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Monday, January 8, 2018

O que comprar em/de Portugal? (7 luxos portugueses que o mundo precisa de consumir)

Biocos do Algarve, imagem via


Recentemente li um livro das famosas stylists britânicas Trinny e Susannah que tinha um capítulo dedicado a "o que comprar quando se viaja". Para cada capital davam um punhado se sugestões mas quando chegavam a Lisboa...só recomendavam comprar azulejos!


 Ora, nada contra o belíssimo azulejo, que eu adoro; mas não só é uma coisa pouco prática para levar em quantidade na bagagem, como isto só prova o que eu já disse em tempos: Portugal está longe de ter uma identidade de estilo, um chic português. O português quando é elegante é elegantíssimo, mas o seu chic é tão discreto, ou tão mal aproveitado, que surpreende as pessoas quando notam que ele existe. 



Cesta Toino Abel

Quanto mais uma pessoa está longe, mais crítica se torna em relação ao país em que nasceu - mas também, melhor vê o que nele há de espectacular (tenho mesmo rascunhados uns quantos posts sobre Portugal x Reino Unido, mas isso fica para mais tarde).

  No meu caso, como estou sempre em contacto com marcas/artigos de moda e de luxo, penso muitas vezes nas estupendaças oportunidades de internacionalização que Portugal anda a perder: é que muitos produtos que em Londres, em Nova Iorque ou no Dubai são considerados exclusivos, em Portugal são corriqueiros; simplesmente, têm a qualidade a que os portugueses se habituaram ...e por isso, não se dá por eles. Aqui ficam alguns que me saltam mais à vista:


Boa marroquinaria



Imagem via

O português tem tentado por força impor o seu calçado, que é inegavelmente de qualidade tanto no fabrico como nos materiais (não é por acaso que várias marcas de renome mandam fazer aí os sapatos). Porém, (já o tenho dito) quando é desenhado em Portugal e não feito de acordo com as directrizes italianas, o calçado ainda fica, quase sempre, um pouco aquém em termos de conforto e daquele "quê" de sofisticação intemporal para competir, em pé de igualdade, com os Rossis ou (esqueçamos Itália por um instante) os Jimmy Choos e Manolos Blahniks deste mundo. 

 Certo é que designers como Louboutin ( que aliás, tem casa em Portugal) são mais conhecidos pela beleza do que pelo conforto das suas criações, mas ainda espero calçar um sapato português que me deixe mais leve e feliz do que usando uns Gucci. Tenho fé- as Josefinas já andam aí nos pés do mundo e mais virão com certeza.

 No entanto, quando falamos de marroquinaria (carteiras, bolsas e pequenos acessórios em cabedal) nem é preciso fazer esforço algum: basta dar uma volta pela Baixa de Lisboa ou melhor ainda, de Coimbra ou do Porto, e passear pelas velhas lojas para encontrar uma perfeição, um detalhe e uma engenharia de deixar num chinelo muitas carteiras Chloé, Burberry ou Prada. Não me entendam mal: tenho várias carteiras de griffe que adoro e a marca importa quando queremos um look ou peça em particular. No entanto, se a ideia é comprar só pela qualidade, beleza e durabilidade... estou certa que muitas das minhas clientes americanas, russas ou árabes perderiam a cabeça com um pulinho a Portugal. 

Vejo-as muitas vezes encantadas com certos pormenores (alças que se podem usar de maneiras diferentes, bolsos interiores, tons de couro variados, etc) que para nós são absolutamente banais. Só na minha colecção de carteiras vintage (já aqui falei de algumas) há amiude igual ou melhor. E cá fico eu numa indiferença portuguesa: na minha terra temos muito disto! Ou seja, o que "lá fora" é luxo, em Portugal é a qualidade standard. Não somos únicos nisto (se passearmos em Espanha ou Itália veremos lojinhas anónimas com peças lindas) mas apesar dos esforços de algumas marcas e designers nacionais, este é sem dúvida um ponto forte muito mal aproveitado. Se têm amigos estrangeiros e de bom gosto que queiram impressionar, comprem-lhes marroquinaria portuguesa!



