuns, especialmente nas pontas escadeadas! Podem comprar-se "à sacada" nas lojas de cabeleireiro (principalmente nas especializadas em extensões, ou em produtos afro) em alguns bazares chineses maiores ou no Ebay, claro- um saco de 1000 por dois tostões.

2- O melhor desmaquilhante do momento: 2 em 1 Garnier Simply Essentials



A sério. Não estou a fazer publicidade. Funciona lindamente para limpar a cara (para mais, é adequado a pele sensível)  mas nos olhos é um prodígio, e como vos tenho dito ando sempre à coca de bons desmaquilhantes que trabalhem rápido e não maltratem as minhas ricas pestanas. No que toca a remover a maquilhagem tenho de ser exigente porque o meu trabalho exige "a full face of makeup" mas os horários malucos ditam que me livre dela sem muito trabalho. Perfeito e bem baratinho. A água micelar da marca também é óptima, já agora.

3- Os melhores bâtons à prova de bala: Rimmel Provocalips e Maybelline Superstay 24 hr



Quem me conhece sabe que não passo sem bâton e de preferência, um mate aveludado. Ultimamente tenho variado mais nas cores (embora nunca me afastando demasiado do bold lip ou de vários tons de nude) e voltado a investir em sombras de olhos bastante elaboradas, mas sair de casa sem ele, jamais!
 Para garantir que não preciso de retoques quase nenhuns e sobretudo, que não deixo marcas nem fico com cor a esborratar para fora do contorno, aderi aos bâtons líquidos 24 horas. Depois de testar todas as novidades do género, conclui que estes dois (Provocalips e Superstay) são verdadeiros must haves!



E deixem-me dizer-vos que só não deixo de usar os outros bâtons todos  que cá tenho por amor à camisola. O senhor meu marido ficou tão maravilhado com o efeito à prova de "cara beijocada" que se ofereceu para me comprar um monte deles se deitasse fora o resto da minha colecção. Não aceitei, mas dá para terem uma ideia de como são bons. A Maybelline e a Rimmel esmeraram-se - tenho experimentado todas as marcas do mercado, tanto de drogaria como de luxo, e acho estes imbatíveis. São super pigmentados, não ressecam, vêm em tons lindos e duram o dia todo. Só retoco depois das refeições, por descargo de consciência e porque gosto de uma pintura bem visível e desenhada.

4- As melhores lacas: Tigi




Confesso que a laca é uma daquelas coisas em que, à primeira vista, não apetece investir muito, até porque há opções bastante aceitáveis nas marcas de drogaria/supermercado. No entanto, quando temos de fazer penteados elaborados várias vezes por semana começamos a ser um bocadinho mais exigentes. Recentemente, vieram parar-me às mãos três produtos Tigi- a laca de fixação forte, a laca maleável e o spray para moldar o brushing- e estou encantada. Quando uma laca me permite fazer um bouffant sem esforço em 2 minutos (vide abaixo) e me ajuda a conseguir, a brincar, resultados que antes nem com água benta, o caso é muito sério. E juro que a fixação dura todo o santo dia sem tir-te nem guar-te, mas chegando a casa elimina-se bem passando a tangle teezer (não recomendo uma escova normal para isso) pelo cabelo durante um bocado (haja paciência, mas vale a pena e consegue-se voltar a pentear a seguir como se nada fosse). Um bruxedo.

5- Finalmente - mega cabelo à Bardot (solto ou apanhado) em 3 passos 



Story of my life: a minha adoração por bouffants, beehives e qualquer penteado "à la Bardot" sempre foi proporcional à minha dificuldade  em ripar o cabelo "à séria". As coisas melhoraram um pouco quando passei a usar as escovas específicas para isso de que vos falei, em vez do clássico pente, mas não muito. Se queria muito volume e o cabelo nas alturas o dia todo, tinha de recorrer a acessórios almofadados. Mas agora que descobri O TRUQUE DOS TRUQUES, percebo que o meu cabelo (fino e sedoso mas muito abundante), se eu quiser um penteado MESMO grande, não vai lá com cerdas estreitas, que ripem poucos fios de cada vez!  Façam assim e duvido que precisem de almofadinhas, extensões ou outros artifícios. Até tive de baixar um bocado o "cabelão" para não fazer de Amy Winehouse por aí.