Casacos de pele (s)





aqui comentei que as britânicas não se acanham de usar lindos e fofos casacos, boás, capas, estolas e chapéus de peles (tanto verdadeiras como falsas) - mas talvez a popularidade crescente tenha alguma coisa a ver com as milionárias russas e árabes que cada vez mais, fixam residência nos  bairros exclusivos no Oeste de Londres.


 Porém, posso dizer-vos que uma visita às encantadoras lojas de peles na Serra da Estrela não perde, em beleza nem qualidade, para as colecções felpudas do Harrods: o que aos olhos de muitas portuguesas pode parecer um pouco clássico, antiquado, extravagante, estilo "casaco da avozinha" é o máximo tanto para as Londrinas como para as turistas abastadas que cá vêm no firme propósito de comprar até cansar. Aliás, há tempos ofereci um lindo casaco de pêlo branco made in Portugal a uma amiga dos Emirados e ela delirou (era pele de coelho, já agora -  não compro peles de animais que não sirvam para alimentação salvo no caso de peças antigas, pois aí o mal já está feito). E um sobretudo de pêlo longo, vintage, a  3/4 que mandei vir de casa para usar quando casei, e que tenho luzido por aí desde então, faz as pessoas parar-me na rua para perguntar de onde veio. Temos óptimas casas especializadas que vendem peças lindas, volumosas e espampanantes a preços super atractivos, mas alguém ouve falar em portuguese fur coats? Olhem para Moscovo, para o Bahrain, o Kwait ou os Emirados e clientela não faltará, de certeza.


Jóias





A filigrana tem sido muito publicitada (e é linda) mas não é a única forma de "joalharia portuguesa". Uma visita aos nossos museus (ou uma "googladela" à soberba colecção da Senhora D. Maria Pia) basta para nos convencermos de que temos uma longa e magnífica tradição, e que os nossos criadores nada deviam aos Fabergés e Laliques deste mundo. E nem é preciso ir para peças muito exclusivas e dispendiosas: uma mera voltinha pelas velhas ourivesarias da Baixa é suficiente para nos encantarmos com as tradicionais peças cheias de arabescos em ouro ou prata com pedras coloridas, com os ricos cordões de ouro ou com os anéis, pulseiras ou alfinetes de prata envelhecida com marcassitas - que apesar de serem usadas pelas avós, têm um ar bastante "noir", understated e facilmente transportável para looks muito actuais.



Os nossos produtos de beleza vintage






Os charmosos sabonetes Ach Brito fizeram sucesso em Hollywood, mas ainda os vejo pouco nas lojas de luxo londrinas- e no entanto, nada perdem ao pé das Jo Malones e Molton Browns que por aí andam. E os meus queridos cremes Benamôr, de que estão à espera para ressuscitarem os seus produtos de maquilhagem antigos (e com embalagens giríssimas) para mostrarem às Benefits deste mundo com quantos paus se faz uma canoa e revelarem às fashionistas internacionais o melhor creme/primer do mundo, o verdadeiro photoshop em tubo? Consigo imaginar as clientes chinesas a encherem cestos e cestos para levarem para casa estas maravilhas.



Vinho, azeite, queijo, doces e mercearias finas







Do vinho já se sabe: o nosso é belíssimo  mas há muita competição e o mercado é difícil, etc. No entanto, atrevo-me a sugerir baseada no que vejo: pode ser complicado competir no segmento de luxo mas Portugal tem, em abundância, algo que falta noutros países. Ou seja, bom vinho a preços simpáticos. 


Encontrar vinho aceitável para o quotidiano a um preço convidativo é uma aventura em Londres (e suponho que noutros lugares suceda o mesmo). Então porque carga de diabos há-de ser o vinho australiano ou sul africano a preencher essa lacuna? 


O mesmo se passa com o azeite: cá em casa não se vive sem isso (acho que só a Sophia Loren usará mais azeite do que eu) e o meu marido só parou de resmungar que o azeite não prestava quando passei a comprá-lo da Sicília e da Apúlia. As marcas portuguesas exportam pouca variedade e as qualidades à venda não dizem, de todo, o fantástico azeite "de lavrador" que se faz na lusitânia. Também já me vieram perguntar pelos enlatados portugueses (aliás, o aeroporto de Lisboa tem uma loja LINDA de conservas, capaz de competir com a Fortnum& Mason).


 Depois, pensem nos ovos moles de Aveiro, no doce de abóbora da Beira Alta, no pudim de castanha da Serra da Lousã, nos pastéis de Tentúgal e nos docinhos de amêndoa algarvios. Já há lugares em Londres que servem pastéis de nata, mas o que faz falta é uma bela pastelaria portuguesa que tenha uma boa amostra das nossas receitas mais requintadas - e que venda as suas especialidades nas lojas de departamento e supermercados exclusivos, aeroportos, etc. Com embalagens old school encantadoras como as dos pasteis de Belém. Ia ser uma febre no Instagram. Uma cadeia italiana, a Carluccio, fez isso por cá e está por toda a parte. (A cadeia de restaurantes Nando´s, aqui no Reino Unido, tem um êxito tremendo com uma espécie de churrascaria portuguesa a que mistura o frango de churrasco e as migas a umas especialidades brasileiras e bebidas refill - um conceito semelhante podia ser adaptado a muitas mais coisas). E os queijos? Nem falemos nos queijos! Urge erguer, numa zona bem turística de Lisboa, uma monumental loja de queijos e enchidos da Serra da Estrela. E exportá-los (com embalagens de luxo mas todas pitorescas).



Tricots, capas, pantufas e bolsinhas da Serra da Estrela





Ainda eu não morava em Londres e já não largava as minhas Ugg por nada, mas uma das razões que me fizeram apaixonar-me por elas (na sua versão de sola maleável, pelo menos) é que me lembravam as pantufas da Serra da Estrela. 

Há lá coisa mais macia, mais gira e mais resistente? Aquelas coisas duram anos!  E as almofadas, mantas, capas e mantos em peles ou em lã? E as pequeninas carteiras de camurça a tiracolo com pêlo de várias cores, que eu adorava em pequena (agora fiquei com vontade de ir à Beira Alta de propósito comprar umas quantas)? E os porta chaves felpudos? Fazem ideia do quanto as compradoras da Hermès, Chanel ou Louis Vuitton, capazes de dar milhares por uma pequenina carteira com alça, ou centenas por uma borla em couro colorido, lhes iam achar graça? Quanto aos tricots de pastor, querem coisa mais intemporal? É um dos meus básicos de estilo- herdei um camisolão da mãe, branco com estrelinhas azuis, e marcou a minha adolescência. Usei-o até cair de velho e não descansei até arranjar mais. Intemporal, suave e bem quentinho. Imaginem-nos com umas moon boots Louis Vuitton ou Jimmy Choo para uma estada em Aspen. Chique a valer!


Lenços, xailes, tecidos bordados, capas e "ceiras" (cestas)



É verdade que já há duas marcas a vender os lindos biocos (capas encapuçadas) do Algarve e as amorosas "ceirinhas" (cestas) da minha infância com assinalável sucesso, até a nível internacional. Mas isso precisa de ser trazido, divulgado, mostrado às grandes casas. Por vezes uma marca só tem dificuldade em internacionalizar-se e é mais fácil ir pelos canais de distribuição multimarcas, como as grandes department stores. Ignoro se já puseram estas capas e cestinhas à venda no El Corte Inglès ou na Avenida da Liberdade (se não estão, deviam) ou se os seus criadores continuam a usar o próprio site como único ponto de venda.


No entanto, alguém já se terá lembrado de contactar os buyers do Barneys, Bloomingdales, Harrods, Selfridges, só para citar alguns, e convencê-los a testar esses produtos junto do público? Ou de fazer parcerias com os grandes influencers globais dos social media? Fazem ideia de como uma carteira específica, numa cor específica, desta ou daquela marca, esgota em poucos dias só porque uma qualquer instagirl do momento decidiu aparecer com ela? E quem diz biocos e cestas diz os lindos lenços bordados e xailes de seda com franjas, tão românticos,  os vestidos, corpetes, blusas e saias do Minho, etc.


Em suma, portugueses: parem de se esforçar tanto por inventar e passem a comunicar melhor para os "turistas de compras", que o mais difícil já está feito.

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