 Então, a "magia" é muito simples e funciona tanto para um meio apanhado como para um french twist, rabo de cavalo ou qualquer "big hair" à anos 60. 
 Para começar, resulta melhor se o cabelo tiver sido lavado na noite anterior (ideia que nunca me agradou por mais que os cabeleireiros pregassem que era melhor, mas enfim, é verídico). Também é boa ideia espalhar um pouco de champô seco nas raízes, para o deixar mais "agarradiço". Depois, minhas senhoras, é pegar na tangle teezer e ripar a secção, ou secções, a que querem dar volume, assim ao calhas e a bagunçar tudo, borrifando laca (a da Tigi acima descrita é do melhorio) entre cada "ripadela". Fica ENORME. 
Resta-vos seguir o esquema do penteado que querem (o Pinterest está forrado de tutoriais super fáceis de seguir, como este) com a ajuda dos elásticos invisíveis que mencionei acima, e de uns ganchos ou melhor ainda, das mini ou nano molas de que já falámos. Finaliza-se com mais um bocado de laca, et voilà, oh la la, très chic, mademoiselle.

6-  O melhor creme que tenho visto: All Day All Year, Sisley



Quando se trata de cremes hidratantes/prevenção das rugas, eu sou um bocado Casanova: experimento tudo (quanto mais não seja porque os ossos do ofício assim o permitem) gosto de muitos, mas poucos me fidelizam- sejam acessíveis, profissionais ou exclusivos. No entanto, este é bem capaz de conseguir a proeza...o que é uma pena, porque é um bocadinho dispendioso. Hidrata bem e deixa a pele com uma textura fresquinha, macia e sem película. É uma espécie de panaceia: escuda a pele contra as agressões (radicais livres, raios UV) ilumina, hidrata, densifica e tonifica. Ideal para quem, como eu, não dispensa bons produtos mas prefere uma rotina simples em vez de mil séruns e cremezinhos para todos os santos do calendário todos os dias da semana. Nem todos os cremes de luxo são tão especiais como isso, mas eis um caso em que a diferença se nota; fica a sugestão para quem anda com vontade de investir em cuidados da pele. 
 E se quiser um efeito semelhante, mas a um preço mais acessível? Tente os cremes da Galenic - exímios a deixar a  pele mimosa, mas fresca ao toque.


7- E esta, Kim Kardashian?



Podemos pensar o que quisermos das irmãs Kardashian e não ser fãs do seu estilo, mas é inegável que elas percebem de maquilhagem (ainda que exagerem muitas vezes).  E desta vez a menina Kim, com o sentido de negócio que a caracteriza, lançou um video muito prático para promover a sua linha de makeup, onde explica como conseguir uma maquilhagem quase completa só com recurso a correctores claros e escuros - usando-os como corrector, base, sombra, contorno, de lábios e eyeliner. 



Não tenho os produtos da Kim (não digo desta água não beberei, se me saltarem ao caminho e forem bons sou bem capaz de me marimbar para tudo e usar) mas há aqui em casa muita coisa do género e sem saber que era moda, eu já costumava fazer coisas semelhantes. Usar o corrector escuro para delinear os lábios (com um efeito bem mais natural e durável que o lip liner) ou os olhos dá mesmo muito jeito quando queremos um look polido, mas fresco e pouco artificial. Experimentem.


8- O clássico nunca desilude: YSL Touche Eclat



Não é por acaso que está constantemente nos tops de vendas. Embora ao longo dos anos tenham surgido muitos produtos parecidos no mercado, este é um daqueles casos em que compensa investir no original. Nunca lhe tinha dado aquela importância, mas agora que tenho horários assaz estranhos reconheço que este corrector/iluminador é capaz de dar uma "refrescadela" instantânea ao olhar e tem uma textura tão macia, tão agradável, que é um verdadeiro ritual de beleza. Ou uma micro sesta num tubo, se preferirem. 



9- YSL Top Secrets All-In-One BB Cream



À primeira vista é um BB Cream igual a qualquer outro, com uma textura muito leve mas cobertura excelente. A diferença estará nas partículas micro iridescentes (invisíveis, atenção: só se nota uma certa "luminosidade" na pele, mas não há cá brilhos nacarados nem nada disso) e no facto de ser TÃO hidratante. Funde-se na pele sem darmos por isso, mas é como aplicar um bálsamo que hidrata e reconforta cada cantinho. É tão confortável de usar que não sinto necessidade de pôr nenhum hidratante antes, e uniformiza tão bem que dispenso qualquer outra cor a seguir - na maioria das vezes, nem corrector uso. Ideal para quando temos pressa mas queremos uma maquilhagem que pareça bem acabada.


Testem estas "vaidosices" depois digam como correu.

Monday, October 23, 2017

Uma história sem heróis que anda nos jornais #2: o juiz, a adúltera, o marido, o amante e a moca com pregos






Esta semana, mais uma história sem pés nem cabeça incendiou as redes sociais, fez as delícias dos jornalistas, mandou as feministas pelo ar e deixou o Zé Povinho  indignado (sendo que as pessoas decentes e as feminazis não costumam indignar-se juntas).

Vamos lá a ver se consigo resumir o conto que parece, sem tirar nem pôr, ter saltado do Decameron de Boccacio, com umas pinceladas de The Walking Dead (que até começa hoje e tudo) e um cheirinho a prosa de Camilo Castelo Branco.

O Tribunal de Felgueiras e depois, o Tribunal da Relação do Porto, cada um por sua vez, deram e confirmaram uma sentença de pena suspensa a dois homens acusados de agredir uma mulher à força de moca com pregos. Moca com pregos tipo a "Lucille" do Negan - quem não acompanha a série, vide abaixo a imagem simpática:





Credo.

Porém (como se já não fosse esquisito o suficiente que as pessoas andem para aí a desancar-se com armas artesanais dignas de um cenário pós apocalíptico) ao que parece os agressores eram, respectivamente, o marido e o amante da infeliz, que se uniram para a sovar (ou tentar assassinar, vá; dois homens não precisam, para "apenas" sovar uma mulher com metade da força de um só deles, de se munir de uma moca com pregos). 

No entanto, os dois juízes (um cavalheiro e uma senhora) fizeram vista grossa à barbaridade do acto e decidiram ver o caso pelo prisma moral da coisa, invocando argumentos bíblicos, mais alguns de pundonor e vergonha à moda do sec. XIX para minimizar, de certa forma, a tresloucada agressão- em traços largos, que o marido estaria ferido da forma mais profunda na sua honra, e humilhado, e deprimido e ofendido na sua masculinidade, cometendo assim um crime passional (podem ler o documento na íntegra aqui).




Ora, a estória é tão reles, tão má em tantos ângulos, e com tanta faltinha de fibra moral de todos os intervenientes (incluindo de muitos comentadores de bancada por estes facebooks da vida) que eu só posso tentar raciocinar em tópicos.




1 - Eu sou toda pelo pundunor e pela honra e pela vergonha, apaixonadamente contra todo o tipo de traição e de adultério (só a ideia em si me causa náusea, venha da parte do homem venha da parte da mulher) e ninguém gosta mais de um argumentozinho bíblico e de um raciociniozinho vitoriano do que eu. 

Aliás, faltam por aí juízes com bússola moral que saibam pregar às pessoas um sermão bem dado, a ver se aprendem a distinguir o certo do errado nestes tempos de moral de elástico. No entanto, devagar com o andor, que o santo é de barro: embora caiba aos juízes a interpretação da Lei (e Direito não seja a minha área) quer-me parecer que há uma diferença entre um safanão dado de cabeça quente que correu mal, entre perder a cabeça ante o choque da traição...e um acto de sequestro premeditado, incluindo levar a moca na mala do carro pelo sim, pelo não.

 Se vamos desculpar que um homem agrida à mocada a esposa ou a amante com uma moca à Walking Dead, estamos a abrir um precedente perigoso: por este andar, um dia destes qualquer bruto ciumento, qualquer Otelo de vão de escada, pode desfazer à paulada a companheira, ou atirar-lhe ácido, ou qualquer horror desse género, só porque imaginou uma traição, ou sonhou, ou lhe vieram contar umas mentiras, ou simplesmente porque lhe dá jeito livrar-se da respectiva. Isto não é o Paquistão, minha gente!




2 - A sentença do juiz, a falar de mulheres honestas e honra e vergonha e brio masculino, podia ser discutível, mas não deixaria de ser coerente se o Sr. Doutor tomasse apenas as dores do marido- homem antiquado, machista, de valores de outros tempos que se via humilhado pela esposa desavergonhada. 

O pior é que- se é que li bem - os juízes em causa fizeram vista grossa ao facto de o caso ser bem mais sórdido, mais reles e mais estranho: o amante, que não sabemos que arranjo teria com a mulher ou com o casal (é tudo tão sujo que podemos supor as coisas mais mirabolantes) não gostou de levar um par de patins, e como tal ligou ao marido traído (e trouxa) para, os dois muito amiguinhos, se unirem numa vingança bem cobardolas contra a desgraçada. E o juíz deu pena suspensa aos dois: ao traído e ao "amigo".
 Ora, isso não é coisa de marialva cioso dos seus brios. Nem nos tempos mais sombrios para os direitos (salvo seja) das mulheres, onde nenhuma ousava pôr o pé em ramo verde sem arriscar uma tareia das grandes ou coisa pior, se ouvia falar num marido que se aliasse ao amante para dar uma lição à traidora. Um homem nunca ficaria mal visto por defender a sua honra pela força; mas seria decerto alvo de chacota, chamado de animal bovino/caprino de mansos costumes e grandes hastes, enfim, coberto de ridículo e usado como um trapo vil se, além de atraiçoado, fosse unir forças com o autor da sua desonra para vingar a afronta. Aliar-se ao homem que lhe pôs os chifres parece coisa de feministos, de gente toda adepta do amor livre, enfim, de homens beta, carregadinhos de estrogénio, depravados, demasiado fracos para porem a própria casa na ordem. Enfim, uma badalhoquice, queiram desculpar. Bater na mulher com uma moca é péssimo, precisar de chamar o amante da dita cuja para ajudar? É que nem a honra pode ser chamada para um desconchavo desta laia. Trouxa, banana e cobarde. Chamar machista a isto é uma afronta.





3 - Por fim, haja paciência para os feministas de bancada, indignadíssimos pelos motivos errados. É que não faltou gente que em vez de dizer, muito civilizadamente "caramba, não é à mocada que se resolvem estas coisas, nós não somos uma cambada de bárbaros, uma pessoa mandava a meretriz das dúzias para casa da mãe e pronto" e de analisar que o importante é não haver traulitada nem arrochada nem violências em modo Walking Dead seja em que caso for...não.

Houve muito quem se indignasse não tanto pelo crime cometido, mas por a mulher, em cima da tareia de criar bicho,  levar um raspanete do juiz por ser adúltera, em modo "só Deus pode julgar" (os que não invocaram logo a laicidade do Estado), ou  "viva a liberdade e abaixo o decoro"... vulgo: "ninguém é de ninguém!", "vejam só! Se for um homem a trair é um garanhão, se for uma mulher a explorar a sua sexualidade já é uma p***...". Isto como se o "direito" de ambos os sexos à libertinagem e à falta de respeito fosse a prioridade. Pudera, quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho...

Eu tenho para mim que se uma mulher quer "explorar a sua sexualidade" em moldes questionáveis, pelo menos com mais do que um "explorador" em simultâneo, é melhor deixar-se estar solteira (e o mesmo vale para um homem, já agora). Até pode ficar mal vista, ganhar má fama, ficar para tia porque segundo as feministas isto é uma sociedade machista e opressora e ninguém quer levar malucas ao altar, mas ao menos não magoa ninguém e não corre o risco de ver um marido furioso e um amante ciumento a pedir-lhe explicações. Não que isto justifique mocas com pregos nem arame farpado ou tiros e bombas e socos nas trombas, bem entendido.

Os tempos vão tão negros que nem as pessoas têm o mínimo de moralidade, nem os juízes sabem pregar moral, e quando o povo tenta chamar os juízes à razão ainda soa como um coro de Sodoma e Gomorra. Não estamos num cenário pós apocalíptico, mas imita bem...

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